Os Livros Ardem Mal

O Menino de sua Mãe

Posted in Comentários by A. Apolinário Lourenço on Sábado, 09-02-2008

pessoa9Devo começar por dizer que tenho apreço pelo trabalho da equipa que tem concretizado a edição das Obras de Fernando Pessoa, da Assírio & Alvim. Estranho, no entanto, o critério puramente cronológico adoptado para aquilo que Fernando Pessoa chamava nos seus planos editoriais o cancioneiro, ou seja, os poemas assinados pelo ortónimo e que, ao contrário da Mensagem, não constituíam um volume autónomo. É que esse critério coloca algumas obras-primas da poesia portuguesa junto a fragmentos informes, que nenhum autor se permitiria publicar.

Mas o critério cronológico também é perigoso por outros motivos. Há algum tempo atrás, necessitando saber a data precisa do famoso poema «Iniciação», procurei-o no índice do terceiro e último volume, e encontrei dois poemas com o mesmo título, respectivamente nas páginas 86-87 e 387. Abri ambas as páginas para saber qual era a «minha» «Iniciação» e descubro que se trata do mesmo poema. Na página 87 está datado de 23-5-1932; na página 387, de «ante Maio de 1935». Compreende-se o equívoco: o poema foi publicado pela revista Presença em Maio de 1935, e as organizadoras dos volumes não se aperceberam de que era o mesmo poema encontrado no espólio com uma data precisa e bastante anterior à da sua publicação. Ficou, portanto, duplicado.

Por um acaso fatídico, necessitei também de procurar o poema «Pauis» e, é claro, fui encontrá-lo no primeiro volume (1902-1917), datado de Fevereiro de 1914. Não estava duplicado, mas encontrei-o separado do seu «gémeo falso», «Ó sino da minha aldeia», ao qual Pessoa o associou na revista A Renascença (de facto publicada em Fevereiro de 14), sob o título genérico de «Impressões do Crepúsculo», colocando sob os poemas a data de 29-Março-1913. «Pauis» não pode evidentemente ter sido escrito em 1914, porque Sá-Carneiro já o comenta numa carta de 6 de Maio de 1913. Procurei afanosamente o poema dissociado por todo o primeiro volume, mas não encontrei. Acabei por localizá-lo no volume do meio (1918-1930), com um título, «O Aldeão», colocado entre parêntesis rectos e datado de Dezembro de 1924. É que o poema fora de novo publicado na Athena nessa data, mas sem título.

Malhas que a cronologia tece…

A. Apolinário Lourenço

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