Os Livros Ardem Mal

Manuel António Pina: Requiem por um sonho

Posted in Edição, Notícias by OLAMblogue on Sexta-feira, 13-03-2009

Já foi nosso convidado e, num certo sentido, é-o sempre. Manuel António Pina, um dos cronistas de leitura obrigatória deste país, escreveu hoje um texto, no seu JN, que nos atrevemos a transcrever aqui na íntegra. Por razões de, digamos, solidariedade: com uma certa ideia de livro e com um certo ideal de «intervenção» na área cultural. Tudo isso que sofre mais um sério revés com a  falência da Campo das Letras, uma editora que desde a primeira hora colaborou, de modo exemplar, com Os Livros Ardem Mal. Permita-nos, Manuel António, que façamos nossas, sem a reserva de sequer uma vírgula, as suas palavras.

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No Livro Sexto da Eneida diz-se que os sonhos nos chegam por duas distintas portas, uma de marfim, a dos sonhos fantasiosos, e outra de corno, a dos sonhos proféticos. Os 15 anos de vida da editora Campo das Letras, cujo fim foi agora anunciado, foram uma permanente disputa entre um sonho desmesurado e fantasioso, o de que é possível uma editora sobreviver em Portugal publicando literatura sem ter que ser um mero entreposto de venda de livros, e a profecia de que um sonho desses acabaria mal.

A porta que Jorge Araújo, fundador da Campo das Letras, vê fechar-se sobre o seu sonho fecha-nos a todos, os que acreditam que um livro é mais do que uma mercadoria e que a literatura é mais do que um negócio, no pior dos pesadelos. A verdade é que o dolente reino português de hoje não merece homens como Jorge Araújo, gente que, como escreve Sebastião da Gama, pelo sonho é que vai. Se em vez de se ter gasto, e às suas economias, a oferecer-nos milhar e meio de títulos de poesia, ficção e teatro, tivesse investido em títulos bolsistas, Jorge Araújo estaria hoje mais rico. E nós estaríamos mais pobres.

Manuel António Pina

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