Os Livros Ardem Mal

30 anos depois (I)

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 10-02-2008

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© Miguel Silva

O jardim familiar (primeira fase do abandono): montões informes de silvedo, buxo descabelado, urtigas, flores selvagens. As palmeiras de pouco porte incharam tanto que fazem pensar em anões velhos, doentes, com as suas cabeleiras, as suas folhoas emaranhadas, caindo em arco até ao chão.

Começa assim. E depois, uma frase que introduz um daqueles «cliques», entre a laceração e a deflagração, que definem a obra enquanto máquina alucinatória:

Sentado num osso de baleia; para ser mais exacto, na secção média da espinha dorsal duma baleia: cinquenta e um centímetros de diâmetro, trinta e três de altura: duas vértebras abrem-se como as pás (as asas) duma hélice; bastante afastadas, permitem que os cotovelos se apoiem nelas: pondo o caderno em cima dos joelhos, consegue desenhar (não tarda muito, a chuva de verão vai obrigá-lo a entrar em casa). Osso de baleia, textura de madeira pobre, exposta à água, à erosão, sem apodrecer: a luz, quando bate de frente nos veios foscos, desprende uma poalha cor de cinza, quase a reacender-se. A densidade calcária decresce tanto que podem ambos flutuar (a criança e o osso de baleia) sobre murgos biliosos, caules de gisandra, líquenes, doenças vagarosas.

Lá para finais de Outubro, inícios de Novembro do corrente ano passarão 30 anos sobre a publicação de Finisterra. Paisagem e Povoamento, de Carlos de Oliveira. É espantoso como, na perspectiva que estes 30 anos aferidos por Finisterra nos oferecem, uma certa «ideia» de literatura não cessou de se degradar. A «ideia» a que Finisterra era fiel, como é óbvio, mas que seguramente não era, à data, atribuível apenas ao seu autor. Uma ideia de literatura em que o texto era uma forma de colocar em xeque a reprodução do real (sígnico, social, político), activando toda uma série de estratégias de crítica da representação – mesmo se, em meu entender, Oliveira nunca convictamente tenha passado para o lado de lá da crítica da representação, como alguns supuseram, um tanto apressadamente. Mas uma ideia de literatura ainda em que a escrita suscita e procura lentidão (e daí a proliferação dos parêntesis, por exemplo), morosidade analítica e, necessariamente, lectural – formas de adensar o enigma com que a literatura na modernidade responde ao enigma maior da linguagem e da representação, esse enigma que Finisterra dá a ver, em toda a sua estranheza e patologia, no seu primeiro parágrafo. Finalmente, uma «ideia» de literatura que é uma ideia de luta pelo sentido, ou pelas suas pré-condições, como algo que não é nunca dado mas, muito conjecturalmente, conquistado. É neste ponto que esta ideia de literatura se cruza com uma ideia de formação e conquista de experiência, o que não vai sem uma epochê das condições habituais de existência, isto é, sem uma dose assinalável de trabalho negativo e resistência àquilo a que em tempos mais históricos se chamou reificação.

Osvaldo Manuel Silvestre

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