Os Livros Ardem Mal

Longe de Camões, próximo de Montaigne

Posted in Comentários by Luís Quintais on Quinta-feira, 02-07-2009

«Se queríamos verdades caseiras melhor seria que tivéssemos ficado em casa.» (Clifford Geertz)

Gostaria, num primeiro momento, de vos levar a pensar Camões e Os Lusíadas de acordo com uma dada figuração do tempo que me parece ser aquela que lhe serve de contexto. Gostaria ainda, num segundo momento, de estabelecer um paralelo entre Camões e um seu contemporâneo, Michel de Montaigne (1533-1592). Esta comparação pretende mostrar como uma sensibilidade antropológica moderna estará porventura muito mais do lado de Montaigne do que de Camões.

tomb-camoes3-cc-brunurbCamões (c. 1524-1580) e Montaigne escrevem num período em que emerge uma recodificação do tempo da viagem e das suas narrativas. Dir-se-ia que é durante esse período que surge aquilo a que qualificamos como «antropológico» e que passa pelo reconhecimento da diferença e pela vontade de saber que se lhe encontra associada, ainda que em moldes muito pouco consonantes com aquilo que virá a acontecer já em pleno século XX com Bronislaw Malinowski na Europa e Franz Boas nos EUA.  Mas aquilo que talvez possamos dizer, em abono da verdade, é que não há no nosso épico, até onde posso perceber, um modo de escapar às encruzilhadas conceptuais, vocabulares e narrativas de um tempo que tendia a ver na alteridade representada por povos distantes no espaço um sinal de uma realidade mírifica a ser domesticada ou apropriada exemplarmente e a todo o custo. Lamento dizê-lo, mas se quisermos fazer remontar a sensibibilidade antropológica da qual nos reclamamos hoje a alguém desse período, o melhor é deslocarmos a nossa atenção para Michel de Montaigne.

Mas voltemos ao nosso ponto de partida. Ao tempo da viagem e da narrativa que é o do século XVI.

Para uma certa matriz judaico-cristã (ou tradição), o tempo foi concebido e celebrado como uma sequência de acontecimentos de uma narrativa sagrada, isto é, como o instrumento de uma sacralização da história. O caminho para a modernidade – onde podemos situar Camões e Montaigne -, de onde haveria de surgir a sensibilidade antropológica, dá-se com a secularização do tempo. Esta secularização, como nos mostrou Johannes Fabian em Time and the other (1983), foi o resultado de uma «generalização» e «universalização» do tempo judaico-cristão. O «tempo universal» foi estabelecido politicamente na Renascença como uma resposta aos desafios cognitivos lançados pelos Descobrimentos.

O que contribuiu de uma maneira notória para a transformação de um tempo sagrado num tempo secular foi aquilo a que Fabian denomina de «topos da viagem». Na tradição cristã, as passagens do Salvador e dos santos sobre a terra eram entendidas como os elementos constitutivos de uma história sagrada. O que se traduzia em viagens envoltas em desígnios espirituais: as cruzadas, as peregrinações e as missões são exemplos de tais demandas sagradas. Dir-se-ia que o tempo de Camões e de Montaigne é um momento de transição para outra coisa que se tornará muito clara no Iluminismo.

A sermos rigorosos só podemos dizer que a viagem se torna verdadeiramente fonte de conhecimento «filosófico» e secular no século XVIII – é pelo menos aí que essa explicitação se torna clara. Por exemplo, é em 1800 que se publica A observação dos povos selvagens de Jopseph Marie Degérando. Nele, escreve Degérando: «[O] filósofo viajante, navegando até aos confins da terra, está de facto a viajar no tempo; ele está a explorar o passado; cada passo que dá é a passagem de uma era» (cit. Fabian 1983: 7). Neste fragmento podemos pressentir, desde logo, a viagem entendida como um veículo de auto-descoberta e de afirmação de um tempo secular. É neste contexto, justamente, que se explicita de modo inequívoco a viagem entendida como uma prática secularizadora do espaço e como um modo de temporalização dotado de propósitos igualmente secularizadores.

Em Camões não encontramos senão um mundo onde acontecimentos míticos e acontecimentos históricos se parecem suceder em moldes muito mais próximos daquilo a que Fabian designa por «tempo da Salvação» (Fabian 1983: 13), isto é, acontecimentos míticos e históricos tidos como significativos no quadro de uma narrativa sagrada. Poderemos vê-lo através das relações temporais circunscritas pelo épico. Em grande medida, apesar das inflexões humanistas e universalistas (que tingem de hibridez esta quadro em que faço situar a minha avaliação), Camões faz apelo a um paradigma temporal judaico-cristão e medieval, isto é, ele desdobra a narrativa tendo em conta o tempo inclusivo e incorporativo da salvação em que a alteridade (o pagão ou infiel) é conceptualizada como um potencial candidato a essa salvação. (more…)

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«Cavando» (Seamus Heaney)

Posted in Poesia, tradução by Luís Quintais on Terça-feira, 30-06-2009

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Entre o meu indicador e o meu polegar
Jaz a acocorada caneta: ajustada como uma arma.

Sob a minha janela, um nítido arranhado som
Quando a pá mergulha em solo pedregoso:
Meu pai, cavando. Eu olho de revés
Até que, no canteiro, suas nádegas distendidas
Se dobram baixo, avançam vinte anos distantes
Com ritmo curvando-se através de sulcos de batata
Onde ele ia cavando.

A tosca bota aninhada na alça, o cabo
De encontro ao joelho era apoiado com firmeza.
Ele enraizava caules altos, enterrava fundo a lâmina reluzente
Para, de novo, semear batatas que nós colhíamos
Adorando a sua fresca aspereza em nossas mãos.

Por Deus, o homem sabia como manejar a pá,
Tal como seu pai.

Meu avô cortava mais turfa num dia
Que qualquer outro no paúl de Toner.
Uma vez levei-lhe leite numa garrafa
Desleixadamente arrolhada em papel. Ele aprumou-se
Para o beber, e de imediato se quedou
Penetrando, elegantemente cortando, lançando torrões
Sobre o seu ombro, descendo mais e mais
Até à boa turfa. Cavando.

O cheiro frio do húmus, o chapinhar e o esborrachar
Da turfa encharcada, os súbitos cortes de uma lâmina
Através de raízes acordam na minha cabeça.
Mas eu não tenho pá com que seguir homens como eles.

Entre o meu indicador e o meu polegar
Jaz a acocorada caneta.
Eu cavarei com ela.

(Trad. de Luís Quintais)

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O Chekhov dos subúrbios

Posted in Autores, Comentários, Edição, Livros, Notas, Recensões, tradução by Luís Quintais on Sexta-feira, 29-05-2009

09-03-ContosCompletos-CatNum registo diverso, gostaria de destacar a publicação recente deste magnífico volume de contos (a que se anuncia um segundo volume) de John Cheever. Cheever nasceu a 27 de Maio de 1912 e faleceu a 18 de Junho de 1982. Trata-se de um dos grandes escritores norte-americanos de contos do século XX, só comparável a Sherwood Anderson, Hemingway, ou, mais recentemente, a Raymond Carver.

Cheever é por vezes apelidado como «o Chekhov dos subúrbios», e podemos encontrar neste volume reunidas algumas das suas histórias mais conhecidas, entre as quais se encontram «Adeus, meu irmão», «O rádio enorme», «O comboio das cinco e quarenta e oito» e «O marido do campo».

Convém talvez acrescentar que os contos reunidos de Cheever obtiveram o Prémio Pulitzer de 1979 para ficção. (Tradução segura de José Lima).

John Cheever. Contos completos I, Lisboa, Sextante. [ISBN: 978-989-8093-87-5]

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Darwin rules

Posted in Autores, Comentários, Edição, Efemérides, Livros, Notas, Recensões by Luís Quintais on Sexta-feira, 29-05-2009

evolucao2_bigNos 200 anos do nascimento de Charles Darwin (nascido a 12 de Fevereiro de 1809) e nos 150 da publicação da Origem das espécies (24 de Novembro de 1859), a Esfera do Caos, uma editora que tem vindo a publicar excelente literatura de divulgação científica em Portugal, lança-se num projecto pioneiro sobre a grande constelação darwiniana de que são testemunho estes dois volumes, estando prometidos mais dois, Vida: origem e evolução e Homem: origem e evolução. A série, aliás, chama-se «Fundamentos e desafios do Evolucionismo», e vem colmatar uma enorme lacuna no espaço intelectual português que, em geral, ignora a importância de Darwin para o entendimento do que será porventura o nosso presente. Através destas páginas (que articulam textos clássicos traduzidos pela primeira vez com textos especialmente encomendados para o efeito) poderá eventualmente situar-se Darwin no contexto da modernidade.

Darwin é, a par de Freud e de Nietzsche, um dos pensadores que melhor emblematiza o legado intelectual, senão mesmo cognitivo, que é hoje o nosso.

André Levy et. al. Evolução: história e argumentos. Lisboa, Esfera do Caos. [ISBN: 978-989-8025-55-5]

André Levy et al. Evolução: conceitos e debates. Lisboa, Esfera do Caos. [ISBN: 978-989-8025-75-3].

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Uma espécie de vírus

Posted in Autores, Livros, Notas, Recensões by Luís Quintais on Sexta-feira, 29-05-2009

booksEste é, na minha opinião, um dos livros axiais da antropologia das últimas décadas. As razões são várias, e limitar-me-ei a invocar algumas.

Sperber é um antropólogo (que não enjeitou uma certa concepção de «natureza humana» cuja influência pós-estruturalista teria diluído) e um cientista cognitivo.

Para Sperber, as ideias ou «representações» são contagiosas.

Elas espalham-se numa população como se fossem vírus (a semelhança com a «memética» de Dawkins tem porém de ser matizada: enquanto que a mutação é regra nas representações, no caso dos vírus tal mutação é excepcional).

Este processo é dinâmico: pessoas, ecologia, e as próprias representações são transformados. Explicar a cultura é, para Sperber, descrever as causas e os efeitos deste contágio pelas representações. Sperber reconconceptualiza assim o domínio da cultura em termos de padrões ecológicos de fenómenos psicológicos, ou seja, em termos de uma «epidemiologia das representações». Não há aqui lugar para qualquer forma de «reducionismo» (ainda que se Sperber se recuse a demonizar aquilo a que se chama de reducionismo). A cultura é entendida como o resultado de um processo complexo que acontece numa recursividade permanente entre factores cognitivos e factores ecológicos. Para Sperber, a cultura é o «precipitado da cognição e da comunicação numa população humana» (p. 97).

Sperber tem coisas muitas sérias a dizer sobre a eficácia causal (e os perigos) das representações, mas não parece ter sido levado muito a sério pela maioria dos antropólogos e cientistas sociais contemporâneos, incapazes talvez de se aproximarem das propostas da ciência cognitiva contemporânea sem temerem o perigo de uma espécie de contágio conceptual naturalizador e cognitivista. A excepção será seguramente Harvey Whitehouse.

Dan Sperber. Explaining culture: a naturalistic approach, Oxford, Wiley-Blackwell, 1996 [ISBN 0631200452, 9780631200451]

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Melville ou o sublime

Posted in Autores, Edição, Livros, Notas, Oficina, Poesia, Recensões, tradução by Luís Quintais on Quarta-feira, 20-05-2009

200903101715580.K_Melville

Será talvez o grande paradigma da ficção americana à sombra tutelar do qual se acolhem escritores tão diversos como Faulkner, Don Dellilo, Thomas Pynchon, ou John Barth.

O que não conhecíamos em português, até onde julgo saber, era o Melville poeta.

Esta lacuna está agora preenchida após estas traduções/versões de Mário Avelar publicadas na Assírio & Alvim. Os poemas de Melville reiteram um tema que é um dos seus tópicos mais inquietantes: a indiferença da natureza aos desígnios do humano. Isto pode ser ilustrado pelo poema magnífico que é «The berg (a dream)» / «O Icebergue (o sonho)», que é também um belo exemplo do que poderá ser a «estética do sublime». Deixo aqui a primeira estrofe (p. 55):

Vi um barco de porte marcial
(de flâmulas ao vento, engalanado)
Como por mera loucura dirigindo-se
Contra um impassível icebergue,
Sem o perturbar, embora o enfatuado barco se afundasse.
O impacto imensos cubos de gelo cair fez,
Soturnos, toneladas esmagando o convés;
Foi essa avalanche, apenas essa -
Nenhum outro movimento, o naufrágio apenas.

Herman Melville. Poemas, Assírio & Alvim. 2009, trad. de Mário Avelar [ISBN 978-972-37-1357-2].

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O visível e o invisível em Paulo Valverde

Posted in Artes, Autores, Edição, Efemérides, Livros, Vária by Luís Quintais on Domingo, 10-05-2009

670954[Paulo Valverde. Fez agora em Abril passado, mais precisamente no dia 4, dez anos sobre a morte daquele que terá sido porventura um dos mais significativos antropólogos portugueses de sempre. Dir-se-á que é fácil atingir essa meta, porque a concorrência sempre foi de pequena monta. Sim, sem dúvida. Mas para quem alguma vez assistiu a uma aula deste homem que morreu com 37 anos, ou para quem teve o prazer de ler as suas páginas hoje tão esquecidas, a sua celebração é incontornável. Nesse sentido, gostaria de deixar aqui um ensaio meu já com alguns anos que desenvolve algumas linhas de interpretação do que poderá ser a sua escrita e a sua estratégia de recodificação desse «texto» que é a «cultura». O ensaio faz remissões ao livro póstumo que inclui muitos dos seus trabalhos mais teóricos e uma parte que creio substancial dos seus diários e notas de campo. Serve também o presente post para chamar a atenção para esse livro que deverá estar, estou certo disso, a apodrecer, exemplares muitos, nalgum canto escuro de um armazém de refugos. Triste sorte para um prosador extraordinário cuja escrita terá pouquíssimos antecedentes entre nós, e que, no seu melhor, ombreia com páginas de Malinowski e de Leiris. Ah, é verdade, aí vai a referência: Paulo Valverde, Máscara, Mato e Morte. Textos para uma etnografia de São Tomé, Oeiras, Celta, 2000.].

Entre a pequena comunidade de antropólogos sociais portugueses, é reconhecida a enorme perda intelectual e afectiva (sobretudo para aqueles que com ele privaram de perto) que representou o falecimento prematuro de Paulo Valverde (1961-1999). Vítima de malária contraída em São Tomé, Paulo Valverde afirmar-se-á cada vez mais como uma espécie de personificação trágica e mítica da figura do antropólogo enquanto herói. Não no sentido lévi-straussiano do termo, isto é, enquanto herói civilizador capaz de resgatar o fogo sagrado de culturas cujo recorte elegíaco ou crepuscular se tornou forçosamente aparente durante o século XX. Mas antes como aquele que, compreendendo o quanto há de culturamente perverso nas modalidades salavacionistas mais ou menos declaradas mais ou menos conscientes da disciplina, se afadiga em traçar-lhe novos rumos não apenas metodológicos (Paulo Valverde era alguém que, comprometido com uma dada tradição metodológica, o fieldwork situado e localista, parecia cada vez mais incomodado com os seus limites) , mas também, e com especial ênfase, novos rumos analíticos. O heroísmo, a haver um, está na determinação e no seu risco (um risco que ele assumira e que pode ser qualificado igualmente pela intimidade cultural, sem par entre os antropólogos sociais portugueses das últimas décadas, que foi assegurando no terreno). Paulo Valverde acreditava na possibilidade da disciplina se reconstituir enquanto analítica das metanarrativas modernas, entre as quais se encontrariam, certamente, os projectos salvacionistas e politicamente correctos evidenciados por tantos dos seus contemporâneos, e, de forma particularmente indiossincrática e inquestionavelmente sedutora, demonstrava-o através dos seus textos, aulas, e inúmeros momentos de discussão informal de que poderam beneficiar todos aqueles que foram seus alunos e colegas. (more…)

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Irvine Welsh e a morte da literatura

Posted in Autores, Comentários, Livros, Notas, Recensões by Luís Quintais on Sábado, 09-05-2009

9789725647592_1234381131_3O  romance de Irvine Welsh, originalmente publicado em 2002, é construído em torno de múltiplas vozes, vozes essas que são reconhecíveis após a leitura do célebre Trainspotting (1996), do qual é, aliás, uma sequela. Welsh é uma espécie de escritor picaresco e joyceano que escreve furiosa e polemicamente sobre a experiência contemporânea.

Um aspecto particularmente interessante prende-se com o uso dos diálogos e dos idiomas locais e de grupo que podemos descobrir aqui em registos diversos, entre os quais se destacam, evidentemente (para quem já conhece Welsh), as práticas e linguagens próprias de uma certa marginalidade/youth culture britânica, de que Welsh é, sem dúvida, um magnífico mitógrafo.

Ninguém há como Welsh para nos mostrar a «fala» dos seus protagonistas, com uma eficácia verdadeiramente estonteante e paródica. Talvez Welsh seja mesmo um dos mais interessantes émulos de Joyce, hoje.

O livro é, aliás, excelente para quem gosta de ver as possibildades literárias do calão a acontecerem na página.

Prefiro citar aqui, porém, o primeiro parágrafo do capítulo com o inefável título de «…punhetas mal batidas…». Aí Welsh mostra-nos através da voz de uma das suas personagens (Nikki), como a literatura já não é o que era, e como ela exige uma reconfiguração dos seus limites e temas:

«Cada vez que mudo de disciplina sinto-me mais fracassada. Contudo, a meu ver, os cursos académicos são como os homens; mesmo o mais fascinante só consegue cativar o nosso interesse durante algum tempo. Agora o Natal já passou e estou outra vez solteira. Mas o facto de mudar de disciplina não é tão angustiante como mudar de instituição pedagógica ou de cidade. Consolo-me por ter ficado na Universidade de Edimburgo um ano inteiro, bem, quase. Foi a Lauren que me convenceu a mudar de curso de literatura para estudos dos media e do cinema. A nova literatura é o cinema, disse ela, citando uma revista idiota qualquer. Como é óbvio, expliquei-lhe que não é nos livros nem no cinema que as pessoas hoje em dia aprendem alguma coisa sobre a narrativa, mas nos jogos de vídeo. Se realmente queremos ser radicais e modernos, devemos passar os nossos dias no salão de jogos do bairro a rivalizar com um monte de gajos anémicos, para garantir o teu lugar nas máquinas» (p. 35).

Irvine Welsh. Porno, Quetzal, 2009, trad. de Colin Ginks [ISBN 978-972-564-759-2].

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Edgar Allan Poe sem intuição e sem acaso

Posted in Artes, Autores, Comentários, Crítica, Edição, Efemérides, Livros, Notas, Poesia, Recensões, tradução, Vária by Luís Quintais on Domingo, 03-05-2009

d2687f5ef69d40cb8a6dc5b3121b3b95-smallbookPoe é um dos portais da modernidade literária. Sem ele, outra seria a nossa percepção do que foram/são Baudelaire, Mallarmé, Eliot, Pessoa, etc. Sem ele, não teríamos muito provavelmente, o drama da emoção e da razão tal como o viveram e expressaram os modernos.

Nos duzentos anos sobre o seu nascimento (Poe nasceu a 19 de Janeiro de 1809 e faleceu a 7 de Outubro de 1849), o mais traduzido dos autores americanos em Portugal, tem nesta Obra Poética Completa uma das suas homenagens mais significaticas.

Poe foi talvez um dos primeiros poetas a explicitar uma poesia por vir, marcada pelos desígnios maiores da ciência. A diluição dos «enigmas» da natureza e do humano, a convivência com um mundo «desencantado», a urgência de recodificação através das lições do gelo que a ciência comportava e comporta inexorovelmente: tudo temas que a poesia de Poe articula de um modo constante, ao mesmo tempo que pretende aceder a um patamar de reinvenção formal da escrita onde se apela a uma exigência de «método» (que o célebre ensaio «A Filosofia da Composição» enuncia).

Esta tensão entre o desencantamento do mundo e a sua requalificação pode ser ilustrada através do poema «Soneto – À Ciência»: «Ciência, ó filha do Tempo Velho! / Que, de olhos coruscantes, tudo espreitas, / Por que rasgas ao poeta o amplo peito, / Abutre de asa rude que se engelha? Como te pode amar, crer-te avisada, / Que o não deixaste andar, errante, ao vento, / Buscando as jóias que há no firmamento / Ainda que o singrasse de asa ousada? / Diana escorraçaste da quadriga, / Do bosque a Hamadríade (fugindo / Ela a abrigar-se em estrela mais amiga), / À Náiade tiraste a onda cava, / Ao elfo o prado, e a mim o tamarindo / Em cuja sombra eu no Verão sonhava.» (OPC, p. 80).

A edição é primorosa, com uma excelente tradução, introdução e notas de Margarida Vale de Gato (uma tradutora que merece referência pela qualidade e quantidade do seu trabalho de tradutora), e com notáveis ilustrações de Filpe Abranches.

Acresce ainda o já referido ensaio  “A Filosofia da Composição” (pp. 273-288), onde Poe explicita a génese de «The Raven» (ler p. 277), e nos revela a intenção de uma poesia sem «acaso» e sem «intuição».

É pena que a edição não seja bilingue; porém é compreensível: tal projecto iria seguramente encarecer uma edição desta exigência gráfica.

Edgar Allen Poe, Obra Poética Completa. Tinta-da-China, 2009 [ISBN 978-972-8955-93-9].

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Nas Carolinas (Wallace Stevens)

Posted in Artes, Autores, Livros, Oficina, Poesia, tradução by Luís Quintais on Domingo, 26-04-2009

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Os lilases murcham nas Carolinas.
Já as borboletas adejam sobre os camarotes.
Já os recém-nascidos interpretam o amor
Nas vozes das mães.

Mãe intemporal,
Como é que teus galantinos mamilos
De uma vez verteram mel?

O pinheiro adoça o meu corpo
A íris branca embeleza-me
.

[Trad. Luís Quintais]

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Acidente e simulação em JG Ballard (pré-publicação)

Posted in Artes, Autores, Crítica, Efemérides, Livros, Notícias, Recensões, Vária by Luís Quintais on Segunda-feira, 20-04-2009

ballardsroom6Negativity is a positive task.
Paul Virilio

De que forma é que a literatura cooptou um dos dados mais fundamentais da experiência moderna: a presença incontornável (e o lado inexorável dos processos que essa presença reclama) de uma paisagem radicalmente transformada pelo concurso da ciência, ou melhor, da tecno-ciência? A pergunta instala-se imediamente num contexto de contornos difusos, mas mesmo assim decisivo para nós. A noção de tecno-ciência faz-nos assumir que o conhecimento científico se inscreve em complexas configurações de natureza social e material que lhe dão a sua gravidade, densidade, e poder. De que forma é que a literatura respondeu às figurações utópicas e distópicas do projecto moderno que visava projectar o mundo de acordo com os preceitos de um conhecimento politicamente necessário porque experimentalmente validável e universalmente verdadeiro?

Como alguém que prefere uma singularidade para fazer ecoar forças  de improvável cartografia que a atravessam, sugiro que nos concentremos num exemplo cujas reverberações se tornam, a meu ver, reveladoras. A minha sugestão é que nos atenhamos a uma espécie de genealogia mais ou menos solta da escrita de um romance particularmente influente e sobre o qual se projecta uma luz que gostaria de caracterizar como oracular, isto é, como se se tratasse de um objecto que reclama uma exploração extrema (e extremada) realizada num território de potencialidades que parecem emergir sinuosamente do presente, esse presente que se dilata e que nos colhe irremediavelmente. Estou a falar de Crash (1973) de JG Ballard, e Crash pode ser pensado a montante, porque o livro é o resultado de um conjunto de obsessões que lhe são prévias.

Em conformidade com um dos preceitos ballardianos que nos diz que, para lá das nossas obsessões, pouco haverá que valha a pena ser perseguido, Ballard aventurou-se quase sistematicamente, desde finais da década de sessenta, num território de inquietação profunda a que Freud designou de Das Unheimliche, e a que o antropólogo Victor Turner chamaria certeiramente de liminar, isto é, um território de improvável classificação, porque betwixt-and-between: nem dentro nem fora, mas antes no umbral, aí onde a viscosidade (um mundo que não é líquido e que não é sólido) se torna uma constante afectiva, e onde aquilo que nos fascina é igualmente aquilo que nos repugna.

O cenário é o de um mundo onde se dramatiza e performatiza o espectáculo debordiano de uma sociedade de consumo que faz das derivas tecnológicas – e dos sulcos que estas deixam no tecido da história e da paisagem – uma alavanca para o seu exercício autofágico e onde, polémica e prescientemente, tecno-ciência e pornografia se associam num exercício de reconfiguração do poder e do desejo.

(…)

No seu último Miracles of life, Shanghai to Shepperton: an autobiography (2008), Ballard revisita Crash, revelando-nos, mais uma vez, como se trata um livro profundamente enraizado num período histórico (os sixties) e como a tópica do «acidente» e da (more…)

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JG Ballard

Posted in Artes, Autores, Balanço, Comentários, Efemérides, Livros, Notas, Notícias, Vária by Luís Quintais on Segunda-feira, 20-04-2009

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Faleceu o nosso correspondente em Shepperton. Leia-se, por exemplo, o obituário do Guardian.

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O sentido é revisitação ou uma selva dentro da selva ou por que é que o cérebro não explica a arte ou só a explica parcialmente

Posted in Artes, Autores, Comentários, Livros, Notas, Oficina, OLAM, Vária by Luís Quintais on Sexta-feira, 03-04-2009

neuronUm dos aspectos mais interessantes das chamadas neurociências cognitivas contemporâneas prende-se com a relevância que aí assume uma imagem do cérebro enquanto estrutura dotada de uma complexidade e de uma plasticidade extraordinárias.

A arte pode ser pensada frutuosamente como um aspecto da cognição humana, isto é, como algo que resulta de um processo multiforme de aquisição de conhecimento, e, nesse sentido, como algo que radica em processos que poderíamos descrever como mentais.

O problema começa talvez aqui.

A minha tese é a de que sem cérebro não há mente (o que é, desde Thomas Willis e da «neurocentric age», uma evidência incontestável), mas que a mente não é o cérebro; penso, aliás, que não há consensos alargados sobre aquilo que a mente é, e de que forma é que podemos passar das ontologias na terceira pessoa para as ontologias na primeira pessoa, ou, de outro modo, da objectividade para a subjectividade, e vice versa. Estamos na fronteira, e toda a gente sabe como são as fronteiras que tornam a ciência fascinante, difícil, ou, de outro modo, de exercício quase improvável. Somos confrontados com aquilo que não sabemos, ou, eventualmente, com os limites do que sabemos.

De acordo com uma leitura wittgensteiniana do que se encontra aqui em causa, talvez estejamos perante um problema de linguagem ao dizermos que são os cérebros que pensam.

Wittgenstein ensinou-nos, como nenhum outro, a suspeitar da linguagem. As palavras podem trair-nos e levar-nos a olhar para certos problemas como problemas reais, quando eles não passam de puzzles que devem ser desmontados. Assim, se os estômagos não comem também é muito improvável que os cérebros pensem, ainda que, e volto a enfatizar este ponto, não possa haver pensamento (e todos os seus avatares: consciência, intenção, memória, etc.) sem cérebro.

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Uma ciência da ciência

Posted in Autores, Notas by Luís Quintais on Sexta-feira, 03-04-2009

9789724413983Esta é a 2ª. edição de Para uma sociologia da ciência, a tradução portuguesa de Science de La Science et Refléxivité de Pierre Bourdieu (1930-2002). Publicado no ano da sua morte, este curto e denso ensaio pode ser lido de duas formas: como uma introdução aos Estudos Sociais de Ciência (uma das áreas mais polémicas das ciências sociais contemporâneas), e como um modo de percepcionarmos o que Bourdieu, que sempre apelou à «refexividade» na constituição do objecto sociológico, teria a dizer acerca da ciência enquanto «campo», para usar um conceito que lhe é decisivo.

Bourdieu passa em revista os grandes nomes da sociologia da ciência (ou daqueles que ajudaram a circunscrever o seu alcance), desde Merton a David Bloor e ao «strong programme», passando pelo inevitável Thomas Kuhn.

Neste contexto, particularmente acintosas são as páginas sobre Bruno Latour (ver pp. 45-50).

A tradução é de Pedro Elói Duarte.

Pierre Bourdieu (2008) Para uma sociologia da ciência, Lisboa, Edições 70 [ISBN: 978-972-44-1398-3].

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London, por Borges

Posted in Autores, Livros, Notas, Notícias, Recensões, tradução by Luís Quintais on Sexta-feira, 20-03-2009

01310010_a_mao_de_midas_graO presente volume pode ser uma de três coisas, a saber: uma excelente introdução à obra de Jack London, uma aproximação à constelação literária de Jorge Luis Borges, e um contacto (também ele sensorial e físico) com uma das colecções mais fascinantes de literatura do século XX.

É um modo feliz de nos aproximarmos do trabalho literário de Jack London (1876-1916), autor americano de grande popularidade (foi um dos primeiros escritores americanos a fazer fortuna com a escrita) no seu tempo, e que é justamente considerado um dos brilhantes mestres da narrativa, e em particular do conto.

Borges reviu-se evidentemente em London, e esta colecção de A Biblioteca de Babel, espelha-o. O livro contém seis contos de London, de onde sobressai uma afirmação da literatura enquanto narrativa que Gustavo Rubim, numa notável recensão no Público, identificou como sendo um trabalho que foge habilmente às derivas da interpretação, e onde os acontecimentos dominam o fluxo textual. Escreve Rubim: «[M]as a mestria de London não está no modo como ergue ou insinua uma visão do mundo; está no modo como põe a narrativa acima do sentido, num jogo de esquiva às interpretações» (Ípsilon, 6 de Fevereiro, p. 29).

Trata-se de uma colecção que Borges dirigiu, seleccionando todos os volumes que a compõem, e prefaciando-os com ensaios seusjack-london sobre cada um dos autores escolhidos. É interessante verificar como o grande escritor argentino faz aí ombrear clássicos, como Edgar Allan Poe e Henry James, com escritores relativamente obscuros ou mesmo esquecidos hoje, destacando-se, entre outros, Gustav Meyrink e Arthur Machen.

Esta colecção revela não apenas as predilecções de Borges (uma grande parte vai para autores de língua inglesa), sendo, neste sentido, um modo de acedermos aos seus mestres, mas também a importância capital que o livro – enquanto objecto dotado de valências estéticas (e metafísicas) óbvias – detém no seu imaginário e na própria ideia que temos de literatura.

Neste sentido, importa referir que é o produto de um encontro entre o editor Franco Maria Ricci e Borges, himself, em que o primeiro propôs ao segundo a direcção de uma colecção de obras fantásticas que só podia chamar-se A Biblioteca de Babel. Os livros são belíssimos (como era próprio de Ricci), e a edição da Presença respeita escrupulosamente o grafismo original. (Creio que há uns anos atrás a Vega tentou trazer esta colecção para Portugal, ou copiá-la, com resultados desastrosos em termos gráficos, diga-se).

As traduções são cuidadas. Recomenda-se, pois, vivamente. (Tradução de Maria João da Rocha Afonso).

Jack London (2009) A Mão de Midas, Editorial Presença (colecção A Biblioteca de Babel, dirigida por Jorge Luis Borges). [ISBN: 978-972-23-4069-4]

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Invectiva contra os cisnes (Wallace Stevens)

Posted in Autores, Oficina, tradução by Luís Quintais on Segunda-feira, 16-03-2009

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A alma, ó gansos, voa para lá dos parques
E muito para lá das discórdias do vento.

Uma chuva brônzea do sol descendo assinala
a morte do verão, que neste tempo persiste

Como alguém que rabisca um apático testamento
De garatujas douradas e páfias caricaturas,

Legando as vossas penas brancas à lua
E ofertando os vossos delicados movimentos ao ar.

Vejam, já nas longas paradas
Os corvos ungem as estátuas com seus excrementos.

E a alma, ó gansos, sendo solitária, voa
Para lá das vossas indiferentes carruagens, para os céus.

[Trad. Luís Quintais; para a Maria Andresen]

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Kertész

Posted in Autores, Comentários, Recensões by Luís Quintais on Segunda-feira, 16-03-2009

51tau0utr2l_sl500_aa240_O escritor Imre Kertész, nascido em 1929 em Budapeste, judeu húngaro, sobrevivente à experiência dos campos de exterminío, e Prémio Nobel da literatura do ano de 2002, é, sem dúvida, um escritor notável. A inteligência narrativa de Kertész, a acuidade e sobriedade estilísticas, o significado moral dos seus textos, não encontram grandes paralelos na ficção contemporânea, a não ser, talvez, em JM Coetzee.

Kertész, desde que ganhou o Nobel, tornou-se um escritor traduzido e amplamente divulgado. Em Portugal existem já algumas traduções, destacando-se, pela Editorial Presença, a publicação de A Recusa, Sem Destino, e Kaddish Para Uma Criança Que Não Vai Nascer, um tríptico que parte da sua memória do intolerável em Auschwitz e Buchenwald.

Detective Story (2009), em tradução inglesa de Detekívtörténet (1977), reflecte em grande medida a dimensão fortemente moral e política do seu percurso de escritor. Trata-se de um romance que se detém no espaço interior de um homem, um torturador. O cenário é o de uma prisão num país sem nome da América latina. Um regime ditatorial chegou ao seu fim, e esse homem, Antonio Martens está encarcerado a cumprir uma pena por ter pertencido à polícia secreta que torturou e executou Enrique Salinas e seu pai, Frederigo.

O texto é escrito na primeira pessoa do singular – é fundamentalmente um texto confessional, procurando justamente captar a voz de Martens -, fazendo incorporar ainda fragmentos de um diário de Enrique (que se encontram na posse de Martens), o jovem brutalmente assassinado pela polícia secreta. Assim, temos aqui uma ficção que procura mergulhar na psicologia profunda, na subjectividade extrema, do vitimizador e da vítima, numa tensão entre inocência e cinismo, magnificamente trabalhada por Kertész.

Imre Kertész (2009) Detective story, Vintage [ISBN 978-0099523390]

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Neurocrítica

Posted in Autores, Recensões by Luís Quintais on Sexta-feira, 13-02-2009

622f10ff2f444fc0b08d89aa3150c6f2David Lodge é, por aqui, mais conhecido pelos seus trabalho de ficção do que pelos seus ensaios literários. Mas quem o lê com atenção sabe que os primeiros têm uma relação fortíssima com os segundos. Assim, por exemplo, é óbvia a relação entre Thinks (2001) – também publicado entre nós pela sua editora em Portugal, a Asa, sob o título de Pensamentos Secretos (2002) – e este volume de ensaios vários com o título de A Consciência e o Romance.

Lodge desenvolve, no ensaio que dá título ao volume, um argumento muito estimulante sobre a relação entre os estudos da consciência nas neurociências contemporâneas e o modo como o romance moderno articula um conjunto de reflexões sobre a consciência como atributo definidor do humano. Toda a argumentação de Lodge prende-se, afinal, com a forma como os romancistas articularam (ou não) narrativamente aquilo que nas neurociências cognitivas se chama de ontologias na primeira pessoa e ontologias na terceira pessoa. A descrição de um mundo subjectivo e a descrição de um mundo objectivo, para sermos menos técnicos. De algum modo, esta relação só pode ser pensada à luz de um compromisso com a ciência contemporânea, e Lodge sabe-o tão bem que, em passagem, não deixa de satirizar o alcance das correntes comportamentalistas (e wittgensteinianas, acrescentaria eu), através de anedotas como esta (que já aparecia em Pensamentos Secretos, como se poderá ver na citação):

Até há muito pouco tempo, a consciência não era um tema muito estudado nas ciências naturais, sendo considerado um domínio da filosofia. A psicologia, apesar de aspirar a ser uma ciência empírica, considerava a consciência como uma «caixa negra». Tudo o que podia ser observado e medido era o que lá se introduzia e de lá saía, e não o que acontecia no seu interior, o que impunha sérias limitações ao estudo da experiência humana. O meu cientista cognitivo em Pensamentos Secretos diz à heroína, a romancista: «Há uma velha anedota, que aparece em quase todos os livros sobre a consciência, sobre dois psicólogos comportamentalistas que depois de fazerem sexo dizem um para o outro: ‘Foi bom para ti, como é que foi para mim?’ (p. 17).

Ou seja, o purismo externalista de extracção linguística e comportamental poderá ter um limite, e este limite é aqui enunciado de um modo particularmente significativo, sobretudo pela clareza com que é feito.

O livro dá-nos ainda ensaios notáveis sobre Dickens, Waugh, Kingsley e Martin Amis, Henry James, e Philip Roth, entre outras pérolas. Acresce ainda uma entrevista em torno de Pensamentos Secretos.

David Lodge (2009), A Consciência e o Romance, Lisboa, Asa [ISBN 978-989-23-0368-0]

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Prancha de Skate (Thom Gunn)

Posted in Autores, Poesia, tradução by Luís Quintais on Quinta-feira, 12-02-2009

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Cabeça-à-Toa na sua prancha de skate
ziguezagueia por entre uma multidão
de pés e rostos diferidos
numa lenta estupidez.
Guinadas, dobras, torções.
Tu reparas como agilmente
o corpo aprendeu
a estimar a relação entre
prancha, caminhantes,
e o imediato passeio.
Emblema. Emblema de moda.
Cai-lhe o tão delicado
branco sujo em desalinho
como os drapejamentos
num requintado
santo do Renascimento.
A corrente à volta da cintura.
Uma mão enluvada.
Cabelo tingido para mostrar-se tingido,
chama pálida em combustível soltando-se.
Cabeça-à-Toa na prancha
aperfeiçoando-se a si mesmo:
emblema invulgar
do vulgar.

No rosto assexuado
os olhos inocentes de sentir
logo sugerem o espírito.

(Trad. Luís Quintais; para a Sofia/Sílvia)

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Música azul

Posted in Autores, Livros, Recensões, tradução, Vária by Luís Quintais on Quarta-feira, 04-02-2009

musicofilia2Este é um livro do singularíssimo Oliver Sacks, o mesmo que nos trouxe, desde o seu The Man Who Mistook his Wife for a Hat (1985), a possibilidade de nos confrontarmos com a dimensão literária dos «estudos de caso» em ciência. É verdade que a prática de estudos de caso é comum em ciência desde longa data, mas foram poucos, e são poucos ainda hoje, os cientistas que nos conduzem, justamente, para o facto de se tratar de um dos lugares de eleição em que literatura e ciência se cruzaram e cruzam de um modo existencial e estilisticamente significativo.

Sacks contribuiu, sem margem para dúvidas, para a disponibilidade que existe hoje no mercado livreiro (sobretudo no mundo anglo-saxónico) para este tipo de trabalhos em que as histórias clínicas servem de mote para explicitar um drama existencial e, ao mesmo tempo, para nos elucidar acerca de um problema científico. Em grande medida, uma parte considerável da popularidade do notável neurocientista português António Damásio prende-se com isto também. Pena é que ainda se não tenha descoberto o manancial de histórias que, por exemplo, a antropologia contém, visto tratar-se porventura de uma das ciências que mais desenvolveu metodologicamente a prática dos estudos de caso.

Bem, mas regressemos a Sacks, ao justamente famoso Sacks. Neste seu livro, Musicofilia, o neurologista inglês sediado nos Estados Unidos, traz-nos um conjunto de históricas clínicas que nos permitem compreender a extraordinária relação entre a música e o cérebro. Os estudos clínicos aqui apresentados são de dimensão e alcance desigual. Vão de histórias que nos contam como pode uma canção ficar colada à mente numa espécie de loop contínuo, a outras que nos parecerão verdadeiramente insólitas: pacientes com doenças degenerativas cujos sintomas recuam através do seu contacto com a música, homens adultos que apanhados por um relâmpago desenvolvem um gosto obsessivo por música para piano, chegando a conseguir atingir um significativo domínio do instrumento, maestros que são atacados por estranhas formas de amnésia que os fazem tudo esquecer, menos a sua capacidade para dirigir e cantar, etc.

Gosto particularmente da parte acerca das sinestesias. Escreve Sacks:

De todas as formas diferentes de sinestesia, a sinestesia musical – principalmente efeitos de cor experimentados enquanto ouvimos ou pensamos em música – é uma das mais comuns, e provavelmente a mais dramática. Desconhecemos se é mais comum em músicos ou pessoas musicais, mas claro que é mais provável que os músicos tenham maior consciência dela, e muitas das pessoas que ultimamente me descreveram as suas sinestesias musicais são músicos. // O famoso compositor contemporâneo Michael Torke tem sido profundamente influenciado por experiências com música colorida. Torke revelou talentos musicais notáveis numa idade precoce e com cinco anos deram-lhe um piano, e uma professora de piano. «Já era compositor aos cinco anos», diz – a professora dividia as peças em secções e Michael rearranjava as secções em ordens diferentes enquanto tocava. // Um dia comentou com a professora, «Adoro aquela peça azul.» // A sua professora não tinha a certeza de ter ouvido bem: «Azul?» // «Sim», disse Michael, «a peça em Ré maior [...] Ré maior é azul.» // «Para mim não», respondeu a professora. Estava intrigada e o Michael também, pois ele assumia que toda a gente via cores associadas a claves musicais. Quando começou a perceber que nem todos partilhavam desta sinestesia, teve dificuldade em imaginar como isso seria, pensando que era equivalente a «uma espécie de cegueira» (pp. 171-172).

As «vogais» de Rimbaud têm afinal um correlato neurológico.

Sacks, Oliver, Musicofilia: Histórias Sobre a Música e o Cérebro, Lisboa, Relógio d’ Água, 371 pp., 2008 [ISBN 978-972-708-997-0]

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Do mundo inútil

Posted in Autores, Comentários, Notas, Notícias, Recensões, Vária by Luís Quintais on Quinta-feira, 27-11-2008

283aQualquer texto num blogue parece exigir uma representação visual que não se limite àquela que a escrita vai compondo. Uma fuga à monotonia, à melancolia da leitura, à impossibilidade de conquistar seja quem for através das palavras, somente. Uma capitulação atestada da linguagem? Dir-se-ia que fazer acompanhar um texto com imagens se presta a todos os equívocos, mas também a descobertas desconcertantes.

Os livros de WG Sebald, na sua constante reinvenção desse espaço que vai da representação à irrepresentação (como se a “realidade”, a mais dura das categorias, nos colocasse sempre perante uma espécie de exigência ou repto do que não pode ser mediado e que, paradoxalmente, exige constante mediação) são uma das mais originais incursões em torno deste território grave e perigoso. Quando lemos Sebald, questionamo-nos sempre acerca deste trabalho de ousadia – e talvez de vergonha extrema – que é levar a literatura até ao seu limite (esse lugar onde a literatura ou a arte poderão ser somente uma impertinência) e conquistar esse limite: um limite trágico, porque todo o fracasso é aí a afirmação de uma atribuição humana que excede os recursos do indivíduo e que o coloca à beira de uma fatalidade expressiva, que é a de deixar de falar de si, irrevogavelmente. O que fala através de si em Sebald?

Não o sabemos, e não sei se é muito importante sabê-lo. Tudo isto para chamar a atenção para um magnífico (e ousadíssimo) ensaio de Jorge Leandro Rosa sobre as mais devastadores fotografias que conheço, porque produto não da autoria, mas de tudo o que lhe excede, e que fará da representação, da sua possibilidade, uma aposta de testemunho e de sobrevivência. Refiro-me às fotografias que alguns elementos dos Sonderkommando tiraram clandestinamente – em circunstâncias de difícil esclarecimento – dos campos e do seu trabalho. Estas imagens – que estão no centro de uma controvérsia recente que implica Georges Didi-Huberman, Gérard Wajcman e Elisabeth Pagnoux – conduzem Jorge Leandro Rosa a uma reflexão que se joga nas codificações (justificadas ou não, do irrepresentável). Transportam-nos, como não deixa de salientar, para uma certa acepção de «infinito» ou vazio que é o símile de um horror sem autoria. Escreve Jorge Leandro Rosa:

«E há a questão daquilo que podemos designar como paisagem. Estes corpos (e o corpo do fotógrafo também) perdem-se na paisagem por diversas razões. Perder-se na paisagem é perder a própria qualidade da presença, já que a paisagem é presença sem nunca ser outra coisa, senão no artifício da representação. Ora, o que caracteriza um corpo é que este é sempre qualquer coisa sem nunca chegar a estar puramente presente. Só a carne pode ser como a paisagem, só a carne pode chegar como a paisagem ao mundo sem nunca nele ter estado verdadeiramente e sem nele marcar um lugar preciso. Sem qualquer pretensão sobre o sentido, a paisagem cresce tanto mais na consciência pictórica europeia quanto esta deixa de ser uma consciência enraizada naquilo que faz sentido. Como lembra Jean Luc-Nancy, a paisagem ‘é o lugar da estranheza e da desaparição dos deuses’. Há paisagens com horizonte, que são aquelas que reenviam para a imprecisão infinita do próprio limite do olhar, e há paisagens sem horizonte, mas que o substituem por linhas de fumo, por grupos de árvores, pela luz solar em frente do observador. Temo-las aqui. Essas são as paisagens que, de alguma forma, fizeram o mundo inútil, já que toda a observação é paisagística no sentido de ser injustificável.» («O inimaginável: leituras dos corpos e das suas imagens», in Nada, nº 12, pp. 118-119).

Luís Quintais.

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Kant na noite do Ártico (2), ou homenagem a Claude Lévi-Strauss

Posted in Crítica, Notas, Notícias, Oficina by Luís Quintais on Quinta-feira, 20-11-2008

1176309419_01[Retomo o meu Kant na noite do Ártico. Claude Lévi-Strauss fará no próximo dia 28 de Novembro cem anos. Aqui a celebração já começou há algum tempo. Esperemos que em Portugal se esqueçam desta vez da doxa, e nos dêem uma homenagem à altura do homem que abomina a doxa].

Uma homologia entre a multiplicidade de aspectos da vida social é reclamada em Lévi-Strauss. Tal homologia depende, em grande medida, dum nível profundo de invisibilidade que se traduziria num código universal, isto é, numa ur-matriz que definiria a semelhança entre estruturas linguísticas e simbólicas ou culturais. De outro modo ainda, dir-se-ia que Lévi-Strauss reclama uma congruência entre o exterior e o interior, entre a superfície e a profundidade. Para ele, existe uma ordem no mundo exterior e existe a nossa percepção e conceptualização dessa ordem. Entre estes dois universos, um exterior e outro interior, não existe qualquer incompatibilidade. Acresce ainda que tal congruência não é demonstrável. Reclama-se pois uma espécie de continuidade tácita entre o sensível e o inteligível.

A articulação entre o sensível e o inteligível terá de ser compatível com as leis universais que regem o espírito humano. A estratégia lévi-straussiana funda-se numa congruência entre exterior e interior que, de algum modo, é preservada pela linguagem e pelas culturas tomadas como instâncias de mediação do sensível e do inteligível. O mundo out-there pauta-se por princípios de ordem que a linguagem espelha e assume transversalmente: a eficácia das palavras e a eficácia dos princípios de ordem que as animam podem ser encontradas, por exemplo, nas trocas matrimoniais, e no modo como estas fazem preservar uma espécie de óptimo contratual básico sem o qual não é possível haver sociedade. E estes princípios de ordem dizem-nos tanto do funcionamento da sociedade quanto do funcionamento do «espírito humano» e da sua arquitectura neuronal: a sociedade, a mente, o cérebro, são assim avataras uns dos outros, avataras de uma natureza que se desdobra em «formas» que podem ser reconstituídas porque aquele que as reconstrói reconhece em si o trabalho e a inapagável presença de tais formas. A linguagem (entre o som e o sentido) é aqui transversal a esta recursividade entre ordens de complexidade diversa.

O confronto com a natureza – a selva amazónica – e com as suas formas é assim transposto, numa recursiva e constante viagem sem paralelo, para um confronto com aquilo que está inscrito na natureza profunda do humano que aqui é ainda o Homem. Os povos da Amazónia epitomizam, mas suas mito-lógicas, aquilo que de mais profundo e mais singular se faz inscrever nas produções culturais humanas: o espírito e as suas regras, que funcionam aí, ainda, numa transparência que a modernidade se encarregaria inelutavelmente de toldar.

O crepúsculo da cultura seria assim a turvação completa dessa Razão magnífica. Kant na noite do Ártico, mas também Kant na Amazónia. Porque as viagens de Lévi-Strauss seriam afinal uma demanda por um lugar onde o brilho escondido do humano poderia ainda ser contemplado, apreciado, como quem contempla ou aprecia uma paisagem ou uma peça de Racine ou uma página de Proust. Porque algures nessa heterotopia da Razão se poderia identificar ainda a essência mito-lógica da mente entregue a si mesma.

Dir-se-á que Lévi-Strauss incorre aqui numa espécie de invulgar primitivismo: a mente ameríndia é a epítome da Razão humana, por excelência; mais: a mente ameríndia presta-se – pela sua transparência – a uma incursão na mente tout court, já que a complexidade das cidades e das aquisições da vida moderna resvalam flagrantemente para a opacidade dos desígnios do humano, o mesmo é dizer, para o crepúsculo da cultura e da Razão. E veja-se o que Lévi-Strauss escreve sobre a arte moderna, para compreendermos este negrume que parece atravessar, para ele, as produções humanas que o cânone civilizacional ocidental foi propondo.

(more…)

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O Sul (Jorge Luis Borges)

Posted in Oficina, Vária by Luís Quintais on Terça-feira, 11-11-2008

De um de teus pátios ter olhado
as antigas estrelas,
do banco da sombra
ter olhado
essas luzes dispersas
que minha ignorância não aprendeu a nomear
nem a ordenar em constelações,
ter sentido o círculo da água
na secreta cisterna,
o odor do jasmim e da madressilva,
o silêncio do pássaro adormecido,
o arco do saguão, a humidade
- essas coisas, acaso, são o poema.

(Trad. Luís Quintais)

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Livros Cotovia, vinte anos

Posted in Comentários, Notas, Notícias, Vária by Luís Quintais on Sexta-feira, 31-10-2008

Mapa de afectos. Idos anos noventa. Princípios, certamente. A minha descoberta da Cotovia coincide com uma espécie de existência pessoana que atravessava então os meus dias e que constitui hoje uma das mais gratificantes memórias que tenho de Lisboa.

Trabalhava na Rua do Loreto com os meus tios e primos numa pequena empresa de contabilidade e auditoria que já não existe. Os meus vinte e poucos anos eram uma demanda pelas ruas da cidade, entregando trabalhos concluídos, recebendo outros que teriam por destinatários os exímios mestres contabilistas, os meus tios Fernando e Gabriela, o meu primo João e o magnífico leitor de Proust que era o João Pedro Carreira. Uma existência pessoana ou walseriana, porque, de algum modo, o escritório da Rua do Loreto (que dava para o Bairro Alto numa iluminação tranquilizadora digna de Vermeer que fiz celebrar num dos meus poemas de A Imprecisa Melancolia) era uma espécie de Instituto Benjamenta, mas onde a crueldade tinha sido substituída integralmente pela ironia, uma arte cultivada com o rigor e a probidade com que se assentava numa linha de um livro de balanço. A rua, todas as ruas que na Rua do Loreto encontravam um centro irradiante, transportavam-me para formas de onirismo indisciplinado que nunca mais voltei a conhecer. Como se o meu Instituto Benjamenta (lugar de ofício, ironia, e extremo bom senso também) – o escritório do meu tio Fernando – tivesse um contraponto nessa encruzilhada de símbolos que habitavam a superfície do quotidiano. A minha vida era uma forma espacializada de «abandono vigiado», a usar um título de O’Neill que é, como se sabe, todo um programa. Um contraponto numa encruzilhada de símbolos e de lugares como, por exemplo, a belíssima Livros Cotovia na Rua Nova da Trindade, aí, numa das fronteiras invisíveis da cidade, aquela que coincide com as Escadinhas do Duque e que dá acesso ao Rossio – essa sempre eterna despedida da vida, como me recorda António Maria Lisboa – e à linha de fuga que é o Terminal ferroviário onde história, violência e margem vinham hibridizar o meu mapa de afectos.

Como flâneur e leitor descobri a Cotovia naqueles primeiros anos da década de noventa. E o que lia eu naquela altura? Poesia, sobretudo. E através da poesia descobri uma revista magnífica que a Cotovia fazia publicar. Refiro-me à entretanto desaparecida (uma das memoráveis desaparições da minha vida de leitor) As escadas não têm degraus. Descobri também um dos escritores da minha vida, Edmund Jabès. Não me esqueço nunca de A obscura palavra do deserto, uma poesia que me parece longe, bem longe daquilo que motiva uma parte significativa dos poetas contemporâneos mais canonizados entre nós, e talvez ainda bem porque Jabès será sempre coisa de poucos, enigma de muitos, e o ruído e a sobredeterminação das glórias literárias sempre me aborreceu infinitamente. Depois vieram outros, tantos, que o catálogo da editora discretamente descreve, revela.

A Cotovia é uma editora que permanece, pelo seu catálogo, pelo rigor com que trata os seus autores e os seus textos, fora daquilo que é o mundo editorial português, e não só. Dir-se-ia que, como o Jabès, permanece fora daquilo que convencionamos hoje por literatura ou por edição, e com isso ensina-nos como se pode sobreviver sem beneplácito nem usura. Um dos grandes méritos é nunca ter confundido livros com literatura. Outro dos méritos é ter enobrecido, pela sóbria singularidade do desenho do seus livros, a literatura, como provavelmente muito poucas editoras o fizeram. Como se não misturasse livros com literatura, mas soubesse perfeitamente onde está o lugar – an Italy of the mind, escreveria certeiramente Wallace Stevens – onde literatura e livros se encontram, se encontrarão sempre.

Tudo isto pode ser atribuído, com inteira justiça e justificação, a André Fernandes Jorge. Aí está alguém que dispensa elogios ou encómios, mas de quem é um privilégio poder reconhecer entre os nossos amigos mais admirados, por mim, por todos aqueles que o conhecem e que com ele têm colaborado. Porque a amizade é ainda um dos poucos círculos iluminados de lealdade que conheço. Parabéns Cotovia, parabéns André!

Luís Quintais (texto incluído em Não será por acaso, 20 anos, Lisboa, Livros Cotovia)

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A Recoleta (Jorge Luis Borges)

Posted in Autores, Oficina by Luís Quintais on Sexta-feira, 24-10-2008

Convencidos da caducidade
por tantas nobres certezas do pó,
demoramo-nos e baixamos a voz
entre as lentas filas de panteões,
cuja retórica de sombra e mármore
promete ou prefigura a desejável
dignidade de estar morto.
Belos são os sepulcros,
o claro latim e as enlaçadas datas fatais,
a conjunção do mármore e da flor
e as pequenas praças com frescura de pátio
e os muitos ontens da história
hoje detida e única.
Enganamos essa paz com a morte
e cremos almejar nosso fim
e almejamos o sonho e a indiferença.
Vibrante nas espadas e na paixão
e adormecida na hera,
só a vida existe.
O espaço e o tempo são formas suas,
são instrumentos mágicos da alma,
e quando esta se apagar
com ela se apagará o espaço, o tempo e a morte,
como ao cessar a luz
se extingue o simulacro dos espelhos
que a tarde foi apagando.
Sombra benigna das árvores,
vento com pássaros que sobre os ramos ondeia,
alma que se dispersa em outras almas,
teria sido um milagre deixarem de ser,
milagre incompreensível,
ainda que sua imaginária repetição
desminta com horror nossos dias.
Estas coisas pensei na Recoleta
no lugar de minha cinza.

(Trad. Luís Quintais)

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A rosa (Jorge Luis Borges)

Posted in Autores, Oficina by Luís Quintais on Domingo, 19-10-2008

A rosa,
a imarcescível rosa que não canto,
a que é peso e fragrância,
a do negro jardim na alta noite,
a de qualquer jardim e qualquer tarde,
a rosa que ressurge da ténue
cinza através da arte da alquimia,
a rosa dos persas e de Ariosto,
a que sempre está só,
a que sempre é a rosa das rosas,
a jovem flor platónica,
a ardente e cega rosa que não canto,
a rosa inalcançável.

(Trad. Luís Quintais; para M.)

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Jardim místico & besta sofrível (Wallace Stevens)

Posted in Autores, Oficina by Luís Quintais on Segunda-feira, 13-10-2008

O poeta a passo largo seguindo entre lojas de charutos,
O almoço de Ryan, chapeleiros, seguros e remédios,
Nega que a abstracção seja um vício excepto
Para o fátuo. Estes são os seus muros infernais,
Um espaço de pedra, de inexplicável esteio
E cumes que pairam acima de adjectivos possíveis.
Um homem, a ideia de homem, esse é o espaço,
O vero abstracto no qual ele passeia.
A idade da ideia de homem, o manto
E a fala de Virgílio abandonados, é aí que ele caminha,
É aí que os seus hinos vêm aos magotes, hinos-heróis,
Corais para vozes da montanha e o cântico moral,
Feliz em vez de sagrado mas alto-feliz,
Hinos diurnos em vez de rimas consteladas,
E a ideia de homem, o jardim místico e
A besta sofrível, o jardim do paraíso
E ele que criou o jardim e que o povoou.

(Trad. Luís Quintais)

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Numa estação de metro (Ezra Pound)

Posted in Autores, Oficina by Luís Quintais on Quinta-feira, 09-10-2008

O aparecimento destas faces na multidão;
Pétalas num ramo negro, húmido.

(Trad. Luís Quintais)

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Are you (still) ready to be heartbroken?

Posted in Autores, Comentários, Notas by Luís Quintais on Quinta-feira, 25-09-2008

Quantos são capazes ainda de o lembrar no improvável Rock Rendez Vous a debitar electricidade e filigrana literária com os Commotions? Quantos de nós não fomos ler o grande Norman Mailer por causa dele? E ele regressa vezes sem conta e faz, diz-se, quase sempre o mesmo: guitarra de caixa e o talento do singer/songwriter numa espécie de nudez que torna as palavras ainda mais certeiras: dura nostalgia, a de estarmos todos muito velhos já, mas disponíveis, como sempre, para o desastre, para a mais-que-perfeita melancolia. Ou talvez não: No longer driven to distraction/ Not even by Scarlett Johansson.

Luís Quintais

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JG Ballard: projecto para um glossário do século XX (10)

Posted in Autores by Luís Quintais on Terça-feira, 02-09-2008

Estudos do tempo e do movimento Eu sou eu mesmo e a forma que o universo faz à minha volta. Os estudos do tempo e do movimento representam a nossa tentativa em ocupar o mais pequeno e humilde nicho no universo em redor.

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JG Ballard: projecto para um glossário do século XX (9)

Posted in Autores by Luís Quintais on Terça-feira, 02-09-2008

Pornografia O sonho casto e não erótico do próprio corpo.

LQ

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JG Ballard: projecto para um glossário do século XX (8)

Posted in Autores by Luís Quintais on Terça-feira, 02-09-2008

Aerodinâmica Aerodinamizar satisfaz o sonho de voar sem o esforço de fazer crescer asas. A aerodinâmica é a escultura em movimento do espaço-tempo não euclidiano.

LQ

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JG Ballard: projecto para um glossário do século XX (7)

Posted in Autores by Luís Quintais on Terça-feira, 02-09-2008

A pílula O passo atrás da natureza de modo a dar dois passos à frente, presumivelmente em direcção às mais potentes possibilidades evolutivas do sexo integralmente conceptualizado.

LQ

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JG Ballard: projecto para um glossário do século XX (6)

Posted in Autores by Luís Quintais on Terça-feira, 02-09-2008

Guerra de trincheira O corpo como esgoto, a sarjeta do seu próprio matadouro, descarregando os seus medos e agressões.

LQ

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JG Ballard: projecto para um glossário do século XX (5)

Posted in Comentários by Luís Quintais on Terça-feira, 02-09-2008

Chaplin O grande feito de Chaplin foi desacreditar totalmente o corpo, e ridicularizar toda a noção de dignidade do gesto. Como mergulhadores de chumbo calçados tentando ancorar o sistema nervoso central ao leito marítimo do tempo e do espaço, homens graves movem-se à sua volta.

LQ

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JG Ballard: projecto para um glossário do século XX (4)

Posted in Autores by Luís Quintais on Terça-feira, 02-09-2008

Telefone Um santuário à desesperada esperança de que um dia o mundo nos escutará.

LQ

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JG Ballard: projecto para um glossário do século XX (3)

Posted in Autores by Luís Quintais on Terça-feira, 02-09-2008

Jazz O ver-se livre da memória de curta-duração da música, mas não menos doloroso por isso.

LQ

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JG em Barcelona

Posted in Autores, Comentários, Notícias by Luís Quintais on Quarta-feira, 23-07-2008

Sugestão de verão: dêem um salto a Barcelona. Foi ontem inaugurada no Centro de Cultura Contemporànea de Barcelona a exposição/homenagem a JG Ballard, Autopsy of the New Millennium. Ficará no CCCB até dia 2 de Novembro. A não perder!

Luís Quintais

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