O fim dos bravos

«Com mil demónios! Julgo que não teríamos conseguido se eu não tivesse lá estado!» A frase foi pronunciada pelo Duque de Wellington quatro dias após ter comandado as tropas britânicas, holandesas, belgas e alemãs na batalha de Waterloo, selando aí o destino de Napoleão Bonaparte. Evoca também o tema central deste livro de John Keegan editado há já mais de vinte anos, logo após O Rosto da Batalha. Neste, era o soldado o protagonista, evocado na sua relação com a experiência directa da dor, da vozearia, do terror, da audácia e da exaustão espalhados pelos terrenos do combate. Em A Máscara do Comando é a figura do general ou daquele que assume o comando supremo que se encontra no centro, abordada pelo historiador a partir da leitura de quatro biografias e de quatro diferentes modelos de liderança.
Acabou o Mundo Perfeito
A Isabela decidiu pôr fim ao Mundo Perfeito, após apropriação dos textos dela sobre o período colonial por um blogue racista e de extrema-direita, com a conivência dos comentadores de blogues que, ao contrário do que ocorreria num mundo realmente perfeito, acham que na blogosfera vale tudo.
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Vá ser «gauche» na vida
- Você leu ontem o seu mestre Desidério no Público, Pamplinas?
- Leio sempre, como sabe, Q. Religiosamente.
- Notou que ele está do início ao fim a falar da fausse gauche?
- Um leitmotiv magistral!
- Pois: mestre, magistral. Tá bem. Mas olhe lá: por que diabo usa ele sempre a expressão no modo gálico? E por que diabo a esquerda é sempre fausse?
- Ironia transcendental, meu caro. Para o palato de muito poucos… A França é o país da esquerda, desde a Revolução, a França persiste em sair à rua e manifestar-se a torto e direito, a França foi, com Busch, a pátria europeia do anti-americanismo primário…
- Logo, é falsa. A França e a esquerda. Tou a ver. Profundo, de facto… Já a direita, suponho, é sempre true. É o «estado natural do mundo», como dizia o Prof. Lourenço e se percebe bem ao ler o seu mestre.
- Exacto. É como o argumento dele sobre a «ditadura do proletariado»: tudo sempre a reivindicar o apoio do Estado para coisas que ninguém está disposto a aturar: filosofia, latim e grego, filmes de João Botelho. Exacto, desmistificador e profundo.
- Não sei se reparou que essa lista é sem fim… Ou seja, quando se começa, não se acaba: ele, curiosamente, começa e acaba logo, referindo essas coisas que apontou. Não percebo aliás porque não extrai ele todas as consequências do exemplo da escola, que só dá prejuízo ao Estado e seca a toda a gente: pergunte à miudagem, e aos pais dela, o que pensam da escola e vai ver como se trata apenas de mais uma manifestação ditatorial… Devia simplesmente mudar de vida, dado que é prof., e dedicar-se, sei lá, à publicidade, uma vez que é bom em soundbytes. Mas já notou que a existência do jornal em que ele escreve, o Público, é um caso de ditadura do capital?
- Como?!
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Nas Carolinas (Wallace Stevens)

Os lilases murcham nas Carolinas.
Já as borboletas adejam sobre os camarotes.
Já os recém-nascidos interpretam o amor
Nas vozes das mães.
Mãe intemporal,
Como é que teus galantinos mamilos
De uma vez verteram mel?
O pinheiro adoça o meu corpo
A íris branca embeleza-me.
[Trad. Luís Quintais]
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Bénédicte Houart: copyright & chocolates

com os direitos de autor
do meu primeiro livro de poesia
comprei um m&m amarelo
(amendoins cobertos de chocolate)
duvido que alguém tenha saboreado os meus poemas
com tanto alarido
com os direitos do segundo
comprei dois m&ms
fiquei abundantemente contente e
de queixo bem lambuzado
como convém
cada m&m lembrava-me o álvaro
que dizia, e passo a citar
come chocolates, pequena, e
eu, citando novamente,
comia chocolates, pequenos
com os do terceiro
que ainda não escrevi
já me cresce água na boca
reservei m&ms na mercearia
e pus a boca em pause
embora muito a contragosto
bem vejo como este poema é prosaico
as minhas desculpas
os direitos de autor não dão
para mais metáforas do que isto
(e, de resto, ele tinha razão, o álvaro
o mundo é uma gigantesca pastelaria
onde uns comem, outros vêem comer)
Bénédicte Houart, Aluimentos, Lisboa, Livros Cotovia, 2009.
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Acidente e simulação em JG Ballard (pré-publicação)
Negativity is a positive task.
Paul Virilio
De que forma é que a literatura cooptou um dos dados mais fundamentais da experiência moderna: a presença incontornável (e o lado inexorável dos processos que essa presença reclama) de uma paisagem radicalmente transformada pelo concurso da ciência, ou melhor, da tecno-ciência? A pergunta instala-se imediamente num contexto de contornos difusos, mas mesmo assim decisivo para nós. A noção de tecno-ciência faz-nos assumir que o conhecimento científico se inscreve em complexas configurações de natureza social e material que lhe dão a sua gravidade, densidade, e poder. De que forma é que a literatura respondeu às figurações utópicas e distópicas do projecto moderno que visava projectar o mundo de acordo com os preceitos de um conhecimento politicamente necessário porque experimentalmente validável e universalmente verdadeiro?
Como alguém que prefere uma singularidade para fazer ecoar forças de improvável cartografia que a atravessam, sugiro que nos concentremos num exemplo cujas reverberações se tornam, a meu ver, reveladoras. A minha sugestão é que nos atenhamos a uma espécie de genealogia mais ou menos solta da escrita de um romance particularmente influente e sobre o qual se projecta uma luz que gostaria de caracterizar como oracular, isto é, como se se tratasse de um objecto que reclama uma exploração extrema (e extremada) realizada num território de potencialidades que parecem emergir sinuosamente do presente, esse presente que se dilata e que nos colhe irremediavelmente. Estou a falar de Crash (1973) de JG Ballard, e Crash pode ser pensado a montante, porque o livro é o resultado de um conjunto de obsessões que lhe são prévias.
Em conformidade com um dos preceitos ballardianos que nos diz que, para lá das nossas obsessões, pouco haverá que valha a pena ser perseguido, Ballard aventurou-se quase sistematicamente, desde finais da década de sessenta, num território de inquietação profunda a que Freud designou de Das Unheimliche, e a que o antropólogo Victor Turner chamaria certeiramente de liminar, isto é, um território de improvável classificação, porque betwixt-and-between: nem dentro nem fora, mas antes no umbral, aí onde a viscosidade (um mundo que não é líquido e que não é sólido) se torna uma constante afectiva, e onde aquilo que nos fascina é igualmente aquilo que nos repugna.
O cenário é o de um mundo onde se dramatiza e performatiza o espectáculo debordiano de uma sociedade de consumo que faz das derivas tecnológicas – e dos sulcos que estas deixam no tecido da história e da paisagem – uma alavanca para o seu exercício autofágico e onde, polémica e prescientemente, tecno-ciência e pornografia se associam num exercício de reconfiguração do poder e do desejo.
(…)
No seu último Miracles of life, Shanghai to Shepperton: an autobiography (2008), Ballard revisita Crash, revelando-nos, mais uma vez, como se trata um livro profundamente enraizado num período histórico (os sixties) e como a tópica do «acidente» e da (mais…)
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JG Ballard

Faleceu o nosso correspondente em Shepperton. Leia-se, por exemplo, o obituário do Guardian.
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A noite passada deitei-me com este

«Pela terceira vez o inspector Ryan, da Scotland Yard, atendia Mrs. Plumb, a dolorosa mãe da vítima. Grave, ele disse:
- Ainda nada temos de concreto, Mrs. Plumb. Mas vou dizer-lhe algo que vai impressioná-la, que talvez lhe dê algum conforto moral…
- Ainda haverá confortos para mim, inspector?
- Acabo de receber o relatório da autópsia na Medicina Legal. Contra a nossa convicção, a da senhora e a dos jornais, sua filha, Mrs. Plumb, estava virgem. Morreu imaculada.
- Ainda honesta? – surdinou a mãe, com espanto.
- Exactamente. E este facto, desorienta-nos. Que classe de relações mantinha ela, então, com o homem com quem vivia? É estranho, não lhe parece?
Num pudor nervoso, a abafar os soluços, Mrs. Plumb murmurou:
- Sim… Estranho!… Como já lhes disse, ela ia fazer agora 17 anos, mas desde os 15 que eu andava preocupada. Ela era muito livre… Uma rapariga com personalidade, como agora se diz… Gostava de namorar… Eu não ignorava que ela saía com rapazes…»
W. Strong-Ross, O Subconsciente Viu os Crimes, Coimbra Editora, Lda, 1959, p. 9. [Tradução de Francisco de Azevedo, capa de Pedro Neiva]
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Uma livraria

Ninguém lhe chama “um espaço”. Ninguém lhe chama “um conceito”. Não é multimédia. Não vende café. Não funciona como sala de concertos. Não é um projecto inovador. Não vende pins nem postais. Não é o último grito da vanguarda. Não é uma galeria. Não vende cd’s. É só uma livraria.
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Da paronomásia
- Tive hoje um sonho estranho. Ou melhor: enigmático.
- Então, Pamplinas?
- Olhe, passo a descrever. Estou numa casa grande, com muitos compartimentos e corredores. Na cozinha duas mulheres conversam (suspeito que a minha mãe e a minha avó, mas não consigo ter a certeza). Ao andar pela casa, apercebo-me de que numa saleta há fogo. Retrocedo até à cozinha, procuro um recipiente, uma das mulheres (a minha mãe?) estende-me uma xícara de chá…
- Uma chávena de chá, quer você dizer…
- Hã?
- Já ninguém diz xícara, homem.
- Mais uma razão para não deixar de o dizer. Mas eu conto um sonho aflitivo e você faz comentários filológicos, Q.?
- Não confunda a frequência desinteressada dos dicionários com ciências da linguagem…
- Bom, adiante. Pego na xícara, cheia de chá, e atravesso a casa. Chego ao compartimento a arder (é a mesa do centro que arde) e deito o chá em cima do fogo. Regresso à cozinha, pelo longo corredor, virando à direita e depois à esquerda. Encho a xícara com água e regresso à cena do incêndio. Deito a água sobre o fogo…
- Que nessa altura já seria fogaréu, não?
- «Fogaréu»? Isso é a sua «xícara», não? Mas não, ainda não era. Só aí à quinta viagem é que a coisa se torna preocupante. Toda a mesa arde, as chamas ameaçam o tecto…
- «Lambem o tecto». É assim que (tão eroticamente) se diz nos romances e nas descrições de incêndios nos jornais, neste último caso quando ainda as havia.
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Et in Arcadia ego: o corvo de Rui Lage (VII)

Colocado expressamente sob signo infausto, Corvo seria a taumaturgia de um território que não sobreviveu. As três epígrafes do livro – Poe, La Fontaine e o rimance de D. Filomena que convém transcrever: «Os corvos lhe comam os olhos e a raiz do coração» – não apenas declaram esse fado como deslocam a questão do território para o plano de uma mediação situável entre poesia e cultura e, ainda, entre o popular e o erudito. O poema inicial, porém, declara o corvo (aqui um devir outronímico do poeta) um taumaturgo de feira – «de ti os vindouros sem penas / farão arroz de cabidela / ou quem sabe torpe gralha, / de corvo corruptela.» -, anunciando a sua desqualificação em gralha, consumada no último acto/poema do livro. Mas declara sobretudo a inutilidade da taumaturgia enquanto protesto que nada pode, tanto quanto a indignação ou revolta nada pode contra a naturalização do devir do mundo do tardo-capitalismo (chamemos-lhe «desertificação do interior», «abandono do mundo agrário» ou «efeitos da globalização»).
A inteligência deste livro reside porém na permanente sobreposição da «lógica do poético» à do mimético e, em consequência, na deflação das nem que apenas tentações de confiar um programa de salvação a um regime ou registo mimético. Os versos que transcrevi do poema inicial tanto são o auto-retrato do corvo enquanto taumaturgo falhado – e como o não seria, sendo ele, em rigor, uma persona vicária, e talvez propiciatória, do mundo secularizado, que delega em corvos e fantasmas os seus desejos inconvictos de crença? -, como são ainda o auto-retrato fiel do poeta moderno, de perfil aliás muito mallarmeano, magnificamente resumido no «inútil protesto / de utilíssimo nada».
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OLAM: sessão com Alexandra Lucas Coelho

Hoje, pelas 18 h, no foyer do Teatro Académico Gil Vicente, terá lugar a 7ª sessão de Os Livros Ardem Mal na temporada de 2008/09. A convidada é Alexandra Lucas Coelho, jornalista do Público e uma das mais consagradas da sua geração, sobretudo na área da grande reportagem e da cultura, com um livro editado sobre o conflito palestiniano, Oriente Próximo (2007). O painel será constituído por Catarina Maia, Luís Quintais, Rui Bebiano e Osvaldo Manuel Silvestre, que moderará.
Na primera parte da sessão serão apresentados os seguintes livros:
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Tuga Rock goes to university?

O colóquio chama-se Poéticas do Rock em Portugal 2009 – Perspectivas Críticas de uma Literatura Menor e tem lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, de 6 a 8 de Abril. Ou seja, começa amanhã, e logo com este senhor. O programa completo pode ser consultado aqui.
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O sentido é revisitação ou uma selva dentro da selva ou por que é que o cérebro não explica a arte ou só a explica parcialmente
Um dos aspectos mais interessantes das chamadas neurociências cognitivas contemporâneas prende-se com a relevância que aí assume uma imagem do cérebro enquanto estrutura dotada de uma complexidade e de uma plasticidade extraordinárias.
A arte pode ser pensada frutuosamente como um aspecto da cognição humana, isto é, como algo que resulta de um processo multiforme de aquisição de conhecimento, e, nesse sentido, como algo que radica em processos que poderíamos descrever como mentais.
O problema começa talvez aqui.
A minha tese é a de que sem cérebro não há mente (o que é, desde Thomas Willis e da «neurocentric age», uma evidência incontestável), mas que a mente não é o cérebro; penso, aliás, que não há consensos alargados sobre aquilo que a mente é, e de que forma é que podemos passar das ontologias na terceira pessoa para as ontologias na primeira pessoa, ou, de outro modo, da objectividade para a subjectividade, e vice versa. Estamos na fronteira, e toda a gente sabe como são as fronteiras que tornam a ciência fascinante, difícil, ou, de outro modo, de exercício quase improvável. Somos confrontados com aquilo que não sabemos, ou, eventualmente, com os limites do que sabemos.
De acordo com uma leitura wittgensteiniana do que se encontra aqui em causa, talvez estejamos perante um problema de linguagem ao dizermos que são os cérebros que pensam.
Wittgenstein ensinou-nos, como nenhum outro, a suspeitar da linguagem. As palavras podem trair-nos e levar-nos a olhar para certos problemas como problemas reais, quando eles não passam de puzzles que devem ser desmontados. Assim, se os estômagos não comem também é muito improvável que os cérebros pensem, ainda que, e volto a enfatizar este ponto, não possa haver pensamento (e todos os seus avatares: consciência, intenção, memória, etc.) sem cérebro.
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Uma ciência da ciência
Esta é a 2ª. edição de Para uma sociologia da ciência, a tradução portuguesa de Science de La Science et Refléxivité de Pierre Bourdieu (1930-2002). Publicado no ano da sua morte, este curto e denso ensaio pode ser lido de duas formas: como uma introdução aos Estudos Sociais de Ciência (uma das áreas mais polémicas das ciências sociais contemporâneas), e como um modo de percepcionarmos o que Bourdieu, que sempre apelou à «refexividade» na constituição do objecto sociológico, teria a dizer acerca da ciência enquanto «campo», para usar um conceito que lhe é decisivo.
Bourdieu passa em revista os grandes nomes da sociologia da ciência (ou daqueles que ajudaram a circunscrever o seu alcance), desde Merton a David Bloor e ao «strong programme», passando pelo inevitável Thomas Kuhn.
Neste contexto, particularmente acintosas são as páginas sobre Bruno Latour (ver pp. 45-50).
A tradução é de Pedro Elói Duarte.
Pierre Bourdieu (2008) Para uma sociologia da ciência, Lisboa, Edições 70 [ISBN: 978-972-44-1398-3].
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