Os Livros Ardem Mal

A liberdade de expressão e Alberto João Jardim

Posted in Diálogos by Pamplinas on Terça-feira, 08-09-2009

- Você ouviu-o dizer «Fuck them!»?
- Sim, claro. Devo dizer que fiquei incrédulo e ainda esfreguei o ouvido.
- Parece-lhe pessoa incapaz de tal?
- Bom, como direi?… Incapaz, propriamente, não. Mas ainda assim…
- O que é da vida sem novos desafios, Pamplinas? E a verdade é que, nesta matéria, ele já quebrou records sucessivos.
- Não é isso, Q. É ainda o motivo da nossa última discussão. Acho, se quer saber, que o Alberto João, ao dizer isso, estava a fazer um comentário filosófico sobre o ingente debate em torno da liberdade de expressão.
- Filosófico?! Eu oiço o Jesus a falar da «filosofia da minha equipa», e com ele todos os treinadores de futebol, mas não percebo como você consegue ainda assim usar o termo para esta tirada do Alberto João.
- Exprimi-me mal. O que eu queria dizer é que se trata de um meta-comentário. Ou, se preferir, uma afirmação de teor transcendental.
- Explique-se.
- É simples: o pessoal anda todo a bradar o seu amor eterno à liberdade de expressão, todos morreriam pelo direito do pior inimigo (não, não se trata apenas de «adversários», como se diz nos debates na TV) a dizer as maiores barbaridades, não é? Pois bem, o Alberto João dá-lhes a comer do seu próprio veneno: «Tomem lá, engulam, e continuem a defender o meu direito a dizer este tipo de coisas, enquanto eu vou ali ao lado retirar a imunidade parlamentar a quem diz coisas bem mais suaves a meu respeito».
- E você quer fazer-me crer que ele congeminou tudo isso? Que não foi apenas uma «bojarda» como as tantas em que ele se especializou ao longo de décadas?
- Olhe que já ninguém diz «bojarda», Q. Diz-se «bocas».
- Não me lixe. Aliás, «boca» é demasiado suave para este caso.
- Tem razão.
 - Bom, mas responda-me.
- Eu creio que você quer relançar o debate filosófico (agora sim, e em acepção técnica) sobre a questão da «intencionalidade»… Eu acho-o dispensável, sabe?
- E porquê?
- Porque, em primeiro lugar, há muito já percebemos que a questão da intencionalidade passa ao lado da personagem. Isso pressupõe, numa ocorrência deste tipo, a «inteligência emocional» a que ele, como é manifesto, é refractário.
- Porque não precisa! Pode dizer o que quiser que ninguém lhe vai à mão!
- Talvez. Mas há uma «inteligência instintual» em que ele é muito bom, admita. Que melhor comentário ao debate sobre liberdade de expressão do que este? Vem ou não a propósito? Testa ou não, in actu, a latitude da paixão pela liberdade de todos aqueles que declaram a liberdade de expressão «sagrada e inegociável»?
- Essa é para mim?
- E para mim. E para o Pacheco Pereira, claro (e ainda para Manuela Ferreira Leite). Mas há mais, sabe?
- Não me diga… Você ainda propõe o Alberto João para tema do próximo congresso da Asssociação Portuguesa de Professores de Filosofia…
- É que ele não disse, como notou, «Que se fodam!» Ou, para usar aquela magnífica demonstração da criatividade do nosso vernáculo, que não pode deixar de ter ocorrido ao espírito de muita gente ao ouvi-lo, «Caralhos os fodam!» Na hora H, recorreu ao inglês…
- Devia estar a pensar n’Os Sopranos
- Talvez, talvez. Lá asneirentos eram eles… Mas antes no sentido em que o domínio do inglês criou as condições para uma expressão como «Fuck them!» se tornar um universal. Que coloca logo em cena, não apenas a questão da tradução, ou da impossibilidade da tradução…
- Pois, a RTP online traduziu por «que se dane»… Isto é que é serviço público!
- … mas sobretudo a do seu carácter dispensável. Todos sabemos o que quer dizer, e todos sabemos que não quer dizer nada em rigor (é a questão clássica da hipertrofia da conotação no insulto) ou, melhor ainda, que só quer dizer aquilo que cada um de nós quiser que signifique.
- Ah sim? E para si, significa o quê?
- «Liberdade de expressão», hélas. E para si?
- «Alberto João Jardim».
- Ora vê como eu tinha razão? O meta-comentário remete para o enunciador e este para o meta-comentário. Não saímos deste circuito auto-referencial em que um sujeito diz algo que só a liberdade de expressão permite dizer e que só o respeito por ela permite «ouvir» sem que os ouvidos de quem ouve se conspurquem. Porque quem ouve sabe que deve ouvir aquilo como a marca linguística, e (insisto) filosófica, de uma situação jurídico-política. Por outras palavras: Alberto João Jardim existe porque existe um regime (e uma cultura, claro) em que, descobrimos pelas suas intevenções repetidas, um político pode dizer «Fuck them». E vice-versa.
- Logo, Alberto João não existe em si. É um transcendental…
- Evidentemente. Acha, com franqueza, que alguém poderia acreditar na existência dele a não ser nestes termos?

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