Os Livros Ardem Mal

Por uma ciência da civilização

Posted in Livros, Recensões by Rui Bebiano on Sábado, 02-05-2009

Peter Sloterdijk

Partidário de uma reflexão iconoclasta projectada sobre alguns dos temas contemporâneos mais problemáticos, em A Loucura de Deus Peter Sloterdijk ocupa-se do inquietante potencial de violência que os três monoteísmos mantêm no mundo actual. Ele pode preludiar, de certa forma, uma «guerra mundial» de um novo tipo, na qual as três grandes religiões com pretensões universalistas se defrontariam num combate total de morte e destruição destinado a obter o monopólio do absoluto e da verdade. Desde logo pela interferência da religião judaica, apoiada numa espécie de contrato «entre um psiquismo grave e grande e um Deus grave e grande». Depois, um cristianismo que conserva muitas das características que o ligam ao judaísmo mas integra «acentos cristológicos» de uma novidade ainda subversiva que lhe conferem uma dinâmica de proselitismo. Por fim um Islão que procurou, desde o seu atribulado início histórico, corrigir as falhas, as «errâncias», dos monoteísmos que o precederam, integrando desde a primeira hora «impulsos religiosos e político-militares» de uma natureza prática e belicosa.

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O fim dos bravos

Posted in Livros, Recensões by Rui Bebiano on Quinta-feira, 30-04-2009

Wellington

«Com mil demónios! Julgo que não teríamos conseguido se eu não tivesse lá estado!» A frase foi pronunciada pelo Duque de Wellington quatro dias após ter comandado as tropas britânicas, holandesas, belgas e alemãs na batalha de Waterloo, selando aí o destino de Napoleão Bonaparte. Evoca também o tema central deste livro de John Keegan editado há já mais de vinte anos, logo após O Rosto da Batalha. Neste, era o soldado o protagonista, evocado na sua relação com a experiência directa da dor, da vozearia, do terror, da audácia e da exaustão espalhados pelos terrenos do combate. Em A Máscara do Comando é a figura do general ou daquele que assume o comando supremo que se encontra no centro, abordada pelo historiador a partir da leitura de quatro biografias e de quatro diferentes modelos de liderança.

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Pelo milésimo Jóta-Éle

Posted in Balanço, Efemérides by Rui Bebiano on Quinta-feira, 29-01-2009

JL

A partir de 1981 e ao longo dos primeiros sete ou oito anos de publicação, à época semanal, fui comprando sempre o Jornal de Letras. Mas não foram apenas problemas de espaço que num repente me levaram a deixar de o fazer, aí pelo final da década. Vinha-me já distanciando, havia algum tempo, de um dialecto que me parecia demasiado fixo, datado, de temas e rostos repisados até ao esgotamento, de alguma reclusão em relação a um conceito de cultura que cada vez mais me parecia elitista e redutor, de um grafismo sonolento, que nem era clássico nem moderno. Foram duas as gotas de água que me levaram a deixar de comprar o jornal: a chegada de um número crescente de colaboradores incapazes de transcenderem um discurso académico autocentrado (e eu, pobre académico, queria tanto ouvir outra língua, outros timbres), e aquela incomodativa mania, que durou anos, para titularem todos, absolutamente todos os artigos, servindo-se das suas primeiras palavras.

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Merci beaucoup, Professor Claude

Posted in Comentários, Vária by Rui Bebiano on Sexta-feira, 28-11-2008

Claude Lévi-Strauss

Inicialmente em A Terceira Noite

Quero recordar os 100 anos que o antropólogo, professor e filósofo Claude Lévi-Strauss completa neste 28 de Novembro. Mas começo pelo fim: pelo esquecimento. Hoje, quando menciono numa aula de licenciatura o nome de Lévi-Strauss, para tornar mais clara a identificação preciso dizer que não me estou a referir àquele senhor de origem alemã que em 1853 fundou em São Francisco a primeira fábrica de blue jeans. E preciso começar por recomendar, para evitar grandes choques, a leitura mais facilmente sedutora desses apontamentos de trabalho de campo na terra amazónica, aparecidos em 1955 e por vezes apresentados como um mero exemplo de literatura de viagens, que são os Tristes Trópicos. Lévi-Strauss, como o estruturalismo, está fora de moda.

No entanto, quando reentrei na universidade logo após a revolução de Abril, a primeira obra cuja leitura me foi recomendada, e que tenho agora aqui mesmo à minha frente na edição velhinha da Presença, foi o Raça e História, um livro publicado pela primeira vez em 1952 que naqueles anos setenta sublinhei conscienciosamente. Retenho dele – numa altura em que volto a ouvir na televisão os apresentadores falarem de povos «mais» ou «menos» civilizados – fragmentos da sua reapreciação das culturas ditas «arcaicas» ou «primitivas». E sobretudo da sua crítica radical e refundadora do etnocentrismo: «Preso entre a dupla tentação de condenar experiências que o chocam afectivamente e de negar as diferenças que ele não compreende intelectualmente, o homem moderno entregou-se a toda a espécie de especulações filosóficas e sociológicas para estabelecer vãos compromissos entre estes pólos contraditórios, e para aperceber a diversidade das culturas procurando suprimir nesta o que ela contém, para ele, de escandaloso e de chocante.»

O ponto final na hipótese da existência de uma «mentalidade primitiva», posto definitivamente em causa, no ano de 1962, em O Pensamento Selvagem – numa defesa dos «saberes indígenas» que ainda hoje desagrada a muitos porque queima um certo sentido da história construído ao longo de séculos – já se encontra ali, seguindo um método de observação do social e uma filosofia para a vida que procuro praticar e que tento ainda partilhar com quem me vai ouvindo: «A tolerância não é uma posição contemplativa dispensando indulgências ao que foi e ao que é. É uma atitude dinâmica, que consiste em prever, em compreender e em promover o que quer ser. A diversidade das culturas humanas está atrás de nós, à nossa volta e à nossa frente. A única exigência que podemos fazer valer a seu respeito – exigência que cria para cada indivíduo valores correspondentes – é que ela se realize sob formas em que cada uma seja uma contribuição para a maior generosidade das outras.» Muito obrigado, caro Professor Claude.

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Silêncios

Posted in Vária by Rui Bebiano on Quinta-feira, 20-11-2008

Silêncio 1970
Vilar Formoso – Portugal/1970

A fotografia testemunha a dimensão vivamente expressiva do silêncio. Sinal primário da arte fotográfica, a suspensão no tempo da imagem captada com a câmara e a utensilagem técnica da qual ela se serve retira-a do estrépito dos dias, reforçando e diversificando por esse meio a sua conformação simbólica. O «trabalho do silêncio», como lhe chama Eni P. Orlandi, impõe assim o seu papel fundador na relação do sentido com o imaginário. E n’A Câmara Clara, Barthes fala de um «saber fotográfico» que nenhuma outra forma de reconhecimento do mundo pode comunicar.

Mas quando ao silêncio da fotografia se associa o silêncio como objecto fotográfico, a intriga de sentidos torna-se explosiva de tão veemente, enérgica, que se apresenta ao olhar. Podemos observar agora um novo episódio desta apoteose que grita em Silêncios/Silences, um álbum bilingue de Eduardo Gageiro editado sem editora e sem apoios oficiais. São perto de 180 imagens a sépia, instantes captados em Portugal e mundo afora entre 1955 e 2007, que se nos impõem intimamente pela forma como os silêncios representados nos calcam e nos emudecem. O texto de Lídia Jorge que as antecede comenta algures: «Eu experimentei, e agora sei que somando silêncio mais silêncio, mais silêncio, e ainda mais silêncio, assim infinitamente somados, dessas parcelas todas, nunca resultarão silêncios».

Eduardo Gageiro (2008), Silêncios/Silences. Prefácio e epígrafes de Lídia Jorge. S.l.: s.e. 200 p. ISBN: 978-972-96469-3-5

Rui Bebiano

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O rapaz que olhava os navios

Posted in Autores, Recensões by Rui Bebiano on Quinta-feira, 06-11-2008

Istambul

Versão de um nota de leitura publicada na LER de Outubro

Memória, ensaio e elegia, eis um livro escrito como história afectiva da cidade que o autor crê habitada «de ruínas e de melancolia». Escolheu observá-la a partir dos sinais de um passado que é o da sua infância e primeira juventude, fazendo-o acompanhar de recordações familiares, fotografias a preto e branco, livros e jornais envelhecidos. Por todo o lado o hüzün, uma variedade de melancolia, de tristeza, aplicada aos istambuleses que padecem de um sentimento de perda por viverem num lugar cujos dias de glória acabaram. Não se trata, porém, de um exercício meramente nostálgico, pois Istambul não foi apenas o território físico de Pamuk: foi também a casa-mãe da sua imaginação, um espaço com o qual manteve sempre uma identificação poética, o observatório privilegiado para a sua percepção das mudanças do mundo.

A antiga sede dos impérios bizantino e otomano, construída nas margens da Europa e encravada entre Oriente e Ocidente, integra uma permanente ambiguidade cultural que tem sido fonte de conflitos mas também motivo de atracção para quem chega de fora. Orhan Pamuk, que nasceu numa família da elite laica e ocidentalizada, evoca escritores vindos de longe que chegaram à procura do pitoresco e do exótico (Lamartine, Nerval, Gautier, Gide, De Amicis, entre outros), mas também autores locais – como Ahmet Rasim ou Resat Ekrem Koçu, o criador de uma original Enciclopédia de Istambul – que procuraram enunciar a cidade da quem a habitava e não repetir a perspectiva romantizada e orientalista adoptada pelos visitantes.

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Guerra interminável

Posted in Recensões by Rui Bebiano on Sábado, 27-09-2008

Versão de um texto publicado originalmente na revista LER de Setembro

A linguagem deste livro parecerá um tanto árida a quem não estiver familiarizado com a literatura sobre arte da guerra. O seu autor, Robert Smith, não é um historiador mas um militar de carreira, que remexe no passado da guerra principalmente para melhor a compreender e para preparar a sua condução no seu presente. No activo durante 40 anos, o General Smith ocupou elevados lugares de chefia nos conflitos do Iraque, da Bósnia e da Irlanda do Norte, entre muitos outros postos de responsabilidade. O ponto de partida, fundado no conhecimento da história e na experiência pessoal, é convicção de que a natureza da guerra mudou muito nas últimas décadas. Mas é também a certeza de que a nova realidade não é ainda devidamente apreendida, o que tem determinado decisões erradas e obsoletas. Sugere então a oposição entre dois paradigmas que cosnidera terem-se sucedido no tempo.

A Europa viveu séculos de campanhas militares pouco flexíveis. Através delas, governos e governantes limitavam-se a reorganizavar os mapas dos territórios, resguardando sempre o centro de um poder que deveria permanecer inatacável. Napoleão mudou profundamente esta realidade ao servir-se dos recursos humanos e morais da nação para destruir o opositor e instalar uma nova ordem, enquanto Clausewitz deu consistência teórica a esta nova forma de combater, e as reformas aplicadas pelo Estado prussiano lograram estabelecer um poder estável assente na «guerra industrial». Para Smith, esta ter-se-á fundado na procura de uma vitória absoluta, no conflito aberto e total entre Estados, na manobra flexível dos grandes exércitos e num apoio humano e material à actividade guerreira colocado pelos governos acima de quaisquer outros interesses.

Ao invés, o novo paradigma da «guerra entre o povo», emergente durante o período da Guerra Fria, funda-se, para o autor, na alternância entre o confronto aberto e o conflito localizado, independentemente do Estado enfrentar outro Estado ou um oponente de diferente natureza. Aqui não existe uma sequência pré-definida e a paz não é necessariamente o ponto de partida ou de chegada. Nenhum acto de força é agora decisivo, e a violência permanece disseminada no território, não distinguindo civis e militares, como ocorre hoje no Iraque, no Afeganistão ou no Kosovo. Pelo meio, Smith ocupa-se de situações no decorrer das quais o conflito entre os dois paradigmas, aquele que começava a revelar-se caduco e o que se anunciava emergente, redundou em operações que terminaram frequentes vezes – como ocorreu na China ou no Vietname, em Cuba ou em África, nos Balcãs ou no Médio-Oriente – com a vitória das forças tecnicamente pior preparadas.

Smith insiste em que, sob a nova forma de pensar e de fazer a guerra, o objectivo central passou a ser ganhar «a batalha das vontades». Não procurar o extermínio do inimigo mas uma mudança favorável na opinião pública. O que determina a alteração da conhecida tese clausewitziana sobre a guerra como a continuação da política: agora guerra e política confundem-se no tempo e nos modos.

Rupert Smith, A Utilidade da Força. A Arte da Guerra no Mundo Moderno. Tradução de Miguel Mata. Edições 70, 480 págs.

Rui Bebiano

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Por uma liga hanseática de livrarias decentes

Posted in Polémica, Vária by Rui Bebiano on Terça-feira, 19-08-2008

Um texto de Osvaldo Manuel Silvestre sobre a impossibilidade de encontrar um único título de Jorge Luis Borges nas livrarias de Coimbra, e depois dele o seu útil post-scriptum, suscitaram um comentário de João Diogo seguido de uma resposta do primeiro. Ficam os links para quem pretenda conhecer os seus argumentos – que se completam mais do que se contrariam -, pelo que me limito a abordar o problema principal que a ambos preocupou. Refiro-me à gestão dos stocks de livros na sua relação com um certo número de inquietantes alterações perceptíveis na fisionomia de boa parte das nossas livrarias e dos seus clientes. Um problema associado à crescente dificuldade que têm os grandes leitores, os verdadeiros e obstinados amantes dos livros, em encontrarem as obras que procuram ou que gostariam de poder descobrir quando deambulam pelo interior de livrarias que cada vez mais se banalizam. Confundindo-se, na disposição espacial e no modo de estar dos seus frequentadores, com os alegres e ruidosos corredores dos grandes centros comerciais e dos hipermercados. E nas quais esses leitores se não sentem bem.

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Memória pesada

Posted in Vária by Rui Bebiano on Sábado, 26-07-2008

Notável e perturbante o post de Luís Januário n’A Natureza do Mal. Onde acostam dois dos livros do croata exilado Predrag Marvejevitch, Sete Mil Dias na Sibéria (a obra singular e precursora de Karlo Steiner), também a distante Kolyma de Varlam Chalamov. Onde se fala ainda de Óscar Lopes, da realidade do socialismo real, do filo-, do tardo- e do pós-comunismo, de cumplicidades que atravessam tempos, lugares e regimes. E da memória pesada de tudo isto. A não perder.

Rui Bebiano

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Perfídia

Posted in Comentários by Rui Bebiano on Sábado, 28-06-2008

Este título não me foi sugerido pelo bolero clássico de Alberto Dominguez, que todos em algum momento trauteámos ou ouvimos ao sintonizar uma rádio regional. A palavra avalia aqui o próprio post, como sinónimo de insídia ou de infâmia, e isto sabemos bem o que é: a sugestão de algo do qual suspeitamos, que aparentemente adivinhamos, mas do qual falamos de um modo impressivo e sem qualquer espécie de prova.

De cada vez que entro numa livraria encontro mais e mais ficção em português, quase toda ela próxima do romance histórico ou contendo uma óbvia componente autobiográfica. Transbordam os escaparates-placard, as estantes já não chegam, rimas de volumes por debaixo das mesas, os empregados incapazes de memorizarem títulos que identificam, quanto muito, pelas capas coloridas. Independentemente da medida da originalidade ou dos atributos literários – que diferem bastante mas podemos situar numa faixa média-baixa, próxima dos gostos da nova camada de viciados em literatura de hipermercado – aquilo que mais surpreende não é o número assombroso dos títulos, mas sim o dos autores. Ainda que muitos deles o sejam de um livro só. Mais estranho ainda é que a maioria seja gente crescida, em regra com uma vida já razoavelmente larga, mas que antes daquele título não publicou o quer que seja, e seja em que género for, com um mínimo de relevo e de consistência. Pelo menos algo que não seja uma edição de autor para oferecer à madrinha e impingir aos amigos, e possa constar das bases de dados das bibliotecas. Uma dúvida que me parece legítima perante tal acesso de súbita criatividade em tanta gente ao mesmo tempo, é a seguinte: não estará a profissão de ghostwriter em fulgurante ascensão entre nós? Outra dúvida é: não terá aumentado o número de editoras que publica livros com um financiamento muito substancial da parte dos próprios autores?

Apenas perfídia. Peço desculpa, com licença e obrigado.

Rui Bebiano

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Esquecer Maio para o Maio não morrer

Posted in Comentários by Rui Bebiano on Domingo, 20-04-2008

Durante algumas semanas, Dany «Le Rouge», o libertário, foi para o Ministério do Interior «judeu alemão» e para o PCF «anarquista alemão». Hoje permanece inclassificável, com atitudes que desagradam à esquerda e à direita. Em 2001, a defesa pública da intervenção armada anti-taliban retirar-lhe-ia a simpatia política de muitos dos antigos correligionários e desacreditá-lo-ia junto daqueles que jamais aceitarão o mais pequeno pacto com o arquivilão americano. A leitura que Daniel Cohn-Bendit (DC-B) tem vindo a fazer do Maio de 68 e do seu rastro tem alargado ainda mais o círculo da rejeição.

Em Forget 68, um pequeno livro das Éditions de l’Aube que transcreve uma conversa mantida com o jornalista Stéphane Paoli e o sociólogo Jean Viard, DC-B indica aquelas que considera serem as duas grandes incompreensões mantidas a propósito do significado do movimento. A primeira, afirma, «é a de Sarkozy e da direita, para quem todos os males da França de hoje derivam de 68», a segunda residirá «nessa fábula da extrema-esquerda para quem concluir 68 se mantém na ordem do dia» (p. 123-4). Contra a depreciação ou o maravilhamento, admite a derrota política do Maio, mas destaca a sua vitória a longo prazo, determinada principalmente pelo impacto das ideias e das vivências que o acompanharam.

Deve dizer-se que DC-B não partilha com muitos dos seus contemporâneos de uma visão nostálgica do movimento do qual continua a ser o rosto mais visível. E faz questão de afirmá-lo. Sublinha sempre o seu carácter episódico, datado, e a sua manifesta incapacidade para produzir na sociedade francesa uma qualquer ruptura de carácter revolucionário. Destaca também a sua inclusão na vaga de revolta que cruzou uma grande parte do planeta nos anos 60, representando um dos seus mais importantes momentos. Mas sublinha principalmente a sua dimensão simbólica como instante no decorrer do qual passaram para primeiro plano práticas e propostas que questionaram a ordem política e moral da burguesia, ao mesmo tempo que revelavam a inadequação das ortodoxias da esquerda a um universo social emergente.

Nesta direcção, pode aproximar-se parcialmente a posição de DC-B da expressa logo em 1970 por António José Saraiva, para quem, em Maio e a Crise da Civilização Burguesa, os acontecimentos de 68 teriam sido «obra de uma mudança espiritual». Mas, tal como o fez recentemente a americana Kristin Ross em May’68 And Its Afterlives, recusa também a leitura inócua de um Maio puramente festivo, reconhecendo-o sem equívocos como momento de aproximação das esperanças e da contestação dos intelectuais à luta dos trabalhadores e dos sectores anticolonialistas e anti-imperialistas que se incorporaram no movimento. Diversamente de Ross, porém, DC-B considera-o também como momento dotado de um significado simbólico que o tempo ampliou, acabando por ganhar vida própria ao materializar uma espécie de vitória a longo prazo, e de desforra, da geração derrotada pela polícia e pelos gaullistas nas ruas de Paris.

Propõe esquecer 68, mas apenas na medida em que a excessiva e recorrente lembrança tem servido para que os seus inimigos «em diferido» lhe atribuam um sentido perverso. E para que os seus partidários passadistas se não continuem a servir da sua memória oficial como obstáculo ao lançamento desse esforço de «recomposição do pensamento», associado «a uma exigência de liberdade e de autonomia tanto colectivas quanto individuais» (p.85), que se revela hoje indispensável, como um desafio, na procura de soluções para os ventos de mudança que varrem um mundo radicalmente outro.

Não se encontrará nada de substancialmente novo nem de particularmente original neste pequeno livro. Mas o discurso enérgico que percorre Forget 68 ajudará a pensar o Maio francês, o seu tempo e a sua posteridade sob perspectivas que não sejam a da rejeição liminar sugerida pelas palavras de Sarkozy, ou a da nostalgia de um mundo carregado como um fardo por todos esses soixante-huitiards que num dado momento das suas vidas deixaram de dar corda aos relógios. Esquecer para, talvez, melhor lembrar.

Publicado também em A Terceira Noite

Daniel Cohn-Bendit /2008), Forget 68. La Tour d’Aigues: Éditions de l’Aube. 128 pp. [ISBN: 978-2-7526-0451-4]

Rui Bebiano

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Livros no país do gelo

Posted in Comentários by Rui Bebiano on Quinta-feira, 10-04-2008

Segundo o mais recente Relatório de Desenvolvimento Humano do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Humano), a Islândia é o país com maior Índice de Desenvolvimento Humano. Segundo um estudo publicado pelo The Guardian, em 2006, os islandeses são o povo mais feliz do mundo. A reportagem «La Buena Vida», publicada há dias no El País, refere que a Islândia é o país onde mais livros se compram por pessoa. Qualquer relação, será mera coincidência.

Sandra Guerreiro Dias

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Lisboa, Luanda e volta

Posted in Crítica, Recensões by Rui Bebiano on Segunda-feira, 31-03-2008

LuandaApós muitos anos de emudecimento e de pudor impostos pela excessiva proximidade dos acontecimentos e do seu perceptível efeito traumático, multiplicam-se agora em Portugal as publicações que aludem ao passado recente de Angola. Estudos históricos, ensaios sobre a realidade pré-independência, livros de memórias, álbuns fotográficos, romances, reportagens, tomam e retomam, quase sempre sob uma perspectiva europeia, temas durante muito tempo silenciados ou reduzidos ao rumor. A paz podre implodida em 1961, a guerra colonial e as suas circunstâncias, o confronto fratricida de Maio de 1977, os mais recentes anos da guerra civil e da inacabada construção da democracia, são os temas-tempos escolhidos. Mas tem sido ignorada a fase particularmente crítica e conturbada, povoada de intensos dramas humanos, que correspondeu ao período que vai do 25 de Abril à proclamação da independência em Novembro de 1975. Esta ausência acaba de ser parcialmente superada com a publicação de O Último Ano em Luanda, o último romance de Tiago Rebelo.

Trata-se de uma obra manifestamente realista e assumidamente autobiográfica, integrada na recente voga do romance histórico destinado a um público sedento de narrativas empolgantes – como é sabido, coisa raríssima na literatura portuguesa contemporânea – e escrita sem grandes complexidades estilísticas. De facto, apesar de na sua página da Internet o autor se auto-representar como «um dos romancistas mais importantes das letras portuguesas», trata-se essencialmente de um caso de competente literatura de entretenimento, destinada, não duvido, a ocupar um dos «lugares cimeiros das principais tabelas de vendas nacionais» e a suscitar alvoroço e comoções entre o grande número de portugueses que viveram aqueles longos meses de brasa ou que deles colheram os ecos. Coisa que não constitui defeito, ou serve de atestado de menoridade, diga-se. Não é esse, porém, o aspecto que esta nota de leitura pretende destacar. [continua aqui >>>]

Rui Bebiano

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Nem todos os nossos poetas são os nossos poetas

Posted in Polémica, Vária by Rui Bebiano on Domingo, 30-03-2008

Cheguei ao caso através de um post de Francisco José Viegas. Nele se chama a atenção para uma opinião de José Eduardo Agualusa, expressa durante uma entrevista concedida ao jornal Angolense, segundo a qual Agostinho Neto, António Cardoso ou António Jacinto poderiam ser «eventualmente muito boas pessoas,(…) mas eram fracos poetas». Claro que, sobretudo por causa do primeiro, caíram o Carmo e a Trindade para os lados de Luanda, ao ponto de começarem de imediato a correr declarações tendentes, uma vez mais, a desqualificar Agualusa no plano intelectual, político e até pessoal, acusando-o, por exemplo, de ter ido «longe demais ao atacar grandes figuras emblemáticas da literatura nacional».

Sem ser crítico literário, conheço o suficiente da obra dos três autores angolanos para, neste caso, concordar genericamente e em consciência com Agualusa. O que não invalida que admita que, para muitas pessoas para as quais a grande poesia deva «conter mensagem», ou então «exprimir sentimentos» sob «belas palavras», eles mereçam todos os epítetos que lhes possam conferir a aura dos «grandes poetas». Posso dizer a mesma coisa da poesia de Miguel Torga, Eugénio de Andrade ou Manuel Alegre, que não considero grandes poetas embora deva respeitar quem ache que o são ou quem tenha gosto em lê-los. Como reconheço a honestidade e o esforço que todos eles foram, eventualmente, depositando no seu próprio labor poético. Aquilo que não é tolerável é que a obra de alguém – poeta, crítico, amola-tesouras ou qualquer outra coisa – esteja isenta de exame e origine formas de coacção sobre a opinião ou a iniciativa de quem a possa contestar. Pelo que se pode ver, na ainda débil democracia angolana, onde se mantém um regime «firme e determinado, mas não totalitário» (palavras de um editorial do sempre oficioso e oficiante Jornal de Angola), permanece com voz activa quem pense que deva estar. Concordo com FJV quando este lembra que «convém estar atento, para que não pensem que ninguém ouve».

Rui Bebiano

Publicado também em A Terceira Noite

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Viva a Morte!

Posted in Crítica, Recensões by Rui Bebiano on Segunda-feira, 24-03-2008

PerdedorHá alguns anos, em crónica do El País, Mario Vargas Llosa considerava excessivamente apocalíptico o mundo segundo Hans Magnus Enzensberger. Não sabemos se o escritor peruano, que parece cada vez mais céptico em relação à actualidade, dirá hoje a mesma coisa. Mas podemos reconhecer, sem grande margem de erro, que Enzensberger tem mantido a coerência na sua forma irónica e desiludida, ritmada «com raiva e paciência», de olhar a parte da realidade que lhe cabe.

Em 1992-93 publicou dois pequenos ensaios, Perspectivas da Guerra Civil e A Grande Migração (ambos editados em 1998 pela Relógio d’Água, num volume que levou o título do primeiro), nos quais aportava já a uma «cultura do ódio» tendente a multiplicar, dia após dia, os conflitos armados e a insegurança nas ruas. No final do segundo texto, referindo-se aqueles que municiavam este estado das coisas, considerava que «o instinto de autoconservação dessas pessoas é menos marcado do que geralmente se pensa». Em 2006 alargou esta percepção na edição revista de um artigo, escrito originalmente para o Der Spiegel, que a Sextante Editora acaba de traduzir sob o título Os homens do terror. Ensaio sobre o perdedor radical.

Enzensberger vira-se aqui para o protagonista, particularmente agressivo e perigoso, dessa violência que não cessa de subjugar o planeta, tornando virtualmente arriscado qualquer lugar ainda há pouco tempo tomado como tranquilo e seguro. Para o perdedor radical, que vive do lado de fora das civilidades comuns, das sociabilidades transparentes, incapaz de as adoptar ou de com elas tratar, e busca a redenção desse estado de auto-exclusão através do recurso a um terror sem piedade que tudo esmaga.

Este perdedor radical não pode ser, todavia, comparado ao simples falhado. Enquanto este se resigna com a sua sorte, esperando por melhores dias ou por uma oportunidade providencial, aquele «isola-se, torna-se invisível, cuida dos seus fantasmas, concentra a sua energia e espera pela sua hora» (p.10). O tempo da vingança é então preparado cuidadosamente, fora da luta de massas (age sozinho, ou em conjugação com outras solidões) e das aproximações impróprias para a missão que o deslumbra (é quase sempre homem, e instado à misoginia). Incapaz de reconhecer-se culpado do seu isolamento, da sua incapacidade para se inscrever num quadro social criador e optimista, projecta sobre os outros a causa da sua própria miséria. [continua aqui >>>]

Rui Bebiano

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Da beleza e do medo

Posted in Comentários by Rui Bebiano on Domingo, 02-03-2008

Robert Capa
Capa na frente de Segóvia (1937) – Gerda Taro, ©International Center of Photography

Uma notícia sobre a descoberta de mais uma «mala mexicana» dentro da qual, ao longo de décadas, permaneceram guardados numa caixa de bombons 127 rolos de negativos de Robert Capa contendo cerca de 3500 fotografias que se julgavam perdidas, leva-nos a um dos temas recorrentes entre as representações visuais da história europeia dos últimos setenta anos. Mas a Guerra Civil de Espanha não legou apenas a memória dos seus episódios mais ou menos determinantes, mais ou menos dramáticos, ela alimentou também um lastro estético que se manteve perene no imaginário político das democracias e que, aparentemente sem evidenciar sintomas de fadiga, retorna a todo o momento. As canções de combate, os cartazes de propaganda, os documentários das actualidades cinematográficas, as fotografias que nos chegam, enunciam um pathos heróico, acentuadamente sedutor, que só a nostalgia de um tempo de causas vividas até ao limite e de convicções profundas de alguma forma justifica. E mesmo as imagens de dor e de ódio, tanto quanto as representações de um arrebatamento juvenil que ainda assombra, suscitam esse efeito. Por isso os resíduos do trabalho de Capa agora encontrados permanecem de alguma forma encantadores e capazes de intimarem a nossa atenção. E por isso também perturba um livro como Desertores. La Guerra Civil que nadie quiere contar, do jornalista e investigador Pedro Corral, construído, a contracorrente, sobre as recordações e os vestígios daqueles que de ambos os lados do conflito nos deixaram a percepção de um medo sem limites e de uma intensa vontade de sobreviver, que não ficaram até ao fim, que fugiram e se calaram para sempre. Desvela uma Guerra Civil destituída desse sentido épico e dessa dose de idealismo esteticizado que as velhas e as «novas» imagens do fotógrafo húngaro ainda parecem comunicar-nos.

Rui Bebiano

Pedro Corral (2006), Desertores. La Guerra Civil que nadie quiere contar. Barcelona: Debate. 622 pp. [ISBN: 84-8306-650-5]

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«Até se lhe embrulhava o estômago»

Posted in Crítica, Notas by Rui Bebiano on Terça-feira, 12-02-2008

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Em Os Amores de Salazar, Felícia Cabrita procurou desenhar para o austero ditador o reverso do familiar perfil fradesco. Uma «vida de D. Juan» feita de indícios, de suposições, de artifícios de imaginação, e, claro, também de uma dose de verdade que se perde na efabulação. Apresentado como remate de uma investigação de raiz, o livro mereceu mesmo, de Diogo Freitas do Amaral, um prefácio elogioso que o fez passar por obra reservada aos «historiadores imparciais» do futuro. E transformou-se rapidamente num êxito editorial.

Apresentado como resultado de década e meia de experiência jornalística vivida no contacto directo da autora com as parcelas das antigas colónias portuguesas, Massacres em África segue uma estratégia de construção aparentemente distinta. Mas cujo resultado prático acaba por se lhe assemelhar.

O livro aproxima alguns dos momentos mais sangrentos da história recente da África que se entende em português. Desde os massacres de Batepá, São Tomé, e da chacina da UPA, em 1961, ao de Wiriyamu, Moçambique, e aqueles que se seguiram ao golpe angolano de 1978, incluindo-se ainda informações sobre a morte violenta e inglória de Jonas Savimbi. Felícia Cabrita refere-os recorrendo a algum material de arquivo e a um conjunto de entrevistas, concedidas por testemunhas directas, sobreviventes e também executantes. A estes se refere quase sempre, aliás, com alguma compreensão, associando-os a actos que circunstâncias passadas determinaram mas que, de alguma forma, o tempo entretanto decorrido libertaria da responsabilidade histórica.

A escrita é fluente mas fácil, reconstruindo sem aparentes inibições os espaços sobre os quais a jornalista não possui informações. A busca do efeito melódico, a procura do impacto imediato da frase em prejuízo da sua beleza ou do seu rigor, definem um tom que prolonga o do livro sobre o Salazar «parte-corações». E o testemunho oral, veículo essencial para a construção de uma obra desta natureza que materializa a parte mais substancial do trabalho apresentado, resulta insuficiente, pois permanece imperfeitamente identificado, localizado e datado. Confrontado com estas falhas, o leitor vê-se então forçado a confiar plenamente na versão que lhe é contada. Coisa que, como é sabido, só por si não chega para aquilatar do valor documental de um determinado texto. Muito menos de um texto como este, que se reporta a uma das áreas mais sensíveis da memória e do rastro do nosso passado colonial

Pena é que a maior parte das pessoas que os irão ler julgará este livro, tal como aconteceu com o anterior, como um livro de história. Que de facto o não é: trata-se de uma compilação de reportagens aligeiradas sobre um tema que merecia maiores cuidados, inclusive do ponto de vista jornalístico. Talvez resulte razoavelmente como guião de um documentário concebido para a televisão ou para circular em DVD, e para ver apenas uma vez. Mas não como um livro para ficar.

Felícia Cabrita (2008), Massacres em África. Lisboa: A Esfera dos Livros. 346 pp. [ISBN: 978-989-626-089-7]

Rui Bebiano

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Teoria dos complexos

Posted in Crítica by Rui Bebiano on Domingo, 10-02-2008

Miguel RealA Morte de Portugal, de Miguel Real (MR), que a Campo das Letras acaba de editar, estabelece, desde a primeira linha, uma tentativa de diálogo com algumas das obras que têm tentado decifrar, ou exprimir, a identidade do «homem português». Os seus interlocutores são rapidamente nomeados: o Teixeira de Pascoais da Arte de Ser Português (1915), Agostinho da Silva na Educação de Portugal (1970), Eduardo Lourenço em O Labirinto da Saudade (1978), o padre Manuel Antunes do Repensar Portugal (1980), Boaventura de Sousa Santos de Pela Mão de Alice (1994), José Gil em Portugal Hoje. O Medo de Existir (2004), e Guilherme d’Oliveira Martins com o recente Portugal. Identidade e Diferença (2007). Mas são apresentados apenas como edifícios de uma paisagem panorâmica sobre a qual Real constrói a sua própria interpretação.

Mostrando uma certa tendência para a tipificação – que mantém ao longo de todo o livro – MR, «na linha de Eduardo Lourenço», projecta os quatro grandes «complexos culturais» através dos quais Portugal «se foi concebendo a si próprio ao longo de 800 anos de História». O primeiro, o complexo viriatino, terá emergido no século XVI «através da imagem de Viriato, herói impoluto, puro, virtuoso», figuração arquetípica de um Portugal que estava a acabar mas que deveria permanecer na memória das glórias passadas. O segundo configurará um complexo vieirino: «recusando testemunhar a nossa real insignificância, dourando-nos o futuro com o regresso anunciado às glórias do passado, agora sob o divino nome de Quinto Império», o padre António Vieira teria projectado uma atitude «que nos determina a desejarmos mais do que podem as forças». O terceiro complexo, o pombalino, conteria uma reacção, centrada na intervenção do Marquês de Pombal, ao Portugal esgotado pelo Estado «gordo, gordérrimo» de D. João V, pela intolerância inquisitorial, pela dependência económica da Inglaterra, propondo a salvação com «um banho de Europa» capaz de alterar drasticamente o perfil das elites. Por fim, como resultado de tantos desenganos e adiamentos, teria emergido um quarto complexo, canibalista, materializado na permanência de uma atitude antropofágica capaz de levar cada português a sustentar-se, para assegurar a sua sobrevivência, do corpo do Outro, transformado em adversário. Ainda que, no limite, precise, para o conseguir, de tornar-se familiar da inquisição, informador da polícia política ou denunciador perante o superior hierárquico.

Terá sido a combinação destes quatro complexos a desenhar o Portugal do presente, «moribundo, submerso pela avalanche de costumes liberais europeus e americanos, totalmente descristianizados e desumanizados». E é contra este Portugal menor que MR manifestamente constrói e procura fundamentar a sua argumentação. Destinada, como é comum neste género, a colocar o acento tónico no papel da «cultura», do «espírito», do «sentido de transcendência» que deverá preceder um progresso tecnológico que é apresentado como essência do mal. Principalmente quando tomado como totem sagrado diante do qual a vida social e a prática política se devem inquestionavelmente prostrar.

Todo este livro parece alimentar-se de uma fobia por um presente que se afigura imposto. Pois, se «nascemos assim, líricos e sanguíneos, e mais do que voltados para a terra e para o mar, voltados para o Outro, idealizando-o, espiritualizando-o liricamente, vendo neste o reflexo da santa imagem de Deus», porque chegámos a este ponto? MR não sabe, e nem poderia saber, se o regresso a esse caminho original está marcado no futuro que nos é reservado. Mas que o deseja, parece-me bastante claro.

Tem feito falta em Portugal, particularmente nestes tempos de orçamentólogos e engenheiros que gerem a república fixados no deve e no haver do prazo curto, referenciando tudo aquilo que não seja «pensamento» técnico como um obstáculo ao desenvolvimento sacrossanto dessas «economias» das quais tão jocosamente falava Eça, uma reflexão sustentada sobre o nosso destino comum. Da qual possamos discordar nos termos e nos modos – coisa que de facto se passou na minha leitura deste livro -, mas que não transforma o passado em mero bibelô nem se recusa a olhar mais longe que o virar da esquina. Este livro de Miguel Real leva-nos, pelo menos, a vislumbrar essa possibilidade.

Miguel Real (2008), A Morte de Portugal. Porto: Campo das Letras. 126 pp. [ISBN: 978-989-625-224-3]

Rui Bebiano

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