Inquérito OLAM: Joana Matos Frias

Joana Matos Frias é professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. O seu livro O Erro de Hamlet: Poesia e Dialética em Murilo Mendes, venceu o Prémio de Literatura Murilo Mendes, na categoria de Ensaio, tendo sido editado no Rio de Janeiro pela 7 Letras, em 2002. Doutorou-se com uma tese sobre Retórica da Imagem e Poética Imagista na Poesia de Ruy Cinatti. Para as edições Quasi preparou e prefaciou uma antologia de Ana Cristina César. Em colaboração com Luís Adriano Carlos, preparou a edição facsimilada dos Cadernos de Poesia. Tem-se dedicado preferencialmente à literatura portuguesa do período moderno e contemporâneo e, ainda, a questões de teoria literária e retórica e à relação entre a literatura e outras artes. Agradecemos a Joana Matos Frias a disponibilidade para colaborar com o nosso inquérito.
1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?
«Só quem nunca pensou chegou alguma vez a uma conclusão»: a provocação de Pessoa salvaguarda com a finura possível a imprecisão das respostas que se seguem, escudada ainda pelo conhecido parecer de Edmund Burke, «a clear idea is […] another name for a little idea».
Com alguma pena por a pergunta não ser «de que livro de ficção portuguesa do século XX mais gosta?», terei que responder que o melhor livro de ficção portuguesa do século XX é Para Sempre, de Vergílio Ferreira (1983). Porquê? Porque é o melhor livro da melhor fase do melhor ficcionista português do século XX. Subentenda-se, naturalmente, «no meu entender», mesmo que aqui a subjectividade aspire à validade geral graças à perspectiva crítica mediada pelo próprio juízo de gosto, onde se cruzam a razão e o sentimento. Para Sempre, escrita do limite no limite da escrita, articula a unidade e a totalidade, e portanto o efeito de harmonia, o estado de perfeição e de acabamento, com a a vertigem da imperfeição e a força fragmentária de um discurso que exprime a tomada de consciência do terrível. Belo e Sublime, portanto, Para Sempre é um romance que atinge os princípios estéticos mais antigos no centro nevrálgico da própria Modernidade, que não convive bem — como sabemos — com categorias apriorísticas. De todas as obras de Vergílio Ferreira pós-Aparição, esta é aquela onde melhor se consumam as características que já conferiram ao autor um lugar único na história da literatura portuguesa do século XX: a prevalência do modo lírico num género tendencialmente narrativo — com todas as implicações de expressão e de conteúdo que tal imprevisibilidade acarreta —, o domínio rigoroso e sempre inesperado das categorias da narrativa — muito em particular do tempo, sua raiz estruturante —, e uma profunda reflexão sobre a condição humana, o pensamento, a palavra e a escrita, ou melhor, sobre a escrita como pensamento, e sobre a palavra como o essencial da condição humana.
Sobre o prestígio de uma ideia

António Pinho Vargas começou como pianista, entre o jazz de inspiração free dos anos 60-70, o jazz-rock do mesmo período, e algumas colaborações pontuais na cena pop-rock. Depois evoluiu para uma formação e uma versão de câmara do jazz moderno, algo próxima da chamada sonoridade ECM, reconhecível pela riqueza melódica, singeleza harmónica (neste livro, o autor explica a sua recusa, nessa fase, das «extensões harmónicas» típicas do jazz) e contenção improvisativa, tendo gravado uma série de discos com bom acolhimento público, vários deles premiados. A certa altura, passou para o campo da «música contemporânea», na qual foi praticando e defendendo posições «eclécticas», mas sempre com uma referência matricial à questão da atonalidade. Compôs, entre várias peças, algumas delas editadas em disco, três óperas, uma ainda muito recente e com excelente acolhimento crítico. Este livro, que é o segundo do autor, que entretanto se tornou também professor e assessor nas mais importantes instituições da vida musical do país, membro da direcção da OrchestrUtopica e, ultimamente, investigador do CES, reúne 5 conferências realizadas na Culturgest em 2005, explicadas por um subtítulo muito justo: «Especulações críticas sobre a História da Música do século XX».
O registo do volume é oral e digressivo, não raro humorado e irónico, o tom é didáctico e muito apoiado em textos e excertos de peças musicais, o desenvolvimento dos argumentos e a composição das conferências são mais nítidos e performativos nas conferências iniciais e vão-se tornando algo mais derivativos nas finais, talvez por ao longo do livro ir crescendo uma certa crispação pessimista em torno do legado da música do século XX e da sua situação actual. Não surpreende, uma vez que a música do Século XX – a Nova Música de que falava o filósofo e musicólogo alemão Adorno – é uma questão em aberto e em ferida: sem comunicação, sem público, sem um futuro que se possa rever no essencial da sua matriz e do seu legado, condenada, enfim, a ser eternamente Nova, ou seja, nunca efectivamente popular. De Adorno, Pinho Vargas refere, logo a abrir, A Filosofia da Nova Música e a sua encenação do combate entre Schoenberg, ou o progresso, e Stravinsky, ou a restauração (a reacção, melhor dito). Mas não resiste a citar, logo na p. 20, a frase inicial da sua Teoria Estética, já postumamente editada em 1970, que também não resisto a retomar: «Tornou-se manifesto que tudo o que diz respeito à arte deixou de ser evidente, tanto em si mesma como na sua relação ao todo, e até mesmo o seu direito à existência». É caso para dizer que, assim como a Filosofia da Nova Música é de facto a grande teoria estética do modernismo em todas as artes, a frase que abre a Teoria Estética aplica-se à música antes e acima de todas as outras artes, pois em nenhuma delas as consequências do modernismo foram tão radicais e, aparentemente, irreversíveis ou, se se preferir, danosas – desde logo porque tais consequências parecem funcionar, como que por necessidade, numa teleonomia que se diria inquebrável.
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Et in Arcadia ego: o corvo de Rui Lage (VI)
A Arcádia transmontana, como vimos antes, é tanto uma retórica da terra como uma retórica da temporalidade. Em «Vida moderna», antepenúltimo poema do livro, o sujeito senta-se numa pedra, «ciente de que a pedra / jamais se recompôs / do poema de Carlos Drummond» e desembrulha uma sandes de queijo que come devagar «enquanto os cavalos olham desconfiados / sem que deixem por isso de pastar». A cuidada disposição da cena evidencia o entre-lugar deste sujeito, que contempla signos oraculares da imobilidade de um mundo enquanto se entrega a uma prática que define a aceleração da vida moderna: a fast food (em versão domesticamente aceitável, digamos). O módico de idílio da cena é porém «comentado», de forma irónica, por um telemóvel que «expulsa» os pássaros:
Mas devia ter deixado
o telemóvel em casa:
trouxe-o comigo,
não tenho por isso agora
pássaros a cantar.
Os pássaros não parecem ser expulsos do mundo, mas antes do poema ou, pelo menos, do mundo que atravessando o sujeito se faz poema: é porque o telemóvel preenche o espaço fenomenal reservado à escuta que os pássaros não conseguem ser (ascender a) matéria textual. Não se trata tanto de declarar «A Arcádia não mora aqui» mas antes de admitir, com o upgrade induzido pelo telemóvel, a constituição tecno-pastoral deste sujeito «transmontano»: uma prótese da (e de) origem, que faz da proximidade ao mundo pastoral uma hipótese diferida por uma infindável série de mediações (a pedra que é afinal, e necessariamente, a de Drummond, o telemóvel que está pelas aves canoras).
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Estes tempos vagarosos (V)
Há um elemento que aproxima o clip do tema de will.i.am sobre Obama do poema de Cláudia Santos Silva: a exploração da estética do preto e branco, no clip e nas fotos que acompanham e «ilustram» o poema. Na era do digital, que é a era da saturação, o p/b parece ter sido chamado à linha da frente de um projecto, informal e disseminado por todo o campo dos suportes artísticos, de reencantamento por primitivização. No cinema, o projecto ocorre ciclicamente, mesmo antes ou, depois, no exterior do digital, mobilizando cineastas maiores ou mais pequenos – Truffaut, Woody Allen, Jarmusch, João Botelho, etc. – e suscitando denúncias como a de Godard a propósito do último Truffaut (o de Vivement dimanche), centrada, se bem recordo, no carácter meramente fetichista de um p/b encarregado de transportar consigo a possibilidade de uma ressurreição do film noir, como se este fosse, apenas, um efeito de fetichismo tecnológico – ou, se se preferir, uma reificação, por via do p/b, do «cinema clássico.
Nos novos média, como a fotografia, o vídeo digital ou a net em versão YouTube, o p/b não é já, necessariamente, função de uma opção de partida por um suporte, como na época da película e da revelação química, mas uma possibilidade mais a jusante, que a tecnologia actual disponibiliza no mesmo plano de uma série de outras: cor ou sépia, por exemplo (Manovich chamou a isto a variabilidade dos novos média, ou seja, a capacidade para os seus objectos existirem em mais do que uma versão). O digital, na medida em que critica poderosamente a aderência clássica da tecnologia ao programa representacional adoptado, corrói o pesado investimento ontológico que a fotografia, mais do que o cinema, sempre fez no p/b, bem patente aliás no carácter excepcional da cor (ou pelo menos drasticamente minoritário) na longa história da fotografia artística, mesmo quando no plano social e mediático (o dos seus usos «médios») o p/b se torna não apenas muito minoritário mas reservado sobretudo àqueles momentos em que os próprios média parecem apelar à ontologia fatal do p/b. Por exemplo, nas fotos de personalidades públicas que quando, no dia posterior ao seu falecimento, chegam à primeira página, o fazem não raro em p/b, num esforço de reencantamento em que o p/b é estratégico para, por contraste, reintroduzir nem que uma reminiscência do carisma do morto (mais tecnicamente, da sua aura).
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Inquérito OLAM: Gastão Cruz

Gastão Cruz destacou-se inicialmente na poesia portuguesa como membro do grupo que editou Poesia 61, um dos momentos fortes da poesia portuguesa da segunda metade do século XX. Desde então publicou uma obra poética vasta, reunida já por várias vezes, a última das quais em 1999, no volume Poemas Reunidos. Aos seus livros foram atribuídos os mais significativos prémios literários portugueses (Prémio PEN Clube de Poesia, Prémio D. Dinis, Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores), tendo a sua última colectânea poética, A Moeda do Tempo (2006), conquistado recentemente o prémio Correntes d’Escritas/Casino da Póvoa 2009. Traduziu poetas e dramaturgos (Blake, Strindberg, Shakespeare), foi um dos fundadores do grupo Teatro Hoje, para o qual encenou várias peças, e dirige a Fundação Luís Miguel Nava, integrando a direcção da revista Relâmpago, editada pela referida Fundação. O seu último livro é A Vida da Poesia, reedição aumentada do livro que inicialmente publicou em 1973 com o título A Poesia Portuguesa Hoje (com 2ª edição em 1999), e que denuncia a preocupação, longa de mais de quatro décadas, de acompanhar criticamente a poesia portuguesa contemporânea, embora não apenas. Agradecemos a Gastão Cruz a disponibilidade para colaborar no nosso inquérito.
1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?
Questão prévia: é claro que não existe “o melhor livro de ficção portuguesa do século XX”; como não existe “o melhor livro de poesia”. Fazer tais escolhas é uma “missão impossível”. E é como “missão impossível” que, assumindo o paradoxo, as perguntas terão de ser respondidas.
Como decidir não arbitrariamente se A Confissão de Lúcio é melhor que A Farsa, se A Casa Grande de Romarigães é melhor que Os Passos em Volta, se Antigas e Novas Andanças do Demónio (em que está incluído “Super Flumina Babylonis”) ou Os Grão-Capitães (em que se integra essa outra obra-prima do conto que se chama “Homenagem ao Papagaio Verde”) superam Pequenos Burgueses ou Finisterra?
Só será possível escolher simbolicamente; isto é, indicar um livro que possa representar a ficção portuguesa do século passado no que ela tem de mais intenso e inovador.
A minha escolha recai sobre A Farsa de Raul Brandão, um livro de 1903, que, há quase quatro décadas, adquiri, na 4 ª edição, com capa de Stuart, das Livrarias Aillaud & Bertrand.
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London, por Borges
O presente volume pode ser uma de três coisas, a saber: uma excelente introdução à obra de Jack London, uma aproximação à constelação literária de Jorge Luis Borges, e um contacto (também ele sensorial e físico) com uma das colecções mais fascinantes de literatura do século XX.
É um modo feliz de nos aproximarmos do trabalho literário de Jack London (1876-1916), autor americano de grande popularidade (foi um dos primeiros escritores americanos a fazer fortuna com a escrita) no seu tempo, e que é justamente considerado um dos brilhantes mestres da narrativa, e em particular do conto.
Borges reviu-se evidentemente em London, e esta colecção de A Biblioteca de Babel, espelha-o. O livro contém seis contos de London, de onde sobressai uma afirmação da literatura enquanto narrativa que Gustavo Rubim, numa notável recensão no Público, identificou como sendo um trabalho que foge habilmente às derivas da interpretação, e onde os acontecimentos dominam o fluxo textual. Escreve Rubim: «[M]as a mestria de London não está no modo como ergue ou insinua uma visão do mundo; está no modo como põe a narrativa acima do sentido, num jogo de esquiva às interpretações» (Ípsilon, 6 de Fevereiro, p. 29).
Trata-se de uma colecção que Borges dirigiu, seleccionando todos os volumes que a compõem, e prefaciando-os com ensaios seus
sobre cada um dos autores escolhidos. É interessante verificar como o grande escritor argentino faz aí ombrear clássicos, como Edgar Allan Poe e Henry James, com escritores relativamente obscuros ou mesmo esquecidos hoje, destacando-se, entre outros, Gustav Meyrink e Arthur Machen.
Esta colecção revela não apenas as predilecções de Borges (uma grande parte vai para autores de língua inglesa), sendo, neste sentido, um modo de acedermos aos seus mestres, mas também a importância capital que o livro – enquanto objecto dotado de valências estéticas (e metafísicas) óbvias – detém no seu imaginário e na própria ideia que temos de literatura.
Neste sentido, importa referir que é o produto de um encontro entre o editor Franco Maria Ricci e Borges, himself, em que o primeiro propôs ao segundo a direcção de uma colecção de obras fantásticas que só podia chamar-se A Biblioteca de Babel. Os livros são belíssimos (como era próprio de Ricci), e a edição da Presença respeita escrupulosamente o grafismo original. (Creio que há uns anos atrás a Vega tentou trazer esta colecção para Portugal, ou copiá-la, com resultados desastrosos em termos gráficos, diga-se).
As traduções são cuidadas. Recomenda-se, pois, vivamente. (Tradução de Maria João da Rocha Afonso).
Jack London (2009) A Mão de Midas, Editorial Presença (colecção A Biblioteca de Babel, dirigida por Jorge Luis Borges). [ISBN: 978-972-23-4069-4]
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Truques baratos
- Que vê você aí no seu portátil, com ar tão atento?
- Uma coisa comovente, Q.! Ora veja, que eu passo de novo.
- …
- …
- Mas que raio, Pamplinas: agora está numa de cinema português?
- Não percebo…
- Homem, uma coisa cheia de deficiências técnicas básicas. Já viu bem esta sonoplastia? Até parece dobragem de antigamente. Está bom para a RTP Memória…
- Por acaso até tem a ver com isso, sim. Mas em versão irónica.
- Pois, só falta agora dizer que isto é intencional… E profundo, imagino!
- E não acha esta história profunda? Uma belíssima história, com suicídio por amor, mordedura de serpente na Arcádia e tudo. Não vejo que se possa oferecer mais peripécias ou ser mais profundo. Todas as histórias do mundo oferecessem tanto…
- Mas se é assim belíssima, não seria curial que o filme o fosse também? E não com este gajo a dar aos queixos em seco?
- Mas Q., se é uma história de amor impossível não lhe parece que seria um truque baixo fazer o que propõe? Já agora, um naco de música de melodrama, da xaroposa, não?
- Nada tenho contra a música de melodrama. Aliás, sou fã de melodramas e dessa «sopa» musical, para usar a expressão rancorosa daquele chato do Straub a propósito da música nos filmes.
- Também eu nada tenho, mas est modus in rebus…
- Hã?!
(mais…)
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Transparente
Em Timbuktu, Paul Auster fala de uma invenção por fazer: a torradeira transparente.
“Por que é que a gente não há-de poder ver o pão passar do branco inicial ao castanho dourado, ver a metamorfose com os nossos próprios olhos? Qual é a vantagem de fecharmos o pão a sete chaves e de o escondermos atrás daquela coisa tão feia que é o aço inoxidável? O que eu proponho é vidro transparente, com as espirais cor de laranja refulgindo lá dentro. Seria o Belo em nossas casas.”
Pensem nisto empreendedoras e empreendedores do nosso país. Pensem nisto. E depois digam, como o outro, que “não há almoços grátis”. Ou livros úteis.
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Invectiva contra os cisnes (Wallace Stevens)

A alma, ó gansos, voa para lá dos parques
E muito para lá das discórdias do vento.
Uma chuva brônzea do sol descendo assinala
a morte do verão, que neste tempo persiste
Como alguém que rabisca um apático testamento
De garatujas douradas e páfias caricaturas,
Legando as vossas penas brancas à lua
E ofertando os vossos delicados movimentos ao ar.
Vejam, já nas longas paradas
Os corvos ungem as estátuas com seus excrementos.
E a alma, ó gansos, sendo solitária, voa
Para lá das vossas indiferentes carruagens, para os céus.
[Trad. Luís Quintais; para a Maria Andresen]
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Kertész
O escritor Imre Kertész, nascido em 1929 em Budapeste, judeu húngaro, sobrevivente à experiência dos campos de exterminío, e Prémio Nobel da literatura do ano de 2002, é, sem dúvida, um escritor notável. A inteligência narrativa de Kertész, a acuidade e sobriedade estilísticas, o significado moral dos seus textos, não encontram grandes paralelos na ficção contemporânea, a não ser, talvez, em JM Coetzee.
Kertész, desde que ganhou o Nobel, tornou-se um escritor traduzido e amplamente divulgado. Em Portugal existem já algumas traduções, destacando-se, pela Editorial Presença, a publicação de A Recusa, Sem Destino, e Kaddish Para Uma Criança Que Não Vai Nascer, um tríptico que parte da sua memória do intolerável em Auschwitz e Buchenwald.
Detective Story (2009), em tradução inglesa de Detekívtörténet (1977), reflecte em grande medida a dimensão fortemente moral e política do seu percurso de escritor. Trata-se de um romance que se detém no espaço interior de um homem, um torturador. O cenário é o de uma prisão num país sem nome da América latina. Um regime ditatorial chegou ao seu fim, e esse homem, Antonio Martens está encarcerado a cumprir uma pena por ter pertencido à polícia secreta que torturou e executou Enrique Salinas e seu pai, Frederigo.
O texto é escrito na primeira pessoa do singular – é fundamentalmente um texto confessional, procurando justamente captar a voz de Martens -, fazendo incorporar ainda fragmentos de um diário de Enrique (que se encontram na posse de Martens), o jovem brutalmente assassinado pela polícia secreta. Assim, temos aqui uma ficção que procura mergulhar na psicologia profunda, na subjectividade extrema, do vitimizador e da vítima, numa tensão entre inocência e cinismo, magnificamente trabalhada por Kertész.
Imre Kertész (2009) Detective story, Vintage [ISBN 978-0099523390]
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Et in Arcadia ego: o corvo de Rui Lage (V)
O que é, em Corvo, essa programática (e problemática) «retórica da terra»? Nada menos, para começar, e para começarmos pelo poema que tal expressão convoca, do que uma ars oblivionis, cumprida com o zelo que se vota aos impossíveis:
Cumprimos com zelo
a tarefa de esquecer a terra
até que surpreendidos por camélias
num quintal abandonado
escrevemos livros onde lembramos
a terra que esquecemos
e de tal sorte escritos
morremos.
Os versos parecem propor a reversibilidade de amnésia e anamnese: a camélia no «quintal abandonado» reintroduz no sistema a memória que pela escrita se eleva a algo assim como um imperativo. O correlato objectivo da memória recuperada que é a camélia é porém tão performativamente contraditório como o livro: ambos ratificam, por «surpresa» ou vanidade, a distância infranqueável da terra – essa entidade só convocável afinal por uma retórica – e são por isso, cada um à sua maneira, assinaturas (e tatuagens) de uma mão inútil.
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Sobre um livro sobre o livro
No prefácio das autoras ao seu Dicionário do Livro: Da escrita ao livro electrónico fica claro um dos problemas do livro – não deste livro em particular, mas do próprio conceito e forma que designamos pela palavra ‘livro’. Confrontadas com a vastidão do tema e com a natureza, em última análise, arbitrária das categorias que temos de usar para classificar o mundo – ainda quando esse mundo é o mundo aparentemente determinável e ordenável do léxico bibliográfico -, Maria Isabel Faria e Maria da Graça Pericão tentam explicitar as múltiplas racionalidades com que o vocabulário do livro se constelou nas cerca de 25000 entradas (sim, 25000!, não é gralha) que integram esta opus magnum. Por exemplo:
«[...] pretendemos registar os termos do passado que, pouco a pouco, foram sendo abandonados; fazê-lo em simultâneo com a terminologia a que chamaremos de ponta, que as novas tecnologias da comunicação aplicadas à informação trouxeram consigo. Pretendemos também conservar na língua portuguesa algum vocabulário cujo desaparecimento tende a verificar-se com o advento e a imposição de novas técnicas.» (p. 7)
«A terminologia que a obra contempla pretende ser a mais característica de ciências e/ou disciplinas como história da escrita e sua natureza (paleografia, diplomática, filologia), sigilografia (importância documental orgânica do selo), bibliografia, história do livro, biblioteconomia, codicologia, novas tecnologias ao serviço da informação (informática e ciência do audiovisual), sociologia da informação – suas incidências e problemáticas sociais, ciências físico-químicas (no que respeita a problemas e técnicas de conservação dos suportes de escrita e seu restauro) e novas questões da ciência da informação, indústria da informação, gestão de documentos e gestão da informação.» (p. 9)
Esta dificuldade em circunscrever a terminologia a incluir não decorre apenas da intenção de combinar organização sincrónica e diacrónica, dando conta de momentos históricos significativos através da terminologia específica de certas épocas e tecnologias. Decorre também da participação do livro em inúmeros processos sociais e culturais, e das consequentes associações semânticas que expandem o vocabulário do livro para múltiplos contextos de produção, transmissão e recepção. E decorre ainda de uma intensa proliferação lexical nas três últimas décadas – em muitos casos através da importação de palavras e expressões em inglês – originada pela acelerada transição da cultura impressa para a cultura digital, que reconfigura a materialidade do livro. Por causa deste processo, milhares de novos termos oriundos da linguagem das aplicações e das redes informáticas passaram a fazer parte do vocabulário do livro. O efeito combinado destes três factores parece tornar vã qualquer tentativa de saber exactamente o que constitui um abecedário do livro num horizonte que se estende do manuscrito ao electrónico.
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Manuel António Pina: Requiem por um sonho
Já foi nosso convidado e, num certo sentido, é-o sempre. Manuel António Pina, um dos cronistas de leitura obrigatória deste país, escreveu hoje um texto, no seu JN, que nos atrevemos a transcrever aqui na íntegra. Por razões de, digamos, solidariedade: com uma certa ideia de livro e com um certo ideal de «intervenção» na área cultural. Tudo isso que sofre mais um sério revés com a falência da Campo das Letras, uma editora que desde a primeira hora colaborou, de modo exemplar, com Os Livros Ardem Mal. Permita-nos, Manuel António, que façamos nossas, sem a reserva de sequer uma vírgula, as suas palavras.
No Livro Sexto da Eneida diz-se que os sonhos nos chegam por duas distintas portas, uma de marfim, a dos sonhos fantasiosos, e outra de corno, a dos sonhos proféticos. Os 15 anos de vida da editora Campo das Letras, cujo fim foi agora anunciado, foram uma permanente disputa entre um sonho desmesurado e fantasioso, o de que é possível uma editora sobreviver em Portugal publicando literatura sem ter que ser um mero entreposto de venda de livros, e a profecia de que um sonho desses acabaria mal.
A porta que Jorge Araújo, fundador da Campo das Letras, vê fechar-se sobre o seu sonho fecha-nos a todos, os que acreditam que um livro é mais do que uma mercadoria e que a literatura é mais do que um negócio, no pior dos pesadelos. A verdade é que o dolente reino português de hoje não merece homens como Jorge Araújo, gente que, como escreve Sebastião da Gama, pelo sonho é que vai. Se em vez de se ter gasto, e às suas economias, a oferecer-nos milhar e meio de títulos de poesia, ficção e teatro, tivesse investido em títulos bolsistas, Jorge Araújo estaria hoje mais rico. E nós estaríamos mais pobres.
Manuel António Pina
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Barba Azul, Papão e Companhia

Barba Azul, Papão e Companhia, apesar de ser uma obra de meados dos anos 80, foi agora editado pela primeira vez em Dezembro de 2008 pela Cavalo de Ferro, numa tradução de Ana Paiva Morais. É um livro de contos, dezassete breves histórias de Eric Jourdan acompanhadas por dezassete ilustrações inéditas de Paula Rego. Este livro resulta de uma colaboração entre a pintora e o escritor que resolvem remexer o mundo da literatura infantil. Quem tem crianças em casa, ou simplesmente se interessa por literatura infantil de certeza que já se deparou com o problema de encontrar histórias que sejam minimamente interessantes. Apesar de não ser nada uma especialista no campo, acontece-me sempre comprar livros que contam histórias melosas e aborrecidas da “avó Bita” que faz bolinhos quentinhos e do “Joãozinho” que não gostava de sopa e depois já gosta… Em suma… uma chatice. (mais…)
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Inquérito OLAM: Luís Miguel Queirós

Luís Miguel Queirós nasceu em 1962, no Porto, e é jornalista do Público, onde escreve ocasionalmente sobre poesia. Entre outras publicações, é autor de uma antologia da poesia portuguesa do Século XX – Vingt et un poètes pour un vingtiême siècle portugais – publicada em França em 1994. Agradecemos a Luís Miguel Queirós a disponibilidade para colaborar no nosso inquérito.
1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?
Os Incuráveis de Agustina Bessa Luís. O livro foi publicado em 1956, mas li-o numa edição dos anos 80, em dois volumes. Escolho-o por três razões.
a) Lembro-me de ter gostado muito do livro, mas nisso não se distingue de outros que me terão dado prazer equivalente quando os li pela primeira vez, como Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, ou mesmo, entre outros mais razoavelmente citáveis, um livro que a ninguém, nem a mim, ocorreria considerar determinante na ficção portuguesa do século XX, como Directa, de Nuno Bragança.
b) O primeiro volume de Os Incuráveis desapareceu-me já há anos, de modo que nunca mais o li e – circunstância decisiva – não posso ir agora confirmar se a predilecção se mantém. Infelizmente (infelizmente para este efeito) conservo os livro de Sena e Bragança, bem como os vários outros que poderia considerar.
c) Andei a espreitar as respostas anteriores, e pareceu-me que começava a fazer-se sentir um consenso algo entediante em torno de obras, chamemos-lhes assim, híbridas, nas quais a prosa anda um bocadinho próxima de mais dos pressupostos e propósitos da poesia. É claro que nenhum dos livros que citei me provocou uma impressão tão intensa e duradoura como, por exemplo, Os Passos em Volta, de Herberto Helder. Mas essa impressão, sentiu-a, essencialmente, o leitor de poesia, e não o agradecido leitor de Henry James (ou Rex Stout). Estou perfeitamente consciente de que sugerir que temos dois leitores na cabeça, que se chegam à frente consoante os textos que se lhes deparam, não é menos controverso do que admitir que existe uma fronteira (sempre) reconhecível a distinguir a poesia e a prosa do século XX.
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Página 161?
Rui Bebiano, um dos meus generosos hospedeiros neste blogue – um Professor Doutor por Coimbra, meu Deus! -, insta-me a entrar num desafio em cadeia, um desses cujas razões desafiam a Razão, mormente a minha, sempre tão exausta. Trata-se de ir ao livro que se anda a ler e transcrever, da p. 161, a linha 5, confiando em que ela há-de fazer o sentido que as coisas díspares fatalmente fazem, pelo menos desde o Sr. Breton. O desafio, hélas!, pressupõe livros acima de 160 pp., o que é raramente o caso comigo, agora que já li os clássicos que os meus mestres, na sua clarividência, me aconselharam. E assim é também nesta ocasião, uma vez que o livro que ando a ler, e que é este (muito bem traduzido por um outro Professor Doutor por Coimbra, santos deuses!) se fica pelas 104 pp., nelas já incluídas aquelas finais, em branco, que o número par das páginas de cada caderno tantas vezes exige… A minha linha 5 da p. 161 encontra-se pois no limbo e é essa a contribuição que, sem esperar qualquer retribuição, dou a quem, de modo inopinado e sempre hospitaleiro, convidou a insignificância do meu nome para esta dança: o limbo da página para lá do colofon como esse lugar em que todos os livros resgatam a sua existência inecessária.
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O meu amigo Q.
O meu amigo Q. vive num prédio implantado num descampado pós-urbano. Não um subúrbio, longe disso; antes uma zona à qual a cidade na aparência chegou há muito mas de que, de facto, desistiu, povoando-a de tufos de erva, pilares de viadutos e ecos de automóveis acelerando entre vias duplas. Os prédios baixos abrem um horizonte improvável, rasteiro e bloqueado, que parece um convite às deambulações da alma. A paisagem, porém, se assim a podemos nomear, ganha a sua ressonância plena quando contemplada de entre a cápsula envidraçada de um automóvel estacionado no local – ou então, de uma varanda de um dos prédios baixos do local, como quem desiste antecipadamente de nela passear, confinando-a ao passeio interior do olhar.
Vêem-se muito poucas pessoas no descampado entre os prédios, não por ele ser particularmente ameaçador, mas, em primeira instância, porque ninguém ali vive em permanência: dorme-se e sai-se para o trabalho, e é tudo. Podia-se jogar ali à bola ou passear uma criança pela mão, saboreando a continuidade a todo o instante reatada entre o asfalto e a erva, numa liminaridade que é toda uma promessa – mas não, pois o descampado asfaltado e timidamente invadido pela natureza impõe a lei da sua reserva silenciosa. Está simplesmente ali como o símbolo opaco de uma civilização desistente e já ameaçada pela vizinhança pacífica da erva e dos viadutos, esse Parténon para os vindouros.
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200 artigos
- Vivi ontem uma experiência de que ainda me não recompus, meu caro!
- As Finanças caíram-lhe em cima?!
- Qual, Q.! Muito mais traumático! E num evento puramente académico, note, uma sessão a que assisti, como sempre que penetro nesse mundo, sentado na última fila.
- Desembuche, Pamplinas! Que suspense…
- Pois é isto: vi uma notável cientista deste país ser apresentada, antes de uma sua intervenção pública, como sendo «Autora de cerca de 200 artigos»!
- Catano!
- E olhe que desconfio que não terá 40 anos…
- Caso para repetir ainda mais enfaticamente: catano!
- Mas olhe que o fenómeno, ao que parece, é relativamente comum nas ciências, como pude constatar por uma troca de opiniões sussurrante durante a sessão.
- Pois, agora que o diz, lembro-me que já o tinha ouvido também. Artigos de autoria desmultiplicada, descrições das múltiplas fases de uma experiência ou pesquisa…
-… some-lhe uma crescente destreza nas artes da remastigação, como me dizia a tal pessoa na sessão, aliás catedrática de matemática.
- Tou vendo. Há que publicar, há que publicar…
- Nem mais. Agora, sabe, há duas coisas que me tiram o sono desde aquele momento.
- Reparei que o meu amigo está olheirento, de facto.
- Pois é: estou em stress pós-traumático… Mas enfim, a primeira ansiedade é esta: quem consumirá tanto artigo? Já não digo «quem lerá tanto artigo» pois os artigos em ciência não são propriamente para ler. Mas já viu o stress dos cientistas se todos eles produzem artigos às centenas?
- Dá ideia, de facto, que a unidade de conta na produção científica é a centena…
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Medo (Eduard Escoffet)
medo do pai
medo da mãe
medo do cachimbo do pai
medo do tio
medo do casamento do tio
medo da prima que observa com as
mamas crescidas
medo de ser mãe
medo de ser a prima a quem o primo
enfia o bacamarte
medo de ser o primo que tem de enfiar
o bacamarte na prima
medo de ser pai fiel
medo de ser progenitor e amar
em extremo a dulcíssima criatura
medo de ser uma mãe serviçal
que dá de comer a um desconhecido:
que dá de comer a um terrorista,
que dá de comer ao seguidor de uma seita,
que dá de comer a um drogado,
que dá de comer ao passador de droga do bairro,
que dá de comer ao artista coroado de ácidos,
que dá de comer a um visionário
que dá de comer a um ladrão
que dá de comer a um polícia.
medo de ser mãe e não poder guardar
o revólver no coldre quando o filho chega
com a farda manchada
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Inquérito OLAM: Alexandre Andrade

Alexandre Andrade é professor no Instituto de Biofísica e Engenharia Biomédica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Estreou-se em 1997 com o romance Benoni, tendo publicado em seguida os volumes de contos As Não-Metamorfoses (2004) e Cinco Contos sobre Fracasso e Sucesso (2005) e, ainda, o romance Aqui Vem o Sol (2005). É autor de umblogsobrekleist. Agradecemos a Alexandre Andrade a disponibilidade para colaborar no nosso inquérito.
1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?
Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio. Esta escolha diz tanto da excelência que reconheço a este romance como à constatação de que os autores essenciais da ficção portuguesa moderna construíram uma obra espalhada no tempo, por meio de aproximações, acrescentos, declinações sucessivas, teses e antíteses respondendo umas às outras através dos anos, aparentemente livres da ambição de redigir A Obra Definitiva que resumisse e dispensasse as restantes. Agustina Bessa-Luís, Vergílio Ferreira, Maria Velho da Costa – todos eles escreveram o “melhor livro de ficção” do século XX, mas a prestações, ao longo de uma vida. Se o objectivo é o de associar um superlativo a um único livro, os candidatos, parece-me, não são legião. Para além do que elegi, ocorrem-me A Casa Grande de Romarigães, Uma Abelha na Chuva, e poucos mais.
Mau Tempo no Canal consegue conter, sem entrar em colapso, uma absoluta limpidez e uma consciência profunda do que de movediço e insondável encerram os seres humanos. Edificado em moldes essencialmente clássicos, esvazia de sentido qualquer discussão em torno da sua posição na literatura portuguesa, em torno de eventuais dissonâncias com tendências ou correntes, contemporâneas ou por vir. Este romance limita-se a existir, soberbo, mas sem reivindicar. A literatura portuguesa continuaria a ser o que é, com ou sem ele. O facto de não se encontrar em nenhuma encruzilhada dos rumos da ficção nacional é uma virtude inestimável. Ninguém o encontra pela frente como resultado de ter seguido um itinerário, ou por afinidade. Inteiro e agreste, só o encontra quem o deseja encontrar.
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Ser (ou não ser) interrompido
- A última vez que me aconteceu, ainda há bocado, estava eu a ler o Diário Económico! Um artigo entusiasmante, sobre a Euribor. O telemóvel. Atendo: era engano…
- Ironia de anarquista…
- Não interessa o que seja, Pamplinas. O ponto é que não conseguimos deixar de ser constantemente interrompidos: o telemóvel que toca, o sms que chega, o telefone fixo com alguém a querer vender-nos não sei que serviço indispensável, o mail que pisca no ecrã do computador…
- Vejo-o perturbado…
- E não é caso para tal? Já me convenci que isto só vai lá com um atendedor!
- Uma Firewall a toda a volta, quer você dizer.
- Ou isso!
- Se quer saber, acho imoral, como diria o meu mestre Cage. «Uma típica imoralidade do século XX», dizia ele.
- Ora essa?! E porquê?
- Porque me parece evidente que a nossa condição mudou. O ser deixou de ser uma dedicação exclusiva, meu caro. Agora, somos seres interrompidos. Há que assumi-lo, como se ouve hoje a propósito de tudo e um par de botas…
- E o livre arbítrio, hã, Pamplinas? Não está a esquecer esse pequeno pormenor?
- Funciona sempre, não é? No caso de optarmos por nos desligarmos – ou melhor: por nos desligarmos da sociedade – funciona em regime imoral; no caso de optarmos por estarmos ligados e, logo, interrompidos, funciona em regime moral.
- Notável, como você faz do conformismo uma moral!
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OLAM: sessão com Mário de Carvalho
Hoje, pelas 18 h, no foyer do Teatro Académico Gil Vicente, terá lugar a 6ª sessão de Os Livros Ardem Mal na temporada de 2008/09. O convidado é Mário de Carvalho, contista, novelista, romancista, cronista e dramaturgo, cuja última obra é o romance A Sala Magenta (2008). O painel será constituído por António Apolinário Lourenço, Catarina Maia, Luís Quintais e Osvaldo Manuel Silvestre, que moderará.
Na primera parte da sessão serão apresentados os seguintes livros:
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Et in Arcadia ego: o corvo de Rui Lage (IV)
Talvez não seja necessário fazer disto um elogio da coerência interna da obra de Rui Lage, mas é difícil não reconhecer, em alguns poemas de Revólver, o anúncio, se não o programa, de Corvo. Refiro-me à secção III do livro, «Caça Furtiva», e ao poema que a abre, «Mad Max», um «filme de percurso» enunciado no dístico inicial: «Farei o caminho que leva / da cidade à floresta». A cidade é aqui a marcada pelo subúrbio e pela conurbação, numa sucessão de paisagens que diríamos ballardianas – «Altares de sucata, retábulos de pneus / carros com simpósios de heras e rosas» -, não se desse o caso de a descrição ser ainda comandada pelos códigos do «realismo social» que prescrevem um sentido político a um ponto de partida muito situado: «o caminho que começa / em bairros sociais».
O sentido vai-se porém perdendo no percurso, que desemboca em «pinhais duvidosos» e na paisagem de uma continuada perda de referências: «porque parti de sítio nenhum / (parti, por exemplo, de ti) / com imensa saudade / da cidade que esqueci.» O poema seguinte, «Hominídeos (ode ao Vale do Rift)», desloca o «filme de percurso» para a filogénese, concluindo, após o espectáculo terminal do «longínquo temor das coisas longínquas / no ecrã que faz dançar o sofá / com estranha luz de plasma e alta definição», que
Morreremos sem pisar de novo
a terra firme da savana.
Esqueceremos Lucy, seus frágeis,
ternos ossos,
esqueceremos também o apelido
do pai, Leakey,
e onde quer que nos deitemos
estaremos sempre muito longe de casa.
Os últimos dois versos são uma herança do drama ontológico da grande poesia moderna portuguesa, entre Pessoa e Belo, mas a forma como Lage alarga o panorama da moderna perda do Ser, enquadrando-a na hominização, transfere a crise da metafísica para o quadro pós-humanista (e pós-moderno) do parque humano. A «terra firme» desaparece e, na sua vez, surge uma ecologia assegurada por uma série de hipertécnicas que fazem vacilar justamente o nosso nicho ecológico ou «sofá»: o ecrã de plasma, o modo pontilhista da imagem televisiva, dizem agora a nossa condição, não apenas ontológica mas também tecnologicamente evanescente (é difícil não pensar no filme que resume genialmente toda esta fenomenologia: Poltergeist, de Tobe Hooper).
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