Os Livros Ardem Mal

Inquérito OLAM: Pedro Eiras

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Sábado, 07-02-2009

pedro_eiras

Pedro Eiras é professor da Faculdade de Letras do Porto. Publicou ensaios, tendo o seu livro Esquecer Fausto. A Fragmentação do Sujeito em Raul Brandão, Fernando Pessoa, Herberto Helder e Maria Gabriela Llansol conquistado o Pémio do PEN Clube Português de Ensaio. Publicou ainda obras sobre poesia, sobre Gonçalo M. Tavares e Maria Gabriela Llansol, entre outros. Publicou ainda vários volumes de teatro e ficção. Os Três Desejos de Octávio C. é o seu último livro. Agradecemos a Pedro Eiras a sua disponibilidade para responder ao nosso inquérito.

 1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?
 
2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

A minha resposta terá sempre de começar em clave melancólica, elegíaca: como escolher só um livro, de cada vez, entre tantos, entre todos, etc.? Lamento irresolúvel: ou aceito a regra do jogo, ou não posso jogar. Passo? Não: jogo.

Mas é mais complicado: porque eu não sei, de todo, o que é ser “melhor” ou “mais importante”. Por exemplo: “melhor” é “mais perfeito”? Mas – e se eu desejo a imperfeição? A perfeição tem algo de tautológico: um livro esgota o projecto que propõe. E há imenso mérito nesse ser perfeito, perfectum, acabado. Fascínio de Finisterra ou de Clepsidra, por exemplo. Paradoxo de Pessoa: Mensagem é “melhor”, mas eu prefiro Alberto Caeiro.

Há também, pois, o inacabado. Quantas vezes os textos que me dão mais júbilo – aí está outro critério, outra pergunta – não são forçosamente “imperfeitos”? A dissimetria, as lacunas, o diferimento seduzem-me. É porque me perturbam que Húmus ou a Poesia Toda de Herberto Helder me fascinam. Deleuze: gaguez, literatura menor. Klee: pintar com a mão esquerda.

Também tenho dificuldade em compreender o que seja “mais importante”: para mim? para os leitores, via reescrita, intertextualidade? para a “história da literatura”? Aqui, a leitura talvez se cruze com o mito e mais mil acidentes, modas, perspectivas fugazes. O que “melhor” tem de centrípeto, “mais importante” tem de centrífugo. Ainda assim, eu poderia responder: Álvaro de Campos, Poesia, por quanto tem de seminal, de reescrevível (escrevível contra, às vezes? sim, também).

Será que posso responder assim – e ainda reciclar as perguntas, com um pequeno desvio, perguntando a mim próprio agora não qual é o melhor livro, não o mais importante, mas sim: o que me interessa ler neste momento? Porque esta resposta, que vou gaguejando, só pode implicar o meu instante, falível. E assim responderia a todas as questões: Maria Gabriela Llansol. Qualquer livro. Se é preciso um título: O Livro das Comunidades, mas é só uma metonímia. E respondo a todas as questões, porque, para mim, O Livro das Comunidades é ficção e poesia ao mesmo tempo, é melhor porque tão imperfectum, e é mais importante porque tão reescrevível (e contudo, não…).

Este é o meu instante. Como sairia eu do instante? Amanhã, precisarei de outros livros: há tantos séculos XX como instantes – o século XX é aquilo que eu invento agora. E agora é tão grande.

About these ads

Comentários desligados

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

%d bloggers like this: