Os Livros Ardem Mal

Dicionário Crítico por Intermitência: Movimentos Poéticos (II)

Posted in Dicionário, Poesia by Pamplinas on Sexta-feira, 11-09-2009

Intervenção Poética 3R (Anos 90, Porto-Gaia, Coimbra, Braga, Lisboa e Margem Sul, Sines). Activistas ecológicos, põem em prática na sua poesia os 3 R da prática ecológica – reduzir, reciclar, reutilizar – utilizando suportes já impressos (jornais, livros em segunda mão, flyers publicitários, etc.) e material já escrito (vulgo «património literário»). Podem simplesmente imprimir os seus poemas por cima de páginas de jornal ou livro ou flyers, ou podem sublinhar a marcador o que, no já impresso, seleccionam para os seus poemas, ou ainda recorrer ao recorte, colando depois em suporte também residual esses poemas recortados. Analogamente, recorrem a poemas da tradição literária, usando livremente versos, estrofes ou secções nos seus poemas, sem qualquer preocupação de atribuição de autoria. As duas atitudes podem coincidir ou não no mesmo poeta. Apesar da sua proximidade grupal, certos autores, como certos críticos, optam por separar águas entre os 3R «impressores», os 3R «sublinhadores» e os 3R «recortadores», fazendo notar as diferenças estéticas e políticas das várias opções. Do mesmo modo, a radicalidade da prática 3R em relação à tradição nalguns casos não permite contudo generalizações, dada a gama de atitudes de apropriação verificáveis, o que tem também suscitado algumas demarcações no interior do campo 3R. Os depreciadores do movimento 3R referem-se a eles como «poetas do caixote do lixo», rótulo que os próprios, ou os mais radicais de entre eles, passaram a adoptar com gáudio, atribuindo à depreciação um cunho de involuntária desmistificação de erróneas representações do «lixo». A crítica, note-se, tem revelado incomodidade no enfrentamento da sua produção, em grande medida devido ao difícil acesso às suas obras, que circulam aleatoriamente pelos cafés, centros comerciais, discotecas e caixas de correio onde «largam» as suas páginas. Felizmente, nos últimos anos um crescente interesse académico no movimento, patente já em teses de mestrado na área da Antropologia Social e Cultural, dos Estudos do Multimédia e, em menor grau, dos Estudos Literários, seguramente na sequência de trabalhos de reportagem de Alexandra Lucas Coelho que criaram uma série de ícones mediáticos do movimento (J. Pipas 3R, Kalú 3R, Sexy Diana 3R, o colectivo feminino Trash Panthers 3R, etc.), levou a que uma grande editora portuguesa – a Bertrand – avançasse para uma edição em fac-símile das principais obras do movimento, em álbuns cartonados, magnificamente paginados e desenhados (por Henrique Cayatte) e luxuosamente editados. Que, no entanto, vêm sendo objecto de vandalização, segundo uns, ou de «reapropriação crítica», segundo outros, por um novo e misterioso colectivo, o Radical 3R, que se apresenta como uma segunda geração do movimento, criticando à primeira a tolerância com práticas editoriais «conspurcantes» e usando essas edições como material de base de novas práticas 3R, nas próprias livrarias onde os livros se encontram, em surtidas ora dissimuladas ora segundo o (atemorizador) modelo do «arrastão».

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