Os Livros Ardem Mal

30 anos depois (II)

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 10-02-2008

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Carlos de Oliveira e Fernando Lopes

Se me é permitida a derivação, diria que a degradação desta «ideia» de literatura, que à mesma época, mais precisamente em 1979, Herberto Helder tematizaria notavelmente em Photomaton & Vox, é patente no devir insustentável da «grande recusa» do próprio Helder: ao longo destes 30 anos, o autor tornou-se tão dinossáurico na paisagem quanto Finisterra ou Photomaton & Vox. E não há autor ou crítico, com a ajuda de figuras sempre disponíveis para confundir o essencial com o acessório como o falecido Luiz Pacheco, que não venha denunciar a suposta «pose» de quem opta pela negação. Aquele que recusa tornou-se uma figura do desamparo – e não há cínico que, a seu respeito, não recorra ao arsenal da hermenêutica da suspeita, a qual, como sabemos, tem o dom de nos tornar subitamente inteligentes.

O que tivemos depois de Finisterra (e Photomaton & Vox) esclarece-nos sobre o estado moribundo dessa ideia de literatura que venho referindo: a experimentação rentabilizada e legitimada pela narratologia em certas vertentes pós-modernas, que incluem Saramago; a substituição pressurosa do enigma da linguagem e da sua resistência pela evidência da representação, da linguagem e do sentido – e, inevitavelmente, por uma leitura errónea daquilo a que Barthes (de forma algo falhada, aliás) chamou «o prazer do texto»; a substituição da ideia de formação e conquista de experiência pela de carreira literária e de ostentação de uma vasta teoria de mais-valias da persona autoral.

Noto apenas que, na sua presciência de máquina (demoníaca) do mundo, o último romance de Carlos de Oliveira aborda justamente a impossibilidade de negação num mundo desprovido de qualquer dialéctica histórica. No último parágrafo do romance, a casa, até aí defendida por um halo, é enfim absorvida pela massa gelatinosa da gisandra. O princípio da indiferenciação triunfa e, com ele, acedemos ao neutro ou, e eu prefiro esta alegoria, à pós-história em que cada vez mais vivemos. Um marxista dirá que é este o presente envenenado que a história oferece ao capital, já que o condena à implosão mais cedo ou mais tarde; uma criatura mais agnóstica dirá apenas que as figurações seculares de deus – e, acima de todas, essa figuração secular de deus que se chamou Literatura – se tornaram, também elas, abscônditas.

Osvaldo Manuel Silvestre

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