Os Livros Ardem Mal

E, por fim, arderam mesmo…

Publicado em OLAM por OLAMblogue, em Quinta-feira, 17-09-2009

fahrenheit

 

[Fotograma de Fahrenheit 451, filme de François Truffaut (1966) sobre
o romance homónimo de Ray Bradbury]

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Dicionário Crítico por Intermitência: Movimentos Poéticos (IV e último)

Publicado em Dicionário, Poesia por Pamplinas, em Quarta-feira, 16-09-2009

Biopoesia (Desde 2001, primeiro em Lisboa, depois S. Paulo, NY, o mundo). As primeiras tentativas, envolvendo cientistas do Instituto Gulbenkian de Ciência, datam de 2001, e foram conduzidas pelo biopoeta Albano Martins (1977, Gondomar). No início, tratou-se de produzir poemas visuais de grandes dimensões em contexto de galeria, explorando mensagens simples, fazendo com que as palavras, em várias cores, se formassem a partir de células humanas pintadas com ADN. Em seguida Martins passou a formas mais exigentes de manipulação genética, começando com suínos. Nesses casos, tratava-se de conseguir inscrever, por manipulação genética, um verso no lombo do animal. Após alguns casos menos bem sucedidos – as letras surgiam fora de sítio, sugerindo desagradáveis lapsos ortográficos -, foi possível começar a «escrever» poemas, ainda que breves, tendendo ao haikú. Dominada a técnica, e recorrendo a embriões de golfinhos, passou-se a inscrever textos mais extensos no dorso do animal, de que existem sobretudo dois magníficos exemplares no Jardim Zoológico de Lisboa, tendo os animais sido treinados para saltarem de modo a que praticamente se imobilizam no ar, o que permite que, numa leitura de relance, os espectadores consigam candidatar-se ao concurso que consiste em adivinhar o autor do poema e a obra em causa. Em todo o caso, o apogeu estético desta técnica foi conseguido com pavões, especialmente nos que foram introduzidos no parque de Serralves, em função da criação do Departamento de Biopoesia no Museu, por insistência de Rui Rio junto da direcção do museu e com o recrutamento de Amadeu Baptista (1976, Arrifana) e José Gaudêncio (1976, Marvão) ao Laboratório Interdisciplinar de Biopoesia e Bioarte do MIT. A internacionalização da Biopoesia portuguesa tem sido célere, com privilégio de parceiros de S. Paulo – o Grupo da Biopoesia Neoconcreta – e de Nova Iorque (o Bronx Biopoetry Research Net, ou BBRN). Mais recentemente, o convénio estabelecido entre o International Biopoetry Group (IBG), que reúne todos os pioneiros da biopoesia, e a Damon Transgenics, permitiu ao grupo exponenciar o seu campo de aplicações, como é o caso, muito recente, dos poemas do Grupo da Biopoesia Neoconcreta de S. Paulo que, ao abrigo desse acordo, começam agora a surgir nas papaias geneticamente modificadas nos laboratórios da multinacional no Brasil (com o bónus de a própria cor das papaias se ter tornado passível de modificação, explorando toda a gama cromática do arco-íris). Uma recente incorporação de biopoetas africanos no IBG teve como efeito imediato a reivindicação de incorporação de material poético na mandioca e na batata-doce, embora o carácter rugoso da casca da primeira tenha sido fonte de persistentes falhanços laboratoriais, por tornar os poemas de leitura quase impossível. Como seria fatal, a Greenpeace manifestou-se virulentamente contra o advento e manifestações da biopoesia, denunciando «a conivência da poesia com a manipulação genética de organismos vivos» e criticando a supostamente escassa qualidade poética dos textos geneticamente inscritos em animais e plantas (para o que se abonou em juízos críticos de pessoas como Harold Bloom e Fernando Guimarães). A virulência do ataque no Brasil, que como é típico do Greenpeace implicou assaltos a plantações e destruição maciça de papaieiras transgénicas, forçou o grupo de S. Paulo a contra-atacar, denunciando «o reaccionarismo estético do Greenpeace» e fazendo ver que a biopoesia é revolucionária na medida em que inscreve o poético na própria estrutura genética dos organismos vivos (ponto sublinhado num ensaio polémico de Peter Sloterdijk, intitulado «Regras para o Parque Poético-Transgénico», muito atacado por George Steiner, Giorgio Agamben e Jacques Rancière). A expansão da Biopoesia, o seu cunho internacional, a sua aliança com a tecnociência e o capital transnacional, mostram ainda, e por fim, como na arte contemporânea o «nacional» deixou de ser pertinente, já que «a questão decisiva hoje é a da escala, razão pela qual para um país periférico e minúsculo como Portugal o modo de afirmação internacional da biopoesia é claramente um modelo a seguir» (António Pinto Ribeiro).

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Portugal não é uma província da Espanha!

Publicado em Comentários por Osvaldo Manuel Silvestre, em Quarta-feira, 16-09-2009

dicionario

 

«Este pack contém alguns dos primeiros filmes do realizador Werner Herzog, assim como vários dos seus mais interessantes documentários (Behinderte Zukunft, Die fliegenden Arzte von Ostafrika, ou o mais recente Lektionen in Finisternis, entre outros) e algumas das suas experiências no mundo das curta-metragens. Mais de catorce horas de cinema para disfrutar de estilo próprio, que converteu-o num dos realizadores europeus mais prestigiosos de todos os tempos».

«Reservados todos os dereitos. O contenido integral deste DVD está protegido pela Lei da Propriedad Intelectual e pelo Código Penal».

 

[Textos que acompanham os dois volumes da edição de filmes de Werner Herzog, na FilmotecaFNAC, em adaptação de edição originária da Avalon. Com o selo do MC e da IGAC]

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Dicionário Crítico por Intermitência: Movimentos Poéticos (III)

Publicado em Dicionário, Poesia por Pamplinas, em Terça-feira, 15-09-2009

Aquísmo (Também designado «Poesia Aquática», fins dos anos 90, Peniche, Figueira da Foz, Arganil, Santa Comba Dão, Peso da Régua). Constituem uma falange das mais radicais da cena poética portuguesa dos nossos dias, definindo-se pela sua feroz recusa da Obra e, mais ainda, da representação. O «aquísmo» foi no seu caso o estádio final de um processo de gradual abandono do registo e fixação do texto, a que se seguiu enfim o repúdio de qualquer forma de permanência ou durabilidade do escrito, em favor de uma escrita válida em si e no acto de vir a si mesma. Em fases recuadas, optaram por escrever poemas no céu por meio de avionetas lançando fumo para esse efeito, ou por técnicas de fogo-preso para poemas efémeros, sobretudo desenvolvidas pelas falanges transmontana e minhota. Insatisfeitos com todas essas tentativas, chegaram por fim à escrita na água, em eventos que se foram tornando cada vez mais concorridos de público. O «poeta aquático» típico escreve na água com um longo estilete (um ramo de árvore descascado e afiado), num ritual de gestos de precisão cirúrgica e amplitude dançante que faz inevitavelmente pensar na técnica da caligrafia oriental. Certos poetas escrevem com tinta colorida, de modo a que por breves segundos a palavra seja reconhecível na água, enquanto outros, menos contemporizadores, usam o estilete nu, confiando ao golpear da água toda a duração que admitem para a sua escrita. Sobre eles escreveu Peggy Phelan um texto cujo entusiasmo revela ter enfim a teórica da performance como o não-representável encontrado o seu Graal estético-político: «A única vida da poesia aquática é (n)o presente. Inscrevendo esse regime temporal no seu meio, a poesia aquática existe para derrotar a fixidez, e a própria possibilidade, de qualquer representação. Nela, a obra dá-se a ver como puro sublime». Como seria inevitável, porém, as actividades escriturais dos poetas aquáticos começaram a ser registadas quer por cidadãos anónimos, quer pelos média, quer por estudiosos e académicos. Se esses registos tiveram a virtude de permitir reconstituir e registar, por recurso ao super slow motion, os poemas admiráveis dos maiores cultores do movimento, hoje registados no fundamental, e monumental, A Escrita da Água, org. Gustavo Rubim e Clara Rowland, Lisboa, Relógio d’Água, 2007 (tomo de 900 pp. com 2 dvd’s), a verdade é que tais registos diferem a escrita numa imagem fixa – um escrito – que atraiçoa o essencial dos propósitos estéticos e políticos do movimento. Em reacção a estes desenvolvimentos, e também em sintonia com o profundo ecologismo de autores que acreditam numa poesia «desnuda» e «não tecnologicamente mediada», os poetas aquístas passaram a realizar as suas actividades de escrita em sítios cada vez mais recônditos e em situações mais ou menos espontâneas, desistindo de anunciar previamente a sua realização. Resta dizer que o movimento se dividiu desde o início em dois grupos, os «marinhos» e os «fluviais», sendo que a poesia dos primeiros tende a uma turbulência antropológica, estética e política de que a dos segundos se afasta, praticando certas formas de serenidade escritural muito próximas do zen.

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Luís Filipe Parrado (IV)

Publicado em Poesia, tradução por Osvaldo Manuel Silvestre, em Segunda-feira, 14-09-2009

A língua Arménia é a casa dos arménios

A língua Arménia é a casa
e o refúgio onde o errante pode encontrar
telhado e paredes e sustento.
Ele pode entrar para recolher amor e orgulho
fechando a hiena e a tempestade lá fora.
Durante séculos os seus arquitectos trabalharam arduamente
para levantar os seus tectos.
Quantos camponeses, com a sua labuta,
dia e noite mantiveram
os seus armários cheios, as lâmpadas acesas, os fornos quentes.
Sempre rejuvenescida, sempre antiga, tem durado
século após século no caminho
onde cada Arménio pode encontrá-la quando está perdido
no deserto do seu futuro, ou do seu passado.

Mousheg Ishkhan

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Dicionário Crítico por Intermitência: Movimentos Poéticos (II)

Publicado em Dicionário, Poesia por Pamplinas, em Sexta-feira, 11-09-2009

Intervenção Poética 3R (Anos 90, Porto-Gaia, Coimbra, Braga, Lisboa e Margem Sul, Sines). Activistas ecológicos, põem em prática na sua poesia os 3 R da prática ecológica – reduzir, reciclar, reutilizar – utilizando suportes já impressos (jornais, livros em segunda mão, flyers publicitários, etc.) e material já escrito (vulgo «património literário»). Podem simplesmente imprimir os seus poemas por cima de páginas de jornal ou livro ou flyers, ou podem sublinhar a marcador o que, no já impresso, seleccionam para os seus poemas, ou ainda recorrer ao recorte, colando depois em suporte também residual esses poemas recortados. Analogamente, recorrem a poemas da tradição literária, usando livremente versos, estrofes ou secções nos seus poemas, sem qualquer preocupação de atribuição de autoria. As duas atitudes podem coincidir ou não no mesmo poeta. Apesar da sua proximidade grupal, certos autores, como certos críticos, optam por separar águas entre os 3R «impressores», os 3R «sublinhadores» e os 3R «recortadores», fazendo notar as diferenças estéticas e políticas das várias opções. Do mesmo modo, a radicalidade da prática 3R em relação à tradição nalguns casos não permite contudo generalizações, dada a gama de atitudes de apropriação verificáveis, o que tem também suscitado algumas demarcações no interior do campo 3R. Os depreciadores do movimento 3R referem-se a eles como «poetas do caixote do lixo», rótulo que os próprios, ou os mais radicais de entre eles, passaram a adoptar com gáudio, atribuindo à depreciação um cunho de involuntária desmistificação de erróneas representações do «lixo». A crítica, note-se, tem revelado incomodidade no enfrentamento da sua produção, em grande medida devido ao difícil acesso às suas obras, que circulam aleatoriamente pelos cafés, centros comerciais, discotecas e caixas de correio onde «largam» as suas páginas. Felizmente, nos últimos anos um crescente interesse académico no movimento, patente já em teses de mestrado na área da Antropologia Social e Cultural, dos Estudos do Multimédia e, em menor grau, dos Estudos Literários, seguramente na sequência de trabalhos de reportagem de Alexandra Lucas Coelho que criaram uma série de ícones mediáticos do movimento (J. Pipas 3R, Kalú 3R, Sexy Diana 3R, o colectivo feminino Trash Panthers 3R, etc.), levou a que uma grande editora portuguesa – a Bertrand – avançasse para uma edição em fac-símile das principais obras do movimento, em álbuns cartonados, magnificamente paginados e desenhados (por Henrique Cayatte) e luxuosamente editados. Que, no entanto, vêm sendo objecto de vandalização, segundo uns, ou de «reapropriação crítica», segundo outros, por um novo e misterioso colectivo, o Radical 3R, que se apresenta como uma segunda geração do movimento, criticando à primeira a tolerância com práticas editoriais «conspurcantes» e usando essas edições como material de base de novas práticas 3R, nas próprias livrarias onde os livros se encontram, em surtidas ora dissimuladas ora segundo o (atemorizador) modelo do «arrastão».

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Luís Filipe Parrado (III)

Publicado em Poesia por Osvaldo Manuel Silvestre, em Quinta-feira, 10-09-2009

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DIÁLOGO ÍNTIMO SOBRE O VALOR
PEDAGÓGICO DA HISTÓRIA

Lês, dizes-me, um livro
muito interessante
sobre os grandes generais romanos,
“os homens que construíram
o império”.
Depois citas Apiano
e um episódio em particular
das suas Guerras hispânicas,
esse em que o historiador
refere como Públio Cornélio Cipião,
dito o Africano,
sem dúvida
um extraordinário estratega,
durante o cerco
de Numância
deu ordem aos seus legionários
para que cortassem
as mãos de 400 prisioneiros
celtiberos.
Tratou-se, pelo que pudeste
compreender,
de um acto militar de intimidação
contra todos os que se atreviam
a desafiar o longo
braço imperial.
O que não és capaz de esclarecer
é qual o destino dado
a cada uma dessas
800 mãos.
Terão estrumado a terra ibérica,
alimentado os cães sarnentos
dos centuriões,
ou, cravadas em estacas
e expostas nas encruzilhadas,
como as cabeças
dos bárbaros vencidos,
funcionado como lastimosos
sinais de tráfego
nas bermas dos caminhos
que seguiam invariavelmente
em direcção a Roma?
(mais…)

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A liberdade de expressão e Alberto João Jardim

Publicado em Diálogos por Pamplinas, em Terça-feira, 08-09-2009

- Você ouviu-o dizer «Fuck them!»?
- Sim, claro. Devo dizer que fiquei incrédulo e ainda esfreguei o ouvido.
- Parece-lhe pessoa incapaz de tal?
- Bom, como direi?… Incapaz, propriamente, não. Mas ainda assim…
- O que é da vida sem novos desafios, Pamplinas? E a verdade é que, nesta matéria, ele já quebrou records sucessivos.
- Não é isso, Q. É ainda o motivo da nossa última discussão. Acho, se quer saber, que o Alberto João, ao dizer isso, estava a fazer um comentário filosófico sobre o ingente debate em torno da liberdade de expressão.
- Filosófico?! Eu oiço o Jesus a falar da «filosofia da minha equipa», e com ele todos os treinadores de futebol, mas não percebo como você consegue ainda assim usar o termo para esta tirada do Alberto João.
- Exprimi-me mal. O que eu queria dizer é que se trata de um meta-comentário. Ou, se preferir, uma afirmação de teor transcendental.
- Explique-se.
- É simples: o pessoal anda todo a bradar o seu amor eterno à liberdade de expressão, todos morreriam pelo direito do pior inimigo (não, não se trata apenas de «adversários», como se diz nos debates na TV) a dizer as maiores barbaridades, não é? Pois bem, o Alberto João dá-lhes a comer do seu próprio veneno: «Tomem lá, engulam, e continuem a defender o meu direito a dizer este tipo de coisas, enquanto eu vou ali ao lado retirar a imunidade parlamentar a quem diz coisas bem mais suaves a meu respeito».
- E você quer fazer-me crer que ele congeminou tudo isso? Que não foi apenas uma «bojarda» como as tantas em que ele se especializou ao longo de décadas?
- Olhe que já ninguém diz «bojarda», Q. Diz-se «bocas».
- Não me lixe. Aliás, «boca» é demasiado suave para este caso.
- Tem razão.
 - Bom, mas responda-me.
- Eu creio que você quer relançar o debate filosófico (agora sim, e em acepção técnica) sobre a questão da «intencionalidade»… Eu acho-o dispensável, sabe?
- E porquê?
- Porque, em primeiro lugar, há muito já percebemos que a questão da intencionalidade passa ao lado da personagem. Isso pressupõe, numa ocorrência deste tipo, a «inteligência emocional» a que ele, como é manifesto, é refractário.
- Porque não precisa! Pode dizer o que quiser que ninguém lhe vai à mão!
- Talvez. Mas há uma «inteligência instintual» em que ele é muito bom, admita. Que melhor comentário ao debate sobre liberdade de expressão do que este? Vem ou não a propósito? Testa ou não, in actu, a latitude da paixão pela liberdade de todos aqueles que declaram a liberdade de expressão «sagrada e inegociável»?
- Essa é para mim?
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Luís Filipe Parrado (II)

Publicado em Poesia por Osvaldo Manuel Silvestre, em Terça-feira, 08-09-2009

TEORIA DA NARRATIVA FAMILIAR

Naquele tempo o meu pai trabalhava
por turnos
como herói socialista
no sector siderúrgico
e dormia com a minha mãe.
A minha mãe esfregava
a sarja encardida:
a água ficava da cor da ferrugem.
Havia, por perto, um cão
esgalgado,
sempre a rondar.
Depois, a minha irmã nasceu
e eu fui obrigado
a rever a minha mitologia privada do caos.
Entre uma coisa e outra
aprendi a mentir.
E isso, não sei se sabem, mudou tudo.

 

[in Criatura, nº 3, Abril 2009]

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Da liberdade de expressão

Publicado em Diálogos por Pamplinas, em Domingo, 06-09-2009

- …porque, meu caro Pamplinas, a liberdade de expressão é sagrada! E inegociável!
- Direi mesmo mais, meu caro Q.: a liberdade de expressão é sagrada e inegociável!
- Lembra-se da frase do Voltaire? Aquela em que ele diz que poderia discordar radicalmente de outro mas morreria pelo direito do outro a exprimir-se…
- Sim, claro (há coisas assim no Antero, sabe?). Muito comovente.
- …e cortante! É o que nos distingue do resto do mundo, é o que fundamenta o nosso direito etnocêntrico ao orgulho por vivermos na nossa civilização e não noutra. Ou você preferia viver na China? Ou na Rússia de Putin?
- Como sabe, não me imagino a viver numa pátria onde não haja bacalhau à Brás.
- Seja sério, carago! A gente a discutir os grandes princípios e você com o bacalhau! Bacalhau não faltava no tempo do Salazar!
- Bem melhor do que o de hoje, ao que me dizem! Seco ao sol em Aveiro e não em estufas na Noruega… Uma deriva lamentável.
- Como tudo o que ponha em causa a liberdade de expressão! Embora, sabe, a liberdade de expressão, entendida à letra e em rigor, seja dureza
- …
- Ah sim, não faça essa cara! Mas é nessa dureza que reside a sua beleza, sabe? Em termos de suportar coisas como, sei lá, os Larry Flint deste mundo!
- O benemérito da Hustler?
- Exacto. Um herói do combate pela liberdade de expressão, como sabe… Porque você tem de admitir que lutarmos pelo que não amamos é duro…
- Mas belo. Ser-se altruísta é sempre belo! E não é possível lutar-se pela liberdade de expressão sem se ser altruísta.
- Uma beleza dura, Pamplinas… Já pensou no rol dos abusos? A invasão e devassa da privacidade, a mentira, a calúnia, a difamação, o insulto…
- Ena…
- … o mau gosto, a boçalidade, a alarvidade, a total ausência de reserva e cuidado, a dessublimação de tudo, a começar pelo sexo e a terminar nos bons sentimentos e nos afectos puros, objectos de escárnio e cinismo…
- Eh lá! Você por esse andar está a suspirar pelo Diácono Remédios!
(mais…)

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Vient de paraître

Publicado em Cinema por Osvaldo Manuel Silvestre, em Domingo, 06-09-2009

arton1909

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Luís Filipe Parrado (I)

Publicado em Poesia por Osvaldo Manuel Silvestre, em Sábado, 05-09-2009

TUDO O QUE O MEU PAI ME DISSE QUANDO,
AOS 15 ANOS, DECLAREI EM FAMÍLIA QUE IRIA
COMEÇAR A ESCREVER POESIA

                     

                     “Antes
                     de te sentares
                     à mesa
                     lava bem
                     essas mãos.”

 

 

[in Criatura, nº 3, Abril 2009]

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Nipónicas núpcias

Publicado em Comentários por Pedro Serra, em Sexta-feira, 04-09-2009

O que move o segundo marido de Miyuki Hatoyama? Vale a pena ler as virtuais palavras do amantíssimo esposo, recolhidas num livro que Miyuki escreveu, Coisas muito estranhas que encontrei (citado aqui). “Isso é fantástico”, escreve ela que teria dito, se tivesse dito, o actual marido. O ex, o de há vinte anos, o primeiro, fica como um sacana. Um sacana frio. É difícil saber o que move o segundo marido de Miyuki Hatoyama mas, bem vistas as coisas, representa as bondades das nipónicas segundas núpcias, que serão quase 30% das núpcias, depois de um crescimento exponencial nos últimos 20 anos.

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Dicionário Crítico por Intermitência: Movimentos Poéticos (I)

Publicado em Dicionário, Poesia por Pamplinas, em Quinta-feira, 03-09-2009

Literalismo (Desde finais de 90, Braga, Viana do Castelo, Barcelos, Viseu, Vila Real, depois Porto, Coimbra e enfim Lisboa). Movimento que defende ser a poesia muito menos texto, obra ou livro, do que que acontecimento e evento libertadores. Começaram por colar poemas em paredes de centros comerciais, paragens de autocarro, igrejas, escolas, para depois passarem a marcar lançamentos de poesia por sms, em momentos e situações inesperados e súbitos. Nessas ocasiões distribuíam rapidamente folhas soltas com poemas e desapareciam. Finalmente, começaram a lançar poemas amarrados a balões, em ocasiões previamente marcadas ou então de surpresa, em praças, parques ou simplesmente cruzamentos e avenidas, passadeiras para peões, podendo por vezes limitar-se (?) a gritar bem alto certos «textos», numa escanção que reduz o verbo à massa sonora vocálica ou infra-vocálica. Distinguem-se razoavelmente os «muralistas» dos «súbitos» e dos «balonistas», embora se verifiquem também cruzamentos. Como também se notam oscilações entre os que assinam os seus textos e os que praticam a anonímia, ou entre os que fazem intervenção individual e os que se reúnem em colectivos de geometria variável, consoante a inclinação dominante a cada momento. Tendem para uma poesia puramente visual ou fónica, feita de explorações gráficas e tipográficas de grande impacto e com uma dimensão política forte, dentro da estética do grito ou do grunhido, o que sai reforçado pelas suas articulações com a cena do Hip Hop tuga. Recusam o registo e qualquer forma de reprodução das suas intervenções, pelo que os filmes que circulam pelo YouTube, ou que chegam mesmo a programas de tipo cultural, como Câmara Clara, na RTP 2, são obtidos à sua revelia e sem a sua colaboração. Nomes como Ant.Lit, Rui.Lit, Johnny.Lit, Lou.Lit, Rita.Lit, Mary.Lit, Cunt.Lit ou os colectivos S.O.S.Lit, Dragon.Lit e Manos.Lit sofreram já um processo de internacionalização, no circuito também já internacional do literalismo, de Angola ao Brasil, à França ou à Bélgica, tornando cada vez mais difícil a preservação da pureza ideológica e estética do movimento. Entretanto, e num desenvolvimento bem revelador do seu impacto, certos poetas mainstream passaram a recorrer, em regime pontual, às modalidades de distribuição dos textos praticadas pelos literalistas, mas quase sempre como forma de promoção dos seus novos livros, o que vem sendo duramente repudiado pelos literalistas mais literais como «palhaçada burguesa».

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Do risonho futuro da crítica

Publicado em Crítica, Poesia por Osvaldo Manuel Silvestre, em Quarta-feira, 02-09-2009

Não sei quem seja o autor do blogue Máscara&Chicote, que dá pelo nome demasiado literário de Fortinbras. E não está ao meu alcance a competência com que valora os livros sobre que escreve, não com estrelinhas mas com… marcas de uísque. Vale aliás muito a pena ler a escala valorativa, perfeitamente fundamentada, que vai do «reles» Vat 69 ao «clássico intemporal» Glenffiddich (40 anos). Pergunto-me que livro merecerá tal uísque…

Mas sei que o texto que dedicou a Disrupção, de Jorge Melícias, foi um dos melhores espécimes de crítica que li, na net ou em papel, neste período estival: bem argumentado, bem escrito, acutilante, pertinente e justo nas suas avaliações. Quando a boa crítica surge de onde menos se espera, é caso para termos fé no seu futuro.

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Para quem não entendeu, agora em versão didáctica

Publicado em Notícias, OLAM por OLAMblogue, em Quarta-feira, 02-09-2009

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P.S. Mas as postagens recomeçam dentro de momentos.

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Em tempo

Publicado em Notícias, OLAM por OLAMblogue, em Terça-feira, 01-09-2009

timeout

Durante três anos, inicialmente sob a designação Escaparate, depois já como Os Livros Ardem Mal, um grupo de pessoas – professores da Universidade de Coimbra e algumas estudantes de pós-graduação – animou, com apoio do Centro de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras da mesma universidade, uma reunião mensal no Teatro Académico de Gil Vicente, na primeira segunda-feira de cada mês. No início para falar apenas de livros recentemente editados, depois com um convidado cujo trabalho de algum modo mantivesse uma relação forte com o universo do livro. Foram 20, os convidados dessa segunda fase, e deles fomos dando nota aqui, a partir do momento em que a iniciativa passou a ser acompanhada de perto por este blogue.

Agora, três anos depois, chegou a altura de parar. Ou melhor: de suspender a iniciativa por um período sabático de 12 meses. Por cansaço, por dificuldade crescente de conciliação das agendas profissionais dos membros do painel com as exigências muito particulares da iniciativa, por necessidade de a repensar no todo e nos detalhes. Custa-nos abandonar o hábito (e o ritual) do fim-de-tarde na primeira segunda-feira de cada mês no TAGV: pelo público que nos foi acompanhando com uma fidelidade rara e decerto imerecida; e pelo empenho dos devotados membros do staff do nosso teatro académico. Mas tudo tem um tempo e nada pior do que insistir fora de tempo.

Quanto ao blogue, tudo indica que continuará, até novas ordens.

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