Os Livros Ardem Mal

Darwin rules

Posted in Autores, Comentários, Edição, Efemérides, Livros, Notas, Recensões by Luís Quintais on Sexta-feira, 29-05-2009

evolucao2_bigNos 200 anos do nascimento de Charles Darwin (nascido a 12 de Fevereiro de 1809) e nos 150 da publicação da Origem das espécies (24 de Novembro de 1859), a Esfera do Caos, uma editora que tem vindo a publicar excelente literatura de divulgação científica em Portugal, lança-se num projecto pioneiro sobre a grande constelação darwiniana de que são testemunho estes dois volumes, estando prometidos mais dois, Vida: origem e evolução e Homem: origem e evolução. A série, aliás, chama-se «Fundamentos e desafios do Evolucionismo», e vem colmatar uma enorme lacuna no espaço intelectual português que, em geral, ignora a importância de Darwin para o entendimento do que será porventura o nosso presente. Através destas páginas (que articulam textos clássicos traduzidos pela primeira vez com textos especialmente encomendados para o efeito) poderá eventualmente situar-se Darwin no contexto da modernidade.

Darwin é, a par de Freud e de Nietzsche, um dos pensadores que melhor emblematiza o legado intelectual, senão mesmo cognitivo, que é hoje o nosso.

André Levy et. al. Evolução: história e argumentos. Lisboa, Esfera do Caos. [ISBN: 978-989-8025-55-5]

André Levy et al. Evolução: conceitos e debates. Lisboa, Esfera do Caos. [ISBN: 978-989-8025-75-3].

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O visível e o invisível em Paulo Valverde

Posted in Artes, Autores, Edição, Efemérides, Livros, Vária by Luís Quintais on Domingo, 10-05-2009

670954[Paulo Valverde. Fez agora em Abril passado, mais precisamente no dia 4, dez anos sobre a morte daquele que terá sido porventura um dos mais significativos antropólogos portugueses de sempre. Dir-se-á que é fácil atingir essa meta, porque a concorrência sempre foi de pequena monta. Sim, sem dúvida. Mas para quem alguma vez assistiu a uma aula deste homem que morreu com 37 anos, ou para quem teve o prazer de ler as suas páginas hoje tão esquecidas, a sua celebração é incontornável. Nesse sentido, gostaria de deixar aqui um ensaio meu já com alguns anos que desenvolve algumas linhas de interpretação do que poderá ser a sua escrita e a sua estratégia de recodificação desse «texto» que é a «cultura». O ensaio faz remissões ao livro póstumo que inclui muitos dos seus trabalhos mais teóricos e uma parte que creio substancial dos seus diários e notas de campo. Serve também o presente post para chamar a atenção para esse livro que deverá estar, estou certo disso, a apodrecer, exemplares muitos, nalgum canto escuro de um armazém de refugos. Triste sorte para um prosador extraordinário cuja escrita terá pouquíssimos antecedentes entre nós, e que, no seu melhor, ombreia com páginas de Malinowski e de Leiris. Ah, é verdade, aí vai a referência: Paulo Valverde, Máscara, Mato e Morte. Textos para uma etnografia de São Tomé, Oeiras, Celta, 2000.].

Entre a pequena comunidade de antropólogos sociais portugueses, é reconhecida a enorme perda intelectual e afectiva (sobretudo para aqueles que com ele privaram de perto) que representou o falecimento prematuro de Paulo Valverde (1961-1999). Vítima de malária contraída em São Tomé, Paulo Valverde afirmar-se-á cada vez mais como uma espécie de personificação trágica e mítica da figura do antropólogo enquanto herói. Não no sentido lévi-straussiano do termo, isto é, enquanto herói civilizador capaz de resgatar o fogo sagrado de culturas cujo recorte elegíaco ou crepuscular se tornou forçosamente aparente durante o século XX. Mas antes como aquele que, compreendendo o quanto há de culturamente perverso nas modalidades salavacionistas mais ou menos declaradas mais ou menos conscientes da disciplina, se afadiga em traçar-lhe novos rumos não apenas metodológicos (Paulo Valverde era alguém que, comprometido com uma dada tradição metodológica, o fieldwork situado e localista, parecia cada vez mais incomodado com os seus limites) , mas também, e com especial ênfase, novos rumos analíticos. O heroísmo, a haver um, está na determinação e no seu risco (um risco que ele assumira e que pode ser qualificado igualmente pela intimidade cultural, sem par entre os antropólogos sociais portugueses das últimas décadas, que foi assegurando no terreno). Paulo Valverde acreditava na possibilidade da disciplina se reconstituir enquanto analítica das metanarrativas modernas, entre as quais se encontrariam, certamente, os projectos salvacionistas e politicamente correctos evidenciados por tantos dos seus contemporâneos, e, de forma particularmente indiossincrática e inquestionavelmente sedutora, demonstrava-o através dos seus textos, aulas, e inúmeros momentos de discussão informal de que poderam beneficiar todos aqueles que foram seus alunos e colegas. (more…)

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Edgar Allan Poe sem intuição e sem acaso

Posted in Artes, Autores, Comentários, Crítica, Edição, Efemérides, Livros, Notas, Poesia, Recensões, tradução, Vária by Luís Quintais on Domingo, 03-05-2009

d2687f5ef69d40cb8a6dc5b3121b3b95-smallbookPoe é um dos portais da modernidade literária. Sem ele, outra seria a nossa percepção do que foram/são Baudelaire, Mallarmé, Eliot, Pessoa, etc. Sem ele, não teríamos muito provavelmente, o drama da emoção e da razão tal como o viveram e expressaram os modernos.

Nos duzentos anos sobre o seu nascimento (Poe nasceu a 19 de Janeiro de 1809 e faleceu a 7 de Outubro de 1849), o mais traduzido dos autores americanos em Portugal, tem nesta Obra Poética Completa uma das suas homenagens mais significaticas.

Poe foi talvez um dos primeiros poetas a explicitar uma poesia por vir, marcada pelos desígnios maiores da ciência. A diluição dos «enigmas» da natureza e do humano, a convivência com um mundo «desencantado», a urgência de recodificação através das lições do gelo que a ciência comportava e comporta inexorovelmente: tudo temas que a poesia de Poe articula de um modo constante, ao mesmo tempo que pretende aceder a um patamar de reinvenção formal da escrita onde se apela a uma exigência de «método» (que o célebre ensaio «A Filosofia da Composição» enuncia).

Esta tensão entre o desencantamento do mundo e a sua requalificação pode ser ilustrada através do poema «Soneto – À Ciência»: «Ciência, ó filha do Tempo Velho! / Que, de olhos coruscantes, tudo espreitas, / Por que rasgas ao poeta o amplo peito, / Abutre de asa rude que se engelha? Como te pode amar, crer-te avisada, / Que o não deixaste andar, errante, ao vento, / Buscando as jóias que há no firmamento / Ainda que o singrasse de asa ousada? / Diana escorraçaste da quadriga, / Do bosque a Hamadríade (fugindo / Ela a abrigar-se em estrela mais amiga), / À Náiade tiraste a onda cava, / Ao elfo o prado, e a mim o tamarindo / Em cuja sombra eu no Verão sonhava.» (OPC, p. 80).

A edição é primorosa, com uma excelente tradução, introdução e notas de Margarida Vale de Gato (uma tradutora que merece referência pela qualidade e quantidade do seu trabalho de tradutora), e com notáveis ilustrações de Filpe Abranches.

Acresce ainda o já referido ensaio  “A Filosofia da Composição” (pp. 273-288), onde Poe explicita a génese de «The Raven» (ler p. 277), e nos revela a intenção de uma poesia sem «acaso» e sem «intuição».

É pena que a edição não seja bilingue; porém é compreensível: tal projecto iria seguramente encarecer uma edição desta exigência gráfica.

Edgar Allen Poe, Obra Poética Completa. Tinta-da-China, 2009 [ISBN 978-972-8955-93-9].

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Acidente e simulação em JG Ballard (pré-publicação)

Posted in Artes, Autores, Crítica, Efemérides, Livros, Notícias, Recensões, Vária by Luís Quintais on Segunda-feira, 20-04-2009

ballardsroom6Negativity is a positive task.
Paul Virilio

De que forma é que a literatura cooptou um dos dados mais fundamentais da experiência moderna: a presença incontornável (e o lado inexorável dos processos que essa presença reclama) de uma paisagem radicalmente transformada pelo concurso da ciência, ou melhor, da tecno-ciência? A pergunta instala-se imediamente num contexto de contornos difusos, mas mesmo assim decisivo para nós. A noção de tecno-ciência faz-nos assumir que o conhecimento científico se inscreve em complexas configurações de natureza social e material que lhe dão a sua gravidade, densidade, e poder. De que forma é que a literatura respondeu às figurações utópicas e distópicas do projecto moderno que visava projectar o mundo de acordo com os preceitos de um conhecimento politicamente necessário porque experimentalmente validável e universalmente verdadeiro?

Como alguém que prefere uma singularidade para fazer ecoar forças  de improvável cartografia que a atravessam, sugiro que nos concentremos num exemplo cujas reverberações se tornam, a meu ver, reveladoras. A minha sugestão é que nos atenhamos a uma espécie de genealogia mais ou menos solta da escrita de um romance particularmente influente e sobre o qual se projecta uma luz que gostaria de caracterizar como oracular, isto é, como se se tratasse de um objecto que reclama uma exploração extrema (e extremada) realizada num território de potencialidades que parecem emergir sinuosamente do presente, esse presente que se dilata e que nos colhe irremediavelmente. Estou a falar de Crash (1973) de JG Ballard, e Crash pode ser pensado a montante, porque o livro é o resultado de um conjunto de obsessões que lhe são prévias.

Em conformidade com um dos preceitos ballardianos que nos diz que, para lá das nossas obsessões, pouco haverá que valha a pena ser perseguido, Ballard aventurou-se quase sistematicamente, desde finais da década de sessenta, num território de inquietação profunda a que Freud designou de Das Unheimliche, e a que o antropólogo Victor Turner chamaria certeiramente de liminar, isto é, um território de improvável classificação, porque betwixt-and-between: nem dentro nem fora, mas antes no umbral, aí onde a viscosidade (um mundo que não é líquido e que não é sólido) se torna uma constante afectiva, e onde aquilo que nos fascina é igualmente aquilo que nos repugna.

O cenário é o de um mundo onde se dramatiza e performatiza o espectáculo debordiano de uma sociedade de consumo que faz das derivas tecnológicas – e dos sulcos que estas deixam no tecido da história e da paisagem – uma alavanca para o seu exercício autofágico e onde, polémica e prescientemente, tecno-ciência e pornografia se associam num exercício de reconfiguração do poder e do desejo.

(…)

No seu último Miracles of life, Shanghai to Shepperton: an autobiography (2008), Ballard revisita Crash, revelando-nos, mais uma vez, como se trata um livro profundamente enraizado num período histórico (os sixties) e como a tópica do «acidente» e da (more…)

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JG Ballard

Posted in Artes, Autores, Balanço, Comentários, Efemérides, Livros, Notas, Notícias, Vária by Luís Quintais on Segunda-feira, 20-04-2009

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Faleceu o nosso correspondente em Shepperton. Leia-se, por exemplo, o obituário do Guardian.

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Amor líquido

Posted in Efemérides, Livros by Ana Bela Almeida on Domingo, 15-02-2009

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When i fall behind in the quest for pleasure
I shall treasure this short time with you

“Timewatching”, do álbum Liberation dos Divine Comedy.

Numa recente viagem de avião, folheando a revista oferecida pela companhia aérea, entre vários artigos dedicados ao “mês de São Valentim”, atentei num sobre os novos serviços de dating através da internet. Segundo o director de uma destas empresas de relacionamentos, parece que é nos países mais desenvolvidos economicamente que os clientes apresentam mais queixas sobre a relação entre a qualidade do “produto” e o tempo dispendido a procurá-lo. Pagam para encontrar o amor depressa e, se tal não sucede, reclamam. A singularidade desta reportagem provém do facto de não constituir, como as outras da revista – quase todas publicidade a destinos de viagem mascarados de “românticos” e todos situados na rota da referida companhia aérea – um apelo ao consumo de um produto em nome do amor, mas de expressar um entendimento do próprio amor como objecto de consumo. Ocorreu-me logo a canção de António Variações, um grito que vem do que em nós ainda é humano: “Não me consumas!”.

Para uma reflexão sobre a relação do consumidor, que todos somos, com o amor, sugiro a leitura de Amor Líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos de Zygmunt Bauman. O amor como produto de consumo rápido, em série, descartável, que faz de todos nós isso mesmo: produtos consumidos em série, descartáveis. A salvação, segundo Bauman, passará pelo regresso ao compromisso e à permanência nos relacionamentos, apresentada como a única possibilidade de resistência do indivíduo contra o império da fragilidade neste mundo liquido, de empregos e amores flexíveis e em part-time:

(…) libertar o sexo da soberania da racionalidade do consumidor (…) que essa racionalidade seja destituída da sua actual soberania sobre os motivos e estratégias da política da vida humana.” (pag.70)

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Pelo milésimo Jóta-Éle

Posted in Balanço, Efemérides by Rui Bebiano on Quinta-feira, 29-01-2009

JL

A partir de 1981 e ao longo dos primeiros sete ou oito anos de publicação, à época semanal, fui comprando sempre o Jornal de Letras. Mas não foram apenas problemas de espaço que num repente me levaram a deixar de o fazer, aí pelo final da década. Vinha-me já distanciando, havia algum tempo, de um dialecto que me parecia demasiado fixo, datado, de temas e rostos repisados até ao esgotamento, de alguma reclusão em relação a um conceito de cultura que cada vez mais me parecia elitista e redutor, de um grafismo sonolento, que nem era clássico nem moderno. Foram duas as gotas de água que me levaram a deixar de comprar o jornal: a chegada de um número crescente de colaboradores incapazes de transcenderem um discurso académico autocentrado (e eu, pobre académico, queria tanto ouvir outra língua, outros timbres), e aquela incomodativa mania, que durou anos, para titularem todos, absolutamente todos os artigos, servindo-se das suas primeiras palavras.

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Este blogue segue dentro de momentos…

Posted in Efemérides by OLAMblogue on Segunda-feira, 12-01-2009

ronaldo

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Julio Cortázar: Poema de Ano Novo

Posted in Efemérides by OLAMblogue on Quinta-feira, 01-01-2009

fireworks

HAPPY NEW YEAR

Mira, no pido mucho,
solamente tu mano, tenerla
como un sapito que duerme así contento.
Necesito esa puerta que me dabas
para entrar a tu mundo, ese trocito
de azúcar verde, de redondo alegre.
¿No me prestás tu mano en esta noche
de fìn de año de lechuzas roncas?
No puedes, por razones técnicas.
Entonces la tramo en el aire, urdiendo cada dedo,
el durazno sedoso de la palma
y el dorso, ese país de azules árboles.
Así la tomo y la sostengo,
como si de ello dependiera
muchísimo del mundo,
la sucesión de las cuatro estaciones,
el canto de los gallos, el amor de los hombres.

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A propósito de nascimentos

Posted in Efemérides by OLAMblogue on Quinta-feira, 25-12-2008

O poema foi traduzido por Herberto Helder e incluído no volume Magias (1988). É «pertença» dos Dincas, do Sudão. E é a nossa contribuição para a data que hoje se assinala: 

No tempo em que Deus criou todas as coisas,
criou o sol,
e o sol nasce, e morre, e volta a nascer;
criou a lua,
e a lua nasce, e morre, e volta a nascer;
criou as estrelas,
e as estrelas nascem, e morrem, e voltam a nascer;
criou o Homem,
e o homem nasce, e morre, e não volta a nascer.

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Manoel de Oliveira: Coup de chapeau

Posted in Efemérides by OLAMblogue on Sexta-feira, 12-12-2008

oliveira

Uma certa recodificação da periferia cultural portuguesa aprecia denunciar a França e a sua «decadência». Um dia depois dos primeiros 100 anos de Manoel de Oliveira, nada como um exemplo da pertinência oca desse gesto pavloviano: a homenagem que os Cahiers du Cinéma fizeram, na p. 9 do seu último número, ao cineasta, sob o título «Coup de chapeau». Transcrevemo-la, traduzimo-la e oferecemo-la como exemplo daquele espírito de hospitalidade que sempre distinguiu a França que verdadeiramente importa. Neste momento, aliás, tão simbólico para o cinema português, convirá não esquecer a que ponto Oliveira é uma «invenção» francesa (como, depois dele, César Monteiro ou Pedro Costa; e, antes, Amália). Por outras palavras: aprendamos com os outros a não sermos avaros para com a grandeza, sobretudo quando ela é também, de algum modo, nossa.

Manoel de Oliveira tem cem anos. Bom aniversário, amigo Manoel.

Se aproveitamos esta ocasião para lhe endereçar esta saudação, não é tanto pelo motivo deste estado civil mas porque esta longevidade é a de uma aventura excepcional, e sempre activa. Aos 22 anos, Oliveira realiza um dos últimos muito belos filmes do cinema mudo, o experimental Douro, Faina Fluvial. Dez anos mais tarde, assina um inesquecível filme neo-realista, Aniki-Bobó, quando o termo nem sequer ainda existia. Com Acto da Primavera, reinventa a aliança do documentário e da ficção, do povo e do espírito. Pouco depois, a Revolução dos cravos arruína-o, e liberta-o. Desde essa altura, não pára. Não pára de pôr em causa, filme após filme, o teatro e a pintura, as imagens e as palavras, o romance e o ensaio, os corpos das estrelas e dos desconhecidos, as línguas de cá e de algures, de ontem e de agora, as canções, os textos sagrados, a grande história e todas as pequenas. O cinema de Oliveira é uma inesgotável máquina de pôr em causa, em crise e também de irrisão. As suas personagens são Madame Bovary, o papa e Krutschev, Chiara de Clèves, o telemóvel, o padre Las Casas, Job no seu monturo, um actor que representa Joyce, uma casa de infância, o diabo, Dostoievski, o paquete da civilização europeia, as vinhas do Douro, a Bíblia, os reis-fantasma e os militares perdidos do seu país. Mulheres, cavalos, Maria-das-sete-espadas, crianças, a roda da caleche que conduz à morte de um poeta, e a cinza do charuto. É isto que celebramos hoje, esta torrente impetuosa e incansável, que não cessa de escavar novos leitos: o aniversário de um homem, mas sobretudo uma festa para o cinema.

Os Cahiers

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O meu Lévi-Strauss

Posted in Efemérides by Osvaldo Manuel Silvestre on Sexta-feira, 28-11-2008

ansel-adams

O meu Lévi-Strauss são vários. É, em primeiro lugar, aquele que em Nova Iorque, no contexto do exílio provocado pela barbárie nazi, vai assistir a umas aulas de Roman Jakobson (um dos meus heróis do mesmo século) e tem a revelação da linguística saussureana. Não pelos resultados da revelação, ou seja, o «método»; mas pelo carácter exemplar de um episódio que nos ensina como a nossa vida pode mudar se mantivermos a disponibilidade certa para ouvir, isto é, aprender, mesmo as lições mais improváveis. É o excepcional escritor, aquele que torna não só difíceis mas estéreis os debates sobre os limites territoriais entre etnografia e literatura. Mas é sobretudo o homem que escreve, no final de Tristes Trópicos, passagens como esta (na p. 408 da edição portuguesa), nas quais se destila um pós-humanismo serenamente emancipador, passagens para as quais toda a classificação disciplinar é curta: 

O Mundo começou sem o homem e acabará sem ele. As instituições, os costumes e os hábitos que eu teria passado a vida a inventariar e a compreender são uma eflorescência passageira de uma criação em relação à qual não possuem qualquer sentido senão talvez o de permitir à humanidade desempenhar o seu papel. Longe de ser este papel a marcar-lhe um lugar independente e de ser o esforço do homem – mesmo condenado – a opor-se em vão a uma degradação universal, ele próprio aparece como uma máquina, talvez mais aperfeiçoada que as outras, trabalhando no sentido da desagregação de uma ordem original e precipitando uma matéria poderosamente organizada na direcção de uma inércia sempre maior e que será um dia definitiva. Desde que ele começou a respirar e a alimentar-se até à invenção dos engenhos atómicos e termonucleares, passando pela descoberta do fogo – e excepto quando se reproduz -, o homem não fez mais do que dissociar alegremente biliões de estruturas para reduzi-las a um estado em que elas já não são susceptíveis de integração. Sem dúvida, ele construiu cidades e cultivou campos; mas, quando pensamos neles, estes objectos são, eles próprios, máquinas destinadas a produzirem inércia a um ritmo e numa proporção infinitamente mais elevada que a quantidade de organização que implicam. Quanto às criações do espírito humano, o seu sentido não existe senão em relação a ele, e elas confundir-se-ão com a desordem quando ele tiver desaparecido.

 Osvaldo Manuel Silvestre

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Os 100 anos de C. Lévi-Strauss: Hermínio Martins

Posted in Efemérides, Inquérito by OLAMblogue on Sexta-feira, 28-11-2008

hmartins

Hermínio Martins foi professor nas Universidades de Leeds, Essex, Harvard, Pennsylvania e Oxford, e investigador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Autor dos livros Hegel, Texas e outros ensaios de teoria social e Classe, Status e Poder e outros ensaios sobre o Portugal contemporâneo; organizou o livro Knowledge and Passion – essays in honour of John Rex; co-organizador de Scientific Establishments and Hierarchies, Max Weber’s Science as a vocation, Debating Durkheim, A Morte em Portugal e Dilemas da civilização tecnológica. Publicou ensaios sobre federalismo, teoria social, epistemologia e o papel actual da ciência e da tecnologia, em revistas e colectâneas académcias. Agradecemos a Hermínio Martins a gentil colaboração nesta evocação de Claude Lévi-Strauss no dia em que comemora um século de vida.

OLAM: O que representa para si Claude Lévi-Strauss, hoje?

Se, para Bergson, o Homem seria uma “machine à faire des dieux”, para CLS, parafraseando essa visão, o Homem pode ser visto como uma “machine à faire des mythes” (embora não só, claro: também é natural que produza ciência, que por sua vez se espelha em mitos). Se professou a fé materialista, neurológica, a sua apreciação da nebulosa mitopoeica é rarissima entre os materialistas hodiernos “eliminacionistas”, os neurofilósofos da identidade (na versão forte da type-identity) do cérebro e da mente, para os quais a psicologia de senso comum teria que ser rejeitada completamente ab initio (como todos os modos de experiência e cognição não-científicos). Note-se que, crucialmente, a nota de reflexividade qualificaria a tese da “machine à faire des mythes”, pois se criamos os mitos, também é verdade que “les mythes se pensent en nous” (CLS foi um mestre da reflexividade: mais do que uma questão de estilo, o reflexivo joga na sua obra um papel homólogo ao do quiasmo no pensamento de Merleau-Ponty). Nesta vertente, a sua obra insere-se na grande tradição de pensamento ocidental sobre a função simbólica, de Vico, Schelling e Cassirer, património da antropologia filosófica transcultural. Toda a sua reflexão, segundo o próprio autor, se concentra na problemática de “l’ esprit humain”, os seus invariantes funcionais e ao mesmo tempo toda a diversidade imprevisível e precária das suas realizações: daí que, apesar de tudo, foi, de longe, o mais humanista dos estruturalistas. Como se vê também quando afirma que devemos recuperar o Direito Natural para a conservação comum de todos os povos. A sua obra escapa à aridez, estilística e conceptual, ao “pathos metafísico” caracteristico de tantos mestres antihumanistas franceses do último quartel do século XX, e pode-se ler e reler com proveito depois da ressaca niilista, sem falar do prazer estético da sua linguagem e da arquitectura musical de alguns dos seus trabalhos, numa época em que a escrita e a reflexão académica padecem tanto de amousia.

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Os 100 anos de C. Lévi-Strauss: Filipe Verde

Posted in Efemérides, Inquérito by OLAMblogue on Sexta-feira, 28-11-2008

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Filipe Verde é professor no Departamento de Antropologia do ISCTE e investigador do CRIA-CEAS. A sua pesquisa mais recente centrou-se num contexto clássico da etnografia ameríndia, os Bororo (Brasil), sobre os quais publicará em breve o livro O Homem Livre, e na teoria e epistemologia da Antropologia. Agradecemos a Flilpe Verde a sua disponibilidade para colaborar nesta evocação de Claude Lévi-Strauss, no dia dos seus 100 anos.

OLAM: O que representa para si Claude Lévi-Strauss, hoje?

Para mim C. Lévi-Strauss representa as horas e horas que ao longo de anos passei com os seus livros na mão, tentando perceber o que raio nos queria ele dizer para assim poder explicá-lo aos meus alunos. Representa também o rumo que o meu trabalho de investigação seguiu, porque quanto mais entendia o que ele dizia mais ia percebendo que não era nada daquilo que eu queria dizer. Os aficionados de Lévi-Strauss produziam então um trabalho que me parecia estéril e absolutamente destituído de relevância cognitiva – uma espécie de exercício cabalístico pelo qual, sempre idiossincraticamente e por recurso ao vocabulário da linguística de Saussure, se convertiam sintagmas em paradigmas, inventariavam códigos e as suas permutações, oposições, correlações e transformações, para depois, no fim de tudo, serem trazidas à luz “estruturas mentais universais” que se espremidas se revelavam tão rígidas e secas como uma noz. Para os estruturalistas o jogo de olhar para uma cultura e dispor assim os seus elementos justificava-se a si mesmo, absortos em baralhar e rebaralhar o baralho dos códigos distraíam-se da pergunta que tinham de colocar para poder abandonar a sua compulsão: para que serve fazer isso?

E no entanto, como se fosse preciso dizê-lo, a obra de Lévi-Strauss é uma obra clássica da antropologia, que marcou um tempo, um modo e um estilo de a praticar, é uma obra genial. Não fora o génio do seu autor, provavelmente a mais ninguém ocorreria sequer começar a percorrer os caminhos que Lévi-Strauss dir-se-ia percorreu até ao ponto mais distante, ou mesmo excessivo, a que ele conduz. O estruturalismo foi uma magnífica experiência antropológica, que incendiou polémicas, alargou enormemente os domínios da curiosidade etnográfica e acabou por contribuir, reactivamente, para apontar os caminhos futuros, mais interpretativos, politizados e radicalmente pós-objectivistas, da antropologia – gostar ou não gostar desses novos caminhos e julgar os méritos de os percorrer ou não percorrer é outra coisa, porque entretanto já se virou uma página da história da disciplina. O estruturalismo antropológico, que dir-se-ia não poderia ter saído da cabeça de mais ninguém senão de Lévi-Strauss, (e que em certo sentido com ele se confunde e a ele se resume) foi a manifestação do que os românticos chamavam génio, como aquele que através de um visão íntima e em última análise incomunicável produz as obras nas quais o mundo é iluminado de uma forma própria, tão própria que no-lo revela em termos que de outro modo nunca chegaríamos a ver. Mas resta sempre, claro, saber se é verdadeiro o que assim vemos.

O estruturalismo ficou para trás por boas razões: pela sua inatenção às dimensões fenomenológicas da cultura; pela sua negação da dimensão interpretativa do conhecimento antropológico; pela visão estreita da ideia de linguagem que tomou como guia; pelo seu pan-logicismo de proporções hegelianas; pela fundamentação da sua metodologia numa filosofia (um idealismo materialista, ou materialismo idealista, tanto faz) muito dúbia ou, pelo menos, muito, muito apressada.

E daqui a 100 anos? Fica aqui um vaticínio. A sua obra antropológica estará há muito esquecida e será apenas alvo da curiosidade de historiadores das ideias, que o são justamente porque lêem o que já ninguém há muito lê. Mas Tristes Trópicos ainda serão editados e lidos, um memorial de paisagens humanas fascinantes há muito desaparecidas e do talento literário do seu autor – de que celebramos o prémio maior de uma interessante e longa vida, um século de vida.

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Os 100 anos de C. Lévi-Strauss: Francisco Vaz da Silva

Posted in Efemérides, Inquérito by OLAMblogue on Quinta-feira, 27-11-2008

fvs

Francisco Vaz da Silva ensina antropologia e folclore no departamento de antropologia do ISCTE, em Lisboa. Trabalha sobre representações simbólicas numa perspectiva comparativa. Se lhe perguntassem, diria que o mais recente estado das suas ideias está impresso num livro chamado Archeology of Intangible Heritage (New York: Peter Lang, 2008). Agradecemos a Francisco Vaz da Silva a disponibilidade que revelou para colaborar connosco nesta comemoração do centenário de CLS.

OLAM: O que representa para si Claude Lévi-Strauss, hoje? 

A ÚLTIMA PALAVRA

Há Lévi-Strausses para todas as ocasiões, agendas e gostos. Hoje Lévi-Strauss é para mim, num sentido muito real, Lévi-Strauss em mim. A sua obra suscitou-me uma tal efervescência mental, na voragem e plasticidade intelectual dos vinte e picos anos, que caldeou e renovou os meus processos intelectivos. Pondo as coisas simplesmente, devo-lhe em grande medida o modo como desde então entendo o mundo.

Em boa verdade, este entendimento resulta largamente de um processo de erosão. Gradualmente dispensei discursos com efeitos especiais lógico-matemáticos, virei costas a cogitações abstrusas sobre conjunções e disjunções  e (com um ligeiro sentimento de culpa) larguei até o dogma venerando dos processos mentais de base binária.

Mas, no mesmo processo, a essência da herança intelectual de Lévi-Strauss naturalizava-se como parte do meu fluxo de consciência. Assim, dou hoje como adquirida a noção de que o pensamento simbólico opera a partir dos dados da sensibilidade, ao mesmo tempo que assumo  que compreender é sempre ir além das aparências. Tornou-se-me natural assumir que o sentido se constitui nas e pelas relações entre elementos (cada um dos quais seria opaco em si mesmo). E assumo que o pensamento simbólico é  dinâmico, pelo que a noção de transformação é fundamental para entender processos mentais que usam a metáfora para abarcar o mundo in toto.

Ocasionalmente suspeito até que a necessidade de totalização que Lévi-Strauss atribui ao pensamento mítico — e que a sua própria obra manifesta grandiloquentemente — infecta o meu próprio pensar, que é portanto menos «meu» do que admito. Em todo o caso, é certo que compreendi a pouco e pouco que certas mentes têm uma especial facilidade para se aplicarem às dinâmicas do pensamento simbólico. Tenho como certo que tal é o caso de Lévi-Strauss, assim como o de Freud — o qual Lévi-Strauss define desde cedo como um precursor e que afronta, num acto de freudiano parricídio intelectual (e portanto de homenagem derradeira), quase no termo da sua obra.

Seja como for, da frequência assídua destes dois autores aprendi a extraordinária complexidade de processos mentais a que chamarei totais (com um vago aceno a M. Mauss) dado que unem os recursos dos pensamentos «selvagem» e «domesticado». Tentei em tempos delinear aspectos e consequências desta complexidade da obra de Lévi-Strauss. Enviei-lhe o resultado deste esforço para comentário e recebi,  em carta datada de 21/3/2003, a seguinte resposta:

Quant à votre interprétation, je suis d’accord pour reconnaître qu’en matière de parenté aussi bien que de mythes, j’ai tenté de mettre en évidence un état de déséquilibre foncier. Je vous avoue toutefois qu’à la fin de ma vie, j’éprouve vis-à-vis de ce que, pour simplifier, j’appellerai mon œuvre, un certain détachement, et qu’à supposer qu’elle le mérite, je laisse à d’autres le soin de décider quel sens il convient de lui donner.

No que me diz respeito, esta é a sua última palavra quanto à obra que deixa. Entendo-a como sinal da rara grandeza de alma — síntese de humildade intelectual e de olhar distanciado — que revela Lévi-Strauss enquanto ideal longínquo a alcançar numa época em que «grandeza» e «alma» são noções de pouca monta.

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Amanhã: os 100 anos de Claude Lévi-Strauss

Posted in Autores, Efemérides by OLAMblogue on Quinta-feira, 27-11-2008

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Claude Lévi-Strauss nasceu a 28 de Novembro de 1908. Estudou leis e filosofia, mas as suas influências são vastíssimas. Imagine-se um lugar de encontro entre a geologia, a psicologia freudiana, o marxismo, a linguística moderna, e, indiscutivelmente, a música. Esse lugar de encontro chama-se Lévi-Strauss. Em 1934, deixou a França e partiu para o Brasil para ensinar sociologia. Terá lido, nesse mesmo ano, o livro de Robert Lowie, Primitive Society (1920). Virá então a realizar a sua viagem aos territórios dos Bororo, que coincide com uma das mais fascinantes viagens intelectuais do século XX. Em 1939 regressa a França, juntando-se à Resistência. Porém, é, na sua condição de judeu, aconselhado, a partir para Nova Iorque. É aí que vai passar a conviver com os elementos imigrados do Círculo de Praga (em particular com Jakobson) e com os surrealistas fugidos à guerra (Breton, Ernst). Lévi-Strauss recolhe vastas influências, em que avultam ainda os trabalhos de Durkheim e Mauss, mas também os dos culturalistas americanos, como Boas, Lowie, e Kroeber.  Logo após o final da Guerra, regressa a França. A sua tese de doutoramento (Doctorat d’ Etat) sobre «as estruturas elementares do parentesco» é publicada em França em 1949. A segunda edição surge em 1967. Les structures élémentaires de la parenté é seguido do magnífico (e já clássico) livro de viagens Tristes tropiques (1955). Seguem-se dois livros decisivos sobre classificação, publicados ambos em 1962, Le totémisme, aujourdhui e La pensée sauvage; e quatro volumes intitulados no seu conjunto por Mythologiques: Le Cru et le cuit (1964), Du miel aux cendres (1966), L’origine des manières de table (1968), e  L’Homme nu (1971). Destacam-se ainda duas colectâneas de ensaios (Anthropologie structurale [1958] e Anthropologie structurale deux [1973]) e vários estudos sobre linguagem e arte, o último dos quais publicado no ano de 1993, Regarder, écouter, lire. Em 2008 uma parte significativa da sua vastíssima obra é publicada na prestigiada la Pléiade.

Lévi-Strauss fará cem anos amanhã. A nossa homenagem começou neste texto de Luís Quintais e continuará hoje e amanhã, com depoimentos de Francisco Vaz da Silva, Filipe Verde e Hermínio Martins.

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