Os Livros Ardem Mal

Teoria dos complexos

Posted in Crítica by Rui Bebiano on Domingo, 10-02-2008

Miguel RealA Morte de Portugal, de Miguel Real (MR), que a Campo das Letras acaba de editar, estabelece, desde a primeira linha, uma tentativa de diálogo com algumas das obras que têm tentado decifrar, ou exprimir, a identidade do «homem português». Os seus interlocutores são rapidamente nomeados: o Teixeira de Pascoais da Arte de Ser Português (1915), Agostinho da Silva na Educação de Portugal (1970), Eduardo Lourenço em O Labirinto da Saudade (1978), o padre Manuel Antunes do Repensar Portugal (1980), Boaventura de Sousa Santos de Pela Mão de Alice (1994), José Gil em Portugal Hoje. O Medo de Existir (2004), e Guilherme d’Oliveira Martins com o recente Portugal. Identidade e Diferença (2007). Mas são apresentados apenas como edifícios de uma paisagem panorâmica sobre a qual Real constrói a sua própria interpretação.

Mostrando uma certa tendência para a tipificação – que mantém ao longo de todo o livro – MR, «na linha de Eduardo Lourenço», projecta os quatro grandes «complexos culturais» através dos quais Portugal «se foi concebendo a si próprio ao longo de 800 anos de História». O primeiro, o complexo viriatino, terá emergido no século XVI «através da imagem de Viriato, herói impoluto, puro, virtuoso», figuração arquetípica de um Portugal que estava a acabar mas que deveria permanecer na memória das glórias passadas. O segundo configurará um complexo vieirino: «recusando testemunhar a nossa real insignificância, dourando-nos o futuro com o regresso anunciado às glórias do passado, agora sob o divino nome de Quinto Império», o padre António Vieira teria projectado uma atitude «que nos determina a desejarmos mais do que podem as forças». O terceiro complexo, o pombalino, conteria uma reacção, centrada na intervenção do Marquês de Pombal, ao Portugal esgotado pelo Estado «gordo, gordérrimo» de D. João V, pela intolerância inquisitorial, pela dependência económica da Inglaterra, propondo a salvação com «um banho de Europa» capaz de alterar drasticamente o perfil das elites. Por fim, como resultado de tantos desenganos e adiamentos, teria emergido um quarto complexo, canibalista, materializado na permanência de uma atitude antropofágica capaz de levar cada português a sustentar-se, para assegurar a sua sobrevivência, do corpo do Outro, transformado em adversário. Ainda que, no limite, precise, para o conseguir, de tornar-se familiar da inquisição, informador da polícia política ou denunciador perante o superior hierárquico.

Terá sido a combinação destes quatro complexos a desenhar o Portugal do presente, «moribundo, submerso pela avalanche de costumes liberais europeus e americanos, totalmente descristianizados e desumanizados». E é contra este Portugal menor que MR manifestamente constrói e procura fundamentar a sua argumentação. Destinada, como é comum neste género, a colocar o acento tónico no papel da «cultura», do «espírito», do «sentido de transcendência» que deverá preceder um progresso tecnológico que é apresentado como essência do mal. Principalmente quando tomado como totem sagrado diante do qual a vida social e a prática política se devem inquestionavelmente prostrar.

Todo este livro parece alimentar-se de uma fobia por um presente que se afigura imposto. Pois, se «nascemos assim, líricos e sanguíneos, e mais do que voltados para a terra e para o mar, voltados para o Outro, idealizando-o, espiritualizando-o liricamente, vendo neste o reflexo da santa imagem de Deus», porque chegámos a este ponto? MR não sabe, e nem poderia saber, se o regresso a esse caminho original está marcado no futuro que nos é reservado. Mas que o deseja, parece-me bastante claro.

Tem feito falta em Portugal, particularmente nestes tempos de orçamentólogos e engenheiros que gerem a república fixados no deve e no haver do prazo curto, referenciando tudo aquilo que não seja «pensamento» técnico como um obstáculo ao desenvolvimento sacrossanto dessas «economias» das quais tão jocosamente falava Eça, uma reflexão sustentada sobre o nosso destino comum. Da qual possamos discordar nos termos e nos modos – coisa que de facto se passou na minha leitura deste livro -, mas que não transforma o passado em mero bibelô nem se recusa a olhar mais longe que o virar da esquina. Este livro de Miguel Real leva-nos, pelo menos, a vislumbrar essa possibilidade.

Miguel Real (2008), A Morte de Portugal. Porto: Campo das Letras. 126 pp. [ISBN: 978-989-625-224-3]

Rui Bebiano

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