Os Livros Ardem Mal

Portugal não é uma província da Espanha!

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 16-09-2009

dicionario

 

«Este pack contém alguns dos primeiros filmes do realizador Werner Herzog, assim como vários dos seus mais interessantes documentários (Behinderte Zukunft, Die fliegenden Arzte von Ostafrika, ou o mais recente Lektionen in Finisternis, entre outros) e algumas das suas experiências no mundo das curta-metragens. Mais de catorce horas de cinema para disfrutar de estilo próprio, que converteu-o num dos realizadores europeus mais prestigiosos de todos os tempos».

«Reservados todos os dereitos. O contenido integral deste DVD está protegido pela Lei da Propriedad Intelectual e pelo Código Penal».

 

[Textos que acompanham os dois volumes da edição de filmes de Werner Herzog, na FilmotecaFNAC, em adaptação de edição originária da Avalon. Com o selo do MC e da IGAC]

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Nipónicas núpcias

Posted in Comentários by Pedro Serra on Sexta-feira, 04-09-2009

O que move o segundo marido de Miyuki Hatoyama? Vale a pena ler as virtuais palavras do amantíssimo esposo, recolhidas num livro que Miyuki escreveu, Coisas muito estranhas que encontrei (citado aqui). “Isso é fantástico”, escreve ela que teria dito, se tivesse dito, o actual marido. O ex, o de há vinte anos, o primeiro, fica como um sacana. Um sacana frio. É difícil saber o que move o segundo marido de Miyuki Hatoyama mas, bem vistas as coisas, representa as bondades das nipónicas segundas núpcias, que serão quase 30% das núpcias, depois de um crescimento exponencial nos últimos 20 anos.

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Cenas tristes em S. Carlos

Posted in Artes, Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Sábado, 25-07-2009

Pelo que li, a primeira cena foi a seguinte (cito do Público):

 

O espectáculo “Recital e Tal”, produzido pelas Produções Fictícias, com selecção de textos de Nuno Artur Silva e Inês Fonseca Santos, e interpretação de Rita Blanco, Diogo Dória e Miguel Guilherme, adapta o “Manifesto Anti-Dantas”, de Almada Negreiros, para um texto anti-Ricardo Pais, incluindo a célebre frase “Morra o Dantas, morra! Pim”.

“Recital e Tal” foi apresentado há uma semana no Festival ao Largo, que encheu o largo do Teatro de São Carlos, em Lisboa, no último fim-de-semana.

 

Seguiu-se a segunda cena: Ricardo Pais, muito bem no seu papel, declarou que considerava o caso «uma insignificância».

Por fim, a terceira cena: a presidente do Conselho de Administração do S. Carlos e o director do D. Maria vieram «repudiar» a cena I, pedir desculpa a Ricardo Pais por ela, afirmando por fim: “Se tivéssemos sabido antecipadamente desta intenção teríamos optado por programar outro espectáculo”.

Um comentário breve, mas antes uma declaração de intenções: sou, creio, dos poucos portugueses que acham manifestamente abusivo o espaço ocupado pelas Produções Fictícias na produção do humor mediático em Portugal, e um dos que ressentem a ocupação do espaço público por essa empresa, no que se afigura um verdadeiro Take Over quase monopolista. Sou moderadamente apreciador de muita coisa dessa linha de produção: por exemplo, do Inimigo Público, que há muito não leio, do Eixo do Mal, etc.

Posto isto, o que é verdadeiramente lamentável nesta peça é o seu episódio III, digno de uma República (kultural) das Bananas. Não discuto o mérito de Ricardo Pais como encenador (mas suponho que o que está em causa é o seu lado «Citizen Kane»); mas também não discuto o direito das pessoas acima referidas a satirizá-lo, com ou sem razão (numa sociedade aberta, não é possível, nem legítimo, decidir dessa razão antes da sátira, que é aliás um direito cívico, ter lugar). O que me parece eminentemente discutível é o espectáculo, dado pelo director e presidente do Conselho de Administração de duas instituições centrais das nossas artes do espectáculo, de subserviência («respeitinho»), temor e inclinações censórias, confessadas de resto sem pejo. O que essas duas entidades conseguiram com a sua lamentável intervenção foi perverter o teor, inteligente, da declaração de Ricardo Pais sobre o espectáculo em causa. Por outras palavras, fizeram dele uma «não-insignificância».

Se era isto o que o Ministro da Cultura queria dizer quando afirmou, também ao Público, que o caso mostra que não evoluímos muito desde o «Manifesto anti-Dantas», os meus parabéns pela judiciosa opinião. Quanto aos intervenientes na triste Cena III, a única coisa a dizer é: Shame on you!

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Um preto, aos 80

Posted in Comentários, Fotografia, Música by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 22-07-2009

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Ornette Coleman, na Wire de Junho. Na capa e a ilustrar a entrevista, fotos admiráveis de Mark Mahaney. Agora que o ícone global, Michael Jackson, morreu, estas imagens, com antecedência de um mês, dão-nos a versão recalcitrante do preto não reciclável. São, de um estranho modo, uma pedagogia da memória – a memória de algo como The Souls of Black Folk -, num momento em que a ascensão de Obama poderia sugerir a inutilidade, ou pelo menos a dispensabilidade, desta. A Wire, sempre esperta, chamou a este Ornette aos 80, Empire State Human. Lamento, mas não confere com as fotos. Nelas, desde a extraordinária foto da capa, em que o transcendente parece ser objecto de um olhar suspeitoso (por efeito de um chapéu que obriga a contemplá-lo de soslaio), Ornette parece antes distantemente encenar a longa teoria de máscaras do negro americano, desde o Louis Armstrong de rasgado sorriso alvo e lenço na mão ao interminável processo de recodificação de Jackson e, por fim, à «normalidade» de Obama, a mais difícil das recodificações. Ornette repropõe uma figura clownesca, alguém que joga com um chapéu de cabedal amolgado o difícil jogo céptico de quem não esquece a máscara que a ideologia sempre colou ao «preto americano»: o da sua irrelevância, apenas redimível por um efeito de simpatia, qual o que se sente por um velhote frágil posando com (ou por meio de) um chapéu. Um discreto, mas poderoso, efeito Tati, digamos. Quando irrompeu na cena jazz, sobretudo após Free Jazz, Ornette foi convidado para tocar em pelo menos um congresso como representante do «feio» (o saxofone de plástico ajudava…). Ornete não fazia grandes proclamações: tocava, sim, a sua música «feia», rodeado dos grandes músicos que o acompanhavam. Muitas décadas depois, e após ter operado o seu peculiar revisionismo sobre o «jazz», e mesmo sobre o «free», com o seu sistema «harmolódico», este Ornette parece desconfiar: do progresso, da redenção, da recodificação ou reciclagem do passado. A forma como opera é, algo paradoxalmente, por reciclagem: de uma iconografia do passado, de uma alma que perdura (a do preto americano) para lá de todas as recodificações. Mostrando – com uma muito especial autoridade, é caso para dizer – que as revoluções demoram muito tempo a chegar – e mais ainda a ter efeitos.

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Leituras estivais: Kleist (I)

Posted in Autores, Comentários, Livros by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 19-07-2009

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Entre A Montanha Mágica em nova tradução, Os Meus Prémios, de Thomas Bernhard, e agora este Sobre o Teatro de Marionetas e outros escritos, de Heinrich von Kleist, as leituras de Verão (as minhas, em todo o caso) parecem dominadas pelo alemão.

Fico-me, por agora, por Kleist, esse autor sem par. Esta é uma edição exemplar, pelo cuidado com que foi feita – patente na acribia da anotação, na qualidade da Introdução, no rigor da tradução -, o que não surpreende, uma vez que o seu responsável, José Miranda Justo, já nos deu vários outros exemplos de excelência nesta mesma editora (relembro, assim de repente, as suas edições dos ensaios de Wagner, inexcedíveis).

O livro, diga-se, é um deslumbramento, pelos textos que enfeixa em torno do que lhe dá título e que acabam por tornar ainda mais denso (e único) esse texto tão enigmático. Somando a isso o cuidado de factura da Antígona, de novo patente neste livro, esta é uma edição para ler devagarinho, para saborear o fulgor de uma escrita e um pensamento como nunca voltou a haver e para guardar num lugar de destaque na estante.

Mas isso é para depois; por agora, transporto-o na mochila, vou lendo e relendo ao primeiro pretexto, sem vontade de me separar dele.

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Check(Mating)

Posted in Artes, Comentários, Notas by Pedro Serra on Segunda-feira, 13-07-2009

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O jogo suspende o tempo para ganhar tempo, mas a Morte acaba por vencer: quando pensamos no xadrez teremos na retina, entre outras, a fantástica partida do Cavaleiro medieval, Antonius Block, e a Morte n’ O Sétimo Selo de Ingmar Bergman. No negócio dos óbitos, o xeque-mate é sempre jogada da Morte. Diria que Antonius Block não negoceia verdadeiramente, e não o faz por ética de classe: ou tudo ou nada, escatologia dos eleitos. A ética dos onzeneiros, sim. Dela é o purgatório que nasce na baixa Idade Média como estudou Le Goff: bálsamo de aflições pela salvação sufragada e pelo depósito a prazo. Antonius Block, paradigma de todas as virtudes violentas do guerreiro, joga xadrez com a Morte, furibundo bellator. Contudo, há uma outra tradição, também medieval, no imaginário do xadrez: a do jogo heterossexual, tradição que tem um avatar na performance de Marcel Duchamp e Eve Babitz de 1963. É esta tradição que justifica o post: não o xeque-mate, mas o (check)mating, estudado por Patricia Simons nos seguintes termos:

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Um bocadinho optimista, não?

Posted in Artes, Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Sábado, 11-07-2009

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Longe de Camões, próximo de Montaigne

Posted in Comentários by Luís Quintais on Quinta-feira, 02-07-2009

«Se queríamos verdades caseiras melhor seria que tivéssemos ficado em casa.» (Clifford Geertz)

Gostaria, num primeiro momento, de vos levar a pensar Camões e Os Lusíadas de acordo com uma dada figuração do tempo que me parece ser aquela que lhe serve de contexto. Gostaria ainda, num segundo momento, de estabelecer um paralelo entre Camões e um seu contemporâneo, Michel de Montaigne (1533-1592). Esta comparação pretende mostrar como uma sensibilidade antropológica moderna estará porventura muito mais do lado de Montaigne do que de Camões.

tomb-camoes3-cc-brunurbCamões (c. 1524-1580) e Montaigne escrevem num período em que emerge uma recodificação do tempo da viagem e das suas narrativas. Dir-se-ia que é durante esse período que surge aquilo a que qualificamos como «antropológico» e que passa pelo reconhecimento da diferença e pela vontade de saber que se lhe encontra associada, ainda que em moldes muito pouco consonantes com aquilo que virá a acontecer já em pleno século XX com Bronislaw Malinowski na Europa e Franz Boas nos EUA.  Mas aquilo que talvez possamos dizer, em abono da verdade, é que não há no nosso épico, até onde posso perceber, um modo de escapar às encruzilhadas conceptuais, vocabulares e narrativas de um tempo que tendia a ver na alteridade representada por povos distantes no espaço um sinal de uma realidade mírifica a ser domesticada ou apropriada exemplarmente e a todo o custo. Lamento dizê-lo, mas se quisermos fazer remontar a sensibibilidade antropológica da qual nos reclamamos hoje a alguém desse período, o melhor é deslocarmos a nossa atenção para Michel de Montaigne.

Mas voltemos ao nosso ponto de partida. Ao tempo da viagem e da narrativa que é o do século XVI.

Para uma certa matriz judaico-cristã (ou tradição), o tempo foi concebido e celebrado como uma sequência de acontecimentos de uma narrativa sagrada, isto é, como o instrumento de uma sacralização da história. O caminho para a modernidade – onde podemos situar Camões e Montaigne -, de onde haveria de surgir a sensibilidade antropológica, dá-se com a secularização do tempo. Esta secularização, como nos mostrou Johannes Fabian em Time and the other (1983), foi o resultado de uma «generalização» e «universalização» do tempo judaico-cristão. O «tempo universal» foi estabelecido politicamente na Renascença como uma resposta aos desafios cognitivos lançados pelos Descobrimentos.

O que contribuiu de uma maneira notória para a transformação de um tempo sagrado num tempo secular foi aquilo a que Fabian denomina de «topos da viagem». Na tradição cristã, as passagens do Salvador e dos santos sobre a terra eram entendidas como os elementos constitutivos de uma história sagrada. O que se traduzia em viagens envoltas em desígnios espirituais: as cruzadas, as peregrinações e as missões são exemplos de tais demandas sagradas. Dir-se-ia que o tempo de Camões e de Montaigne é um momento de transição para outra coisa que se tornará muito clara no Iluminismo.

A sermos rigorosos só podemos dizer que a viagem se torna verdadeiramente fonte de conhecimento «filosófico» e secular no século XVIII – é pelo menos aí que essa explicitação se torna clara. Por exemplo, é em 1800 que se publica A observação dos povos selvagens de Jopseph Marie Degérando. Nele, escreve Degérando: «[O] filósofo viajante, navegando até aos confins da terra, está de facto a viajar no tempo; ele está a explorar o passado; cada passo que dá é a passagem de uma era» (cit. Fabian 1983: 7). Neste fragmento podemos pressentir, desde logo, a viagem entendida como um veículo de auto-descoberta e de afirmação de um tempo secular. É neste contexto, justamente, que se explicita de modo inequívoco a viagem entendida como uma prática secularizadora do espaço e como um modo de temporalização dotado de propósitos igualmente secularizadores.

Em Camões não encontramos senão um mundo onde acontecimentos míticos e acontecimentos históricos se parecem suceder em moldes muito mais próximos daquilo a que Fabian designa por «tempo da Salvação» (Fabian 1983: 13), isto é, acontecimentos míticos e históricos tidos como significativos no quadro de uma narrativa sagrada. Poderemos vê-lo através das relações temporais circunscritas pelo épico. Em grande medida, apesar das inflexões humanistas e universalistas (que tingem de hibridez esta quadro em que faço situar a minha avaliação), Camões faz apelo a um paradigma temporal judaico-cristão e medieval, isto é, ele desdobra a narrativa tendo em conta o tempo inclusivo e incorporativo da salvação em que a alteridade (o pagão ou infiel) é conceptualizada como um potencial candidato a essa salvação. (more…)

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Vanguarda e Kitsch

Posted in Comentários, Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 10-06-2009

A longa história das alianças infelizes entre política emancipatória e estética retrógrada acaba de ganhar mais um contributo inestimável com o clip da X Marcha do Orgulho LGBT. Manifestamente colocado sob a égide do movimento cívico pelo casamento gay, o clip é uma sucessão de casais felizes – melhor: felizes até à náusea -, paisagens tipo postal ilustrado e uma série de máximas humanistas como «Todos somos família». Depreende-se deste clip, entre outras coisas, que (i) não há LGBT’s feios; pelo contrário, todos poderiam ser modelos em Paris, o que não é tanto emancipatório como traumático e, tranchons le mot, reaccionário para aquilo que é o imperativo político de reconhecimento da diferença, que passa também necessariamente pela diferença da não-beleza físico-atlética ou, se se preferir, do corpo não-canónico; (ii) não há LGBT’s infelizes, ou melhor, não há casais LGBT infelizes, o que não parece ser um ponto de partida minimamente realista para enfrentar a instituição do casamento, inseparável hoje da do divórcio; (iii) não há quase T’s no universo LGBT (um para amostra).

Não vale a pena invocar as supostas prerrogativas transcendentais do camp a este respeito, apesar do começo com dois «césares» laureados. O clip é simplesmente kitsch e a sua análise não necessita ir além da analítica produzida por Kundera, em A Insustentável Leveza do Ser, para a relação entre realismo socialista e kitsch. Porque este é, de facto, o universo do realismo socialista, agora em versão LGBT: o futuro que nos sorri e para o qual caminhamos de mãos dadas numa onda que percorre um planeta enfim reconciliado (ou, o que dá no mesmo, cromaticamente saturado).

Moral deste clip? As boas causas não dispensam uma reflexão sobre a sua tradução em forma significativa, assim como o desejo de «normalidade» não desculpa a tradução da vida conjugal em telenovela. Ou seja: há um preço a pagar quando o progressismo dá as mãos ao reaccionarismo estético. Podemos chamar a esse preço «Humanismo» ou «Neo-Realismo» ou, simplesmente, Kitsch. Vale a pena pagá-lo? Sim, se o efeito visado for a redução da diferença a uma emoliente retórica pseudo-política ou, o que é ainda pior, à tradução da vanguarda em kitsch.

P.S. Para que se perceba a diferença (a da diferença que faz efectiva diferença), proponho antes este clip europeu.

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Ich auch

Posted in Autores, Comentários by Pamplinas on Sábado, 06-06-2009

Adornoshirt

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O Chekhov dos subúrbios

Posted in Autores, Comentários, Edição, Livros, Notas, Recensões, tradução by Luís Quintais on Sexta-feira, 29-05-2009

09-03-ContosCompletos-CatNum registo diverso, gostaria de destacar a publicação recente deste magnífico volume de contos (a que se anuncia um segundo volume) de John Cheever. Cheever nasceu a 27 de Maio de 1912 e faleceu a 18 de Junho de 1982. Trata-se de um dos grandes escritores norte-americanos de contos do século XX, só comparável a Sherwood Anderson, Hemingway, ou, mais recentemente, a Raymond Carver.

Cheever é por vezes apelidado como «o Chekhov dos subúrbios», e podemos encontrar neste volume reunidas algumas das suas histórias mais conhecidas, entre as quais se encontram «Adeus, meu irmão», «O rádio enorme», «O comboio das cinco e quarenta e oito» e «O marido do campo».

Convém talvez acrescentar que os contos reunidos de Cheever obtiveram o Prémio Pulitzer de 1979 para ficção. (Tradução segura de José Lima).

John Cheever. Contos completos I, Lisboa, Sextante. [ISBN: 978-989-8093-87-5]

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Darwin rules

Posted in Autores, Comentários, Edição, Efemérides, Livros, Notas, Recensões by Luís Quintais on Sexta-feira, 29-05-2009

evolucao2_bigNos 200 anos do nascimento de Charles Darwin (nascido a 12 de Fevereiro de 1809) e nos 150 da publicação da Origem das espécies (24 de Novembro de 1859), a Esfera do Caos, uma editora que tem vindo a publicar excelente literatura de divulgação científica em Portugal, lança-se num projecto pioneiro sobre a grande constelação darwiniana de que são testemunho estes dois volumes, estando prometidos mais dois, Vida: origem e evolução e Homem: origem e evolução. A série, aliás, chama-se «Fundamentos e desafios do Evolucionismo», e vem colmatar uma enorme lacuna no espaço intelectual português que, em geral, ignora a importância de Darwin para o entendimento do que será porventura o nosso presente. Através destas páginas (que articulam textos clássicos traduzidos pela primeira vez com textos especialmente encomendados para o efeito) poderá eventualmente situar-se Darwin no contexto da modernidade.

Darwin é, a par de Freud e de Nietzsche, um dos pensadores que melhor emblematiza o legado intelectual, senão mesmo cognitivo, que é hoje o nosso.

André Levy et. al. Evolução: história e argumentos. Lisboa, Esfera do Caos. [ISBN: 978-989-8025-55-5]

André Levy et al. Evolução: conceitos e debates. Lisboa, Esfera do Caos. [ISBN: 978-989-8025-75-3].

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Cannibal & Co. (V)

Posted in Comentários, Poesia by Pedro Serra on Segunda-feira, 11-05-2009

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Um beijo conta-se pelos dedos. Vêm depois do beijo o Natal e o Ano Novo, imaculada conceição da democracia postal dos beijos seráficos:

“amores, os meus

atiro-te um beijo joana dos ratos.
mónica dentes podres a vós lanço-vos uma
promessa de amor. sandra complexo
de mongol, a ti, querida,
um bouquet de jasmins. e tina
andróide apenas uma perna, para ti
carícias na mama esquerda. a
vós todas, mais a fátima carcinoma pelo na venta
a quem introduzo o dedo na vagina,
a todas vós,
feliz natal e excelente ano novo.”

hélio t.

 
Atirado em bruto pelo enervamento digital, o beijo dá pauladas no nome, qualquer nome de bonina:

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Irvine Welsh e a morte da literatura

Posted in Autores, Comentários, Livros, Notas, Recensões by Luís Quintais on Sábado, 09-05-2009

9789725647592_1234381131_3O  romance de Irvine Welsh, originalmente publicado em 2002, é construído em torno de múltiplas vozes, vozes essas que são reconhecíveis após a leitura do célebre Trainspotting (1996), do qual é, aliás, uma sequela. Welsh é uma espécie de escritor picaresco e joyceano que escreve furiosa e polemicamente sobre a experiência contemporânea.

Um aspecto particularmente interessante prende-se com o uso dos diálogos e dos idiomas locais e de grupo que podemos descobrir aqui em registos diversos, entre os quais se destacam, evidentemente (para quem já conhece Welsh), as práticas e linguagens próprias de uma certa marginalidade/youth culture britânica, de que Welsh é, sem dúvida, um magnífico mitógrafo.

Ninguém há como Welsh para nos mostrar a «fala» dos seus protagonistas, com uma eficácia verdadeiramente estonteante e paródica. Talvez Welsh seja mesmo um dos mais interessantes émulos de Joyce, hoje.

O livro é, aliás, excelente para quem gosta de ver as possibildades literárias do calão a acontecerem na página.

Prefiro citar aqui, porém, o primeiro parágrafo do capítulo com o inefável título de «…punhetas mal batidas…». Aí Welsh mostra-nos através da voz de uma das suas personagens (Nikki), como a literatura já não é o que era, e como ela exige uma reconfiguração dos seus limites e temas:

«Cada vez que mudo de disciplina sinto-me mais fracassada. Contudo, a meu ver, os cursos académicos são como os homens; mesmo o mais fascinante só consegue cativar o nosso interesse durante algum tempo. Agora o Natal já passou e estou outra vez solteira. Mas o facto de mudar de disciplina não é tão angustiante como mudar de instituição pedagógica ou de cidade. Consolo-me por ter ficado na Universidade de Edimburgo um ano inteiro, bem, quase. Foi a Lauren que me convenceu a mudar de curso de literatura para estudos dos media e do cinema. A nova literatura é o cinema, disse ela, citando uma revista idiota qualquer. Como é óbvio, expliquei-lhe que não é nos livros nem no cinema que as pessoas hoje em dia aprendem alguma coisa sobre a narrativa, mas nos jogos de vídeo. Se realmente queremos ser radicais e modernos, devemos passar os nossos dias no salão de jogos do bairro a rivalizar com um monte de gajos anémicos, para garantir o teu lugar nas máquinas» (p. 35).

Irvine Welsh. Porno, Quetzal, 2009, trad. de Colin Ginks [ISBN 978-972-564-759-2].

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Edgar Allan Poe sem intuição e sem acaso

Posted in Artes, Autores, Comentários, Crítica, Edição, Efemérides, Livros, Notas, Poesia, Recensões, tradução, Vária by Luís Quintais on Domingo, 03-05-2009

d2687f5ef69d40cb8a6dc5b3121b3b95-smallbookPoe é um dos portais da modernidade literária. Sem ele, outra seria a nossa percepção do que foram/são Baudelaire, Mallarmé, Eliot, Pessoa, etc. Sem ele, não teríamos muito provavelmente, o drama da emoção e da razão tal como o viveram e expressaram os modernos.

Nos duzentos anos sobre o seu nascimento (Poe nasceu a 19 de Janeiro de 1809 e faleceu a 7 de Outubro de 1849), o mais traduzido dos autores americanos em Portugal, tem nesta Obra Poética Completa uma das suas homenagens mais significaticas.

Poe foi talvez um dos primeiros poetas a explicitar uma poesia por vir, marcada pelos desígnios maiores da ciência. A diluição dos «enigmas» da natureza e do humano, a convivência com um mundo «desencantado», a urgência de recodificação através das lições do gelo que a ciência comportava e comporta inexorovelmente: tudo temas que a poesia de Poe articula de um modo constante, ao mesmo tempo que pretende aceder a um patamar de reinvenção formal da escrita onde se apela a uma exigência de «método» (que o célebre ensaio «A Filosofia da Composição» enuncia).

Esta tensão entre o desencantamento do mundo e a sua requalificação pode ser ilustrada através do poema «Soneto – À Ciência»: «Ciência, ó filha do Tempo Velho! / Que, de olhos coruscantes, tudo espreitas, / Por que rasgas ao poeta o amplo peito, / Abutre de asa rude que se engelha? Como te pode amar, crer-te avisada, / Que o não deixaste andar, errante, ao vento, / Buscando as jóias que há no firmamento / Ainda que o singrasse de asa ousada? / Diana escorraçaste da quadriga, / Do bosque a Hamadríade (fugindo / Ela a abrigar-se em estrela mais amiga), / À Náiade tiraste a onda cava, / Ao elfo o prado, e a mim o tamarindo / Em cuja sombra eu no Verão sonhava.» (OPC, p. 80).

A edição é primorosa, com uma excelente tradução, introdução e notas de Margarida Vale de Gato (uma tradutora que merece referência pela qualidade e quantidade do seu trabalho de tradutora), e com notáveis ilustrações de Filpe Abranches.

Acresce ainda o já referido ensaio  “A Filosofia da Composição” (pp. 273-288), onde Poe explicita a génese de «The Raven» (ler p. 277), e nos revela a intenção de uma poesia sem «acaso» e sem «intuição».

É pena que a edição não seja bilingue; porém é compreensível: tal projecto iria seguramente encarecer uma edição desta exigência gráfica.

Edgar Allen Poe, Obra Poética Completa. Tinta-da-China, 2009 [ISBN 978-972-8955-93-9].

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Acabou o Mundo Perfeito

Posted in Comentários by Ana Bela Almeida on Quinta-feira, 30-04-2009

A Isabela decidiu pôr fim ao Mundo Perfeito, após apropriação dos textos dela sobre o período colonial por um blogue racista e de extrema-direita, com a conivência dos comentadores de blogues que, ao contrário do que ocorreria num mundo realmente perfeito, acham que na blogosfera vale tudo.

http://omundoperfeito.blogspot.com/

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JG Ballard

Posted in Artes, Autores, Balanço, Comentários, Efemérides, Livros, Notas, Notícias, Vária by Luís Quintais on Segunda-feira, 20-04-2009

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Faleceu o nosso correspondente em Shepperton. Leia-se, por exemplo, o obituário do Guardian.

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O sentido é revisitação ou uma selva dentro da selva ou por que é que o cérebro não explica a arte ou só a explica parcialmente

Posted in Artes, Autores, Comentários, Livros, Notas, Oficina, OLAM, Vária by Luís Quintais on Sexta-feira, 03-04-2009

neuronUm dos aspectos mais interessantes das chamadas neurociências cognitivas contemporâneas prende-se com a relevância que aí assume uma imagem do cérebro enquanto estrutura dotada de uma complexidade e de uma plasticidade extraordinárias.

A arte pode ser pensada frutuosamente como um aspecto da cognição humana, isto é, como algo que resulta de um processo multiforme de aquisição de conhecimento, e, nesse sentido, como algo que radica em processos que poderíamos descrever como mentais.

O problema começa talvez aqui.

A minha tese é a de que sem cérebro não há mente (o que é, desde Thomas Willis e da «neurocentric age», uma evidência incontestável), mas que a mente não é o cérebro; penso, aliás, que não há consensos alargados sobre aquilo que a mente é, e de que forma é que podemos passar das ontologias na terceira pessoa para as ontologias na primeira pessoa, ou, de outro modo, da objectividade para a subjectividade, e vice versa. Estamos na fronteira, e toda a gente sabe como são as fronteiras que tornam a ciência fascinante, difícil, ou, de outro modo, de exercício quase improvável. Somos confrontados com aquilo que não sabemos, ou, eventualmente, com os limites do que sabemos.

De acordo com uma leitura wittgensteiniana do que se encontra aqui em causa, talvez estejamos perante um problema de linguagem ao dizermos que são os cérebros que pensam.

Wittgenstein ensinou-nos, como nenhum outro, a suspeitar da linguagem. As palavras podem trair-nos e levar-nos a olhar para certos problemas como problemas reais, quando eles não passam de puzzles que devem ser desmontados. Assim, se os estômagos não comem também é muito improvável que os cérebros pensem, ainda que, e volto a enfatizar este ponto, não possa haver pensamento (e todos os seus avatares: consciência, intenção, memória, etc.) sem cérebro.

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Transparente

Posted in Comentários by Miguel Cardina on Quarta-feira, 18-03-2009

Em Timbuktu, Paul Auster fala de uma invenção por fazer: a torradeira transparente.

“Por que é que a gente não há-de poder ver o pão passar do branco inicial ao castanho dourado, ver a metamorfose com os nossos próprios olhos? Qual é a vantagem de fecharmos o pão a sete chaves e de o escondermos atrás daquela coisa tão feia que é o aço inoxidável? O que eu proponho é vidro transparente, com as espirais cor de laranja refulgindo lá dentro. Seria o Belo em nossas casas.”

Pensem nisto empreendedoras e empreendedores do nosso país. Pensem nisto. E depois digam, como o outro, que “não há almoços grátis”. Ou livros úteis.

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Kertész

Posted in Autores, Comentários, Recensões by Luís Quintais on Segunda-feira, 16-03-2009

51tau0utr2l_sl500_aa240_O escritor Imre Kertész, nascido em 1929 em Budapeste, judeu húngaro, sobrevivente à experiência dos campos de exterminío, e Prémio Nobel da literatura do ano de 2002, é, sem dúvida, um escritor notável. A inteligência narrativa de Kertész, a acuidade e sobriedade estilísticas, o significado moral dos seus textos, não encontram grandes paralelos na ficção contemporânea, a não ser, talvez, em JM Coetzee.

Kertész, desde que ganhou o Nobel, tornou-se um escritor traduzido e amplamente divulgado. Em Portugal existem já algumas traduções, destacando-se, pela Editorial Presença, a publicação de A Recusa, Sem Destino, e Kaddish Para Uma Criança Que Não Vai Nascer, um tríptico que parte da sua memória do intolerável em Auschwitz e Buchenwald.

Detective Story (2009), em tradução inglesa de Detekívtörténet (1977), reflecte em grande medida a dimensão fortemente moral e política do seu percurso de escritor. Trata-se de um romance que se detém no espaço interior de um homem, um torturador. O cenário é o de uma prisão num país sem nome da América latina. Um regime ditatorial chegou ao seu fim, e esse homem, Antonio Martens está encarcerado a cumprir uma pena por ter pertencido à polícia secreta que torturou e executou Enrique Salinas e seu pai, Frederigo.

O texto é escrito na primeira pessoa do singular – é fundamentalmente um texto confessional, procurando justamente captar a voz de Martens -, fazendo incorporar ainda fragmentos de um diário de Enrique (que se encontram na posse de Martens), o jovem brutalmente assassinado pela polícia secreta. Assim, temos aqui uma ficção que procura mergulhar na psicologia profunda, na subjectividade extrema, do vitimizador e da vítima, numa tensão entre inocência e cinismo, magnificamente trabalhada por Kertész.

Imre Kertész (2009) Detective story, Vintage [ISBN 978-0099523390]

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Primo Levi, um «best seller clássico»

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Sábado, 14-02-2009

Saiu, suponho que muito recentemente, uma nova edição de Se isto é um homem, o inclassificável livro de Primo Levi sobre os campos de extermínio. Mais exactamente, sobre Auschwitz. Nesta nova edição na editora de sempre, a Teorema, o nome do autor aparece em tamanho garrafal e em relevo, impresso a verniz e, não fôssemos nós não alcançar o dramatismo da obra (e deste nome de autor), a vermelho. Na capa, uma foto de um campo que em nenhum lado do livro é referenciada. Ao cimo, antes mesmo do nome do autor, uma frase promocional: «Uma das mais lúcidas e impressionantes visões dos campos de extermínio nazis». Ainda assim, a coisa parece não ter sido bastante, pois abaixo do título, e entre dois filetes a preto, surge a frase que realmente importa: «Best Seller clássico da literatura mundial».

Eu, que até me considero um «realista» em matéria de mercado, o que quer dizer que tenho estômago para muito, não consigo deixar de olhar para esta capa sem sentir que há aqui algo da ordem da profanação. E estou a conter-me. E, por favor, não me venham endoutrinar sobre o carácter não-sagrado dos livros, puros bens no mercado… Porque, como se aprende no mercado, há bens e bens, assim como há livros e livros. Coisa que obviamente todos os editores sabem muito bem, mesmo quando pretendem o contrário. E este é um desses livros, tal como Auschwitz é um dos nomes impronunciáveis, porque pestíferos, do século XX. De facto, não há «generosidade de consumidor» que me faça aceitar a espúria junção de «best seller» e «clássico» no mesmo sintagma, para este livro; junção que, diga-se, outros editores avisados fariam bem em reivindicar. Por exemplo, a Bertrand poderia com toda a justiça anunciar a 79ª edição da obra de Dan Brown, O Código Da Vinci, com idêntico rótulo: «Best Seller clássico…», tanto mais que a noção de clássico sofre hoje também do efeito de aceleração contemporâneo, pelo que 4 ou 5 anos de vestustez equivalem hoje a 40 ou 50 há meio século. 

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Os irmão siameses

Posted in Autores, Comentários, Livros by A. Apolinário Lourenço on Segunda-feira, 09-02-2009

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Com “O nosso século é fascista!” O mundo visto por Salazar e Franco (1936-1945), Manuel Loff demonstra, com argumentos tão sólidos e tão pesados como as nove centenas e meia de páginas que constituem o livro, que, até ao triunfo dos aliados na Segunda Guerra Mundial, os dois ditadores peninsulares estiveram plenamente empenhados na construção da “Nova Ordem” almejada pelo fascismo italiano e pelo nacional-socialismo alemão. Trata-se de uma adaptação da sua tese de doutoramento realizado no Instituto Universitário Europeu, de Florença.

Professor da Universidade do Porto, Manuel Loff é, sem qualquer dúvida, um dos maiores especialistas na história das ditaduras ibéricas novecentistas, tendo já publicado em 1996 o livro intitulado Salazarismo e Franquismo na época de Hitler. Para breve, fica a promessa de um outro volume extraído da parte final da sua tese de doutoramento sobre “racismo, anti-semitismo e percepção/conhecimento do Holocausto no Salazarismo e no Franquismo até 1945”.

A “coisa” promete!

Manuel Loff (2008), “O nosso século é fascista!” O mundo visto por Salazar e Franco (1936-1945), Porto, Campo das Letras, [ISBN: 978-989-625-256-4]

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Pressa e preconceito: uma resposta a Luís Januário

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 08-02-2009

Uma pessoa que admiro, Luís Januário, escreveu esta semana uma coisa muito pouco admirável, a propósito da última sessão de Os Livros Ardem Mal, com Nuno Júdice. Ao lê-lo, ocorreu-me aquele memorável título de CD de George Michael: Listen without Prejudice. Januário não conseguiu ouvir realmente Júdice e creio que não conseguiu sequer vê-lo. Manifestamente, não chegou a fazer qualquer esforço, razão pela qual saiu a meio, perdendo assim o melhor momento da noite, quando o poeta, de moto próprio, leu alguns poemas inéditos. E, como me diziam Luís Quintais e António Apolinário Lourenço no fim, leu magnificamente, a ponto de não se perceber a razão pela qual não existe ainda um CD com poemas de Júdice lidos pelo próprio.

Do mesmo modo, e por ter saído demasiado cedo, Januário não assistiu ao pedido que uma espectadora fez a Júdice, na parte dedicada às intervenções do público: que lesse o poema «Rol» do recente A Matéria do Poema, uma revisitação metapoética de Cesário Verde, pedido a que o poeta acedeu, numa leitura exacta, prenunciando a dos inéditos. Como também não ouviu Júdice falar das razões da «substituição», na progressão da sua obra, da referência a Pessoa pela referência a Camões, tendo a minha pergunta final sido justamente sobre Camões: é se calhar «academismo» (a palavra tem costas largas) mas interessa-me muito saber como se relaciona um poeta, hoje, com a obra maior da nossa tradição lírica, sobretudo naqueles casos em que tal relação é como que «declarada» (o que é também o que ocorre num certo Franco Alexandre, em Gastão Cruz ou neste último Herberto, por exemplo – para não referir o caso, muito à parte neste item, de Fiama). A resposta de Júdice, diga-se, foi bem interessante e pertinente. A pressa (de «marcar uma posição») e o preconceito são de facto um casamento imbatível, como se percebe lendo o justiceiro post em causa.

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O «Poema Inaugural»: Why not?

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 22-01-2009

Apenas 3 presidentes americanos de entre os 44 eleitos reclamaram a presença de um poeta na sessão de inauguração da sua presidência. O que dá 4 poetas, uma vez que Clinton teve, à sua conta, metade deste número: um para cada inauguração de mandato. Desta vez, a tarefa coube a Elizabeth Alexander e o poema chamou-se Praise Song for the Day. Num bom artigo sobre a questão de como escrever um poema para esta cerimónia, Jim Fisher aborda o tópico da «poesia de circunstância», evocando o paradigma de Goethe e sugerindo, em caso de desespero, uma adaptação pragmática um tanto abrupta de um poema pré-existente. Terá sido esse o caso de Robert Frost aquando da inauguração da presidência de Kennedy: o poeta, já idoso, compôs um texto para a cerimónia, «Dedication», mas à última hora, por não conseguir ler o texto devido ao brilho da luz do sol, recorreu à sua memória para dizer antes The Gift Outright. E esse, sim, era o poema absolutamente perfeito para a ocasião, sem a retórica demasiado «romana» (e que prometia «The glory of a next Augustan age») de versos como «A golden age of poetry and power / Of which this noonday’s the beginning hour».

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Estes tempos vagarosos (I)

Posted in Comentários, Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Sábado, 20-12-2008

Apercebi-me da diferença de Obama ao ver o clip (simplesmente extraordinário) do tema (identicamente extraordinário) de Will.i.am sobre o slogan da campanha do mais improvável dos candidatos: Yes We Can. O tema é justamente sobre e edifica-se como uma infindável derivação dos problemas, retóricos e políticos, contidos nesse «sobre»: um decalque do espantoso discurso de Obama na noite da derrota nas primárias de New Hampshire (um discurso na grande tradição americana da oratória pública, dos Founding Fathers a Lincoln, Roosevelt, Kennedy ou Luther King). Mas um sobre ou um decalque que propõe uma deslocação – e uma des/colagem – de discursos na qual podemos ler a heteroglossia constitutiva da república e da retórica. Quem fala, no tema de Will.i.am, nunca coincide plenamente com a palavra falada por Obama, quer porque a desloca minimamente para o canto (é isso o rap, de que este tema se aproxima do ponto de vista do débito vocal, como «conversa liberal»), quer porque faz incoincidir o débito de Obama com o de todos os que o envolvem, saturam e parasitam. Obama somos nós, como o homem político, no seu momento nobre, é a possibilidade de uma voz que migra por entre vários corpos sem se deter num único e sem ser, em rigor, reapropriável pelo homem político que a profere. É isso o Body Politic enquanto incoincidência entre a res publica e a sua tradução «orgânica» num corpo que só existe em diferido (e, o que é o mesmo, em contrato). A proliferação de rostos e corpos famosos, em contraponto e em desfile após Obama e por entre um multiplicado Obama, representa com exactidão todas as ilusões e aporias do corpo político: uma metonímia sempre factícia (a do animal inorgânico que é o Leviatã), aspirando à verdade e unicidade orgânica da metáfora, cujo nome aqui é «Obama». Aquilo que realmente conseguimos, ou que só a política consegue na era da secularização – o que não anda longe de sugerir que é nesses momentos raros que ela alcança o vínculo do sagrado –, é sermos um sendo nunca um, isto é, sermos vicariamente um no corpo propiciatório (e, por isso, infindavelmente parasitável) do político (seria talvez altura de recuperar aquela vinculação, retomada por Paul de Man, entre O Contrato Social e os escritos religiosos de Rousseau). Emoção rara, breve, fugidia, irrepetível, ou melhor, sublime: esse sublime político que vemos, se tal é visível, na parataxe supostamente redimida pelo verbo, do tema e clip de Will.i.am.

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Cannibal & Co. (III)

Posted in Comentários by Pedro Serra on Domingo, 07-12-2008

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Jean Anthelme Brillat-Savarin

Este post acaba com Baudelaire. Pierre Ebuka é o nome da personagem central de um conto de Manuel Vázquez Montalbán publicado em 1989 na Revista Occidente. Narrativa breve, centra-se no julgamento deste “canibal de Estrasburgo”, voraz comedor das mais variadas etno-estirpes europeias. Durante o processo vão sendo ponderados, por exemplo, os aspectos éticos implicados no caso. Canibalismo como “ética do colonizado”, prosseguindo a lógica emancipatória de um Frantz Fanon? Neste sentido, o caso retiraria a sua verdade da dialéctica, hegeliano-marxista, amo/escravo. Uma Europa metropolitana, pelos termos desta dialéctica, seria a “reserva de proteínas” de uma África enquanto periferia do império. A culinária canibal de Pierre Ebuka, assim, seria o corolário de um progresso emancipatório “racial”. O colonizado canibal teria encontrado um momento propício numa “Europa de portas abertas, multirracial e fecundada por todo o tipo de povos oriundos das virilhas do mundo”. Uma Europa de anfitriões, uma Europa da hospitalidade que, perante o trabalho da união política – o contexto do conto é o de uma unificação ainda predominantemente económica – teria a sua maior debilidade nesse mesmo discurso intelectual da hospitalidade enquanto, segundo a fórmula presente no conto, “ética do sentimento de culpa do colonizador”.

Uma Europa derrotista, decadente, que alentaria assim um revanchismo histórico por parte de África. Este é uma das proposições inerentes ao ponto de vista da acusação no caso de Pierre Ebuka. O advogado da acusação, um “marxista-leninista” que deveio “popperiano”, interpreta o canibalismo de Pierre Ebuka integrando-o num quadro identitário de base “racial”. África comeria a Europa obedecendo a um processo coerente de auto-identificação. Seria, assim, um caso de exo-canibalismo como forma de produção de uma “emoção de grupo”. Neste sentido, a barbárie do “canibal de Estrasburgo”, para a acusação, não residiria nesta pulsão identitária. O canibalismo como “ética do colonizado” não difere da “ética do colonizador”. Diríamos mesmo que a acusação está disposta, até certo ponto, a aceitar uma fome canibal como correlato da “vontade de poder” moderna.

Para demonstrar a selvajaria do programa canibal criminalizado e julgado, a acusação tem de esgrimir um argumento teológico-político. O tabu da carne distingue deuses e homens. Ora, na história do processo da colonização, os europeus prestam culto aos deuses vencedores. Daí que, “matar os vencidos em honra dos deuses do vencedor forma parte de uma certa lógica da crueldade, mas matar o vencedor e comê-lo só pode ser signo de subversão e jamais existiu subversão sem a presença de signos de debilidade na ordem estabelecida”. Por outras palavras, a interpretação do canibalismo de Pierre Ebuka é determinada por um quadro teológico-político que distingue duas violências: a violência legítima, isto é, a deglutição do vencido; a violência ilegítima, a ingestão do vencedor. A Europa, mesmerizada por uma cultura da decadência é uma Europa que, sendo vencedora, é débil.

Que dizer, então, do réu, de Pierre Ebuka e do seu canibalismo? (more…)

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Merci beaucoup, Professor Claude

Posted in Comentários, Vária by Rui Bebiano on Sexta-feira, 28-11-2008

Claude Lévi-Strauss

Inicialmente em A Terceira Noite

Quero recordar os 100 anos que o antropólogo, professor e filósofo Claude Lévi-Strauss completa neste 28 de Novembro. Mas começo pelo fim: pelo esquecimento. Hoje, quando menciono numa aula de licenciatura o nome de Lévi-Strauss, para tornar mais clara a identificação preciso dizer que não me estou a referir àquele senhor de origem alemã que em 1853 fundou em São Francisco a primeira fábrica de blue jeans. E preciso começar por recomendar, para evitar grandes choques, a leitura mais facilmente sedutora desses apontamentos de trabalho de campo na terra amazónica, aparecidos em 1955 e por vezes apresentados como um mero exemplo de literatura de viagens, que são os Tristes Trópicos. Lévi-Strauss, como o estruturalismo, está fora de moda.

No entanto, quando reentrei na universidade logo após a revolução de Abril, a primeira obra cuja leitura me foi recomendada, e que tenho agora aqui mesmo à minha frente na edição velhinha da Presença, foi o Raça e História, um livro publicado pela primeira vez em 1952 que naqueles anos setenta sublinhei conscienciosamente. Retenho dele – numa altura em que volto a ouvir na televisão os apresentadores falarem de povos «mais» ou «menos» civilizados – fragmentos da sua reapreciação das culturas ditas «arcaicas» ou «primitivas». E sobretudo da sua crítica radical e refundadora do etnocentrismo: «Preso entre a dupla tentação de condenar experiências que o chocam afectivamente e de negar as diferenças que ele não compreende intelectualmente, o homem moderno entregou-se a toda a espécie de especulações filosóficas e sociológicas para estabelecer vãos compromissos entre estes pólos contraditórios, e para aperceber a diversidade das culturas procurando suprimir nesta o que ela contém, para ele, de escandaloso e de chocante.»

O ponto final na hipótese da existência de uma «mentalidade primitiva», posto definitivamente em causa, no ano de 1962, em O Pensamento Selvagem – numa defesa dos «saberes indígenas» que ainda hoje desagrada a muitos porque queima um certo sentido da história construído ao longo de séculos – já se encontra ali, seguindo um método de observação do social e uma filosofia para a vida que procuro praticar e que tento ainda partilhar com quem me vai ouvindo: «A tolerância não é uma posição contemplativa dispensando indulgências ao que foi e ao que é. É uma atitude dinâmica, que consiste em prever, em compreender e em promover o que quer ser. A diversidade das culturas humanas está atrás de nós, à nossa volta e à nossa frente. A única exigência que podemos fazer valer a seu respeito – exigência que cria para cada indivíduo valores correspondentes – é que ela se realize sob formas em que cada uma seja uma contribuição para a maior generosidade das outras.» Muito obrigado, caro Professor Claude.

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Do mundo inútil

Posted in Autores, Comentários, Notas, Notícias, Recensões, Vária by Luís Quintais on Quinta-feira, 27-11-2008

283aQualquer texto num blogue parece exigir uma representação visual que não se limite àquela que a escrita vai compondo. Uma fuga à monotonia, à melancolia da leitura, à impossibilidade de conquistar seja quem for através das palavras, somente. Uma capitulação atestada da linguagem? Dir-se-ia que fazer acompanhar um texto com imagens se presta a todos os equívocos, mas também a descobertas desconcertantes.

Os livros de WG Sebald, na sua constante reinvenção desse espaço que vai da representação à irrepresentação (como se a “realidade”, a mais dura das categorias, nos colocasse sempre perante uma espécie de exigência ou repto do que não pode ser mediado e que, paradoxalmente, exige constante mediação) são uma das mais originais incursões em torno deste território grave e perigoso. Quando lemos Sebald, questionamo-nos sempre acerca deste trabalho de ousadia – e talvez de vergonha extrema – que é levar a literatura até ao seu limite (esse lugar onde a literatura ou a arte poderão ser somente uma impertinência) e conquistar esse limite: um limite trágico, porque todo o fracasso é aí a afirmação de uma atribuição humana que excede os recursos do indivíduo e que o coloca à beira de uma fatalidade expressiva, que é a de deixar de falar de si, irrevogavelmente. O que fala através de si em Sebald?

Não o sabemos, e não sei se é muito importante sabê-lo. Tudo isto para chamar a atenção para um magnífico (e ousadíssimo) ensaio de Jorge Leandro Rosa sobre as mais devastadores fotografias que conheço, porque produto não da autoria, mas de tudo o que lhe excede, e que fará da representação, da sua possibilidade, uma aposta de testemunho e de sobrevivência. Refiro-me às fotografias que alguns elementos dos Sonderkommando tiraram clandestinamente – em circunstâncias de difícil esclarecimento – dos campos e do seu trabalho. Estas imagens – que estão no centro de uma controvérsia recente que implica Georges Didi-Huberman, Gérard Wajcman e Elisabeth Pagnoux – conduzem Jorge Leandro Rosa a uma reflexão que se joga nas codificações (justificadas ou não, do irrepresentável). Transportam-nos, como não deixa de salientar, para uma certa acepção de «infinito» ou vazio que é o símile de um horror sem autoria. Escreve Jorge Leandro Rosa:

«E há a questão daquilo que podemos designar como paisagem. Estes corpos (e o corpo do fotógrafo também) perdem-se na paisagem por diversas razões. Perder-se na paisagem é perder a própria qualidade da presença, já que a paisagem é presença sem nunca ser outra coisa, senão no artifício da representação. Ora, o que caracteriza um corpo é que este é sempre qualquer coisa sem nunca chegar a estar puramente presente. Só a carne pode ser como a paisagem, só a carne pode chegar como a paisagem ao mundo sem nunca nele ter estado verdadeiramente e sem nele marcar um lugar preciso. Sem qualquer pretensão sobre o sentido, a paisagem cresce tanto mais na consciência pictórica europeia quanto esta deixa de ser uma consciência enraizada naquilo que faz sentido. Como lembra Jean Luc-Nancy, a paisagem ‘é o lugar da estranheza e da desaparição dos deuses’. Há paisagens com horizonte, que são aquelas que reenviam para a imprecisão infinita do próprio limite do olhar, e há paisagens sem horizonte, mas que o substituem por linhas de fumo, por grupos de árvores, pela luz solar em frente do observador. Temo-las aqui. Essas são as paisagens que, de alguma forma, fizeram o mundo inútil, já que toda a observação é paisagística no sentido de ser injustificável.» («O inimaginável: leituras dos corpos e das suas imagens», in Nada, nº 12, pp. 118-119).

Luís Quintais.

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Uma questão de intuição

Posted in Comentários by Ana Bela Almeida on Sexta-feira, 21-11-2008

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Um dos momentos-chave do filme A Turma (Laurent Cantet, 2008) encontra-se na cena em que, repreendida a turma por não fazer a distinção entre o registo escrito e o oral nos seus textos, a aluna pergunta ao professor: “Como é que sabemos quando usar um ou o outro?”. O professor parece surpreendido com a obviedade da pergunta, como se esta não fosse realmente necessária: “É uma questão de intuição”. Acontece que a intuição, ao contrário do que se infere do discurso do professor, não é uma condição natural. A vida daqueles miúdos, que vivem a 30 minutos de Paris e nunca lá puseram os pés, não lhes confere “naturalmente” essa intuição. Sabem que existe aquela a que chamam “a linguagem dos burgueses”, mas não lhes pertence, a deles é a MTV e a Playstation. Aquilo que eles são, a vida deles, não é compatível com o discurso escrito, com a escola. E a escola não pode substituir-se à vida deles, não pode ensinar-lhes aquilo que deveriam ser, por “intuição”. E assim, professor e alunos são reféns de um desencontro que talvez não possam e não lhes caiba resolver. A última cena do filme – a sala de aulas vazia, as cadeiras tombadas e o silêncio a tomar conta de tudo – parece querer dizer-nos que a trégua tem que ser procurada algures lá fora, do outro lado dos muros.

[Também aqui]

Ana Bela Almeida

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Depois do Fim: amanhã

Posted in Comentários, Notícias by OLAMblogue on Quinta-feira, 13-11-2008

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Joana Morais Varela

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 12-11-2008

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Sempre me impressionou o número de pessoas que, no meio literário, era capaz de pôr restrições à obra de Joana Varela à frente da Colóquio/Letras. O argumento era sempre o mesmo e era, digamos, virtuoso: «Para quê tanto luxo?» Outros, reivindicando outra família de virtudes, sugeriam que a Colóquio de antigamente é que era: sóbria, regular e dirigida por grandes académicos.

A este segundo argumento, que supõe uma Idade de Ouro da Colóquio que teria sido também a dos estudos literários em Portugal, convém responder sem grandes delongas que tal Idade de Ouro, muito simplesmente, nunca existiu. A Colóquio de Joana Varela era substancialmente superior na concepção global dos números, nos ensaios, no rigor e na transparência de actuação, à dos primórdios. Basta comparar. Não vale aliás a pena perder tempo e energia a inventar um Passado Grande para os nossos estudos literários, pois a verdade – e a ironia amarga da História – é que nunca tivemos uma geração, ou uma coincidência epocal de gerações, tão apetrechada como hoje. A um professor de estudos literários na universidade o que custa hoje é assistir ao desperdício de uma geração tão qualificada, e proficiente no seu domínio dos códigos da profissão, como nunca houve. E a Colóquio de Joana Varela dá a ver isso, com notável acuidade, na forma como soube acolher uma série vasta de novos autores, sem sectarismos em favor de novos ou menos novos.

Acresce que com Joana Varela a Colóquio deixou de ser uma revista em que se enfeixavam ensaios díspares para ser um projecto intelectual, artístico e patrimonial coerente, no sentido mais denso da palavra. Ou seja: criativo e interdisciplinar. Porque a Colóquio foi com Joana Varela um grande revista literária, estatuto que antes não podia reivindicar: vide por exemplo a extraordinária série «terminal» dos 5 volumes dedicados ao David Mourão-Ferreira tradutor. E isto sem deixar de ser institucional, como a Colóquio sempre foi e como o foi, com Joana Varela, sem vergonha.

Finalmente, com Joana Varela as práticas de edição da Colóquio ganharam um rigor sem par provavelmente em todo o mundo: na verificação das citações, da bibliografia, ou na correcção dos textos publicados. Sei que muita gente se queixava de que as correcções lhe «estragavam o estilo» (há sempre demasiada gente a reivindicar-se um estilo). Por mim, que aspiro mais à gramática do que ao estilo, devo dizer que as correcções que me foram sugeridas nos textos, aliás em número escasso, que lá publiquei (escassez de que sou o único responsável), melhoraram quase sempre os meus textos, coisa que só posso agradecer. Assim como agradeço a honestidade de quem não fazia correcções às escondidas, recusando-se a uma prática cómoda mas pouco decente.

Quanto ao «luxo», devo notar que sempre me surpreendeu uma tal acusação provinda de pessoas que, na sua esmagadora maioria – refiro-me aos cultores das Humanidades -, revelam uma flagrante incultura visual e gráfica. Quem tenha dúvidas só tem de percorrer as publicações que na Universidade passam por «sóbrias» ou – pior ainda – «clássicas», e em que por sistema se confunde esses epítetos com pobreza gráfica. No lançamento da Colóquio/Letras online António Feijó falou da revista como uma coisa única em todo o mundo, i.e., um objecto gráfico sem par. Tenho dificuldade em perceber por que razão não nos conseguimos orgulhar o bastante de uma tal realização, denegrindo-a sob a acusação ínvia e mesquinha do «luxo».

De uma coisa não tenho porém dúvidas: estamos mais pobres, sem a Colóquio que Joana Varela imaginou e, em acepção forte, produziu. Mas como sempre, só o vamos perceber plenamente daqui a um tempo.

P.S. Para todos os que desejem manifestar a sua admiração pelo trabalho de Joana Varela, existe agora um blogue criado por amigos/admiradores. Chama-se simplesmente Joana Morais Varela.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Livros Cotovia, vinte anos

Posted in Comentários, Notas, Notícias, Vária by Luís Quintais on Sexta-feira, 31-10-2008

Mapa de afectos. Idos anos noventa. Princípios, certamente. A minha descoberta da Cotovia coincide com uma espécie de existência pessoana que atravessava então os meus dias e que constitui hoje uma das mais gratificantes memórias que tenho de Lisboa.

Trabalhava na Rua do Loreto com os meus tios e primos numa pequena empresa de contabilidade e auditoria que já não existe. Os meus vinte e poucos anos eram uma demanda pelas ruas da cidade, entregando trabalhos concluídos, recebendo outros que teriam por destinatários os exímios mestres contabilistas, os meus tios Fernando e Gabriela, o meu primo João e o magnífico leitor de Proust que era o João Pedro Carreira. Uma existência pessoana ou walseriana, porque, de algum modo, o escritório da Rua do Loreto (que dava para o Bairro Alto numa iluminação tranquilizadora digna de Vermeer que fiz celebrar num dos meus poemas de A Imprecisa Melancolia) era uma espécie de Instituto Benjamenta, mas onde a crueldade tinha sido substituída integralmente pela ironia, uma arte cultivada com o rigor e a probidade com que se assentava numa linha de um livro de balanço. A rua, todas as ruas que na Rua do Loreto encontravam um centro irradiante, transportavam-me para formas de onirismo indisciplinado que nunca mais voltei a conhecer. Como se o meu Instituto Benjamenta (lugar de ofício, ironia, e extremo bom senso também) – o escritório do meu tio Fernando – tivesse um contraponto nessa encruzilhada de símbolos que habitavam a superfície do quotidiano. A minha vida era uma forma espacializada de «abandono vigiado», a usar um título de O’Neill que é, como se sabe, todo um programa. Um contraponto numa encruzilhada de símbolos e de lugares como, por exemplo, a belíssima Livros Cotovia na Rua Nova da Trindade, aí, numa das fronteiras invisíveis da cidade, aquela que coincide com as Escadinhas do Duque e que dá acesso ao Rossio – essa sempre eterna despedida da vida, como me recorda António Maria Lisboa – e à linha de fuga que é o Terminal ferroviário onde história, violência e margem vinham hibridizar o meu mapa de afectos.

Como flâneur e leitor descobri a Cotovia naqueles primeiros anos da década de noventa. E o que lia eu naquela altura? Poesia, sobretudo. E através da poesia descobri uma revista magnífica que a Cotovia fazia publicar. Refiro-me à entretanto desaparecida (uma das memoráveis desaparições da minha vida de leitor) As escadas não têm degraus. Descobri também um dos escritores da minha vida, Edmund Jabès. Não me esqueço nunca de A obscura palavra do deserto, uma poesia que me parece longe, bem longe daquilo que motiva uma parte significativa dos poetas contemporâneos mais canonizados entre nós, e talvez ainda bem porque Jabès será sempre coisa de poucos, enigma de muitos, e o ruído e a sobredeterminação das glórias literárias sempre me aborreceu infinitamente. Depois vieram outros, tantos, que o catálogo da editora discretamente descreve, revela.

A Cotovia é uma editora que permanece, pelo seu catálogo, pelo rigor com que trata os seus autores e os seus textos, fora daquilo que é o mundo editorial português, e não só. Dir-se-ia que, como o Jabès, permanece fora daquilo que convencionamos hoje por literatura ou por edição, e com isso ensina-nos como se pode sobreviver sem beneplácito nem usura. Um dos grandes méritos é nunca ter confundido livros com literatura. Outro dos méritos é ter enobrecido, pela sóbria singularidade do desenho do seus livros, a literatura, como provavelmente muito poucas editoras o fizeram. Como se não misturasse livros com literatura, mas soubesse perfeitamente onde está o lugar – an Italy of the mind, escreveria certeiramente Wallace Stevens – onde literatura e livros se encontram, se encontrarão sempre.

Tudo isto pode ser atribuído, com inteira justiça e justificação, a André Fernandes Jorge. Aí está alguém que dispensa elogios ou encómios, mas de quem é um privilégio poder reconhecer entre os nossos amigos mais admirados, por mim, por todos aqueles que o conhecem e que com ele têm colaborado. Porque a amizade é ainda um dos poucos círculos iluminados de lealdade que conheço. Parabéns Cotovia, parabéns André!

Luís Quintais (texto incluído em Não será por acaso, 20 anos, Lisboa, Livros Cotovia)

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Depois do Fim: nos 30 anos de «Finisterra»

Posted in Comentários by OLAMblogue on Sexta-feira, 24-10-2008

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Nós nozes, vós vozes

Posted in Comentários by Pedro Serra on Domingo, 19-10-2008

Quantos poetas se podem enxerir numa revista? Quantas páginas pode ter uma revista de poesia? Quantos poetas há? Quantos poemas há? Quantos poetas são, dos que estão? Quantos poetas estão, dos que são? São mais os vivos do que os mortos? Qual a massa de uma revista de 3785 poetas? Uma revista que arrume ou nem sequer arrume, por exemplo, na letra R, poetas como Raymond Queneau ou Ron Silliman, uma revista com nomes ou sobrenomes de poetas começados por todas as letras – todos os as, todos os bês, todos os cês, todos os dês, todos os es, todos os fês, todos os guês, todos os agás, todos os is, todos os jotas, todos os capas, todos os eles, todos os mês, todos os énes, todos os os, todos os pês, todos os quês, todos os erres – e.g. os já mencionados Raymond Queneau ou Ron Silliman -, todos os esses, todos os tês, todos os us, todos os vês, todos os xis, todos os ípsilos, todos os duplos vês e todos os zês.

Tais como, de uma semelhante coorte de 3785 poetas: “Jeff Newberry, Igor Terentiev, Micah Robbins, Friedrich Hölderlin, Arif Khan, Laurel Dodge, Ann White, Nicolás Guillén, John Lowther, Cathleen Miller, Josef Vachal, Chris Moran, Miyazawa Kenji, Robert Fitterman, Norman Mailer, Doris Shapiro, Talan Menmott, Alan Licht, John Godfrey, James Maughn, Anne Heide, Jasmine Dreame Wagner, Lina ramona Vitkauskas, Judith Goldman, Rich Murphy, Halvard Johnson, Ariel Dorfman, Ed Baker, Maryrose Larkin, Sheila E. Murphy, Rosanna Warren”, etc. Qual o volume de uma bigorna assim? Quanto pesa, (more…)

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«Bullshit»? A sério?

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 12-10-2008

Como quase toda a gente, não faço ideia de quem seja o secretário permanente da Academia Sueca para o Nobel, Sr. Horace Engdahl. Tomei conhecimento da sua existência por causa das suas declarações sobre a literatura norte-americana (ou seria a cultura norte-americana?), por si qualificada como isolacionista. Tanto bastou para que por cá o habitual coro dos sempre predispostos a excitar-se «contra o anti-americanismo» se levantasse, apodando Engdahl de imbecil e citando com volúpia a conclusão de um texto de «defesa da honra» por um escritor menor, de nome Giles Foden, que nesse texto publicado no Guardian remata com «a word conceived in America but universally understood: bullshit».

Sejamos justos: não está obviamente em causa a grandeza da literatura norte-americana e dos seus vultos maiores hoje, ou pelo menos dos mais nobelizáveis, como Roth ou DeLillo; assim como não está em causa o facto de esses grandes escritores, que muitos vivem (et pour cause) dentro do populoso mundo universitário norte-americano, protegidos por instituições locais como o «escritor residente» ou os «cursos de escrita criativa», integrarem o grande diálogo da literatura. Quanto a continuar a Europa a ser o centro do mundo literário, é uma afirmação que não surpreende no secretário da Academia que atribui o maior prémio literário do planeta, e que é europeia; já quanto ao facto de os escritores americanos serem «demasiado sensíveis» à sua cultura de massas, a observação não é desprovida de pertinência, embora a conclusão – que esse facto conduz a um abaixamento da qualidade da sua literatura – seja discutível.

Não obstante, a intervenção de Engdahl é absolutamente pertinente no seu ponto central, rapidamente obliterado pelo cansativo americanismo reinante em Portugal: a denúncia do muito escasso volume de traduções de obras literárias editadas nos EUA. Ponto que, esclareça-se, não é um estado de alma ideológico de Engdahl mas simplesmente uma (chocante) constatação de facto. O problema, aliás, é extensível à outra grande literatura em inglês, a inglesa, justamente, cuja taxa de tradução de obras literárias em 1990, por exemplo, era de 3,3% (recolho estes dados da obra de Pascale Casanova La république mondiale des lettres, de 1999). É certo que se pode argumentar com o facto de o mercado inglês absorver a poderosa produção norte-americana, o que lhe permite internacionalizar-se sem mudar de idioma, mas todos os observadores são unânimes ao falar de uma «quase-autarcia dos mercados anglo-saxónicos», sem comparação com o que ocorria nos anos 50 ou 60. Note-se que, de acordo com os conceituados estudos que a autora refere, Espanha, Itália, Portugal, Holanda, Dinamarca e Suécia estão na posição inversa de grandes importadores, com uma taxa de cerca de 25%, andando a média europeia pelos 15%. Os casos extremos, à altura, eram Portugal, com 33%, e a Suécia, do secretário Engdahl, que atinge os 60%, assumindo-se, em função do Nobel, como o verdadeiro ponto de encontro da literatura mundial.

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Pietà perversa (III)

Posted in Comentários by Pedro Serra on Domingo, 05-10-2008

 

      Curriculum: ejerzo

cada mañana la poliglosia con éxito mediano:

la lengua de mi madre no es mi idioma materno

 

Felipe Núñez (1998), Los seres y las fuerzas (1978), in Balizamiento para un aterrizaje nocturno. Poemas 1975-1985, col. ‘Los solitarios y sus amigos. Últimos contemporáneos, 4’, Madrid, Calambur. ISBN: 84-88015-41-0.

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Pietà perversa (II)

Posted in Comentários by Pedro Serra on Domingo, 05-10-2008

Probemos, ahora, una lectura del siguiente poema de la impresionante poeta catalana María Mercè-Marçal (1952-1998):

 

Cada dona adora un feixista…

Sylvia Plath

 

Aquella part de mi que adorava un feixista
-o l’adora, qui ho sap!
jeu amb tu, jau amb tu.

No l’espanta la tomba. Cridada des de sempre
al domini més fosc,
mor amb tu, i viu de tu.

Ofrena tremolosa, no sap sinó seguir-te
i arrapar-se al teu mal
com al port més segur.

Medusa desossada, allò que de mi resta
malda per completar-se
sense tu, lluny de tu.

El bisturí vacil.la. Qui em viu a l´altra banda?
I com podré pensar-te
com si jo no fos tu?

 

 Si Larubia-Prado y Vilarós acotan, en la imagen publicada en 1984, al dictador en su condición, digámoslo así, de padre y patriarca (admitamos que tal condición es la hipóstasis del enfermo, el in firmo, el que perdió vigor, el que es casi cadáver pero aun no del todo), la emergencia de la enfermera en el teatro visual disloca ese pater noster a la condición de hijo. La Pietá perversa repone el vínculo materno-filial allí dónde pudiéramos leer tan sólo la generación paterno-filial. En la Pietá perversa el Franco patriarcal -el padre de la nación española y, por ende, de la enfermera- es conmutado por el establecimiento de una tensión con la enfermera en el papel de madre, y Franco en el de hijo. En este sentido, quizás pudiéramos reconducir la compleja retórica del tiempo generativo constelado en la fotografía “La agonía de Franco” convocando la poesía de María Mercè-Marçal (MMM), poesía verdaderamente mayor en lengua catalana, que hacia ese mismo año de 1984 habrá encetado la escritura del poemario Desglaç.

Activista del nacionalismo y del feminismo catalán, en la obra de MMM podemos “localizar” las aporías productivas y los colapsos del proyecto emancipador de las mujeres en ese cronotopo transicional que fue también el suyo. MMM, en tanto poeta que es “mujer”, “catalana” y de “clase obrera”, su proyecto personal y político es casi simultaneo al de una Adrienne Rich, cuyas influyentes “Notes Toward a Politics of Location” (1984) son predicadas bajo la conocida ecuación de que “lo personal es lo político”. Digamos, además, que la enfermera anónima pudiera ser descrita por lo que MMM decía de si misma en tanto persona autoconsciente del lugar social heredado: “mujer joven sin personalidad, colonizada y sin lengua”. Llengua abolida, justamente, el título de su poemario publicado en 1989 (reúne su producción lírica del 73 al 88), un título que referencia tanto la tópica de la mujer muda como la realidad histórica de la persecución y proscripción de la lengua catalana.

Abreviando mi argumento, considero que la obra poética de MMM es también un lugar de intensidades que nos devuelven la dificultad del cambio, la dificultad de la Transición -lo que Eduardo Subirats nombró como intransiciones- en tanto que no fue algo “exterior” a los individuos. Subrayo: la dificultad del cambio radicó en los individuos mismos; la tensión de emancipación desplegada por una poeta mujer pasa por la noción y el agon, encarnados por MMM, de que mediar un proyecto emancipador en función de la complejidad intrínseca al rol “poeta mujer” se enfrenta a bloqueos y fracturas “interiores”. MMM, como Sheila Rowbotham (convocada por Rich en el ensayo supra citado), responde con su obra poética, en tanto proyecto estético y político (quizás mejor: político porque tensionado prioritariamente por lo estético), pudiera haber formulado: “Parte de esa dificultad soy yo misma”. Acometo sin más preámbulos, aunque son sin duda necesarios, a la dificultad agonizada en la poesía de MMM. Ella no es otra que la que tenemos en el poema de la primera sección de Desglaç que lleva como epígrafe unos conocidos versos de Sylvia Plath, “Every woman adores a fascist”. Convengamos, por cierto, que esta es una poeta, y este es un poema -“Daddy”- que pudiera servir para tratar del predicamento de una lectura feminista de ambas poetas. Sea como fuere, el poema de MMM, como el de Plath, son respuesta luctuosa a la muerte del padre, son trabajo de luto en clave poética. Antes de avanzar en la lectura, reproduzco la traducción al español llevada a cabo por Clara Curell:

 

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Considerações desencantadas sobre a FNAC

Posted in Comentários, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 02-10-2008

Nem de propósito, a decisão da FNAC no sentido de acabar com o desconto generalizado de 10% no preço de capa dos livros, limitando-o aos portadores de cartão FNAC (que entretanto mudou de natureza, passando a ser na prática um cartão de crédito, coisa que não tem sido referida e traz em si vastas consequências), coincidiu com o apogeu da crise do subprime: estava o mundo aflito com a decisão, inteiramente racional, do Congresso americano no sentido de rejeitar a panaceia «nacionalizadora» de Bush (que de ironias supostamente pós-históricas…), e eis que a FNAC mostra como funciona a Realpolitik do capital: optimizar mais-valias, chama-se a isto.

Convinha recordar duas ou três coisas a que ninguém ligou a seu tempo (era então o tempo da «Europa», vale dizer, da euforia do pugresso, como dizia Cavaco). A FNAC Chiado arrasou com a grande discoteca da Valentim de Carvalho e, por arrasto, com a própria Valentim (o que mais ou menos aconteceu de forma idêntica com a Roma Megastore, no Porto). A oferta propriamente em discos da FNAC Chiado era, como é, generalista, na melhor hipótese, e muito inferior à da Valentim de Carvalho ou da Roma; é certo que estávamos no começo do fim do negócio dos discos, mas o efeito de concentração das valências comerciais da loja mostrou todo o seu poder, aí e em relação a todo o negócio do livro. Na altura, porém,  a FNAC ainda era aquela entidade a que, na juventude, fiz visitas obrigatórias na Rue de Rennes, por exemplo, pelo que se acreditou, a seu respeito, naquilo que ainda há dias ouvi Pacheco Pereira debitar a propósito da crise actual: tratar-se-ia de mais uma ocorrência da «destruição criadora» do capitalismo (Schumpeter treslido dá para tudo). Entretanto, em França a FNAC tornou-se uma rede livreira com lógica de hipermercado; e, com a décalage do costume, é o que estamos a ter por cá também (alguém se lembra ainda, por exemplo, da secção de poesia da FNAC Chiado do início?).

A decisão da FNAC, comentada com fundamentação vária pelos Booktailors, por Jorge Reis-Sá, por Jaime Bulhosa ou por Sara Figueiredo Costa, tem em teoria económica uma definição clássica, que mais uma vez me chegou por Manuel Resende: eliminar a concorrência e ditar a lei. Porque a concorrência foi de facto eliminada e aquilo que temos, do lado da Bertrand, é o que se sabe (a Bertrand pode proclamar agora o facto de ter «profetizado», na sua prática, as transformações da FNAC…), e do lado das livrarias independentes é demasiado dependente dos atavismos de sempre para ser realmente alternativo e concorrencial (as excepções são cada vez mais excepcionais e a criação das «Livrarias Independentes» não trouxe qualquer alteração para melhor, lamento dizê-lo). Não me vou repetir, pois já exprimi por mais de uma vez o meu desencanto de frequentador de livrarias face ao panorama actual. Resta-me esperar que uma rede de dimensão intermédia como a Almedina saiba resistir e entender que há um espaço no mercado para quem tenha algum peso negocial; ou seja, que tenha a inteligência para perceber que há muitos públicos que não se reconhecem nem fundem necessariamente no público. Continuarei pois fiel à Almedina Estádio, em Coimbra, neste momento provavelmente uma das duas ou três «grandes livrarias» que restam neste país (sendo uma das outras a Almedina Saldanha).

Osvaldo Manuel Silvestre

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