Os Livros Ardem Mal

Barba Azul, Papão e Companhia

Posted in Livros, Recensões by Catarina Maia on Quarta-feira, 11-03-2009

barba-azul-papao-e-companhia

Barba Azul, Papão e Companhia, apesar de ser uma obra de meados dos anos 80, foi agora editado pela primeira vez em Dezembro de 2008 pela Cavalo de Ferro, numa tradução de Ana Paiva Morais. É um livro de contos, dezassete breves histórias de Eric Jourdan acompanhadas por dezassete ilustrações inéditas de Paula Rego. Este livro resulta de uma colaboração entre a pintora e o escritor que resolvem remexer o mundo da literatura infantil. Quem tem crianças em casa, ou simplesmente se interessa por literatura infantil de certeza que já se deparou com o problema de encontrar histórias que sejam minimamente interessantes. Apesar de não ser nada uma especialista no campo, acontece-me sempre comprar livros que contam histórias melosas e aborrecidas da “avó Bita” que faz bolinhos quentinhos e do “Joãozinho” que não gostava de sopa e depois já gosta… Em suma… uma chatice. (more…)

Comentários desligados

O Estranho Caso de Benjamin Button

Posted in Cinema, Crítica by Catarina Maia on Terça-feira, 17-02-2009

O Estranho Caso de Benjanin Botton

 

Upon a closer look, there is nothing normal in our universe.
Everything, even every small thing is a miraculous exception.
View from a proper perspective, every normal thing is a monstrosity.
Why should we take horses as normal and the unicorn as a miraculous exception?
Even the horse, the most ordinary thing in the world, is a shattering miracle.

Slavoj Zizek

 

Não há nada normal no nosso universo, diz-nos Zizek. Por mais pequeno que seja, todo o ser é resultado de infinitas variações e complexas combinações, na sua maioria, para não dizer totalidade, meros frutos do acaso. E, por isso, se virmos bem, somos todos milagres. Somos todos monstros. Todos excepções.

O Estranho Caso de Benjamin Botton, de David Fincher, não é um filme sobre uma aberração. Não é um filme que tenta humanizar uma aberração ou mostrar como os homens podem ser mais feios que a besta – como de certo modo acontece, por exemplo, em O Homem Elefante (1980) –, este é um filme sobre milagres. Apesar de inicialmente ser rejeitado e abandonado pelo pai, o modo como Benjamin, aquele pequeno “bebé velho”, é recebido por estranhos, a maneira como a sua mãe adoptiva, Queenie, se refere a ele é, justamente, como um milagre:

He is a miracle, that’s for certain… just not the kind of miracle one hopes to see…

Mas aqui o uso da palavra milagre está ainda muito associada à religiosidade. O momento em que esta outra noção de milagre de que falo, e que é mais próxima daquela proposta por Zizek , se torna mais clara para mim é no discurso de um bêbado, o Capitão Mike. Ele está num bar onde se encontram outros marinheiros de várias nacionalidades, que falam várias línguas, e discursa entusiasmado sobre a tatuagem de um colibri que tem desenhada sobre o seu coração. Ele conta isto a um russo com a ajuda de tradução simultânea:

This isn’t just another bird! Its heart rate’s twelve hundred beats a minute! Its wings beats eighty times a second! If you was to stop their wings from beating, they would be died in less than ten seconds… This is no ordinary bird, this is a frikkin’ miracle!

(more…)

Comentários desligados

O Prazer e a Dor – Diónisos na Escola de Apolo

Posted in Livros, Recensões by Catarina Maia on Sábado, 31-01-2009

 o-prazer-e-a-dor


José Reis, professor de Filosofia na Universidade de Coimbra, lançou recentemente, nas Edições Afrontamento, O Prazer e a Dor – Diónisos na Escola de Apolo. Este é um livro muito interessante mas que me deixou algumas dúvidas. O autor sugere que, como diz na contra capa: “o prazer e a dor são, em todas as suas relações e modalidades, físicas e psicológicas, a única coisa que move o homem”. Uma afirmação forte, e para a provar José Reis pega em duas éticas aparentemente díspares, a de Aristóteles e a de Kant, e tenta mostrar como na verdade ambas funcionam sob a mesma base, a mesma essência: o prazer e a dor. Assim como também a religião. Segundo o autor tudo, e digo bem, “Tudo está aí, doravante, ao alcance da mão. E ainda por cima, como se vê, tudo isto não é uma teoria mas a simples descrição dos factos que nos constituem”. É logo este tom excessivamente assertivo que me faz desconfiar.  Continuo ainda a preferir a tríplice de Feuerbach “Amor, Razão e Vontade”. E o Amor pode ser, justamente, o elemento que desconstrói a teoria de que o homem é movido exclusivamente pela repulsa à dor e a atracção pelo prazer. Um dia Roland Barthes disse que a dor de um amante abandonado era semelhante ao martírio de um homem num campo de concentração. Foi muito criticado por isto. Mas admitindo que a dor na relação amorosa pode, de facto, ser avassaladora, não deixa de ser curioso observar como o ser humano, quando abandonado, em vez de fugir da dor, procurando esquecer aquele que lhe faz doer, pelo contrário, o procura e deseja talvez com mais força, tantas vezes se deixando sucumbir. No entanto, este continua a ser um livro que suscita debate, nos faz pensar em nós, nas nossas acções, no seu porquê. E por isso é um livro que recomendo.

José Reis (2008), O Prazer e a Dor – Diónisos na Escola de Apolo. Santa Maria da Feira: Edições Afrontamento. 99 pp. [ISBN: 978-972-36-0974-5]

Comentários desligados

A Invenção do Cinema Português

Posted in Livros, Recensões by Catarina Maia on Sábado, 31-01-2009

 

a-invencao-do-cinema-portugues

Também das edições Tinta da China chega-nos A Invenção do Cinema Português. Este livro, apesar de o poder parecer, num primeiro olhar rápido, não é um mero catálogo de fotografias e sinopses de filmes, de escolhas avulsas de algum modo espectáveis.  O autor, Tiago Batista, consegue estabelecer uma excelente ligação histórica e de afinidade que ajuda a entender os diferentes momentos a que os filmes se referem e, através deles, a evolução operada no cinema em Portugal.

O livro começa com uma ideia que joga com a famosa e irónica afirmação de Bénard da Costa “O cinema português nunca existiu”, ao afirmar justamente o oposto: “O cinema português sempre existiu”. Não tanto o cinema feito em Portugal, mas refere-se o autor a uma cinematografia nacional. Uma procura de “portugalidade” que todos os cineastas portugueses, até meados da década de 90, de algum modo impuseram a si mesmos, e que acabou por se colar a eles. A crítica, especialmente a estrangeira, terá contribuído para a construção de um estereótipo a que se chamou “escola portuguesa” e que tanto serviu para unir como para separar filmes e realizadores.

Mesmo tendo consciência de que não era esse o objectivo de Tiago Batista com este livro, ao acabar de ler A Invenção do Cinema Português é impossível não sentir que continuamos a precisar de uma obra que seja, de facto, uma história do cinema português (ou do cinema em Portugal, uma vez que a expressão pode ser ambígua). Uma obra mais sistemática. E isso nota-se, desde logo, na própria bibliografia indicada neste livro, composta maioritariamente por artigos dispersos em livros ou em revistas, uma edição de 1986 da História do Cinema Português, de Luís de Pina – que precisa, naturalmente, de ser revista e aumentada.

Tiago Batista (2008), A Invenção do Cinema Português. Lisboa: Tinta da China. 231 pp. [ISBN: 978-972-8955-84-7]

Comentários desligados

Foi Você Que Pediu Uma História da Publicidade?

Posted in Livros, Recensões by Catarina Maia on Sábado, 31-01-2009

foi-voce-que-pediu-uma-historia-da-publicidade1

Foi Você Que Pediu Uma História da Publicidade?, das edições Tinta da China, é um trabalho de grande qualidade e profissionalismo. Como diz na apresentação do livro o seu autor, Luís Trindade, é impossível ter uma ideia de quantos anúncios foram feitos na história da publicidade. Neste livro restringe-se o campo de observação a um espaço, Portugal, a um tempo, o século XX, e a um suporte, as publicações periódicas. Ainda assim o material permanece imenso. Os anúncios estão de tal modo presentes, para não dizer omnipresentes, na nossa vida, na nossa sociedade, que se torna impossível escapar à sua influência. E, ao mesmo tempo, a sua natureza é intrinsecamente volátil, passageira. As escolhas que compõem o livro são por isso muito importantes e muito difíceis.

Luís Trindade, professor de Estudos Portugueses na Universidade de Londres e investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, conhece muito bem o campo das publicações periódicas em Portugal. Tem vários títulos publicados nesta área, entre os quais destaco o recente Primeiras Páginas. O Século XX nos Jornais Portugueses (2006, Edições Tinta da China). Ao contrário deste último, em Foi Você Que Pediu Uma História da Publicidade? Luís Trindade opta  por seguir uma organização não cronológica, juntando anúncios de 1905 ao lado de anúncios dos anos 80 ou 90. A mulher e a máquina são os temas mais representados nos anúncios e servem de leitmotiv nesta narrativa que o autor tenta construir sobre a história da publicidade em Portugal, que é também uma história de Portugal.

(more…)

Comentários desligados

2008 Vintage: Catarina Maia

Posted in Balanço by Catarina Maia on Quinta-feira, 15-01-2009

Melhores filmes

1) Wall-E, de Andrew Stanton

wall-e5

Wall-E não é apenas o melhor filme de animação do ano, é o filme mais extraordinário que nos foi dado ver numa sala de cinema nos últimos anos. E isso foi reconhecido pela Associação de Críticos de Los Angeles que, pela primeira vez, em 33 anos de existência, votou num filme de animação como o melhor filme do ano. Wall-E é uma viagem terna, divertida e inteligente pela história do cinema. Uma prova de confiança na capacidade de amar.

2) Este País Não é Para Velhos, de Joel e Ethan Cohen

Não encontro nos filmes dos irmãos Cohen uma qualidade homogénea. Têm filmes fabulosos e outros que acho francamente medíocres, como O Grande Lebowski (1998), ou mesmo o muito aclamado Fargo (1996). Este País Não é Para Velhos parece-me, contudo, indiscutivelmente, um desses fabulosos acontecimentos cinematográficos de 2008. Um excelente argumento (adaptado do romance de Cormac McCarthy) que desafia a nossa crença na capacidade de contornar as contingências, de escapar à realidade caótica a que estamos sujeitos, de que fazemos parte.

3) Fome, de Steve McQueen

Fome é a primeira longa metragem de Steve McQueen, um reconhecido artista visual inglês, que conta com Michael Fassbender no seu primeiro grande papel (até aqui Fassbender tinha trabalhado essencialmente em séries de TV, representando papéis menores). A estreia, digamos assim, de um e de outro merece a nossa atenção. Fome conta a história real dos últimos meses de vida de Bobby Sands, membro do IRA, que morreu em 1981, depois de sessenta e seis dias de greve de fome na prisão de Maze, na Irlanda do Norte. O facto de o filme tratar do abuso perpetrado sobre presos políticos pode criar expectativas de fácil empatia, mas a verdade é que a estética do filme, de uma clareza formal impressionante, e a quase ausência de diálogos afastam o espectador para uma posição desconfortável de observador. Uma experiência de onde está afastada a compaixão. Mas qual é a posição «correcta» para assistir à violência?

(more…)

Comentários desligados

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 25 outros seguidores