Os Livros Ardem Mal

Dicionário Crítico por Intermitência: Movimentos Poéticos (IV e último)

Posted in Dicionário, Poesia by Pamplinas on Quarta-feira, 16-09-2009

Biopoesia (Desde 2001, primeiro em Lisboa, depois S. Paulo, NY, o mundo). As primeiras tentativas, envolvendo cientistas do Instituto Gulbenkian de Ciência, datam de 2001, e foram conduzidas pelo biopoeta Albano Martins (1977, Gondomar). No início, tratou-se de produzir poemas visuais de grandes dimensões em contexto de galeria, explorando mensagens simples, fazendo com que as palavras, em várias cores, se formassem a partir de células humanas pintadas com ADN. Em seguida Martins passou a formas mais exigentes de manipulação genética, começando com suínos. Nesses casos, tratava-se de conseguir inscrever, por manipulação genética, um verso no lombo do animal. Após alguns casos menos bem sucedidos – as letras surgiam fora de sítio, sugerindo desagradáveis lapsos ortográficos -, foi possível começar a «escrever» poemas, ainda que breves, tendendo ao haikú. Dominada a técnica, e recorrendo a embriões de golfinhos, passou-se a inscrever textos mais extensos no dorso do animal, de que existem sobretudo dois magníficos exemplares no Jardim Zoológico de Lisboa, tendo os animais sido treinados para saltarem de modo a que praticamente se imobilizam no ar, o que permite que, numa leitura de relance, os espectadores consigam candidatar-se ao concurso que consiste em adivinhar o autor do poema e a obra em causa. Em todo o caso, o apogeu estético desta técnica foi conseguido com pavões, especialmente nos que foram introduzidos no parque de Serralves, em função da criação do Departamento de Biopoesia no Museu, por insistência de Rui Rio junto da direcção do museu e com o recrutamento de Amadeu Baptista (1976, Arrifana) e José Gaudêncio (1976, Marvão) ao Laboratório Interdisciplinar de Biopoesia e Bioarte do MIT. A internacionalização da Biopoesia portuguesa tem sido célere, com privilégio de parceiros de S. Paulo – o Grupo da Biopoesia Neoconcreta – e de Nova Iorque (o Bronx Biopoetry Research Net, ou BBRN). Mais recentemente, o convénio estabelecido entre o International Biopoetry Group (IBG), que reúne todos os pioneiros da biopoesia, e a Damon Transgenics, permitiu ao grupo exponenciar o seu campo de aplicações, como é o caso, muito recente, dos poemas do Grupo da Biopoesia Neoconcreta de S. Paulo que, ao abrigo desse acordo, começam agora a surgir nas papaias geneticamente modificadas nos laboratórios da multinacional no Brasil (com o bónus de a própria cor das papaias se ter tornado passível de modificação, explorando toda a gama cromática do arco-íris). Uma recente incorporação de biopoetas africanos no IBG teve como efeito imediato a reivindicação de incorporação de material poético na mandioca e na batata-doce, embora o carácter rugoso da casca da primeira tenha sido fonte de persistentes falhanços laboratoriais, por tornar os poemas de leitura quase impossível. Como seria fatal, a Greenpeace manifestou-se virulentamente contra o advento e manifestações da biopoesia, denunciando «a conivência da poesia com a manipulação genética de organismos vivos» e criticando a supostamente escassa qualidade poética dos textos geneticamente inscritos em animais e plantas (para o que se abonou em juízos críticos de pessoas como Harold Bloom e Fernando Guimarães). A virulência do ataque no Brasil, que como é típico do Greenpeace implicou assaltos a plantações e destruição maciça de papaieiras transgénicas, forçou o grupo de S. Paulo a contra-atacar, denunciando «o reaccionarismo estético do Greenpeace» e fazendo ver que a biopoesia é revolucionária na medida em que inscreve o poético na própria estrutura genética dos organismos vivos (ponto sublinhado num ensaio polémico de Peter Sloterdijk, intitulado «Regras para o Parque Poético-Transgénico», muito atacado por George Steiner, Giorgio Agamben e Jacques Rancière). A expansão da Biopoesia, o seu cunho internacional, a sua aliança com a tecnociência e o capital transnacional, mostram ainda, e por fim, como na arte contemporânea o «nacional» deixou de ser pertinente, já que «a questão decisiva hoje é a da escala, razão pela qual para um país periférico e minúsculo como Portugal o modo de afirmação internacional da biopoesia é claramente um modelo a seguir» (António Pinto Ribeiro).

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