30 anos depois, os Xutos ainda (nos) tocam? (II)
Significa isto que é difícil fazer a crítica de uma banda tão «representativa» sem, de algum modo, incorrer na crítica de toda a situação por ela representada. O livro de ACF informa-nos, por exemplo, de que no dia 8 de Maio de 1987, data do lendário concerto dos Xutos no pavilhão de Os Belenenses, a banda recebeu um telegrama de Rui Reininho que rezava apenas «Avante camaradas». Não custa ver neste incitamento irónico o reconhecimento não irónico de que muito do futuro do rock em Portugal passava, como depois se tornou visível, por esse concerto, ou por tudo o que nele tornou os Xutos maiores do que eles mesmos, conduzindo-os àquele lugar, aquém e além da crítica, que é próprio dos mitos (ou, o que é o mesmo na modernidade, das locomotivas).
O que faz também do livro de ACF um acontecimento no panorama pobre da nossa escrita rock é o facto de a autora ter intuído, com rara penetração, o predomínio da voz sobre a letra na cultura rock (ou na auto-representação que esta de si mesma produz). O livro, seguindo uma tradição forte no campo da escrita de livros de percurso de bandas rock, é construído como uma montagem de depoimentos, graficamente assinalados pelo itálico que se segue ao nome do depoente. O espaço preenchido pelos caracteres em redondo, atribuídos à (voz) escrita da autora, reduz-se significativamente e o leitor é tomado de assalto por toda a ilusão de presença cara à física e metafísica do rock – a performance pura e plena («autêntica»), sem qualquer mediação, isto é, o triunfo do corpo suado e, tantas vezes, tendendo ao nu – ou, noutro vocabulário teórico, mais aristotélico, pelo predomínio esmagador do showing sobre o telling, tão típico de formas de literatura de massas como o romance policial ou a FC, em que o diálogo abafa a narração e, mais ainda, a descrição, acelerando a leitura até à vertigem.
O que daqui resulta é, tecnicamente, «história oral», e, musicalmente, escrita rock, no sentido em que esta vive da produção de uma série de efeitos de auto-anulação da sua dimensão escritural em favor da manifestação forte da voz, uma voz que seria, idealmente, sem filtro e sem excessos de «produção». Vozes «cruas», como determinou, para as guitarras dos Xutos no seu primeiro disco, o radialista António Sérgio, promovido a produtor.
O Chekhov dos subúrbios
Num registo diverso, gostaria de destacar a publicação recente deste magnífico volume de contos (a que se anuncia um segundo volume) de John Cheever. Cheever nasceu a 27 de Maio de 1912 e faleceu a 18 de Junho de 1982. Trata-se de um dos grandes escritores norte-americanos de contos do século XX, só comparável a Sherwood Anderson, Hemingway, ou, mais recentemente, a Raymond Carver.
Cheever é por vezes apelidado como «o Chekhov dos subúrbios», e podemos encontrar neste volume reunidas algumas das suas histórias mais conhecidas, entre as quais se encontram «Adeus, meu irmão», «O rádio enorme», «O comboio das cinco e quarenta e oito» e «O marido do campo».
Convém talvez acrescentar que os contos reunidos de Cheever obtiveram o Prémio Pulitzer de 1979 para ficção. (Tradução segura de José Lima).
John Cheever. Contos completos I, Lisboa, Sextante. [ISBN: 978-989-8093-87-5]
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Darwin rules
Nos 200 anos do nascimento de Charles Darwin (nascido a 12 de Fevereiro de 1809) e nos 150 da publicação da Origem das espécies (24 de Novembro de 1859), a Esfera do Caos, uma editora que tem vindo a publicar excelente literatura de divulgação científica em Portugal, lança-se num projecto pioneiro sobre a grande constelação darwiniana de que são testemunho estes dois volumes, estando prometidos mais dois, Vida: origem e evolução e Homem: origem e evolução. A série, aliás, chama-se «Fundamentos e desafios do Evolucionismo», e vem colmatar uma enorme lacuna no espaço intelectual português que, em geral, ignora a importância de Darwin para o entendimento do que será porventura o nosso presente. Através destas páginas (que articulam textos clássicos traduzidos pela primeira vez com textos especialmente encomendados para o efeito) poderá eventualmente situar-se Darwin no contexto da modernidade.
Darwin é, a par de Freud e de Nietzsche, um dos pensadores que melhor emblematiza o legado intelectual, senão mesmo cognitivo, que é hoje o nosso.
André Levy et. al. Evolução: história e argumentos. Lisboa, Esfera do Caos. [ISBN: 978-989-8025-55-5]
André Levy et al. Evolução: conceitos e debates. Lisboa, Esfera do Caos. [ISBN: 978-989-8025-75-3].
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Uma espécie de vírus
Este é, na minha opinião, um dos livros axiais da antropologia das últimas décadas. As razões são várias, e limitar-me-ei a invocar algumas.
Sperber é um antropólogo (que não enjeitou uma certa concepção de «natureza humana» cuja influência pós-estruturalista teria diluído) e um cientista cognitivo.
Para Sperber, as ideias ou «representações» são contagiosas.
Elas espalham-se numa população como se fossem vírus (a semelhança com a «memética» de Dawkins tem porém de ser matizada: enquanto que a mutação é regra nas representações, no caso dos vírus tal mutação é excepcional).
Este processo é dinâmico: pessoas, ecologia, e as próprias representações são transformados. Explicar a cultura é, para Sperber, descrever as causas e os efeitos deste contágio pelas representações. Sperber reconconceptualiza assim o domínio da cultura em termos de padrões ecológicos de fenómenos psicológicos, ou seja, em termos de uma «epidemiologia das representações». Não há aqui lugar para qualquer forma de «reducionismo» (ainda que se Sperber se recuse a demonizar aquilo a que se chama de reducionismo). A cultura é entendida como o resultado de um processo complexo que acontece numa recursividade permanente entre factores cognitivos e factores ecológicos. Para Sperber, a cultura é o «precipitado da cognição e da comunicação numa população humana» (p. 97).
Sperber tem coisas muitas sérias a dizer sobre a eficácia causal (e os perigos) das representações, mas não parece ter sido levado muito a sério pela maioria dos antropólogos e cientistas sociais contemporâneos, incapazes talvez de se aproximarem das propostas da ciência cognitiva contemporânea sem temerem o perigo de uma espécie de contágio conceptual naturalizador e cognitivista. A excepção será seguramente Harvey Whitehouse.
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Dicionário Crítico por Intermitência: Poetas (IV)
MC Rimas (1979, Barreiro) Iniciou-se nas letras com o volumoso Umbral dos Heróis (2002), explicitamente subintitulado «Poema épico em 10 cantos e versos rigorosamente decassílabos», a que se seguiria, em 2007, o ainda mais vasto O Vate Imperioso, de novo com uma revindicação da epopeia, em extenso subtítulo: «Epopeia rítmica em 55 cantos breves, d’après Ezra Pound, Saint-John Perse, Aimé Césaire, Corsino Fortes, Gil Scott-Heron, António Quadros, Miguel Torga e Camões». O livro, no qual assume a sua ascendência cabo-verdiana, suscitou uma longa polémica entre a crítica, com ferozes tomadas de posição contra (acima de todos, José de Arimateia) e a favor (sobretudo, Miguel Real), no que reproduziu, embora em versão muito amplificada, a recepção da sua obra inicial. Recebeu, contudo, em 2008, o Grande Prémio Leya para Poema Épico, um dos mais distintos da cena literária portuguesa, atribuição apoiada por Manuel Jubiloso, presidente do júri e anterior contemplado, por duas vezes, com o prémio. O Ministério da Educação adoptou já excertos de Umbral dos Heróis para as leituras obrigatórias de Português no 12º ano. Os seus livros são ambos best sellers, estando já, cada um deles, acima da 10ª edição. A grande voga novecentista do poema épico em Portugal atinge, com MC Rimas, o seu ponto talvez culminante, em obras que são um prodígio de conciliação de uma densa rede de referências poéticas, culturais, históricas e políticas, com uma fluência imparável e incomparável que, na própria experiência confessada de muitos leitores, os arrebata para uma exaltação da Pátria como lugar de uma experiência epifânica no e do idioma. De grande fulgurância retórica, a sua obra revela uma destreza no manejo de tropos e símbolos que faz dos seus poemas épicos uma floresta encantada do poético, ao melhor nível dos seus autores de eleição. Mesmo os seus detractores concordam em que nestas singulares epopeias o encantamento verbal leva a melhor sobre o conteúdo e propósito históricos, o que é mesmo o caso do seu primeiro livro, dedicado à luta antifascista e anticolonial (ponto, aliás, que lhe suscita reservas e críticas sistemáticas à esquerda, por «escapismo» esteticista). O Vate Imperioso, claramente colocado sob a égide e reminiscência de Camões, apesar da listagem que o coloca entre vários outros cultores da épica, é já um momento de auto-celebração do poético como reduto último da possibilidade de um epos moderno, apesar de todo um contexto agressivamente dessacralizante. Se existe uma possibilidade de redenção do século, neste tempo sem redenção nem futuro, ela mora nos versos técnica e substancialmente heróicos de MC Rimas.
«Ao contrário do que pretendia Lukács, a epopeia não tem a ver com um mundo histórico já findo. Há epopeia sempre que há herói, e há herói sempre que há seres humanos que não se rendem. Há uma epopeia da resistência ao fascismo e ao colonialismo, como há uma outra por escrever nos bairros periféricos da Grande Lisboa, que ainda não encontrou os seus cantores, a não ser entre os rappers. Se estarei à altura disso? Não posso sabê-lo antes de tentar. E gostaria de o tentar em decassílabos heróicos e português retro-camoniano. Porquê? Será preciso explicar?»
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30 anos depois, os Xutos ainda (nos) tocam? (I)

«Os Xutos são o povo. Os Xutos são as pessoas» (p. 254); «Xutos é Portugal» (p. 285); «Os Xutos tocam-nos» (p. 249): três frases, ou três máximas, reveladoras do impacto dos Xutos & Pontapés, entre as várias contidas no livro de Ana Cristina Ferrão (ACF), Conta-me Histórias. Xutos & Pontapés, recentemente reeditado, sendo apenas uma delas, a última, da lavra da autora.
Mas, 30 anos depois do brevíssimo concerto do dia 19 de Janeiro de 1979 nos Alunos de Apolo pela banda então chamada Xutos & Pontapés Rock’n’Roll Band, como significam hoje estas máximas? Desde logo, como significa, como funciona hoje, o livro de ACF, 18 anos após a sua 1ª edição? Para quem, como o autor desta resenha, entende que os Xutos duraram 10 anos – os anos dos grandes temas que são «Sémen», «Esquadrão da Morte», «1º de Agosto», «Barcos Gregos», «Homem do Leme», «Remar, Remar», «Não sou o único», «N’América» e alguns mais -, o livro de 1991 saiu na altura certa, criando aliás uma possível genealogia local para o «livro sobre banda rock» que não teve, como é manifesto, descendência à altura. Olhando aliás para trás desde este ano de 2009, o que nos fica do género é escasso e algo inconsequente. Penso nos dois casos mais óbvios – o livro de Luís Maio sobre os GNR, de 1989, e o de Vítor Junqueira sobre os Mão Morta, de 2004 -, muito diferentes entre si e que contudo revelam a mesma dificuldade: não conseguem gerir os problemas que os objectos que tratam lhes colocam, ao contrário do sucedido no livro de ACF na edição de 1991.
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Homens vs países

«La tarde era íntima, infinita. El camino bajaba y se bifurcaba, entre las ya confusas praderas. Una música aguda y como silábica se aproximaba y se alejaba en el vaivén del viento, empañada de hojas y de distancia. Pensé que un hombre puede ser enemigo de otros hombres, de otros momentos de otros hombres, pero no de un país: no de luciérnagas, palabras, jardines, cursos de agua, ponientes».
Jorge Luis Borges, «Ele jardín de senderos que se bifurcan», Obras Completas, I, Buenos Aires, Emecé, 2004, p. 473.
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Alta Traição (José Emilio Pacheco)
ALTA TRAIÇÃO
Não amo a minha pátria.
O seu fulgor abstracto
é inalcançável.
Mas – apesar de não soar bem –
daria a vida
por dez lugares seus,
certa gente,
portos, bosques, desertos, fortalezas,
uma cidade desfeita, cinzenta, monstruosa,
várias figuras da sua história,
montanhas
— e três ou quatro rios.
Trad.: Pedro Serra.
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Da Poética aristotélica
- É verdade, Pamplinas, você viu a tunda do bastonário Marinho Pinto na Moura Guedes?
- A tunda?… Ah sim, no Youtube. Chegou-me por mail. Suponho que a peróla final da coisa.
- E então, homem? Que me diz àquilo? A propósito, leu o nosso confrade Bebiano sobre o assunto?
- Claro. Judicioso e incisivo, como sempre.
- Também achei. Mas vejo-o reservado no seu juízo…
- Engana-se, Q. O que se passa é que, vejo-o agora, a cena fez-me enfim perceber a mais abstrusa das noções aristotélicas…
- Hã?!
- Anos e anos a estudar os escoliastas da Poética (acima de todos, o Else) e afinal…
- Afinal?
- Afinal bastava ver aquela espécie de telejornal.
- Quando visitado pelo Marinho, suponho…
- Ah sim, convém ressalvar: apenas nessa eventualidade.
- Bom, mas desembuche, Pamplinas. A que raio de noção se refere você?
- Ora, meu caro, que noção haveria de ser? A catarse. Um tanto colectiva, creio…
- Você quer dizer catar-se, não?
- Isso, receio bem, é mais para a Moura Guedes. Post Marinhum, entenda-se.
- Desta vez acho que entendi, sim. Apesar de, como você gosta de lembrar, eu não perceber nada de latim…
- Mas percebe de catarse…
- Como vários milhões de portugueses, desde sexta-feira.
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Dicionário Crítico por Intermitência: Poetas (III)
Ricardo Araújo Pereira (1974, Lisboa). A vox populi atribui-lhe um primeiro livro, editado sob o pseudónimo Angélico Martins, com o título Versos Livres & Rima Presa (1994), que nunca assumiu, talvez por discrepância estética em relação ao seguinte rumo da sua obra, óbvia o bastante para indexar esse livro inicial sob a categoria da «juvenília». Com atribuição inequívoca do seu nome editou, em 1997, Perguntas de um Intelectual Iletrado e, três anos depois, Ainda não é poesia nem prosa calma é apenas alguma coisa parecida com isto. Por comunicado datado de 1 de Abril de 2003 informou que a partir daí se assinaria R. I. P. e que aderia ao movimento do «literalismo» (v.), renunciando pois ao suporte livro e passando a lançar os seus poemas ao ar pendurados em balões. Fez várias dessas operações, sempre com grande afluência e adesão de público mas sem qualquer consenso crítico (com a entusiástica excepção de Vasco Graça Moura, que exprimiu repetidamente o seu apreço pela obra e suas públicas manifestações). Muitos dos poemas que lançou nessas ocasiões tornaram-se peças de colecção, atingindo preços altíssimos no circuito da bibliofilia, com a sua total discordância e mesmo ameaça de processo judicial, uma vez que (palavras suas, aos jornais) «Só por propósito obsceno se pode capitalizar aquilo que é lançado ao ar e que pertence, a partir daí, ao devir-mundo da palavra». A sua poesia é uma densa e intransigente meditação metapoética sobre a possibilidade representacional da poesia (e, antes dele, da própria linguagem) no mundo pós-metafísico, numa filiação heideggeriana que, no seu livro de 2000, alcança uma rara fundura onto-teológica. Poesia da secularização e dos seus limites, não deixa de recolocar a vexata quaestio das fronteiras entre o poético e o filosófico, pela destreza com que consegue dar forma poética – e admiravelmente rítmica – a uma série de filosofemas de teor metafísico (refiram-se títulos de poemas maiores como «O estar-aí da sombra» ou «Um corpo amado-para-a-morte») e contudo muito dizíveis e mesmo possuídos de um furor cantabile, em poemas naturalmente tendendo para uma extensão significativa. O que algo paradoxalmente contrasta com uma vertente da sua poesia, mais explorada no livro apócrifo inicial – para alguns, argumento em desfavor dessa atribuição de autoria -, mas também nos da fase «literalista», em que a interrogação se volve balbuceio, soluço, gaguez ou mesmo babugem de uma linguagem que nunca acede a uma gramaticalidade mínima, apresentando-se antes em estado de resto e resíduo, como se fora mais uma das inevitáveis ruínas da modernidade, empilhadas ante o olhar esbugalhado, não raro assolado por um muito peculiar pathos, do poeta-anjo da História.
«O signo distintivo dos poetas, hoje, consiste em que a essência da poesia se tornou, para eles, digna de ser posta em causa. Pois, poeticamente, eles estão no rasto do que está por dizer, nomeadamente, a questão do poético: quando há canto quem é que, essencialmente, canta? Esta questão só se colocou quando o dizer do poeta alcançou verdadeiramente a vocação poética da poesia, que corresponde à nova Idade do mundo. Esta Idade não é nem queda, nem declínio. Enquanto destino, ela repousa no ser e captura o homem no seu ser-para, na sua pertença ao devir da noite do mundo. É esse destino que decide aquilo que, no interior da obra, pode ainda vir a ser um historiável».
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António Guerreiro e a estratégia do crítico
Na sua coluna «Ao pé da letra», que acompanha todas as edições do Actual (Expresso), António Guerreiro cita hoje o texto de Walter Benjamin «O crítico é um estratega no combate literário». O texto de Benjamin teve uma vasta descendência, e seria uma bela ideia reunir (como creio que Pedro Serra em tempos me propôs) todas as variações que esse texto «gerou» desde então. A variação de Guerreiro, porém, não teria lugar nessa putativa antologia, pela simples razão de que nada lhe acrescenta. O texto é mesmo surpreendentemente inócuo, se calhar porque Guerreiro tenta aqui fazer ironia, arte para a qual manifestamente não está fadado. Guerreiro integra antes a família das «criaturas morais», e essas, como se aprende em Adorno ou Alberto Pimenta, são bem mais íntimas do discurso agonístico do que da ironia (e, menos ainda, do humor). O outro nome – o subterrâneo, o verdadeiro – da sua coluna é «Minima Moralia» e daí o imperativo com que o seu autor se enfrenta todas as semanas: como dar mais uma vez mostras de intransigência estética e política?
O problema é que a edição de hoje de «Ao pé da letra», em que Guerreiro decide evocar e avocar a conceptualização benjaminiana do crítico como estratega, se segue à edição anterior do Actual, na qual Guerreiro resenhava o último livro de versos de José Mário Silva, Luz Indecisa. Sucede que José Mário Silva é, neste momento, o coordenador dos livros no Actual, razão pela qual a resenha de Guerreiro não parece integrar de facto uma estratégia do crítico no combate literário… Estou à vontade para o referir, uma vez que praticamente me estreei neste blogue com um post em que comentava a censura de que tinha sido objecto uma recensão de Dóris Graça Dias ao último romance de Miguel Sousa Tavares (colaborador destacado do Expresso) no mesmo Actual, caso aliás que uma geral contemporização transformou em não-caso (houve gente respeitável que insistiu muito em que a coisa nada tinha a ver com censura…). Um ano e tal depois, a situação persiste: e persiste porque os nossos média persistem em não produzir códigos de conduta que, muito simplesmente, interditem situações destas. Não o fazendo, e como o país é pequeno, persistimos nesta situação pantanosa. Que acaba por afectar quer António Guerreiro quer José Mário Silva.
Ou melhor: acabaria por afectar, se acaso alguém se tivesse pronunciado a respeito. Desta vez, porém, não dei por nada, o que só consigo interpretar como mais um sinal (há outros, infelizmente) da decadência da crítica nos jornais. Guerreiro, aliás, numa resenha a Corvo, de Rui Lage, na edição de hoje do Actual, refere um lapso seu em resenha de há uma semana a livro de Tiago Araújo, remetendo para a edição de hoje de «Ao pé da letra»: a resenha de hoje a Corvo teria um objectivo «escandalosamente estratégico», já que nela Guerreiro reconhece o lapso de há uma semana – quando afirmou que o livro de Tiago Araújo era uma estreia e afinal é o seu terceiro – e faz o elogio das Edições Quasi, onde Araújo editou os dois anteriores. É curioso como Guerreiro se acusa num lapso menor, mas não parece dar pelo maior… E, com todo o respeito intelectual que sinto por Guerreiro – descontado o inamovível dogmatismo que lhe é constitutivo -, não consigo deixar de achar «escandalosamente estratégico» que, uma semana depois, Guerreiro nos venha dar a sua versão de Benjamin…
Por uma vez, conviria ler Benjamin «ao pé da letra». Chamem-lhe intransigência, se quiserem…
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Dicionário Crítico por Intermitência: Poetas (II)
Adegar Penetra (Castro Verde, 1980). Estreou-se com Alentejo nam tem sobras (1999), a que se seguiu Canto Chão (2004). Com Joaquina Poejo constitui a linha da frente dos «poetas telúricos», procedentes de Mário Beirão e, em menor grau, de Miguel Torga, e que a partir dos anos 80 se tornaram uma das linhas de força da cena poética portuguesa. Como eles, privilegia a redondilha e recusa o verso livre («Um recurso dos pobres», nas suas palavras). Muitos dos seus versos estão adaptados ao canto alentejano – o poeta integra o grupo de Castro Verde, como maioral -, razão pela qual os seus livros vêm sempre acompanhados de CD em que se pode ouvir os poemas cantados pelo grupo de cantares de Castro Verde. Vários dos poetas telúricos, aliás, recorrem em primeira instância ao CD, desprezando ou pelo menos secundarizando o livro. O seu sítio no MySpace (www.myspace.com/adpenetra) é dos mais visitados da net em português, mostrando a actual grande popularidade da sua obra e da poesia telúrica. Recebeu vários prémios de poesia de câmaras do Baixo Alentejo, os únicos que aceita, já que recusa os prémios literários das instituições da capital. A sua poesia oscila entre o épico alentejano e a elegia da paisagem infinda e (falsamente) monótona do Sul, propondo um como que regime bipolar entre exaltação e depressão, ou entre as ínfimas e contudo infinitas variações daquilo que só a um olhar impreparado («urbano») parecerá realmente monocórdico. Poeta da modéstia retórica, o imperativo da sua adequação ao parti pris das coisas da terra condu-lo naturalmente ao privilégio da catacrese, de que é um exímio cultor (o maior depois de Vitorino Nemésio). Pratica ainda uma recuperação intensa da vox populi, desde os anexins e máximas populares aos rimances que são um dos troços centrais da sua obra e que sampla livremente em hibridizações intensas, como na secção «Fuckin’ rimas» do seu segundo livro, também a mais política da sua obra até ao momento, dedicada à construção da grande barragem de Alqueva («A grande epopeia alentejana do nosso tempo»).
«Para mim, toda a poesia é artesanato. Produção de artefactos próximos da mão. A palavra arte está muito ligada à palavra artesão. E a palavra artesão está ligada à palavra trabalho. Eu não vejo uma fronteira nítida entre arte e artesanato. Para mim, um poeta, um escritor, um músico é um artista como artista é (ou era, infelizmente), o Perdigão que fazia sapatos na minha aldeia ou a Inácia que faz músicas na nossa tradição. E, por isso, sendo artesanato, coisa de mãos, é coisa da terra. São, ainda e sempre, formas de mexer com a terra».
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Melville ou o sublime

Será talvez o grande paradigma da ficção americana à sombra tutelar do qual se acolhem escritores tão diversos como Faulkner, Don Dellilo, Thomas Pynchon, ou John Barth.
O que não conhecíamos em português, até onde julgo saber, era o Melville poeta.
Esta lacuna está agora preenchida após estas traduções/versões de Mário Avelar publicadas na Assírio & Alvim. Os poemas de Melville reiteram um tema que é um dos seus tópicos mais inquietantes: a indiferença da natureza aos desígnios do humano. Isto pode ser ilustrado pelo poema magnífico que é «The berg (a dream)» / «O Icebergue (o sonho)», que é também um belo exemplo do que poderá ser a «estética do sublime». Deixo aqui a primeira estrofe (p. 55):
Vi um barco de porte marcial
(de flâmulas ao vento, engalanado)
Como por mera loucura dirigindo-se
Contra um impassível icebergue,
Sem o perturbar, embora o enfatuado barco se afundasse.
O impacto imensos cubos de gelo cair fez,
Soturnos, toneladas esmagando o convés;
Foi essa avalanche, apenas essa -
Nenhum outro movimento, o naufrágio apenas.
Herman Melville. Poemas, Assírio & Alvim. 2009, trad. de Mário Avelar [ISBN 978-972-37-1357-2].
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Dicionário Crítico por Intermitência: Poetas (I)
RR Fortuna (1958, Paranhos). Estreou-se com Grãos de Pólen (1978), tendo sido saudado como a voz mais densa da sua geração. O coro crítico manteve-se no longamente aguardado segundo livro, que surgiria apenas em 1994 – Medula da Água -, a que se seguiria, logo no ano seguinte, em volume com a configuração de Obra Completa, e enfeixado aos anteriores, um novo inédito, Alma Orográfica (que passou a ser o título da sua obra poética). O volume coleccionou os maiores prémios de poesia do país e o autor remeteu-se desde então a um mutismo quebrado apenas por uma mão-cheia de poemas editados em revistas. Vem sendo traduzido para vários idiomas. A sua poesia é uma versão do poético como voo intransigente do espírito, inquirição órfica da mínima natureza como dos enigmas e mistérios da paisagem interior desdobrada em panejamentos sem fim, explorando formas como a ode mas em especial o hino, com extensão tendencialmente vasta – e, no seu último livro, coincidindo com um longuíssimo poema apenas. Com a sua obra, a poesia portuguesa recuperou a dicção rilkeana que raramente lhe foi conatural, se excluirmos os promissores poemas de Pascoaes e os hinos à noite, incorrectamente chamados «odes», de Pessoa ou ainda os «mistérios órficos» de António Rosa. De grande impacto na geração posterior, sobretudo em Jorge Felício (v.) e Maria Carlos Maria (v.), a sua poesia vem também exercendo um crescente fascínio sobre a crítica, em especial em Américo Lindeza Diogo e Pedro Mexia (Eduardo Lourenço dedicou-lhe um pequeno mas significativo ensaio, incluído na muito recente versão alargada de Tempo e Poesia).
«Ter falta de tudo, e ter tudo em falta, é o trabalho da sinédoque como figura da aspiração fracassada ao todo. Como é que um todo falta à parte, eis a questão. É preciso de tudo para fazer infimamente um mundo? Talvez… Como proporcioná-lo, eis talvez a questão. E que a parte seja mais integrante, com menos falta de tudo se o todo lhe faltar menos. A poesia é este dizer o que falta - e este dizer em falta».
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Dicionário Crítico por Intermitência
Inicio hoje, com esta nota preambular, a publicação daquilo que será uma série de verbetes para uma pequena obra em formato de dicionário sobre a literatura portuguesa de hoje. O primeiro micro-tomo será dedicado à poesia. Depois, se para tanto houver fôlego e inconsciência, surgirá um segundo, para a ficção, e um terceiro, sobre a crítica. Intitula-se a obra Dicionário Crítico por Intermitência (com o subtítulo Uma Descrição da Literatura Portuguesa Contemporânea) e cobre, em cada área, dois tópicos: 1) autores; 2) correntes dominantes. Proponho-a desde já a um editor benévolo ou, o que dá no mesmo, benevolamente hipócrita… Esclareço que creio moderadamente na originalidade deste meu opus, e duvido convictamente da sua pertinência. Mas uma vez que essa é uma boa descrição da minha existência, entrego-me serenamente à tarefa. O vento, como sempre, ajuizará.
Nas entradas sobre autores, deverá o leitor depreender que a citação final, em itálico, é um depoimento do autor. Abstenho-me de historiar miudamente a recolha de tais depoimentos, pois nos domínios do espírito tudo se ganha em abstrair da petite histoire, tantas vezes possuída de uma furiosa paixão pela petitesse. Nas entradas sobre práticas marcantes do campo literário de hoje, os depoimentos serão devidamente atribuídos em nota. Finalmente, esclareço que as entradas serão editadas sem qualquer preocupação de seguir a ordem alfabética, tal como deverá acontecer numa putativa edição em livro. Deixo-o aqui consignado a título de vontade última.
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Da civilização e das bruxas

«-Quem é a tia Em? – perguntou a velhinha.
-É a minha tia que vive no Kansas., o lugar de onde eu venho.
A Bruxa do Norte pareceu pensar durante um bocado, com a cabeça curvada e os olhos postos no chão. Depois, olhando para cima, disse – Não sei onde fica o Kansas, porque nunca ouvi falar nessa terra. Mas, diz-me, é uma terra civilizada?
-Oh, sim – respondeu Dorothy.
- Então, isso explica tudo. Penso que nos países civilizados já não há bruxas, nem feiticeiros, nem feiticeiras, nem mágicos. Mas, sabes, a Terra de Oz nunca foi civilizada, pois estamos separados do resto do mundo. Por isso é que ainda temos bruxas e feiticeiros entre nós.»
Frank Baum, O Feiticeiro de Oz, Tradução de Lúcia do Carmo Cabrita Harris, Colecção Geração Público, 2004, p. 14.
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Cannibal & Co. (V)

Um beijo conta-se pelos dedos. Vêm depois do beijo o Natal e o Ano Novo, imaculada conceição da democracia postal dos beijos seráficos:
“amores, os meus
atiro-te um beijo joana dos ratos.
mónica dentes podres a vós lanço-vos uma
promessa de amor. sandra complexo
de mongol, a ti, querida,
um bouquet de jasmins. e tina
andróide apenas uma perna, para ti
carícias na mama esquerda. a
vós todas, mais a fátima carcinoma pelo na venta
a quem introduzo o dedo na vagina,
a todas vós,
feliz natal e excelente ano novo.”
hélio t.
Atirado em bruto pelo enervamento digital, o beijo dá pauladas no nome, qualquer nome de bonina:
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Textos & pretextos
Leio, nos jornais de fim-de-semana, os (poucos e magros) textos sobre livros. Noto que há os que escrevem sobre os textos dos outros para, de algum modo, agradecerem a sua existência. E há os que aparentemente escrevem sobre os textos dos outros mas visam de facto terceiros. São aqueles que fazem dos textos pretextos. O rancor pode sempre mais do que o amor, é o que se aprende nesses moralistas de fim-de-semana.
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O visível e o invisível em Paulo Valverde
[Paulo Valverde. Fez agora em Abril passado, mais precisamente no dia 4, dez anos sobre a morte daquele que terá sido porventura um dos mais significativos antropólogos portugueses de sempre. Dir-se-á que é fácil atingir essa meta, porque a concorrência sempre foi de pequena monta. Sim, sem dúvida. Mas para quem alguma vez assistiu a uma aula deste homem que morreu com 37 anos, ou para quem teve o prazer de ler as suas páginas hoje tão esquecidas, a sua celebração é incontornável. Nesse sentido, gostaria de deixar aqui um ensaio meu já com alguns anos que desenvolve algumas linhas de interpretação do que poderá ser a sua escrita e a sua estratégia de recodificação desse «texto» que é a «cultura». O ensaio faz remissões ao livro póstumo que inclui muitos dos seus trabalhos mais teóricos e uma parte que creio substancial dos seus diários e notas de campo. Serve também o presente post para chamar a atenção para esse livro que deverá estar, estou certo disso, a apodrecer, exemplares muitos, nalgum canto escuro de um armazém de refugos. Triste sorte para um prosador extraordinário cuja escrita terá pouquíssimos antecedentes entre nós, e que, no seu melhor, ombreia com páginas de Malinowski e de Leiris. Ah, é verdade, aí vai a referência: Paulo Valverde, Máscara, Mato e Morte. Textos para uma etnografia de São Tomé, Oeiras, Celta, 2000.].
Entre a pequena comunidade de antropólogos sociais portugueses, é reconhecida a enorme perda intelectual e afectiva (sobretudo para aqueles que com ele privaram de perto) que representou o falecimento prematuro de Paulo Valverde (1961-1999). Vítima de malária contraída em São Tomé, Paulo Valverde afirmar-se-á cada vez mais como uma espécie de personificação trágica e mítica da figura do antropólogo enquanto herói. Não no sentido lévi-straussiano do termo, isto é, enquanto herói civilizador capaz de resgatar o fogo sagrado de culturas cujo recorte elegíaco ou crepuscular se tornou forçosamente aparente durante o século XX. Mas antes como aquele que, compreendendo o quanto há de culturamente perverso nas modalidades salavacionistas mais ou menos declaradas mais ou menos conscientes da disciplina, se afadiga em traçar-lhe novos rumos não apenas metodológicos (Paulo Valverde era alguém que, comprometido com uma dada tradição metodológica, o fieldwork situado e localista, parecia cada vez mais incomodado com os seus limites) , mas também, e com especial ênfase, novos rumos analíticos. O heroísmo, a haver um, está na determinação e no seu risco (um risco que ele assumira e que pode ser qualificado igualmente pela intimidade cultural, sem par entre os antropólogos sociais portugueses das últimas décadas, que foi assegurando no terreno). Paulo Valverde acreditava na possibilidade da disciplina se reconstituir enquanto analítica das metanarrativas modernas, entre as quais se encontrariam, certamente, os projectos salvacionistas e politicamente correctos evidenciados por tantos dos seus contemporâneos, e, de forma particularmente indiossincrática e inquestionavelmente sedutora, demonstrava-o através dos seus textos, aulas, e inúmeros momentos de discussão informal de que poderam beneficiar todos aqueles que foram seus alunos e colegas. (mais…)
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Irvine Welsh e a morte da literatura
O romance de Irvine Welsh, originalmente publicado em 2002, é construído em torno de múltiplas vozes, vozes essas que são reconhecíveis após a leitura do célebre Trainspotting (1996), do qual é, aliás, uma sequela. Welsh é uma espécie de escritor picaresco e joyceano que escreve furiosa e polemicamente sobre a experiência contemporânea.
Um aspecto particularmente interessante prende-se com o uso dos diálogos e dos idiomas locais e de grupo que podemos descobrir aqui em registos diversos, entre os quais se destacam, evidentemente (para quem já conhece Welsh), as práticas e linguagens próprias de uma certa marginalidade/youth culture britânica, de que Welsh é, sem dúvida, um magnífico mitógrafo.
Ninguém há como Welsh para nos mostrar a «fala» dos seus protagonistas, com uma eficácia verdadeiramente estonteante e paródica. Talvez Welsh seja mesmo um dos mais interessantes émulos de Joyce, hoje.
O livro é, aliás, excelente para quem gosta de ver as possibildades literárias do calão a acontecerem na página.
Prefiro citar aqui, porém, o primeiro parágrafo do capítulo com o inefável título de «…punhetas mal batidas…». Aí Welsh mostra-nos através da voz de uma das suas personagens (Nikki), como a literatura já não é o que era, e como ela exige uma reconfiguração dos seus limites e temas:
«Cada vez que mudo de disciplina sinto-me mais fracassada. Contudo, a meu ver, os cursos académicos são como os homens; mesmo o mais fascinante só consegue cativar o nosso interesse durante algum tempo. Agora o Natal já passou e estou outra vez solteira. Mas o facto de mudar de disciplina não é tão angustiante como mudar de instituição pedagógica ou de cidade. Consolo-me por ter ficado na Universidade de Edimburgo um ano inteiro, bem, quase. Foi a Lauren que me convenceu a mudar de curso de literatura para estudos dos media e do cinema. A nova literatura é o cinema, disse ela, citando uma revista idiota qualquer. Como é óbvio, expliquei-lhe que não é nos livros nem no cinema que as pessoas hoje em dia aprendem alguma coisa sobre a narrativa, mas nos jogos de vídeo. Se realmente queremos ser radicais e modernos, devemos passar os nossos dias no salão de jogos do bairro a rivalizar com um monte de gajos anémicos, para garantir o teu lugar nas máquinas» (p. 35).
Irvine Welsh. Porno, Quetzal, 2009, trad. de Colin Ginks [ISBN 978-972-564-759-2].
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Cannibal & Co. (IV), Contra Arcadia (II)
Ahora el mundo es el escenario de ejércitos de microbios; el apocalipsis amenaza como no había amenazado nunca antes, aunque ahora sea con las formas de la física. En las neurosis, en las psicosis sigue floreciendo la vieja locura. Y también será posible reencontrar allí al devorador de hombres, el antropófago, vestido con un disfraz transparente –no sólo en forma de explotador, de batidor en el molino de huesos del tiempo–. Antes al contrario, el antropófago tal vez aparezca en la forma de serólogo que, rodeado de instrumentos y retortas, medita sobre el modo de transformar el bazo humano, el esternón humano, en materia prima para extraer medicamentos milagrosos. Cuando esto ocurre nos encontramos en el centro del viejo Dahomey, en el centro del antiguo México.
Ernst Jünger, La emboscadura, Andrés Sánchez Pascual, trad., Barcelona, Tusquets, 1988, 176 pp. ISBN: 978-84-7223-850-3.
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OLAM: sessão com António Pinho Vargas

Hoje, pelas 18 h, no foyer do Teatro Académico Gil Vicente, terá lugar a 8ª sessão de Os Livros Ardem Mal na temporada de 2008/09. O convidado é o músico António Pinho Vargas, que além de pianista, compositor e professor de música é ainda ensaísta com dois livros editados, o mais recente Cinco Conferências (2008). Integrou recentemente, como investigador, o Centro de Estudos Sociais, onde prepara uma tese de doutoramento em Sociologia da Cultura. O painel será constituído por Luís Quintais e Osvaldo Manuel Silvestre, que moderará.
Na primera parte da sessão serão apresentados os seguintes títulos:
Sugestão de Tradução:
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Edgar Allan Poe sem intuição e sem acaso
Poe é um dos portais da modernidade literária. Sem ele, outra seria a nossa percepção do que foram/são Baudelaire, Mallarmé, Eliot, Pessoa, etc. Sem ele, não teríamos muito provavelmente, o drama da emoção e da razão tal como o viveram e expressaram os modernos.
Nos duzentos anos sobre o seu nascimento (Poe nasceu a 19 de Janeiro de 1809 e faleceu a 7 de Outubro de 1849), o mais traduzido dos autores americanos em Portugal, tem nesta Obra Poética Completa uma das suas homenagens mais significaticas.
Poe foi talvez um dos primeiros poetas a explicitar uma poesia por vir, marcada pelos desígnios maiores da ciência. A diluição dos «enigmas» da natureza e do humano, a convivência com um mundo «desencantado», a urgência de recodificação através das lições do gelo que a ciência comportava e comporta inexorovelmente: tudo temas que a poesia de Poe articula de um modo constante, ao mesmo tempo que pretende aceder a um patamar de reinvenção formal da escrita onde se apela a uma exigência de «método» (que o célebre ensaio «A Filosofia da Composição» enuncia).
Esta tensão entre o desencantamento do mundo e a sua requalificação pode ser ilustrada através do poema «Soneto – À Ciência»: «Ciência, ó filha do Tempo Velho! / Que, de olhos coruscantes, tudo espreitas, / Por que rasgas ao poeta o amplo peito, / Abutre de asa rude que se engelha? Como te pode amar, crer-te avisada, / Que o não deixaste andar, errante, ao vento, / Buscando as jóias que há no firmamento / Ainda que o singrasse de asa ousada? / Diana escorraçaste da quadriga, / Do bosque a Hamadríade (fugindo / Ela a abrigar-se em estrela mais amiga), / À Náiade tiraste a onda cava, / Ao elfo o prado, e a mim o tamarindo / Em cuja sombra eu no Verão sonhava.» (OPC, p. 80).
A edição é primorosa, com uma excelente tradução, introdução e notas de Margarida Vale de Gato (uma tradutora que merece referência pela qualidade e quantidade do seu trabalho de tradutora), e com notáveis ilustrações de Filpe Abranches.
Acresce ainda o já referido ensaio “A Filosofia da Composição” (pp. 273-288), onde Poe explicita a génese de «The Raven» (ler p. 277), e nos revela a intenção de uma poesia sem «acaso» e sem «intuição».
É pena que a edição não seja bilingue; porém é compreensível: tal projecto iria seguramente encarecer uma edição desta exigência gráfica.
Edgar Allen Poe, Obra Poética Completa. Tinta-da-China, 2009 [ISBN 978-972-8955-93-9].
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Por uma ciência da civilização

Partidário de uma reflexão iconoclasta projectada sobre alguns dos temas contemporâneos mais problemáticos, em A Loucura de Deus Peter Sloterdijk ocupa-se do inquietante potencial de violência que os três monoteísmos mantêm no mundo actual. Ele pode preludiar, de certa forma, uma «guerra mundial» de um novo tipo, na qual as três grandes religiões com pretensões universalistas se defrontariam num combate total de morte e destruição destinado a obter o monopólio do absoluto e da verdade. Desde logo pela interferência da religião judaica, apoiada numa espécie de contrato «entre um psiquismo grave e grande e um Deus grave e grande». Depois, um cristianismo que conserva muitas das características que o ligam ao judaísmo mas integra «acentos cristológicos» de uma novidade ainda subversiva que lhe conferem uma dinâmica de proselitismo. Por fim um Islão que procurou, desde o seu atribulado início histórico, corrigir as falhas, as «errâncias», dos monoteísmos que o precederam, integrando desde a primeira hora «impulsos religiosos e político-militares» de uma natureza prática e belicosa.
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