Os Livros Ardem Mal

Notas sobre a obra infantil de Manuel António Pina (I)

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 11-02-2008

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Não é excessivo afirmar que com a publicação, em finais de 1973, de O País das Pessoas de Pernas para o Ar, de Manuel António Pina (MAP), nasce uma certa versão da literatura infantil portuguesa. É difícil qualificar tal versão, tanto mais que a estranheza histórica e estética da ocorrência reside justamente na sensação que se apodera do leitor – que, no meu caso, o foi com um recuo temporal de cerca de duas décadas – de estar perante um objecto que simultaneamente anuncia a modernidade da nossa literatura infantil e o seu inexorável passamento na data já tardia de 1973 (e lembremos que MAP editará, passados poucos meses, a sua estreia poética em livro, estreia essa colocada explicitamente sob o signo do tardio: Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde).

Convenhamos que também para a nossa literatura infantil era já um pouco tarde. É certo que houvera o «período áureo» dos anos 30, segundo a recente reconstrução historiográfica. E depois, sempre em progressão descontínua, a partir de 1950, os nomes enfim robustos de Sophia, Matilde Rosa Araújo e Luísa Ducla Soares, entre outros menores. Não obsta a que até aí a nossa produção infantil, com as excepções que permitem narrativizar a sua história, viveu ou de «literatura conquistada» ao património «adulto» ou da recodificação infantil do romanceiro – as duas estratégias historicamente reconhecíveis no percurso desta literatura emergente.

Nada disso, porém, preparava o leitor para o livro que Pina edita em 1973 e que, a mais de um título, é uma entrada por efracção no ecossistema de uma literatura infantil que não dispunha de nenhum tipo de contexto para esse livro. O livro de Pina distribui-se simetricamente por dois grupos de histórias: o primeiro, em torno de uma menina de nome Sara que, na primeira história, tem um passarinho chamado Fausto que vai conhecer mundo e se apercebe de que há locais em que as pessoas andam de pernas para o ar; e que, na segunda, tem um peixinho vermelho que, quando morre, vai «alimentar» uma flor vermelha plantada por Sara no local onde o peixinho está enterrado, flor essa a que a menina põe o nome de Alice Lidell. O segundo grupo de histórias é um dos grandes momentos da tradição blasfema da literatura portuguesa no século XX, tradição lançada pelo poema VIII do «Guardador de Rebanhos», de Caeiro, que MAP explicitamente cita na primeira história, «O menino Jesus não quer ser Deus». «O bolo e o menino Jesus», enfim, é uma brevíssima jóia blasfema, explorando, com requintes de crueldade, a dimensão antropofágica da eucaristia.

Digamos, então, que Pina entra na nossa literatura infantil por uma porta que ela não possuía e que, em rigor, são muitas e dão para muitas mais (muitas delas não abertas até hoje). A porta é a grande tradição activada por Lewis Carroll, e abri-la significa fechar a tradição local da literatura infantil portuguesa, a que o livro de Pina, e os livros seus posteriores, votam uma manifesta indiferença. Poderá tal indiferença parecer sobranceria, no caso de Sophia, mas a verdade é que onde esta se preocupava em criar, palavra a palavra, um edifício da ilusão, MAP parece partir do princípio de que o valor facial dessa ilusão é, em 1973, já muito reduzido. E que a ilusão maior é a que consiste em supor que é ainda possível continuar a edificar palácios encantados, mesmo (ou sobretudo) em contexto infantil. Digamos que é este o ponto em que duas concepções da criança, da literatura para ela e da educação da imaginação se desencontram. Pina vem depois e vem tarde, mas isso não parece ser aflitivo, tanto mais que, se aferida pela obra de Carroll (e de Milne, autor que MAP progressivamente valorizará), toda a literatura infantil pós-Carroll é tardia. E é por não ter entendido isto, ou melhor, por não dispor das condições sócio-históricas que lhe permitissem entender isto, que a literatura infantil portuguesa até MAP vive num tempo fora do tempo da literatura infantil aferida pelo gigante Carroll.

Pina propõe antes Carroll & Caeiro, i.e., duas formas de heresia. Mas também duas formas de colocar o problema maior da literatura infantil e da literatura infantil de MAP: o facto de o infante ser e não ser o leitor natural destes textos. E talvez fosse melhor reformular a questão deste modo: o que esta dupla ascendência do livro seminal de MAP implica é a noção de que não há um leitor natural, assim como não há um contrato de leitura natural, inscrito nestes textos (os de Carroll & Caeiro e os de MAP). Como, podíamos dizer, em nenhuns. Por outras palavras, só há literatura. Ou, se se preferir, e muito à maneira de Pina (o «infantil» e o poeta demasiado adulto), só há leitores. Grande literatura para grandes leitores, tratando-se de O País das Pessoas de Pernas para o Ar.

Osvaldo Manuel Silvestre

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