Os Livros Ardem Mal

Para quem não entendeu, agora em versão didáctica

Posted in Notícias, OLAM by OLAMblogue on Quarta-feira, 02-09-2009

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P.S. Mas as postagens recomeçam dentro de momentos.

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Em tempo

Posted in Notícias, OLAM by OLAMblogue on Terça-feira, 01-09-2009

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Durante três anos, inicialmente sob a designação Escaparate, depois já como Os Livros Ardem Mal, um grupo de pessoas – professores da Universidade de Coimbra e algumas estudantes de pós-graduação – animou, com apoio do Centro de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras da mesma universidade, uma reunião mensal no Teatro Académico de Gil Vicente, na primeira segunda-feira de cada mês. No início para falar apenas de livros recentemente editados, depois com um convidado cujo trabalho de algum modo mantivesse uma relação forte com o universo do livro. Foram 20, os convidados dessa segunda fase, e deles fomos dando nota aqui, a partir do momento em que a iniciativa passou a ser acompanhada de perto por este blogue.

Agora, três anos depois, chegou a altura de parar. Ou melhor: de suspender a iniciativa por um período sabático de 12 meses. Por cansaço, por dificuldade crescente de conciliação das agendas profissionais dos membros do painel com as exigências muito particulares da iniciativa, por necessidade de a repensar no todo e nos detalhes. Custa-nos abandonar o hábito (e o ritual) do fim-de-tarde na primeira segunda-feira de cada mês no TAGV: pelo público que nos foi acompanhando com uma fidelidade rara e decerto imerecida; e pelo empenho dos devotados membros do staff do nosso teatro académico. Mas tudo tem um tempo e nada pior do que insistir fora de tempo.

Quanto ao blogue, tudo indica que continuará, até novas ordens.

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O Atelier de Tarsila

Posted in Artes, Notícias by Ana Bela Almeida on Terça-feira, 23-06-2009

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O “inferno verde” chegou a Santiago de Compostela. Até dia 31 de Julho, pode visitar-se na Fundação Caixa Galicia, gratuitamente, a exposição de Tarsila do Amaral, 82 obras entre quadros e estudos. Dos vários objectos expostos, quase todos relacionados com o motivo da “viagem” na vida e obra de Tarsila do Amaral, destaca-se um oratório mineiro do séc. XVIII. O rebuscamento das suas cores e formas acentua a inclinação neo-barroca do movimento Pau-Brasil, com o rosa pastel e o azul celeste do oratório reflectidos no espelho modernista “Manacá” (1927).

Manacá (1927)

Manacá (1927)

A presente mostra de Tarsila do Amaral, co-dirigida pela Fundação Caixa Galicia e pela Fundação Juan March, é apenas a terceira inteiramente dedicada à obra da autora na Europa. O poema “Atelier”, de Oswald de Andrade, que nos recebe na primeira sala da exposição, reforça a singularidade da ocasião. Se “Atelier” inaugura e, de certa forma, “legenda” a exposição, também acaba por sublinhar a própria ausência de Oswald. Não há dúvida que “o Tarsiwald”, na expressão de Mário de Andrade, é, desta vez, “a Tarsiwald”. Afinal, esta não é uma exposição dedicada ao Modernismo brasileiro, com Oswald de Andrade a servir de eterno anfitrião: esta é a exposição de Tarsila do Amaral, das suas pinturas e desenhos, das suas crónicas, dos seus ensaios, das suas fotografias e outras relíquias, com Oswald de Andrade como convidado no espaço/atelier tarsiliano. (more…)

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Understanding New Media

Posted in Média, Notícias by Osvaldo Manuel Silvestre on Sábado, 20-06-2009

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Nunca a expressão «cidadãos-jornalistas» foi tão apropriada. Talvez por isso, as forças do regime tenham começado agora a destruir telemóveis, atacando os seus utilizadores, o que se parece muito com desespero. A velha confusão entre a notícia e o seu portador, com o espectáculo do seu ódio deslocado. Ou talvez não: porque agora a notícia coincide com o portador, e é para este efeito de hipermediação, e hipergeração, que o regime iraniano não está, como é manifesto, preparado (algum estaria?). Preparou-se para a sabotagem electrónica, é verdade, segundo a economina do modelo clássico da contra-informação, ainda «realista», modelo que subjaz também à proibição e extradição física do jornalista, esse tropo da epistemologia (e da epopeia) moderna da verdade como «correspondência». Mas não podia prever que as ruas de Teerão se tornassem um instantâneo, e infinitamente reduplicado, palco global, com todas as encenações e todas as verdades produzidas pela tecnologia dos média. Ou que a esfera pública finalmente realizasse todas as promessas do Iluminismo e não conhecesse limites – fisicos, sociais, «nacionais», civilizacionais – à realização de todo o seu potencial emancipatório. Não é, de facto, uma revolução, o que está a ocorrer em Teerão, mas muitas ao mesmo tempo. E, como nas revoluções, o que surpreende não é apenas que ocorram num tempo de repente fora dos eixos, mas que ocorram ali, onde supostamente não haveria condições para tal.

P.S. Uma pergunta para os teóricos: porque são os vídeos que nos chegam do Irão tão instantaneamente «bons»? Por que razão temos a sensação de que nestes vídeos de menos de 1 minuto ou, no máximo, de 3 ou 4, se resume uma das histórias do cinema, aquela centrada na «impressão de realidade», com todo o seu arsenal de técnicas e aparatos (grão e desfocagem, «steady cam» ou a sua ostensiva denúncia, plano sequência e tempo real, câmara subjectiva, etc., em regime «vérité» ou paródico)? Brian de Palma já tinha genialmente intuído e demonstrado, em Redacted, que o cinema é hoje um suporte, ou frame, entre outros; e que é quando consegue funcionar como meta-frame (ou, o que é pragmaticamente o mesmo, quando se torna invisível) que o seu lugar entre os novos média não se anula na reivindicação obsoleta da «especificidade» da sua linguagem. De facto, não é só de convergência mediática que a câmara de vídeo do telemóvel nos fala; antes e depois disso, trata-se de um dispositivo de compactação histórico e estético, que faz dos 100 anos de cinema não uma «base de dados» mas uma camada (na acepção das do cortex cerebral) de uma muito particular filogénese: a da longa aprendizagem do enigma da imagem técnica. Vilém Flusser dizia que os «aparelhos» são brinquedos que o utilizador habita por dentro, quando consegue explorar todas as potencialidades do seu programa (e os iranianos têm dado impressionantes lições nesse domínio). O que é ainda uma forma de ratificar a intuição de Benjamin, segundo a qual a tecnologia, os aparelhos, nos dão a ver a nossa difícil aprendizagem do inumano em nós. Ou, se se preferir, do nosso emancipatório devir inumano, iniciado com a primeira ferramenta produzida pela hominização. Também aí, estamos neste momento a perceber – em directo – a inutilidade da analítica humanista.

[A ilustração magnífica sem a qual este post não existiria é de Brian Stauffer e foi publicada no The New York Times.]

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Acho difícil

Posted in Média, Notícias by Ana Bela Almeida on Sexta-feira, 19-06-2009

Hoje, no Público:

“Na sala encontravam-se José Blanc de Portugal e o general Ramalho Eanes. O ministro agradeceu àqueles que ajudaram o país a fazer justiça a Jorge de Sena e a que se devolvesse Sena aos portugueses através da Biblioteca Nacional.”

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Bolonha não: Teerão!

Posted in Notícias, Universidade by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 18-06-2009

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Apesar de toda a desinformação e contra-informação (de que o maior responsável é obviamente um regime que, para lá do recurso à simples interdição da imprensa internacional e local, tem dado mostras de extrema sofisticação tecnológica na hora de atacar a livre circulação da informação), tudo indica que no passado domingo à noite a universidade de Teerão foi selvaticamente atacada pela milícia do regime, tendo eventualmente morrido, nas suas residências universitárias, cerca de cinco estudantes. Nada que a mesma universidade não conheça, pois há 10 anos coisas muito piores tiveram aí lugar. Informações idênticas apontam para que noutras grandes universidades do país tenham também ocorrido cenas de extrema violência.

Sou professor universitário e transporto comigo a convicção profunda da nobreza da profissão que, com gosto e por fortuna, exerço. Por essa razão, muito me entristece que a universidade portuguesa, e em particular a minha, se entusiasme tanto com cerimónias de puro show off, ou marketing, como aquela em que se transformou nas últimas décadas o ritual do doutoramento honoris causa – que em meu entender devia ser simplesmente banido, pois há muito deixou de exercer a sua função académica -, e passe ao lado de ocorrências como as que, no Irão, põem em causa a dignidade (desde logo, territorial) de todas as universidades do mundo, enquanto locais que têm de ser ontologicamente avessos a qualquer forma de repressão e violência.

Numa altura em que a universidade europeia está tomada pela gripe bolonhesa, que a não deixa pensar em mais nada senão na sua sobrevivência, paremos um momento e pensemos antes nos estudantes brutalmente agredidos na Universidade de Teerão e noutras do país.

Fico à espera de que o Senado ou o Conselho Geral de alguma universidade portuguesa, ou algum reitor, se lembrem da Universidade de Teerão e decidam, pelo menos, pôr a bandeira da sua universidade a meia haste, honrando assim aqueles que estão a ser brutalizados no Irão pelo eterno ódio à inteligência e ao pensamento livre, que, não por acaso, sempre desconfiou da universidade. Uma vez que em várias das universidades portuguesas existem estudantes iranianos, um tal gesto limitar-se-ia a cumprir os requisitos mínimos da decência.

Quanto a Bolonha, pode seguir alguns momentos depois.

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Ricardo Rangel (1924-2009)

Posted in Artes, Autores, Fotografia, Notícias by Osvaldo Manuel Silvestre on Terça-feira, 16-06-2009

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Sobre Ricardo Rangel, falecido a 11 deste mês e, com Kok Nam, um dos «inventores» da fotografia moçambicana, convirá ler Alexandre Pomar (aqui e aqui).

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Acidente e simulação em JG Ballard (pré-publicação)

Posted in Artes, Autores, Crítica, Efemérides, Livros, Notícias, Recensões, Vária by Luís Quintais on Segunda-feira, 20-04-2009

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Paul Virilio

De que forma é que a literatura cooptou um dos dados mais fundamentais da experiência moderna: a presença incontornável (e o lado inexorável dos processos que essa presença reclama) de uma paisagem radicalmente transformada pelo concurso da ciência, ou melhor, da tecno-ciência? A pergunta instala-se imediamente num contexto de contornos difusos, mas mesmo assim decisivo para nós. A noção de tecno-ciência faz-nos assumir que o conhecimento científico se inscreve em complexas configurações de natureza social e material que lhe dão a sua gravidade, densidade, e poder. De que forma é que a literatura respondeu às figurações utópicas e distópicas do projecto moderno que visava projectar o mundo de acordo com os preceitos de um conhecimento politicamente necessário porque experimentalmente validável e universalmente verdadeiro?

Como alguém que prefere uma singularidade para fazer ecoar forças  de improvável cartografia que a atravessam, sugiro que nos concentremos num exemplo cujas reverberações se tornam, a meu ver, reveladoras. A minha sugestão é que nos atenhamos a uma espécie de genealogia mais ou menos solta da escrita de um romance particularmente influente e sobre o qual se projecta uma luz que gostaria de caracterizar como oracular, isto é, como se se tratasse de um objecto que reclama uma exploração extrema (e extremada) realizada num território de potencialidades que parecem emergir sinuosamente do presente, esse presente que se dilata e que nos colhe irremediavelmente. Estou a falar de Crash (1973) de JG Ballard, e Crash pode ser pensado a montante, porque o livro é o resultado de um conjunto de obsessões que lhe são prévias.

Em conformidade com um dos preceitos ballardianos que nos diz que, para lá das nossas obsessões, pouco haverá que valha a pena ser perseguido, Ballard aventurou-se quase sistematicamente, desde finais da década de sessenta, num território de inquietação profunda a que Freud designou de Das Unheimliche, e a que o antropólogo Victor Turner chamaria certeiramente de liminar, isto é, um território de improvável classificação, porque betwixt-and-between: nem dentro nem fora, mas antes no umbral, aí onde a viscosidade (um mundo que não é líquido e que não é sólido) se torna uma constante afectiva, e onde aquilo que nos fascina é igualmente aquilo que nos repugna.

O cenário é o de um mundo onde se dramatiza e performatiza o espectáculo debordiano de uma sociedade de consumo que faz das derivas tecnológicas – e dos sulcos que estas deixam no tecido da história e da paisagem – uma alavanca para o seu exercício autofágico e onde, polémica e prescientemente, tecno-ciência e pornografia se associam num exercício de reconfiguração do poder e do desejo.

(…)

No seu último Miracles of life, Shanghai to Shepperton: an autobiography (2008), Ballard revisita Crash, revelando-nos, mais uma vez, como se trata um livro profundamente enraizado num período histórico (os sixties) e como a tópica do «acidente» e da (more…)

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JG Ballard

Posted in Artes, Autores, Balanço, Comentários, Efemérides, Livros, Notas, Notícias, Vária by Luís Quintais on Segunda-feira, 20-04-2009

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Faleceu o nosso correspondente em Shepperton. Leia-se, por exemplo, o obituário do Guardian.

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Tuga Rock goes to university?

Posted in Notícias by OLAMblogue on Sábado, 04-04-2009

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O colóquio chama-se Poéticas do Rock em Portugal 2009 – Perspectivas Críticas de uma Literatura Menor e tem lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, de 6 a 8 de Abril. Ou seja, começa amanhã, e logo com este senhor. O programa completo pode ser consultado aqui.

«Hey hey, my my / Rock and roll can never die»

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London, por Borges

Posted in Autores, Livros, Notas, Notícias, Recensões, tradução by Luís Quintais on Sexta-feira, 20-03-2009

01310010_a_mao_de_midas_graO presente volume pode ser uma de três coisas, a saber: uma excelente introdução à obra de Jack London, uma aproximação à constelação literária de Jorge Luis Borges, e um contacto (também ele sensorial e físico) com uma das colecções mais fascinantes de literatura do século XX.

É um modo feliz de nos aproximarmos do trabalho literário de Jack London (1876-1916), autor americano de grande popularidade (foi um dos primeiros escritores americanos a fazer fortuna com a escrita) no seu tempo, e que é justamente considerado um dos brilhantes mestres da narrativa, e em particular do conto.

Borges reviu-se evidentemente em London, e esta colecção de A Biblioteca de Babel, espelha-o. O livro contém seis contos de London, de onde sobressai uma afirmação da literatura enquanto narrativa que Gustavo Rubim, numa notável recensão no Público, identificou como sendo um trabalho que foge habilmente às derivas da interpretação, e onde os acontecimentos dominam o fluxo textual. Escreve Rubim: «[M]as a mestria de London não está no modo como ergue ou insinua uma visão do mundo; está no modo como põe a narrativa acima do sentido, num jogo de esquiva às interpretações» (Ípsilon, 6 de Fevereiro, p. 29).

Trata-se de uma colecção que Borges dirigiu, seleccionando todos os volumes que a compõem, e prefaciando-os com ensaios seusjack-london sobre cada um dos autores escolhidos. É interessante verificar como o grande escritor argentino faz aí ombrear clássicos, como Edgar Allan Poe e Henry James, com escritores relativamente obscuros ou mesmo esquecidos hoje, destacando-se, entre outros, Gustav Meyrink e Arthur Machen.

Esta colecção revela não apenas as predilecções de Borges (uma grande parte vai para autores de língua inglesa), sendo, neste sentido, um modo de acedermos aos seus mestres, mas também a importância capital que o livro – enquanto objecto dotado de valências estéticas (e metafísicas) óbvias – detém no seu imaginário e na própria ideia que temos de literatura.

Neste sentido, importa referir que é o produto de um encontro entre o editor Franco Maria Ricci e Borges, himself, em que o primeiro propôs ao segundo a direcção de uma colecção de obras fantásticas que só podia chamar-se A Biblioteca de Babel. Os livros são belíssimos (como era próprio de Ricci), e a edição da Presença respeita escrupulosamente o grafismo original. (Creio que há uns anos atrás a Vega tentou trazer esta colecção para Portugal, ou copiá-la, com resultados desastrosos em termos gráficos, diga-se).

As traduções são cuidadas. Recomenda-se, pois, vivamente. (Tradução de Maria João da Rocha Afonso).

Jack London (2009) A Mão de Midas, Editorial Presença (colecção A Biblioteca de Babel, dirigida por Jorge Luis Borges). [ISBN: 978-972-23-4069-4]

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Manuel António Pina: Requiem por um sonho

Posted in Edição, Notícias by OLAMblogue on Sexta-feira, 13-03-2009

Já foi nosso convidado e, num certo sentido, é-o sempre. Manuel António Pina, um dos cronistas de leitura obrigatória deste país, escreveu hoje um texto, no seu JN, que nos atrevemos a transcrever aqui na íntegra. Por razões de, digamos, solidariedade: com uma certa ideia de livro e com um certo ideal de «intervenção» na área cultural. Tudo isso que sofre mais um sério revés com a  falência da Campo das Letras, uma editora que desde a primeira hora colaborou, de modo exemplar, com Os Livros Ardem Mal. Permita-nos, Manuel António, que façamos nossas, sem a reserva de sequer uma vírgula, as suas palavras.

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No Livro Sexto da Eneida diz-se que os sonhos nos chegam por duas distintas portas, uma de marfim, a dos sonhos fantasiosos, e outra de corno, a dos sonhos proféticos. Os 15 anos de vida da editora Campo das Letras, cujo fim foi agora anunciado, foram uma permanente disputa entre um sonho desmesurado e fantasioso, o de que é possível uma editora sobreviver em Portugal publicando literatura sem ter que ser um mero entreposto de venda de livros, e a profecia de que um sonho desses acabaria mal.

A porta que Jorge Araújo, fundador da Campo das Letras, vê fechar-se sobre o seu sonho fecha-nos a todos, os que acreditam que um livro é mais do que uma mercadoria e que a literatura é mais do que um negócio, no pior dos pesadelos. A verdade é que o dolente reino português de hoje não merece homens como Jorge Araújo, gente que, como escreve Sebastião da Gama, pelo sonho é que vai. Se em vez de se ter gasto, e às suas economias, a oferecer-nos milhar e meio de títulos de poesia, ficção e teatro, tivesse investido em títulos bolsistas, Jorge Araújo estaria hoje mais rico. E nós estaríamos mais pobres.

Manuel António Pina

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O Trágico: colóquio no Centro de Literatura Portuguesa

Posted in Notícias by OLAMblogue on Quinta-feira, 05-03-2009

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OLAM: sessão com Nuno Júdice

Posted in Notícias, OLAM by OLAMblogue on Segunda-feira, 02-02-2009

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Hoje, pelas 18 h, no foyer do Teatro Académico Gil Vicente, terá lugar a 5ª sessão de Os Livros Ardem Mal na temporada de 2008/09. O convidado é Nuno Júdice, poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, recém-nomeado director da Colóquio/Letras. O painel será constituído por António Apolinário Lourenço, Luís Quintais e Osvaldo Manuel Silvestre, que moderará.

Na primera parte da sessão serão apresentados os seguintes livros:

  • Rui Lage, Corvo, Famalicão, Quasi Edições, 2008. [ISBN 978-989-552-397-9]
  • António Pinho Vargas, Cinco Conferências. Especulações Críticas sobre a História da Música no Século XX, Lisboa, Culturgest, 2008. [ISBN 978-972-769-064]
  • Oliver Sacks, Musicofilia. Histórias sobre a Música e o Cérebro, Lisboa, Relógio d’Água, 2008. [ISBN 978-972-708-997-0]
  • David Lodge, A Consciência e o Romance, Porto, Asa, 2008. [ISBN 978-989-23-0368-0]
  • Manuel Loff, O nosso Século é Fascista. O Mundo Visto por Salazar e Franco (1936-1945), Porto, Campo das Letras, 2008. [ISBN: 978-989-625-256-4]
  • Richard Zenith, Fernando Pessoa (Fotobiografias Século XX), Lisboa, Círculo de Leitores, 2008. [ISBN: 978-972-42-4349-8]
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    «Um Lugar Imenso, talvez» *

    Posted in Livros, Notícias by Sandra Guerreiro Dias on Quarta-feira, 28-01-2009

    Julian Duran

    «Cinquenta por cento dos jovens deste país que estão dentro do sistema de ensino, com 15 anos não compreendem uma frase familiar. É dramático.» (António Prole)

    «Correctamente, devemos ler pelo poder. Um homem que lê é um homem intensamente vivo. O livro deve ser uma bola de luz nas nossas mãos.» (Ezra Pound)

    Porque ler é existir, conhecer e participar, promover a reflexão e o debate acerca do lugar da leitura nas sociedades e no mundo foi o mote lançado pelo Congresso Internacional de Promoção da Leitura que teve lugar nos passados dias 22 e 23 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Organizado pela Casa da Leitura, organismo afecto àquela fundação criado há três anos com o objectivo de difundir a literatura infantil e promover a leitura, o encontro Formar Leitores para Ler o Mundo contou com a participação de especialistas de diversas áreas da leitura, da literatura, e da literatura para a infância, vindos do Reino Unido, Estados Unidos, Canadá, Espanha, França, Brasil e Portugal. Entre eles, Teresa Colomer, Michel Fayol, Peter Hunt e Lawrence Sipe. Estruturado a partir de três grandes painéis temáticos – a saber, Literatura para a Infância e a Formação de Leitores, Estratégias de Leitura e Compreensão Leitora e Projectos de Promoção da Leitura -, a discussão entre os diversos especialistas assumiu uma perspectiva que pretendeu ser simultaneamente analítica e crítica, prognóstica e indicativa das múltiplas e complexas questões levantadas a partir de cada uma das áreas em relevo. Entre elas, o papel e a formação dos mediadores de leitura, o analfabetismo funcional, o novo conceito de alfabetização e a compreensão leitora, as competências de leitura e a leitura enquanto acto de cidadania.

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    Sessão com Rui Tavares

    Posted in Notícias by OLAMblogue on Segunda-feira, 05-01-2009

    Rui Tavares

    Mais uma sessão de Os Livros Ardem Mal, nesta 2ª feira, dia 5, pelas 18 horas. No Café-Teatro do TAGV, em Coimbra. A alguns dos agora seis membros habituais do painel juntar-se-á desta vez, numa conversa a pretexto de livros, de leituras e de leitores, o historiador, comentador político e cronista Rui Tavares.

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    Do mundo inútil

    Posted in Autores, Comentários, Notas, Notícias, Recensões, Vária by Luís Quintais on Quinta-feira, 27-11-2008

    283aQualquer texto num blogue parece exigir uma representação visual que não se limite àquela que a escrita vai compondo. Uma fuga à monotonia, à melancolia da leitura, à impossibilidade de conquistar seja quem for através das palavras, somente. Uma capitulação atestada da linguagem? Dir-se-ia que fazer acompanhar um texto com imagens se presta a todos os equívocos, mas também a descobertas desconcertantes.

    Os livros de WG Sebald, na sua constante reinvenção desse espaço que vai da representação à irrepresentação (como se a “realidade”, a mais dura das categorias, nos colocasse sempre perante uma espécie de exigência ou repto do que não pode ser mediado e que, paradoxalmente, exige constante mediação) são uma das mais originais incursões em torno deste território grave e perigoso. Quando lemos Sebald, questionamo-nos sempre acerca deste trabalho de ousadia – e talvez de vergonha extrema – que é levar a literatura até ao seu limite (esse lugar onde a literatura ou a arte poderão ser somente uma impertinência) e conquistar esse limite: um limite trágico, porque todo o fracasso é aí a afirmação de uma atribuição humana que excede os recursos do indivíduo e que o coloca à beira de uma fatalidade expressiva, que é a de deixar de falar de si, irrevogavelmente. O que fala através de si em Sebald?

    Não o sabemos, e não sei se é muito importante sabê-lo. Tudo isto para chamar a atenção para um magnífico (e ousadíssimo) ensaio de Jorge Leandro Rosa sobre as mais devastadores fotografias que conheço, porque produto não da autoria, mas de tudo o que lhe excede, e que fará da representação, da sua possibilidade, uma aposta de testemunho e de sobrevivência. Refiro-me às fotografias que alguns elementos dos Sonderkommando tiraram clandestinamente – em circunstâncias de difícil esclarecimento – dos campos e do seu trabalho. Estas imagens – que estão no centro de uma controvérsia recente que implica Georges Didi-Huberman, Gérard Wajcman e Elisabeth Pagnoux – conduzem Jorge Leandro Rosa a uma reflexão que se joga nas codificações (justificadas ou não, do irrepresentável). Transportam-nos, como não deixa de salientar, para uma certa acepção de «infinito» ou vazio que é o símile de um horror sem autoria. Escreve Jorge Leandro Rosa:

    «E há a questão daquilo que podemos designar como paisagem. Estes corpos (e o corpo do fotógrafo também) perdem-se na paisagem por diversas razões. Perder-se na paisagem é perder a própria qualidade da presença, já que a paisagem é presença sem nunca ser outra coisa, senão no artifício da representação. Ora, o que caracteriza um corpo é que este é sempre qualquer coisa sem nunca chegar a estar puramente presente. Só a carne pode ser como a paisagem, só a carne pode chegar como a paisagem ao mundo sem nunca nele ter estado verdadeiramente e sem nele marcar um lugar preciso. Sem qualquer pretensão sobre o sentido, a paisagem cresce tanto mais na consciência pictórica europeia quanto esta deixa de ser uma consciência enraizada naquilo que faz sentido. Como lembra Jean Luc-Nancy, a paisagem ‘é o lugar da estranheza e da desaparição dos deuses’. Há paisagens com horizonte, que são aquelas que reenviam para a imprecisão infinita do próprio limite do olhar, e há paisagens sem horizonte, mas que o substituem por linhas de fumo, por grupos de árvores, pela luz solar em frente do observador. Temo-las aqui. Essas são as paisagens que, de alguma forma, fizeram o mundo inútil, já que toda a observação é paisagística no sentido de ser injustificável.» («O inimaginável: leituras dos corpos e das suas imagens», in Nada, nº 12, pp. 118-119).

    Luís Quintais.

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    O acontecimento

    Posted in Notícias by Ana Bela Almeida on Domingo, 23-11-2008

    Encontrando-se o nosso Público em plena crise de imaginação, aguardemos que se inspire no vizinho El Pais e na sua colecção de antologias da melhor poesia que se escreveu em castelhano no séc. XX, devidamente prologada pelos estudiosos da área. Começa hoje, com a entrega das antologias poéticas de Antonio Machado e Juan Ramón Jiménez. Nas palavras de José Manuel Caballero Bonald, director da colecção, em entrevista a El Pais:

    Creo que si se ve desde el periodismo, puede parecer un atrevimiento, pero si se mira desde la poesía, es un acontecimiento.

    Ana Bela Almeida

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    Kant na noite do Ártico (2), ou homenagem a Claude Lévi-Strauss

    Posted in Crítica, Notas, Notícias, Oficina by Luís Quintais on Quinta-feira, 20-11-2008

    1176309419_01[Retomo o meu Kant na noite do Ártico. Claude Lévi-Strauss fará no próximo dia 28 de Novembro cem anos. Aqui a celebração já começou há algum tempo. Esperemos que em Portugal se esqueçam desta vez da doxa, e nos dêem uma homenagem à altura do homem que abomina a doxa].

    Uma homologia entre a multiplicidade de aspectos da vida social é reclamada em Lévi-Strauss. Tal homologia depende, em grande medida, dum nível profundo de invisibilidade que se traduziria num código universal, isto é, numa ur-matriz que definiria a semelhança entre estruturas linguísticas e simbólicas ou culturais. De outro modo ainda, dir-se-ia que Lévi-Strauss reclama uma congruência entre o exterior e o interior, entre a superfície e a profundidade. Para ele, existe uma ordem no mundo exterior e existe a nossa percepção e conceptualização dessa ordem. Entre estes dois universos, um exterior e outro interior, não existe qualquer incompatibilidade. Acresce ainda que tal congruência não é demonstrável. Reclama-se pois uma espécie de continuidade tácita entre o sensível e o inteligível.

    A articulação entre o sensível e o inteligível terá de ser compatível com as leis universais que regem o espírito humano. A estratégia lévi-straussiana funda-se numa congruência entre exterior e interior que, de algum modo, é preservada pela linguagem e pelas culturas tomadas como instâncias de mediação do sensível e do inteligível. O mundo out-there pauta-se por princípios de ordem que a linguagem espelha e assume transversalmente: a eficácia das palavras e a eficácia dos princípios de ordem que as animam podem ser encontradas, por exemplo, nas trocas matrimoniais, e no modo como estas fazem preservar uma espécie de óptimo contratual básico sem o qual não é possível haver sociedade. E estes princípios de ordem dizem-nos tanto do funcionamento da sociedade quanto do funcionamento do «espírito humano» e da sua arquitectura neuronal: a sociedade, a mente, o cérebro, são assim avataras uns dos outros, avataras de uma natureza que se desdobra em «formas» que podem ser reconstituídas porque aquele que as reconstrói reconhece em si o trabalho e a inapagável presença de tais formas. A linguagem (entre o som e o sentido) é aqui transversal a esta recursividade entre ordens de complexidade diversa.

    O confronto com a natureza – a selva amazónica – e com as suas formas é assim transposto, numa recursiva e constante viagem sem paralelo, para um confronto com aquilo que está inscrito na natureza profunda do humano que aqui é ainda o Homem. Os povos da Amazónia epitomizam, mas suas mito-lógicas, aquilo que de mais profundo e mais singular se faz inscrever nas produções culturais humanas: o espírito e as suas regras, que funcionam aí, ainda, numa transparência que a modernidade se encarregaria inelutavelmente de toldar.

    O crepúsculo da cultura seria assim a turvação completa dessa Razão magnífica. Kant na noite do Ártico, mas também Kant na Amazónia. Porque as viagens de Lévi-Strauss seriam afinal uma demanda por um lugar onde o brilho escondido do humano poderia ainda ser contemplado, apreciado, como quem contempla ou aprecia uma paisagem ou uma peça de Racine ou uma página de Proust. Porque algures nessa heterotopia da Razão se poderia identificar ainda a essência mito-lógica da mente entregue a si mesma.

    Dir-se-á que Lévi-Strauss incorre aqui numa espécie de invulgar primitivismo: a mente ameríndia é a epítome da Razão humana, por excelência; mais: a mente ameríndia presta-se – pela sua transparência – a uma incursão na mente tout court, já que a complexidade das cidades e das aquisições da vida moderna resvalam flagrantemente para a opacidade dos desígnios do humano, o mesmo é dizer, para o crepúsculo da cultura e da Razão. E veja-se o que Lévi-Strauss escreve sobre a arte moderna, para compreendermos este negrume que parece atravessar, para ele, as produções humanas que o cânone civilizacional ocidental foi propondo.

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    «O meu fim é o meu começo»

    Posted in Notas, Notícias by Osvaldo Manuel Silvestre on Sábado, 15-11-2008

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    «O meu fim é o meu começo»: de Machaut a Eliot ou a Carlos de Oliveira, o fim parece ser indissociável da questão do «depois do fim», ou melhor, de um depois do fim tematizado como uma necessária figura do recomeço. Seria tentador ver aqui a funcionar a perfeição de um anel de Moebius que nos lançasse em permanência na outra face de um tempo sem fim, mas essa teratologia não está, felizmente, ao nosso alcance. E no fundo, talvez a literatura exista apenas para nos dizer isso: que depois do fim só a palavra (escrita).

    A melhor maneira de entrar nesta questão parece-me ser um episódio biográfico que em tempos me foi contado por Ângela de Oliveira, figura da obra e Grande Oficiante da escrita/reescrita de Carlos de Oliveira. Pouco tempo após a edição de Finisterra. Paisagem e Povoamento, Carlos de Oliveira foi visitado por Eduardo Lourenço, no que seria o último episódio de um encontro cujo episódio inicial terá ocorrido nesta cidade de Coimbra e nesta Faculdade de Letras, três décadas e meia antes. A certa altura da conversa, Eduardo Lourenço terá perguntado a Carlos de Oliveira: «E depois de Finisterra, Carlos?» Ao que o autor terá respondido: «Depois de Finisterra, nada. Acabou.» Depois de Finisterra, ou melhor, depois do par Finisterra/Pastoral, estaríamos nesse momento quando nada vem já depois do fim. E contudo, a própria biografia nos dá uma versão outra desse momento depois do fim. Porque sabemos que de facto Finisterra não foi o fim, assim como depois de Pastoral houve ainda 3 ou 4 poemas extraordinários enquanto justamente versões do fim. O fim, em rigor o depois do fim que Finisterra teria sido, foi um recomeço, isto é, a reescrita de Alcateia, obra expurgada pelo próprio autor desde cedo e a que, surpreendentemente, regressa nesse fim já póstumo em relação a Finisterra. Sabemos, também por Ângela, dos pormenores dessa última anti-epopeia: a reescrita, as versões, a obsessão mortificante contra a contaminação da prosa pelo decassílabo, por exemplo. Mas sabemos sobretudo do fim dessa história semipóstuma: poucos dias antes de morrer, o escritor pede/ordena a Ângela que ponha todo o trabalho num saco e o vá deitar ao lixo. Restam 2 ou 3 páginas desse episódio final.

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    Depois do Fim: amanhã

    Posted in Comentários, Notícias by OLAMblogue on Quinta-feira, 13-11-2008

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    Hoje, nova sessão de OLAM

    Posted in Notícias by OLAMblogue on Segunda-feira, 03-11-2008

    A segunda sessão desta época de Os Livros Ardem Mal, decorrerá nesta 2ª feira, dia 3 de Novembro, pelas 18 Horas, no Café-Teatro do TAGV (Coimbra), com a participação do painel habitual. Uma co-organização do TAGV e do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. Desta vez, o convidado é Carlos Fiolhais, professor do Departamento de Física da FCTUC e director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

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    Livros Cotovia, vinte anos

    Posted in Comentários, Notas, Notícias, Vária by Luís Quintais on Sexta-feira, 31-10-2008

    Mapa de afectos. Idos anos noventa. Princípios, certamente. A minha descoberta da Cotovia coincide com uma espécie de existência pessoana que atravessava então os meus dias e que constitui hoje uma das mais gratificantes memórias que tenho de Lisboa.

    Trabalhava na Rua do Loreto com os meus tios e primos numa pequena empresa de contabilidade e auditoria que já não existe. Os meus vinte e poucos anos eram uma demanda pelas ruas da cidade, entregando trabalhos concluídos, recebendo outros que teriam por destinatários os exímios mestres contabilistas, os meus tios Fernando e Gabriela, o meu primo João e o magnífico leitor de Proust que era o João Pedro Carreira. Uma existência pessoana ou walseriana, porque, de algum modo, o escritório da Rua do Loreto (que dava para o Bairro Alto numa iluminação tranquilizadora digna de Vermeer que fiz celebrar num dos meus poemas de A Imprecisa Melancolia) era uma espécie de Instituto Benjamenta, mas onde a crueldade tinha sido substituída integralmente pela ironia, uma arte cultivada com o rigor e a probidade com que se assentava numa linha de um livro de balanço. A rua, todas as ruas que na Rua do Loreto encontravam um centro irradiante, transportavam-me para formas de onirismo indisciplinado que nunca mais voltei a conhecer. Como se o meu Instituto Benjamenta (lugar de ofício, ironia, e extremo bom senso também) – o escritório do meu tio Fernando – tivesse um contraponto nessa encruzilhada de símbolos que habitavam a superfície do quotidiano. A minha vida era uma forma espacializada de «abandono vigiado», a usar um título de O’Neill que é, como se sabe, todo um programa. Um contraponto numa encruzilhada de símbolos e de lugares como, por exemplo, a belíssima Livros Cotovia na Rua Nova da Trindade, aí, numa das fronteiras invisíveis da cidade, aquela que coincide com as Escadinhas do Duque e que dá acesso ao Rossio – essa sempre eterna despedida da vida, como me recorda António Maria Lisboa – e à linha de fuga que é o Terminal ferroviário onde história, violência e margem vinham hibridizar o meu mapa de afectos.

    Como flâneur e leitor descobri a Cotovia naqueles primeiros anos da década de noventa. E o que lia eu naquela altura? Poesia, sobretudo. E através da poesia descobri uma revista magnífica que a Cotovia fazia publicar. Refiro-me à entretanto desaparecida (uma das memoráveis desaparições da minha vida de leitor) As escadas não têm degraus. Descobri também um dos escritores da minha vida, Edmund Jabès. Não me esqueço nunca de A obscura palavra do deserto, uma poesia que me parece longe, bem longe daquilo que motiva uma parte significativa dos poetas contemporâneos mais canonizados entre nós, e talvez ainda bem porque Jabès será sempre coisa de poucos, enigma de muitos, e o ruído e a sobredeterminação das glórias literárias sempre me aborreceu infinitamente. Depois vieram outros, tantos, que o catálogo da editora discretamente descreve, revela.

    A Cotovia é uma editora que permanece, pelo seu catálogo, pelo rigor com que trata os seus autores e os seus textos, fora daquilo que é o mundo editorial português, e não só. Dir-se-ia que, como o Jabès, permanece fora daquilo que convencionamos hoje por literatura ou por edição, e com isso ensina-nos como se pode sobreviver sem beneplácito nem usura. Um dos grandes méritos é nunca ter confundido livros com literatura. Outro dos méritos é ter enobrecido, pela sóbria singularidade do desenho do seus livros, a literatura, como provavelmente muito poucas editoras o fizeram. Como se não misturasse livros com literatura, mas soubesse perfeitamente onde está o lugar – an Italy of the mind, escreveria certeiramente Wallace Stevens – onde literatura e livros se encontram, se encontrarão sempre.

    Tudo isto pode ser atribuído, com inteira justiça e justificação, a André Fernandes Jorge. Aí está alguém que dispensa elogios ou encómios, mas de quem é um privilégio poder reconhecer entre os nossos amigos mais admirados, por mim, por todos aqueles que o conhecem e que com ele têm colaborado. Porque a amizade é ainda um dos poucos círculos iluminados de lealdade que conheço. Parabéns Cotovia, parabéns André!

    Luís Quintais (texto incluído em Não será por acaso, 20 anos, Lisboa, Livros Cotovia)

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    Melhor do que Moita Flores

    Posted in Notícias by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 27-10-2008

    Os jornais, com abundância de fotos e reportagem, informaram-nos de que alguém assaltou o computador pessoal de Miguel Sousa Tavares, no qual nasciam dois futuros livros, que tudo indica ficarão órfãos.

    Acabo de ler a melhor versão do sucedido. Aqui. Policial, escritural, moral, fabulosa, direitinha dos irmãos Grimm. Agora sim, percebi. Muito obrigado, Rui.

    P.S. Sobre a extraordinária personagem que dá título a este post, é favor consultar a Wikipédia.

    Osvaldo Manuel Silvestre

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    Inquérito OLAM

    Posted in Notícias by OLAMblogue on Quinta-feira, 16-10-2008

    Nos próximos tempos Os Livros Ardem Mal  lançam um inquérito, a um número significativo de escritores, críticos e jornalistas da área da cultura, sobre «os dois melhores livros da literatura portuguesa do século XX». Não só sobre os melhores mas ainda sobre a diferença entre «os melhores» e «os mais importantes». Para que se perceba exactamente do que falamos, eis as três perguntas que estamos a enviar desde há dias:

    1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

    2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

    3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

    As perguntas vão acompanhadas de duas notas, com função clarificadora, que neste momento nos abstemos de transcrever. Não foi colocado qualquer limite à extensão das respostas. Insistiu-se apenas em que, mais do que debitar títulos, importava que as respostas fossem argumentadas.

    É essa argumentação que começaremos a publicar amanhã.

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    O regresso

    Posted in Notícias by OLAMblogue on Domingo, 05-10-2008

    A primeira sessão da nova época de Os Livros Ardem Mal, decorrerá nesta 2ª feira, dia 6 de Outubro, pelas 18 Horas, no Café-Teatro do TAGV (Coimbra), com a participação do painel habitual. Uma co-organização do TAGV e do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. Desta vez, o convidado é Francisco José Viegas, escritor, crítico e divulgador cultural, actualmente o director da revista LER.

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    «The Late View»

    Posted in Notas, Notícias by Sandra Guerreiro Dias on Sexta-feira, 25-07-2008

    The Culture House, em Reiquiavique, tem em exposição fotografias de autor do Prémio Nobel islandês da Literatura, Halldór Laxness. A mostra, inaugurada em Junho último, intitula-se The Late View – photographs from legacy of Nobel Laureate in Literature and cosmopolitan Halldór Laxness e é uma oportunidade a ter em conta para quem esteja de malas aviadas para uma qualquer dessas viagens ainda sem destino definido. Ela dá a conhecer uma perspectiva do escritor enquanto pensador do seu tempo, reflectindo, através do olhar fotográfico que lança sobre pequenas circunstâncias do seu quotidiano, sobre o envolvimento do autor/artista com o destino do seu próprio país.

    Autor de uma obra vastíssima (65 livros em 68 anos de produção literária) Halldór Laxness assinou títulos como Salka Valka I (1931) e Salka Valka II (1932), que relatam a saga de uma jovem pescadora pobre, ocupação comum naquele tempo e naquele lugar, ou Independent People (1934-1935), Gente Independente, a única obra do autor traduzida e editada em Portugal (Cavalo de Ferro, 2007). Aqui, o contexto é o de uma Islândia nos princípios do século XX e a história a de Bjartur, das Casas de Verão, personagem principal do romance, na luta desesperada pela independência diante dos outros e de si próprio. Halldór Laxness é ainda o autor de The Atom Station (1948), sobre o pós-II Guerra Mundial na Islândia, uma das suas obras mais polémicas, e de The Happy Warriors (1952), cujo enredo decorre durante a ocupação viking, aquando da descoberta daquele país, em meados do século IX d.C., mas que é afinal mero pretexto para a crítica duríssima e plenamente assumida aos regimes totalitários de Hitler e Estaline.

    Assim, certo é que a sua obra acaba por assumir-se enquanto exercício e ensaio em permanente diálogo com o seu tempo, cujo pano de fundo é o ser humano enquanto sujeito naturalmente em colapso e sempre merecedor de complacência. Halldór Laxness foi, além disso, o escritor que, através da ficção e dos inúmeros artigos publicados em diversos jornais, melhor documentou a longa e sinuosa história da luta pela independência de um povo e de um país que o é apenas desde 1944. Por este facto, e pelo consenso que a sua obra reuniu, na Islândia e no mundo, Haldór Laxness tem sido considerado por muitos como o último verdadeiro escritor nacional do Ocidente. Por outro lado, os seus livros e as frentes em que se bateu, bem como as múltiplas reflexões políticas e sociais que a sua extensa produção convoca, reclamam o reconhecimento do lugar inquestionável da literatura na história de cada país.

    Em notas redigidas para The Fish Can Sing, obra publicado em 1957, Laxness afirmava que «são precisamente essas pessoas, as pessoas comuns, aquelas que transportam em si as mais virtuosas das virtudes humanas». A sua obra, o seu trabalho, testemunhos de quase um século de história (nascido em 1902, o escritor terá vindo a falecer apenas em 1998), é, por uns caminhos e por outros, o reforço, à usa maneira, dessa máxima que bebeu no realismo social da década de 30. «Nascido para cantar para o mundo», como se diz de Bjartur em Gente Independente, terá sido também esse o desígnio maior de Halldór Laxness.

    «The Late View» estará em exibição até Fevereiro de 2009.

    Sandra Guerreiro Dias

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    JG em Barcelona

    Posted in Autores, Comentários, Notícias by Luís Quintais on Quarta-feira, 23-07-2008

    Sugestão de verão: dêem um salto a Barcelona. Foi ontem inaugurada no Centro de Cultura Contemporànea de Barcelona a exposição/homenagem a JG Ballard, Autopsy of the New Millennium. Ficará no CCCB até dia 2 de Novembro. A não perder!

    Luís Quintais

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    A nossa equipa no TAGV

    Posted in Notícias by OLAMblogue on Domingo, 20-07-2008

    Como aqui ficou dito logo no início, Os Livros Ardem Mal é uma iniciativa conjunta do Centro de Literatura Portuguesa, unidade de I&D da FCT localizada na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e do Teatro Académico Gil Vicente, da mesma universidade. Quer o CLP quer o TAGV entendem desempenhar assim o seu papel na área das actividades de «extensão à comunidade» que são parte integrante da sua função social.

    Como se imagina, uma iniciativa como esta, que implica contactos com autores, editoras e média, exige, para lá de alguns meios financeiros, uma logística particular. Aquilo que, de Setembro de 2007 a Julho de 2008, se concretizou quando, na primeira segunda-feira de cada mês, pelas 18 h, 3 ou 4 pessoas, mais um convidado, se sentaram à mesa no foyer do TAGV para falarem de livros e de tudo o que por eles passa, pressupõe uma dose razoável de trabalho na sombra. É justo que, agora que a saison chegou ao fim, apresentemos esses trabalhadores da sombra, aproveitando para lhes agradecer – e, neles, a todo o TAGV – o empenho, o cuidado, a dedicação que colocaram na preparação de cada uma das sessões.


    Teresa Santos é Coordenadora dos Serviços Artísticos e de Produção do TAGV. É a responsável pela produção da agenda mensal do TAGV, e é ela quem nos envia, no início de cada mês, o cartaz promocional da sessão seguinte (com grafismo de Joana Monteiro) e quem trata da divulgação da iniciativa junto dos média. Sempre com o seu jeito sóbrio e eficiente.

    Marisa Santos é Coordenadora da Frente de Casa do TAGV. Cabe-lhe a preparação do espaço do Café-Teatro para o acolhimento dos intervenientes e do público, e também a coordenação dos assistentes de sala designados para acompanhar a sessão. Tanto como assegurar a funcionalidade do espaço, cabe-lhe garantir a hospitalidade do Teatro – o que faz muito bem.


    Elisabete Cardoso é a responsável pelos serviços de recepção e de bilheteira do TAGV. Coordena os contactos com as editoras, recolhe a informação sobre os convidados e faz circular entre os membros d’ Os Livros Ardem Mal as novidades editoriais recebidas. Ao telefone ou por e-mail, o seu entusiasmo e profissionalismo manifestam-se em cada mensagem.


    Mário ‘sonomario’ Henriques é sonoplasta dos Serviços Técnicos do TAGV. N’ Os Livros Ardem Mal, para além de sonorizar a sessão para o espaço do Café-Teatro, é também o responsável pela gravação. Dos seus registos, uma vez editados, depende a transmissão pela Rádio Universidade de Coimbra da conversa com o convidado de cada sessão. Se, adoptando uma sugestão sua, o programa decidir fazer itinerância, claro que será ele a tratar dos micros…

    A todos os outros funcionários do TAGV que participaram, de um modo ou de outro, na produção das sessões, o nosso sincero Obrigado. E até Setembro, após as merecidas férias.

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    Sessão com Gonçalo M. Tavares

    Posted in Notícias by OLAMblogue on Domingo, 06-07-2008

    Nesta 2ª Feira, dia 7 de Julho, pelas 18 horas, a última sessão desta temporada de Os Livros Ardem Mal no Café-Teatro do TAGV (em Coimbra). O convidado deste mês é o escritor Gonçalo M. Tavares. Em breve daremos notícia, neste blogue, sobre o que sucederá ao programa no próximo ano.

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    Prémios de edição Ler/Booktailors

    Posted in Notícias by OLAMblogue on Segunda-feira, 16-06-2008

    A revista Ler e os Booktailors acabam de criar os Prémios de Edição, sobre os quais se pode ler tudo o que importa aqui.

    A ideia é excelente, vem colmatar uma lacuna evidente no panorama português, e Os Livros Ardem Mal associam-se a partir deste momento à iniciativa da Ler e dos Booktailors. Cá estaremos para anunciar também ao mundo os prémios e para opinar, se for caso disso, sobre eles.

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    «O próprio» nasceu há 120 anos

    Posted in Notícias by Osvaldo Manuel Silvestre on Sexta-feira, 13-06-2008

    Tão bonito, este Sr. Pessoa de Pedro Vieira… Não resistimos a pô-lo aqui, com um «Parabéns a Você» para o Fernando Vieira e o Pedro Pessoa (esperando não violar o copyright da Almedina, tão ligada à universidade que Pessoa, lamentavelmente, nunca frequentou).

    Osvaldo Manuel Silvestre

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    Lista de leituras para a equipa de todos nós: uma adenda

    Posted in Comentários, Notícias by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 09-06-2008

    É bem certo que tudo acontece àqueles que os deuses não amam. Veja-se o caso de Quim, eterno suplente de um suplente de um clube da segunda linha espanhola… Como se isso não bastasse, acaba por fracturar o pulso. Males que vêm por bem, meu caro: é altura de ler mesmo o Dostoievski. Quanto a Nuno, escolhido por ser um bom suplente, aqui vai a sugestão de leitura para o Euro:

    Nuno: Uma Aventura nas Férias Grandes, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada

    Bom proveito, Nuno. E agora, trucidar os checos!

    Osvaldo Manuel Silvestre

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    Lista de leituras para a equipa de todos nós

    Posted in Notícias by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 05-06-2008

    Playstations, computadores portáteis para dvd’s, ipod’s e telemóveis. De acordo com os relatos da imprensa, aliás – benza-a Deus! – bastante detalhados, são estas as ferramentas com que os membros da selecção nacional passam o tempo e cultivam o espírito nas longas pausas do longo estágio antes e durante o Euro. Preocupados com o divórcio entre os craques e as letras – com excepção das da tríade dourada do jornalismo desportivo -, e constatando que nem a APEL nem a UEP aproveitam o evento para uma operação promocional junto dos craques (uma feirinha do livro, por exemplo, no átrio do hotel em Viseu ou em Neuchâtel…), decidimos nós, n’Os Livros Ardem Mal, contribuir para o enriquecimento do tempo de lazer dos nossos heróis, que desejamos o mais longo possível – até à final (mas sem gregos…). Segue-se, pois, a lista de sugestões de leitura, de Scolari ao suplente mais irredutível. Nos casos em que os livros estejam esgotados, remete-se para edições no idioma original; quando não tenham sido traduzidos, indica-se também a edição original, esperando que tal funcione como incitamento às editoras locais.

    Bom proveito, pessoal! E porrada nos turcos!

    Luís Filipe Scolari: O Homem sem Qualidades, de Robert Musil
    Ricardo
    : As Pupilas do Senhor Reitor, de Júlio Dinis
    Quim
    : O Eterno Marido, de Fiódor Dostoievski
    Rui Patrício
    : Winnie-the-Pooh, de A. A. Milne
    José Bosingwa
    : Pela Estrada Fora, de Jack Kerouac
    Miguel
    : Terna é a Noite, de F. Scott Fitzgerald
    Bruno Alves
    : O Trincapregos, de Albert Cohen
    Ricardo Carvalho
    : Um Homem de Visão, de P. G. Wodehouse
    Pepe
    : Os Lusíadas, de Luís de Camões
    Fernando Meira
    : Acédia, de Fernando Pinto do Amaral
    Paulo Ferreira
    : Out of Place. A Memoir, de Edwad W. Said
    Jorge Ribeiro
    : O Gémeo Diferente, de Luísa Costa Gomes
    Petit
    : Nós Matámos o Cão Tinhoso, de Luís Bernardo Honwana
    Miguel Veloso
    : Jaime Bunda e a Morte do Americano, de Pepetela
    Deco
    : A Leitura Infinita, José Tolentino de Mendonça
    João Moutinho
    : O Soldado Prático, de Diogo do Couto
    Raul Meireles: As Tatuagens de Miguel Ângelo, de Sarah Hall
    Ricardo Quaresma
    : Quaresma, Decifrador, de Fernando Pessoa
    Simão Sabrosa: Napoléon, le petit, de Victor Hugo
    Cristiano Ronaldo: Histórias para Meninos sem Juízo, de Jacques Prévert
    Nani: Galo Cantou na Baía e outros contos, de Manuel Lopes
    Nuno Gomes: Na Berma de Nenhuma Estrada, de Mia Couto
    Hugo Almeida: Hamlet, Shakespeare
    Hélder Postiga: Os Marcianos Divertem-se, de Fredric Brown

    Osvaldo Manuel Silvestre

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    Sessão com Pedro Mexia

    Posted in Notícias by OLAMblogue on Segunda-feira, 02-06-2008

    Hoje, segunda-feira, pelas 6 da tarde e no Café-Teatro do TAGV de Coimbra, decorre outra sessão de Os Livros Ardem Mal, com António Apolinário Lourenço, Luís Quintais e Osvaldo Manuel Silvestre. Desta vez o convidado é o poeta e crítico literário Pedro Mexia. Informações mais detalhadas aqui.

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    Nós, vós, eles

    Posted in Notícias by OLAMblogue on Quarta-feira, 14-05-2008

    As boas ideias, como os bons exemplos, frutificam. Nós, n’Os Livros Ardem Mal, saudamos a chegada da concorrência (e esperamos pela perseverança – sim, que já levamos quase dois anos disto – e pelo blogue, para deveras se poder falar em tal…).

    Já quanto ao nome da coisa, francamente, não havia necessidade…

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    Sessão com Ana Lopes

    Posted in Notícias by OLAMblogue on Segunda-feira, 05-05-2008

    Tem lugar hoje, 2a. feira, mais uma sessão de Os Livros Ardem Mal. Pelas 18 horas, no Café-Teatro do TAGV (Coimbra). A convidada deste mês é Ana Lopes, antropóloga doutorada pela University of East London, autora de Trabalhadores do Sexo, Uni-vos! e criadora da Internacional Union of Sex Workers. Mais informação aqui.

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    O tecno-encantamento como motivo e causa

    Posted in Autores, Comentários, Crítica, Notas, Notícias, Recensões by Luís Quintais on Quinta-feira, 10-04-2008

    A Nada ocupa um espaço de interrogação incomum: trata-de de pensar as relações entre arte, ciência, e tecnologia no presente. De alguma forma, trata-de de equacionar aquilo que parece estar em permanente conflito com uma certa acepção de modernidade à la Weber, entendida esta como uma tópica do desencantamento, de que a racionalidade científica seria o veículo e o desígnio.

    Os seus já inúmeros colaboradores (o primeiro número é de Novembro de 2003) têm vindo a procurar enunciar as preposições, o entre, os interstícios da cultura tecnológica, tomando como dado axial algo que é motivo de perturbação para tantos: afinal a modernidade desdobrou e remapeou possibilidades de encantamento, de excesso ou dispêndio (como escreveria certamente Bataille) que os sacerdotes da Razão não previram.

    De alguma forma, a Nada assume que a modernidade só pode ser pensada como um momento histórico em que o encantamento do mundo é reconfigurado protésica e tecnologicamente. A noção de híbrido enfileira aqui, ou, de outro modo, a de monstro. Poderíamos, aliás, divertir-nos dizendo (elogiosamente) que se trata da única revista sobre monstros escrita em Português e distribuída pelo mundo fora (agora também em Barcelona e São Paulo), e poderíamos ainda, de forma mais séria, dizer que é uma revista de tese: trata-de cartografar as logísticas que a percepção tecnológica assume na paisagem contemporânea, qual a sua fenomenologia, quais as suas qualidades sensíveis, as suas metamorfoses e os seus rizomas.

    Um dos exemplos desta ponderação prende-se com a bio-arte, e é comum encontrarmos na Nada textos de e sobre figuras destacadas deste campo de intensidades do presente, onde se destaca o trabalho da portuguesa Marta de Menezes.

    O número 10 contém ensaios de Jorge Leandro Rosa, Luís Graça, Susana Ventura, Byron Kaldis, Daniel Innerarity, e Susana Viegas. Destaque para duas entrevistas: uma com José Luís Garcia e outra com Rudolf Bannasch. Este número contém ainda experiências literárias e conceptuais só possíveis numa revista que vive serenamente fora do espaço académico, pese embora a sua atenção para com aquilo que de mais estimulante se passa dentro da academia. Encontramos aí, por exemplo, duas interpelantes incursões de Adam Zaretsky, «Birdland» e «Balde de Facs».

    Convém ainda destacar o belíssimo conto de João Urbano, «O Homem Sem Bagagem».

    Ah, é verdade, o grafismo da revista é exemplar.

    Nada, 2007, Novembro, Nº 10.

    Luís Quintais

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