Os Livros Ardem Mal

O pesadelo da história

Posted in Crítica by Luís Quintais on Domingo, 10-02-2008

Leni RiefenstahlHistory is a nightmare from which I am trying to awake.
James Joyce

Leni: a vida e obra de Leni Riefenstahl de Steven Bach é uma biografia que nos coloca perante um problema provavelmente insolúvel: em que medida somos ou não somos sujeitos da história, ou, de outro modo, em que medida a história – com os seus poderes de tracção colectiva e de sedimentação simbólica – pode ser flanqueada pelas percepções e acções daqueles que a fazem?

O drama de Leni Riefenstahl pode ser lido à luz disto mesmo: qual o lugar do sujeito na história, em que medida as prerrogativas morais e políticas são ou não apenas uma questão de sorte?

Bach parece comtemplar os dois pratos da balança para nos mostrar fundamentalmente uma personagem que, insensível aos desígnios da história, não deixou de a procurar reinvestir de alguma ficções estratégicas, num trabalho de rasura que nos parece, hoje, aviltante para as verdadeiras vítimas: os milhões que pereceram sob a violência racial sem nome – nem perdão – do nacional-socialismo.

“Fascismo fascinante”, chamou Susan Sontag ao trabalho visual de Leni Riefensthal (cit. Bach, p. 394). Uma parte considerável do poder intoxicante do Reich deve-se à eficácia com que Leni Riefensthal ergueu, em estreita colaboração com Goebbels e Speer, a ficção visual que haveria de alimentar o Estado nazi. A ambição estética e estetizante de Riefensthal não lhe admitia compromissos com quaisquer escrúpulos ou considerações de outra índole. O que Bach – tal como Sontag antes dele – nos devolve é o risco que se esconde no «brilho» encantatório de uma arte que se furta a exigências contextuais, e que apela apenas a uma noção de beleza desirmanada da acção.

Riefensthal passou uma parte considerável da sua vida no pós-guerra a tentar libertar-se do pesadelo da história, porque a percepção de que se tratava de um pesadelo era afinal – e para muitos alemães no pós-guerra assim foi – concomitante ao seu fim. Bach mostra-nos que o interesse da história de Leni Riefensthal está na revisitação impossível de um passado, na procura patética de uma “desnazificação” que nunca aconteceu verdadeiramente, e que não poderia acontecer.

A Leni de Steven Bach poderia tomar como suas as palavras de Stephen Dedalus e dizer, «a história é um pesadelo do qual estou a tentar acordar». Mas talvez não seja possível acordar do pesadelo da história, parece querer dizer Bach, por seu turno.

Nota: a tradução, selecção de notas, e glossário é de Oscar Mascarenhas. O trabalho é simplesmente desastroso. Em certos momentos, a tradução é quase ilegível. Dois exemplos menores: como é possível traduzir «campfires» por «fogos de campo» (p.94) ou «mainstream» por «corrente principal» (p.81). Um outro aspecto: porque é que os leitores portugueses são tratados como uns ignorantes, ao ponto de se amputar o texto de muitas das notas do autor (que nos permitiriam ter acesso à suas fontes), e de incluir outras que são totalmente impertinentes? Por exemplo, a uma referência do autor a adaptações cinematográficas de Moby Dick, o tradutor faz incluir a seguinte nota de pé-de-página: «Baseado no romance homónimo de Herman Melville, de 1851, centrado no ódio sem tréguas do Capitão Ahab àquela baleia-branca» (p.105). E isto são exemplos menores, volto a realçar. A coisa é duplamente grave porque o livro foi objecto de revisão por Silvina Sousa. A edição portuguesa só tem uma vantagem: um lúcido prefácio de João Lopes.

Steven Bach (2007), Leni: a vida e obra de Leni-Riefensthal. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 468 pp. [ISBN: 978-0-375-40400-9]

Luís Quintais

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