Os Livros Ardem Mal

A noite passada deitei-me com este

Publicado em Noitadas por Pamplinas, em Sábado, 28-02-2009

 mriocarvalho

 

No país hiperbóreo veio de lá um homem e disse:
- Tivesse eu uma alavanca e levantava o mundo!
Veio outro e disse:
- Tivesse eu um mundo e levantava alavancas.
Aqui começou a mais áspera desde sempre guerra religiosa.

                Mário de Carvalho, Fabulário, Lisboa, & etc, 1984.

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Inquérito OLAM: Rui Zink

Publicado em Inquérito por OLAMblogue, em Quinta-feira, 26-02-2009

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Rui Zink é professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tendo-se doutorado com uma tese sobre a banda desenhada como narrativa literária. Acompanhou as práticas performativas e experimentais do grupo da Po.Ex. no início dos anos 80 e tem uma obra literária vasta, distribuída por vários domínios: a BD para a qual escreve com frequência, quer se trate de obras com ilustração de Manuel João Ramos, António Jorge Gonçalves, ou Louro; a literatura infantil; o humor; e a ficção, de que se destacam os romances Hotel Lusitano, Apocalipse Nau, O Suplente, ou Dádiva Divina (Prémio do PEN Clube Português, 2005), e ainda volumes de contos como A Palavra Mágica. Publicou uma obra «interactiva», o romance Os Surfistas. Vários dos seus livros estão traduzidos, estando também editado no Brasil. Agradecemos a Rui Zink a sua colaboração no nosso inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

Comunidade de Luiz Pacheco, que tanto dá em itálico (saiu em livro uno) como com aspas (foi incluída como conto em colectâneas). Porque é um texto que, embora em poucas páginas (ou talvez por isso mesmo), sumula a ficção moderna do século XX: ao mesmo tempo é colagem (à vox populi), é des-colagem (da mens populi), é ficção, é autobiografia, é paródia, é panfleto, é mudanças rítmicas, mescla de níveis (alto, baixo, médio, mediano mesmo), assumida e descaradamente menor, texto feito corpo (e cheiros), obra aberta, romance policial (ou seja, obra fechada) e, last but not least, leva alguns leitores a pensarem/dizerem “ah, isto também eu fazia”.

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

A Reinvenção da Leitura, de Ana Hatherly (1975). Porque cinde, numa unidade, partes convencionalmente separadas: ensaio e poema, signo e sentido, escrita e desenho, caligrafia e radiografia. Que mais posso dizer? Talvez que é muito bonito e faz pensar, se não estivesse fora de uso dizer ingenuidades destas.

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

As respostas não seriam necessariamente as mesmas porque o mais importante (que muda, influencia, demarca) nem sempre é “o melhor”. E o mais importante de que ponto de vista? Influência? Impacto no seu tempo? Ponto de viragem? Poderia continuar (e até responder), mas para brincadeiras injustas já tive hoje a minha dose. Ite missa est.

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Et in Arcadia ego: o corvo de Rui Lage (III)

Publicado em Livros, Poesia, Recensões por Osvaldo Manuel Silvestre, em Quarta-feira, 25-02-2009

Rui Lage expõe os problemas do seu projecto neste livro num poema magnífico, intitulado «Auto da Horta Destruída». O poeta, como a cultura portuguesa a que pertence, está dividido entre uma herança miserável – «Que triste, país, é a moral / da fábula campestre / que longos séculos nos deste / a ler» -, a sua recodificação tardocapitalista – «o teu luto / dá pelo nome de turismo rural» – e o destino litorâneo e surfista da nação, «obesa / prancha ocidental». O poema abre com um verso que é, nem de propósito, um espécime que diríamos revisionista: não custa imaginar que, sem as vírgulas, ou seja, reescrito assim – «Que triste país é a moral» -, este pudesse ser um verso de Joaquim Manuel Magalhães e da linha de revindicação ético-política que dele provém (ou de uma utilização expansiva do ético-moral que o faz mesmo coincidir com o político, numa linha muito «setentista» e foucaldiana), na poesia portuguesa contemporânea. A «versão» de Rui Lage recupera a possibilidade de um endereçamento positivo a uma entidade colectiva de que a geração, ou melhor, o «grupo» de JMM, desistira, quer por ter passado a um uso tropado de «país» como «moral» – maioritária, repressiva, etc. –, quer por, em função dessa desistência, ter optado por endereçamentos a entidades parcelares, numa tradução da hysteresis contemporânea das identidades.

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Not yet

Publicado em Diálogos por Pamplinas, em Domingo, 22-02-2009

Quando cheguei ao café, o meu amigo Q. já lá estava. Lia um jornal de economia, uma prática nele regular («Nada mais espiritual do que o capital!», costuma dizer, com um sorriso escuro). Cumprimentei-o, sentei-me e abri o JL, dispondo-me a percorrê-lo.
- Um hábito?, perguntou Q.
- Nem tanto: antes uma resignação.
- Há diferença?
- Se calhar não. Aliás, como português, só posso achar que não…
- Bora dizer mal da pátria?
- Antes ler as últimas do BPN e do BPP aí na sua couve… Ou o JL…
- Há diferença?
- Receio bem que não…
- Que desespero… Haverá, algures, diferença? Da que conta?
- Seguramente. No mais fundo do silêncio. Ou na eloquência das árvores.
- Não sei se alguma vez estarei pronto para isso. E você, Pamplinas?
- «Not yet, not yet…», como dizia o númida do Gladiador. Mas esforço-me…
- Bem vejo. Para si é um café curto, não é?
- Sempre.

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Da leitura como perdição

Publicado em Cinema, Livros, Vária por Sandra Guerreiro Dias, em Sábado, 21-02-2009

Rezza

O caminho para a perdição pode ser um qualquer que queiramos, se a isso nos for dada escolha. Pode ser o que seguimos a torto ou a direito, que no fim não sabemos nunca onde vamos dar. Em Caminho para Perdição, de Sam Mendes, são muitos os caminhos que se cruzam sem o fim que seja o deles, nem o de quem os escolheu percorrer. Ao contrário de que sempre assumimos como risível dado adquirido e risível, e que o é apenas de vez em quando, um caminho pode ser isso mesmo que é ou tão somente o caminho que há e mais nenhum a caminho de nada que seja o suficiente do que é em si, ou um outro ainda, que se percorre sem se percorrer para se dizer do lugar das coisas e do que elas aparentemente são sem o serem e sendo-o ante o que quisermos que seja. Em Caminho para Perdição, ensaia-se o que em perspectiva, esta que em cima se adianta, carece de formulação explícita no filme para que assim se simule e se afirme enquanto manobra de actuação e intervenção. Há por isso, e para que se efective essa possibilidade de denúncia do que é para então se ser de um outro modo, dois caminhos que se percorrem ao contrário e que se completam do fim para o princípio, no princípio que com o fim é o que começa, no fim quando percebemos que a perdição, no que é de génese e conceito variável, ou sempre o mesmo, poderá ser o princípio de todas as coisas, independentemente do que queiramos: salvar-nos ou perder-nos.

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Moby Dick

Publicado em Notas por Pamplinas, em Sexta-feira, 20-02-2009

Lembro-me bem do prédio da Padre António Vieira. Não por causa da vizinha do 2º Esq. (não quero porém ser injusto na hora de saldar memórias…) mas porque foi aí que li o Moby Dick. Durante os dois anos que lá vivi, em regime ininterrupto. Não sei quantas vezes o li, mas sei que não li nada mais e que o li sempre, sem parar. Em loop. Deitava-me cedo, como sempre, e acordava pelas 5. Com a higiene matinal, um copo de água, meio pão e meio copo de leite, ficavam-me quase duas horas para ler, aproveitando a frescura e intensidade da percepção de quem acorda nesse momento em que todas as coisas libertam o seu espírito amordaçado pela noite numa torrente de pequeninos sons cristalinos. A essa hora, era-me como que natural a empatia com Ismael e acreditava que também eu escaparia para contar. Lia à beira da janela, num cadeirão posto num certo ângulo que me defendia da invasão do sol, espreitando de vez em quando a paragem do autocarro. Lia mesmo até ao último segundo. Guiava-me pelos meus companheiros de viagem que, também eles, chegavam apenas no último momento. Sabia que era assim pois habituara-me a reconhecê-los: sempre os mesmos, chegando à paragem todos os dias em cima da hora. Visivelmente, gostavam tão pouco dos seus empregos como eu do meu.

Desde que me mudei, não voltei a pegar no livro.

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Notas sobre o meu mestre Desidério Murcho

Publicado em Notas por Pamplinas, em Quarta-feira, 18-02-2009

Sou fiel às minhas venerações e uma delas, enfim sufragada pela opinião pública – com que melancolia o digo!… pois todo o apaixonado é egoísta e deseja não partilhar com ninguém os objectos da sua paixão -, é Desidério Murcho, autor-filósofo que a toda a hora mostra como o modo analítico de filosofar não tem de ser árido e chato, podendo antes enfrentar todos os dragões, e dissipar todas as névoas, da doxa lamacenta do «pós-moderno». Como duvidar, ante tal exemplo, da relevância social do pensamento, e, mais especificamente, do ramo da tradição filosófica em que pousa, qual coruja que nunca dorme, o meu mestre?

A minha já longa admiração por Desidério Murcho acaba de encontrar razões para se reforçar ainda mais. Num intempestivo post (eu sei que Desidério não aprecia a associação, mas nota-se nele, nos seus melhores momentos, um altivo desdém nietzschiano pelas rotinas pequeno-burguesas do pensar), o meu autor acaba de revolucionar a disciplina da História da Língua Portuguesa. De uma penada. Vale a pena transcrever o núcleo duro (melhor: o hardcoreda tese:

O segundo aspecto é que muitas línguas são puras mentiras políticas, inventadas por políticos espertos que queriam dividir para conquistar. É o caso da língua portuguesa. Não é mais do que latim à toa, que depois foi trabalhosamente aperfeiçoado numa nova língua, e que mais tarde foi artificialmente afastada do castelhano (eu sublinho).

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Inquérito OLAM: Ida Alves

Publicado em Inquérito por OLAMblogue, em Quarta-feira, 18-02-2009

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Ida Alves doutorou-se em Literatura Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, em 2000, com tese sobre  “Carlos de Oliveira e Nuno Júdice – poetas: personagens da linguagem”.  É professora da Universidade Federal Fluminense-UFF.  Além de exercer atualmente a chefia do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas desse Instituto, coordena o Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana – NEPA-UFF.   É membro do Pólo de Pesquisa sobre Relações Luso-Brasileiras (PPRLB), sediado no Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, onde também coordena o Núcleo de Literatura Portuguesa. Integra a equipe de pesquisa Poéticas da Contemporaneidade sobre poesia brasileira e portuguesa, na UFF. Tem vários  artigos publicados em revistas da especialidade, brasileiras e estrangeiras, e co-organizou oito  livros / cds com estudos  sobre literaturas portuguesa e africana. Atualmente desenvolve o projeto de pesquisa intitulado «Figurações e desfigurações da paisagem na poesia portuguesa contemporânea».  É pesquisadora-bolsista  do Conselho Nacional de Pesquisa – CNPq – Brasil. Acaba de publicar, em co-organização com Celia Pedrosa, Subjetividades em Devir – Estudos de Poesia Moderna e Contemporânea, Rio de Janeiro, 7Letras, 2008.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

No prazer de leitura, no prazer do texto, não escapo de dizer, com o à vontade dos apaixonados,  que o melhor livro de ficção de língua portuguesa do século XX é Grande sertão: veredas (1.ed. 1956), de João Guimarães Rosa, por sua densidade humana e  pela caminhada espantosa no sertão da linguagem. Falar de sertão é falar de solidão, de sobrevivência, de luta, de desertos, de sol a pino, de morte e de vida, de Deus e do Diabo, sabendo que “Viver é muito perigoso…”. E a língua portuguesa está lá como paisagem riquíssima de criação.

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Uma apresentação

Publicado em Notas por Pamplinas, em Terça-feira, 17-02-2009

Desisti de concluir todos os livros que comecei, antes mesmo de atingir a p. 10. Não por tédio ante a hipótese de ver o meu nome na capa de um livro; não pelo fastio da obra acabada; não por horror ao plebeísmo da publicidade – mas sim pela distracção que em mim quase tudo induz. As árvores, a orografia infinita da sua pele rugosa, o vento, a chuva, acima de tudo a chuva, o passar das nuvens e as suas formas obsessivas na minha mente. As rachas e fungos na parede da minha casa. O peixe vermelho que cumprimento todas as manhãs. O chilrear das crianças no pátio da escola que ladeio à ida para o trabalho. O ruído dos carros ao longe, ou aproximando-se pelas costas: um nicho ecológico para a minha alma. Tudo no mundo me afasta do que na escrita me condena a deter-me em mim, ainda que por interposta pessoa ou obra. Tudo é pasto para a minha perda. Sei bem que esta renúncia moral (tão ascética quanto hedonística) à obra parece contradizer-se, a partir de agora, pela própria existência destes posts. Não divaguemos, porém: posts não são obra, mas antes, e permitam-me dizê-lo em modo gálico, désoeuvrement. Passagem das horas, migalhas do tempo que os vai deixando para trás enquanto corremos, sem ressentimento ou mágoa, por entre a floresta.

Os meus tão ilustres comparsas neste blogue cometem uma imprudência ao acolherem-me, sob a capa da milenar tradição da hospitalidade, nesta casa digna e sóbria. Não poderei contribuir senão com algumas fixações, seguramente espúrias, e um cortejo de venerações: a veneração pelo saber (ou, o que é o mesmo: por Desidério Murcho e Maria Filomena Mónica); a veneração pela inamovível placidez dos livros; a veneração pelo modo de eloquência da música, aquém e além de todo o discurso; a veneração, enfim, pelas tentativas para preencher com palavras aquilo que na música nos diz a mudez do mundo.

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O Estranho Caso de Benjamin Button

Publicado em Cinema, Crítica por Catarina Maia, em Terça-feira, 17-02-2009

O Estranho Caso de Benjanin Botton

 

Upon a closer look, there is nothing normal in our universe.
Everything, even every small thing is a miraculous exception.
View from a proper perspective, every normal thing is a monstrosity.
Why should we take horses as normal and the unicorn as a miraculous exception?
Even the horse, the most ordinary thing in the world, is a shattering miracle.

Slavoj Zizek

 

Não há nada normal no nosso universo, diz-nos Zizek. Por mais pequeno que seja, todo o ser é resultado de infinitas variações e complexas combinações, na sua maioria, para não dizer totalidade, meros frutos do acaso. E, por isso, se virmos bem, somos todos milagres. Somos todos monstros. Todos excepções.

O Estranho Caso de Benjamin Botton, de David Fincher, não é um filme sobre uma aberração. Não é um filme que tenta humanizar uma aberração ou mostrar como os homens podem ser mais feios que a besta – como de certo modo acontece, por exemplo, em O Homem Elefante (1980) –, este é um filme sobre milagres. Apesar de inicialmente ser rejeitado e abandonado pelo pai, o modo como Benjamin, aquele pequeno “bebé velho”, é recebido por estranhos, a maneira como a sua mãe adoptiva, Queenie, se refere a ele é, justamente, como um milagre:

He is a miracle, that’s for certain… just not the kind of miracle one hopes to see…

Mas aqui o uso da palavra milagre está ainda muito associada à religiosidade. O momento em que esta outra noção de milagre de que falo, e que é mais próxima daquela proposta por Zizek , se torna mais clara para mim é no discurso de um bêbado, o Capitão Mike. Ele está num bar onde se encontram outros marinheiros de várias nacionalidades, que falam várias línguas, e discursa entusiasmado sobre a tatuagem de um colibri que tem desenhada sobre o seu coração. Ele conta isto a um russo com a ajuda de tradução simultânea:

This isn’t just another bird! Its heart rate’s twelve hundred beats a minute! Its wings beats eighty times a second! If you was to stop their wings from beating, they would be died in less than ten seconds… This is no ordinary bird, this is a frikkin’ miracle!

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Amor líquido

Publicado em Efemérides, Livros por Ana Bela Almeida, em Domingo, 15-02-2009

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When i fall behind in the quest for pleasure
I shall treasure this short time with you

“Timewatching”, do álbum Liberation dos Divine Comedy.

Numa recente viagem de avião, folheando a revista oferecida pela companhia aérea, entre vários artigos dedicados ao “mês de São Valentim”, atentei num sobre os novos serviços de dating através da internet. Segundo o director de uma destas empresas de relacionamentos, parece que é nos países mais desenvolvidos economicamente que os clientes apresentam mais queixas sobre a relação entre a qualidade do “produto” e o tempo dispendido a procurá-lo. Pagam para encontrar o amor depressa e, se tal não sucede, reclamam. A singularidade desta reportagem provém do facto de não constituir, como as outras da revista – quase todas publicidade a destinos de viagem mascarados de “românticos” e todos situados na rota da referida companhia aérea – um apelo ao consumo de um produto em nome do amor, mas de expressar um entendimento do próprio amor como objecto de consumo. Ocorreu-me logo a canção de António Variações, um grito que vem do que em nós ainda é humano: “Não me consumas!”.

Para uma reflexão sobre a relação do consumidor, que todos somos, com o amor, sugiro a leitura de Amor Líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos de Zygmunt Bauman. O amor como produto de consumo rápido, em série, descartável, que faz de todos nós isso mesmo: produtos consumidos em série, descartáveis. A salvação, segundo Bauman, passará pelo regresso ao compromisso e à permanência nos relacionamentos, apresentada como a única possibilidade de resistência do indivíduo contra o império da fragilidade neste mundo liquido, de empregos e amores flexíveis e em part-time:

(…) libertar o sexo da soberania da racionalidade do consumidor (…) que essa racionalidade seja destituída da sua actual soberania sobre os motivos e estratégias da política da vida humana.” (pag.70)

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Et in Arcadia ego: o corvo de Rui Lage (II)

Publicado em Livros, Poesia, Recensões por Osvaldo Manuel Silvestre, em Domingo, 15-02-2009

Sobre os caminhos tortuosos da fidelidade, muito haveria porém a dizer a propósito deste livro. Uma nota apenas, por agora: o livro vem acompanhado de uma «Playlist» – «39 temas para 39 poemas» -, que é difícil não contrastar com o poema «Música Portuguesa (Best Portuguese Act)» do anterior Revólver (2006), ominosamente dedicado, entre outros, a João Aguardela. Nele podemos ler, na estrofe central:

A rádio toca lá dentro música barata,
ninguém o desliga, porém,
e deixamos poluir os ouvidos
com anglo-saxónicos acentos
saídos de parolas, provincianas,
extasiadas gargantas portuguesas
(tigres lendários com que Blake
nem sonhava).

A Playlist de Corvo, porém, oferece apenas 7 temas de música portuguesa (pop, tradicional, clássica e contemporânea) entre 39, distribuídos pela pop, que domina, e a clássica e contemporânea, sendo que quem de facto domina é a indústria anglo-americana. Ou seja, este corvo que é, na origem, Raven, não pressupõe a fidelidade idiomático-musical que faria coincidir expressivamente território, sujeito colectivo, língua-materna e neo-realismo mimético. Pelo contrário, na medida em que propõe para banda sonora um constructo que oscila entre o internacional e o cosmopolita, desloca a questão da fidelidade, de um só golpe, para um outro plano que não o de uma «estética orgânica», tal como se tende sempre a pensar as questões da representação, a partir do momento em que elas são de algum modo territorializadas – desloca-o, digamos, para aquela «conformidade rítmica com o original» (e só isso, que aliás é muito) que Pessoa declarava como critério da sua tradução de The Raven, de Poe.

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Primo Levi, um «best seller clássico»

Publicado em Comentários por Osvaldo Manuel Silvestre, em Sábado, 14-02-2009

Saiu, suponho que muito recentemente, uma nova edição de Se isto é um homem, o inclassificável livro de Primo Levi sobre os campos de extermínio. Mais exactamente, sobre Auschwitz. Nesta nova edição na editora de sempre, a Teorema, o nome do autor aparece em tamanho garrafal e em relevo, impresso a verniz e, não fôssemos nós não alcançar o dramatismo da obra (e deste nome de autor), a vermelho. Na capa, uma foto de um campo que em nenhum lado do livro é referenciada. Ao cimo, antes mesmo do nome do autor, uma frase promocional: «Uma das mais lúcidas e impressionantes visões dos campos de extermínio nazis». Ainda assim, a coisa parece não ter sido bastante, pois abaixo do título, e entre dois filetes a preto, surge a frase que realmente importa: «Best Seller clássico da literatura mundial».

Eu, que até me considero um «realista» em matéria de mercado, o que quer dizer que tenho estômago para muito, não consigo deixar de olhar para esta capa sem sentir que há aqui algo da ordem da profanação. E estou a conter-me. E, por favor, não me venham endoutrinar sobre o carácter não-sagrado dos livros, puros bens no mercado… Porque, como se aprende no mercado, há bens e bens, assim como há livros e livros. Coisa que obviamente todos os editores sabem muito bem, mesmo quando pretendem o contrário. E este é um desses livros, tal como Auschwitz é um dos nomes impronunciáveis, porque pestíferos, do século XX. De facto, não há «generosidade de consumidor» que me faça aceitar a espúria junção de «best seller» e «clássico» no mesmo sintagma, para este livro; junção que, diga-se, outros editores avisados fariam bem em reivindicar. Por exemplo, a Bertrand poderia com toda a justiça anunciar a 79ª edição da obra de Dan Brown, O Código Da Vinci, com idêntico rótulo: «Best Seller clássico…», tanto mais que a noção de clássico sofre hoje também do efeito de aceleração contemporâneo, pelo que 4 ou 5 anos de vestustez equivalem hoje a 40 ou 50 há meio século. 

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Neurocrítica

Publicado em Autores, Recensões por Luís Quintais, em Sexta-feira, 13-02-2009

622f10ff2f444fc0b08d89aa3150c6f2David Lodge é, por aqui, mais conhecido pelos seus trabalho de ficção do que pelos seus ensaios literários. Mas quem o lê com atenção sabe que os primeiros têm uma relação fortíssima com os segundos. Assim, por exemplo, é óbvia a relação entre Thinks (2001) – também publicado entre nós pela sua editora em Portugal, a Asa, sob o título de Pensamentos Secretos (2002) – e este volume de ensaios vários com o título de A Consciência e o Romance.

Lodge desenvolve, no ensaio que dá título ao volume, um argumento muito estimulante sobre a relação entre os estudos da consciência nas neurociências contemporâneas e o modo como o romance moderno articula um conjunto de reflexões sobre a consciência como atributo definidor do humano. Toda a argumentação de Lodge prende-se, afinal, com a forma como os romancistas articularam (ou não) narrativamente aquilo que nas neurociências cognitivas se chama de ontologias na primeira pessoa e ontologias na terceira pessoa. A descrição de um mundo subjectivo e a descrição de um mundo objectivo, para sermos menos técnicos. De algum modo, esta relação só pode ser pensada à luz de um compromisso com a ciência contemporânea, e Lodge sabe-o tão bem que, em passagem, não deixa de satirizar o alcance das correntes comportamentalistas (e wittgensteinianas, acrescentaria eu), através de anedotas como esta (que já aparecia em Pensamentos Secretos, como se poderá ver na citação):

Até há muito pouco tempo, a consciência não era um tema muito estudado nas ciências naturais, sendo considerado um domínio da filosofia. A psicologia, apesar de aspirar a ser uma ciência empírica, considerava a consciência como uma «caixa negra». Tudo o que podia ser observado e medido era o que lá se introduzia e de lá saía, e não o que acontecia no seu interior, o que impunha sérias limitações ao estudo da experiência humana. O meu cientista cognitivo em Pensamentos Secretos diz à heroína, a romancista: «Há uma velha anedota, que aparece em quase todos os livros sobre a consciência, sobre dois psicólogos comportamentalistas que depois de fazerem sexo dizem um para o outro: ‘Foi bom para ti, como é que foi para mim?’ (p. 17).

Ou seja, o purismo externalista de extracção linguística e comportamental poderá ter um limite, e este limite é aqui enunciado de um modo particularmente significativo, sobretudo pela clareza com que é feito.

O livro dá-nos ainda ensaios notáveis sobre Dickens, Waugh, Kingsley e Martin Amis, Henry James, e Philip Roth, entre outras pérolas. Acresce ainda uma entrevista em torno de Pensamentos Secretos.

David Lodge (2009), A Consciência e o Romance, Lisboa, Asa [ISBN 978-989-23-0368-0]

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Prancha de Skate (Thom Gunn)

Publicado em Autores, Poesia, tradução por Luís Quintais, em Quinta-feira, 12-02-2009

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Cabeça-à-Toa na sua prancha de skate
ziguezagueia por entre uma multidão
de pés e rostos diferidos
numa lenta estupidez.
Guinadas, dobras, torções.
Tu reparas como agilmente
o corpo aprendeu
a estimar a relação entre
prancha, caminhantes,
e o imediato passeio.
Emblema. Emblema de moda.
Cai-lhe o tão delicado
branco sujo em desalinho
como os drapejamentos
num requintado
santo do Renascimento.
A corrente à volta da cintura.
Uma mão enluvada.
Cabelo tingido para mostrar-se tingido,
chama pálida em combustível soltando-se.
Cabeça-à-Toa na prancha
aperfeiçoando-se a si mesmo:
emblema invulgar
do vulgar.

No rosto assexuado
os olhos inocentes de sentir
logo sugerem o espírito.

(Trad. Luís Quintais; para a Sofia/Sílvia)

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Et in Arcadia ego: o corvo de Rui Lage (I)

Publicado em Livros, Poesia, Recensões por Osvaldo Manuel Silvestre, em Quinta-feira, 12-02-2009

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Uma certa visão da nossa cena poética como estruturada em posições muito marcadas e mais ou menos antagónicas, com papéis distribuídos por actores muito conscientes deles, tem como consequência que um livro tão importante para a poesia portuguesa actual como este Corvo, de Rui Lage, que não tem um lugar nítido nessa lógica distribucional, tenha sido objecto, até ao momento, e tanto quanto me é dado perceber, de um silêncio unânime. Ao seu quarto título, Rui Lage escreveu um livro que fazia falta à poesia, à literatura e ao país que neste momento somos, pois o seu objecto e propósito é, digamos, «escrever um livro sobre Trás-os-Montes» ou, se se preferir, «escrever Trás-os-Montes» em verso, como se declara na epígrafe inicial: «Para os transmontanos que sobreviveram ao deserto e para aqueles que não lhe puderam resistir».

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Inquérito OLAM: Eduardo Pitta

Publicado em Inquérito por OLAMblogue, em Quinta-feira, 12-02-2009

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Eduardo Pitta é poeta, ficcionista e ensaísta. Publicou o seu primeiro livro, a colectânea poética Sílaba a Sílaba, em 1974. Reuniu a sua poesia, em volume antológico, em 1999, sob o título Marcas de Água. Na ficção publicou Persona (2000) e Cidade Proibida (2007). O seu primeiro volume de crítica e ensaio, Comenda de Fogo, é de 2002, datando o mais recente, Metal Fundente, de 2004. Praticou também a diarística em Os Dias de Veneza (2005). É o responsável pela edição da obra de António Botto, de que saíram já dois volumes. Colabora actualmente no suplemento Ípsilon do Público e anima o blogue Da Literatura, tendo reunido uma selecção de posts seus no livro Intriga em Família (2007). Agradecemos a Eduardo Pitta a disponibilidade para colaborar neste inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

Sinais de Fogo, que Jorge de Sena começou a escrever em 1964 e teve publicação póstuma quinze anos mais tarde. No país que então digeria Finisterra, de Carlos de Oliveira, Sinais de Fogo relativizou a herança modernista, ao mesmo tempo que trazia à nossa literatura o tema sempre escorregadio da virilidade itinerante. Não é despiciendo que o tenha feito com um conseguimento que o resgata de qualquer proselitismo.

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

Poesias de Álvaro de Campos, assim se chama o livro a que Cleonice Berardinelli prefere chamar Poemas de Álvaro de Campos, e Teresa Rita Lopes apenas Poesia, no singular. Estamos sempre a falar do mesmo, sem prejuízo das inclusões e exclusões que distinguem essas três edições. Refazendo o universo “sem ideal nem esperança” que tomou como seu, Campos inventou uma língua nova. E ainda hoje escasseia pólvora para a dinamitar.

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

Seriam as mesmas, porquanto, num caso e noutro, a questão do “gosto” coincide com o reconhecimento de que tanto Sena como Campos mudaram o paradigma. Sena, pela ousadia do romance contador de histórias (o pleonasmo é intencional) em tempo de rarefacção. O outro engenheiro por obrigar a poesia a pensar, em detrimento do volteio.

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Estes tempos vagarosos (IV)

Publicado em Crítica, Notas por Osvaldo Manuel Silvestre, em Quarta-feira, 11-02-2009

Não me parece possível, ou produtivo, abordar separadamente no poema de Cláudia Santos Silva as «políticas da identidade» nele encenadas e a questão da Voz lírica. Mas desejo chamar a atenção para a forma como a reivindicação da diferença no poema se faz em nome de uma hierarquia de diferenças que parece concluir pela não-diferença de certas diferenças. Ou seja, por um lado o poema alerta para o carácter ainda restritivo da celebração da diferença sinalizada pela vitória de Obama: faltaria que fôssemos todos Mulheres para que a lógica proliferante e emancipatória da diferença contaminasse de facto o corpo político. Logo a seguir, porém, o poema nota que «nessa matéria [sermos todos Mulheres] a cor da pele não revela  diferença». Esta concessão demasiado generosa à não-diferença da cor da pele, estando em causa uma diferença maior – a do sexo -, não pode deixar de ser vista como contraditória com o desejo de um reconhecimento da diferença, melhor, das diferenças. O problema reside talvez na entrada em cena de uma ontologização da diferença, denunciada pela maiúscula em «Americanos» e «Mulheres», mas já não (para mim estranhamente) em mestiços, que parece vitimar as diferenças que instabilizam uma leitura do corpo político como polarizado em dois ou três tipos maiores de diferença. A questão começa por ser política, pois assim como não se nasce mulher, também não haverá genericamente «Mulheres» mas mulheres menstruadas ou na menopausa, férteis ou inférteis, europeias secularizadas ou afegãs de burka, etc.

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Outra vez Pessoa

Publicado em Autores, Recensões por A. Apolinário Lourenço, em Segunda-feira, 09-02-2009

pessoa1Richard Zenith, que se tornou conhecido sobretudo através das suas edições e traduções do Livro do Desassossego, é hoje um dos especialistas mais reputados da obra pessoana, ao qual devemos também, por exemplo, boas edições de A educação do estóico e do Heróstrato. A Fotobiografia de Fernando Pessoa que agora nos apresenta integra-se numa colecção de Fotobiografias de personalidades portuguesas do Século XX, editada pelo Círculo de Leitores e coordenada por Joaquim Vieira, e podemos dizer que tem a sua génese nas “Notas para uma biografia factual”, que servia de posfácio ao volume Escritos autobiográficos, automáticos e de reflexão pessoal, editado em 2003 pela Assírio & Alvim.

O maior mérito de Zenith como biógrafo consiste em nada dar por adquirido ou definitivo, sem antes analisar os factos de acordo com os documentos existentes e com o seu próprio critério de razoabilidade. Foi assim que descobriu, há já alguns anos, e contrariando uma tradição fixada por João Gaspar Simões e com alguns decénios de vigência, que foi em 1909 e não em 1907 que Fernando Pessoa criou o seu primeiro empreendimento empresarial, a malograda Tipografia e Editora Íbis.

No presente trabalho, realço sobretudo a reprodução de um documento da Direcção Geral dos Serviços de Censura à Imprensa que proíbe que seja dado “relevo ao que sobre Maçonaria publicou o Diário de Lisboa, em artigo de Fernando Pessoa, a propósito do projecto do Dr. José Cabral sobre Associações Secretas”.

Defeitos? Digamos que Richard Zenith é excessivamente generoso a atribuir a qualidade de heterónimos a figuras inventadas por Fernando Pessoa (por exemplo, ao Chevalier de Pas), quando o poeta só admitia essa designação para personalidades literárias, com obra produzida, e mesmo assim só para algumas (muito poucas, por sinal).

Convém, creio, não esquecer o que significava originariamente a palavra heterónimo, que Fernando Pessoa parece ter conhecido tardiamente, mas de que se apropriou ao ponto de lhe mudar o sentido. Se consultarmos o Grande Diccionario Portuguez ou Thesouro da Lingua Portugueza pelo Dr. Fr. Domingos Vieira, publicação feita sobre o manuscripto original, inteiramente revisto e consideravelmente augmentado (vol. III, Porto, Ernesto Chardron e Bartholomeu H. de Moraes, 1873, pp. 972), encontramos a seguinte entrada: “Auctor heteronymo; auctor que publica um livro sob o nome veridico de uma outra pessoa”.

Richard Zenith (2008), Fernando Pessoa (Fotobiografias Século XX), Lisboa, Círculo de Leitores [ISBN: 978-972-42-4349-8]

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Os irmão siameses

Publicado em Autores, Comentários, Livros por A. Apolinário Lourenço, em Segunda-feira, 09-02-2009

fascista

Com “O nosso século é fascista!” O mundo visto por Salazar e Franco (1936-1945), Manuel Loff demonstra, com argumentos tão sólidos e tão pesados como as nove centenas e meia de páginas que constituem o livro, que, até ao triunfo dos aliados na Segunda Guerra Mundial, os dois ditadores peninsulares estiveram plenamente empenhados na construção da “Nova Ordem” almejada pelo fascismo italiano e pelo nacional-socialismo alemão. Trata-se de uma adaptação da sua tese de doutoramento realizado no Instituto Universitário Europeu, de Florença.

Professor da Universidade do Porto, Manuel Loff é, sem qualquer dúvida, um dos maiores especialistas na história das ditaduras ibéricas novecentistas, tendo já publicado em 1996 o livro intitulado Salazarismo e Franquismo na época de Hitler. Para breve, fica a promessa de um outro volume extraído da parte final da sua tese de doutoramento sobre “racismo, anti-semitismo e percepção/conhecimento do Holocausto no Salazarismo e no Franquismo até 1945”.

A “coisa” promete!

Manuel Loff (2008), “O nosso século é fascista!” O mundo visto por Salazar e Franco (1936-1945), Porto, Campo das Letras, [ISBN: 978-989-625-256-4]

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Pressa e preconceito: uma resposta a Luís Januário

Publicado em Comentários por Osvaldo Manuel Silvestre, em Domingo, 08-02-2009

Uma pessoa que admiro, Luís Januário, escreveu esta semana uma coisa muito pouco admirável, a propósito da última sessão de Os Livros Ardem Mal, com Nuno Júdice. Ao lê-lo, ocorreu-me aquele memorável título de CD de George Michael: Listen without Prejudice. Januário não conseguiu ouvir realmente Júdice e creio que não conseguiu sequer vê-lo. Manifestamente, não chegou a fazer qualquer esforço, razão pela qual saiu a meio, perdendo assim o melhor momento da noite, quando o poeta, de moto próprio, leu alguns poemas inéditos. E, como me diziam Luís Quintais e António Apolinário Lourenço no fim, leu magnificamente, a ponto de não se perceber a razão pela qual não existe ainda um CD com poemas de Júdice lidos pelo próprio.

Do mesmo modo, e por ter saído demasiado cedo, Januário não assistiu ao pedido que uma espectadora fez a Júdice, na parte dedicada às intervenções do público: que lesse o poema «Rol» do recente A Matéria do Poema, uma revisitação metapoética de Cesário Verde, pedido a que o poeta acedeu, numa leitura exacta, prenunciando a dos inéditos. Como também não ouviu Júdice falar das razões da «substituição», na progressão da sua obra, da referência a Pessoa pela referência a Camões, tendo a minha pergunta final sido justamente sobre Camões: é se calhar «academismo» (a palavra tem costas largas) mas interessa-me muito saber como se relaciona um poeta, hoje, com a obra maior da nossa tradição lírica, sobretudo naqueles casos em que tal relação é como que «declarada» (o que é também o que ocorre num certo Franco Alexandre, em Gastão Cruz ou neste último Herberto, por exemplo – para não referir o caso, muito à parte neste item, de Fiama). A resposta de Júdice, diga-se, foi bem interessante e pertinente. A pressa (de «marcar uma posição») e o preconceito são de facto um casamento imbatível, como se percebe lendo o justiceiro post em causa.

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Inquérito OLAM: Pedro Eiras

Publicado em Inquérito por OLAMblogue, em Sábado, 07-02-2009

pedro_eiras

Pedro Eiras é professor da Faculdade de Letras do Porto. Publicou ensaios, tendo o seu livro Esquecer Fausto. A Fragmentação do Sujeito em Raul Brandão, Fernando Pessoa, Herberto Helder e Maria Gabriela Llansol conquistado o Pémio do PEN Clube Português de Ensaio. Publicou ainda obras sobre poesia, sobre Gonçalo M. Tavares e Maria Gabriela Llansol, entre outros. Publicou ainda vários volumes de teatro e ficção. Os Três Desejos de Octávio C. é o seu último livro. Agradecemos a Pedro Eiras a sua disponibilidade para responder ao nosso inquérito.

 1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?
 
2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

A minha resposta terá sempre de começar em clave melancólica, elegíaca: como escolher só um livro, de cada vez, entre tantos, entre todos, etc.? Lamento irresolúvel: ou aceito a regra do jogo, ou não posso jogar. Passo? Não: jogo.

Mas é mais complicado: porque eu não sei, de todo, o que é ser “melhor” ou “mais importante”. Por exemplo: “melhor” é “mais perfeito”? Mas – e se eu desejo a imperfeição? A perfeição tem algo de tautológico: um livro esgota o projecto que propõe. E há imenso mérito nesse ser perfeito, perfectum, acabado. Fascínio de Finisterra ou de Clepsidra, por exemplo. Paradoxo de Pessoa: Mensagem é “melhor”, mas eu prefiro Alberto Caeiro.

Há também, pois, o inacabado. Quantas vezes os textos que me dão mais júbilo – aí está outro critério, outra pergunta – não são forçosamente “imperfeitos”? A dissimetria, as lacunas, o diferimento seduzem-me. É porque me perturbam que Húmus ou a Poesia Toda de Herberto Helder me fascinam. Deleuze: gaguez, literatura menor. Klee: pintar com a mão esquerda.

Também tenho dificuldade em compreender o que seja “mais importante”: para mim? para os leitores, via reescrita, intertextualidade? para a “história da literatura”? Aqui, a leitura talvez se cruze com o mito e mais mil acidentes, modas, perspectivas fugazes. O que “melhor” tem de centrípeto, “mais importante” tem de centrífugo. Ainda assim, eu poderia responder: Álvaro de Campos, Poesia, por quanto tem de seminal, de reescrevível (escrevível contra, às vezes? sim, também).

Será que posso responder assim – e ainda reciclar as perguntas, com um pequeno desvio, perguntando a mim próprio agora não qual é o melhor livro, não o mais importante, mas sim: o que me interessa ler neste momento? Porque esta resposta, que vou gaguejando, só pode implicar o meu instante, falível. E assim responderia a todas as questões: Maria Gabriela Llansol. Qualquer livro. Se é preciso um título: O Livro das Comunidades, mas é só uma metonímia. E respondo a todas as questões, porque, para mim, O Livro das Comunidades é ficção e poesia ao mesmo tempo, é melhor porque tão imperfectum, e é mais importante porque tão reescrevível (e contudo, não…).

Este é o meu instante. Como sairia eu do instante? Amanhã, precisarei de outros livros: há tantos séculos XX como instantes – o século XX é aquilo que eu invento agora. E agora é tão grande.

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Lux Interior: Alive & Kicking

Publicado em Música por OLAMblogue, em Quinta-feira, 05-02-2009

 

Os média informam que Lux Interior, vocalista emérito dos Cramps, morreu.  Ou, como se diz no mundo anglo, R.I.P. As nossas fontes, porém, garantem-nos que as notícias da morte de L.I. são prematuras, tanto como a sugestão de que Lux possa algum dia «repousar em paz» é pelo menos absurda (luz interior sempre ele teve em excesso…). A verdade, que revelamos apenas aos nossos fiéis mais próximos, e mediante password restritiva, é que Lux Interior se encontra algures, numa jam session com Elvis, Syd Barrett, Johnny Cash e Joe Strummer. «Alegadamente», esse algures é o Napa State Mental Hospital, onde Lux & muchachos tocaram para a lenda há mais de 30 anos.

De facto, que melhor local para uma encenação punkabilly do Juízo Final?

Hey, I’m on my way, on a journey outta this world…

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Música azul

Publicado em Autores, Livros, Recensões, tradução, Vária por Luís Quintais, em Quarta-feira, 04-02-2009

musicofilia2Este é um livro do singularíssimo Oliver Sacks, o mesmo que nos trouxe, desde o seu The Man Who Mistook his Wife for a Hat (1985), a possibilidade de nos confrontarmos com a dimensão literária dos «estudos de caso» em ciência. É verdade que a prática de estudos de caso é comum em ciência desde longa data, mas foram poucos, e são poucos ainda hoje, os cientistas que nos conduzem, justamente, para o facto de se tratar de um dos lugares de eleição em que literatura e ciência se cruzaram e cruzam de um modo existencial e estilisticamente significativo.

Sacks contribuiu, sem margem para dúvidas, para a disponibilidade que existe hoje no mercado livreiro (sobretudo no mundo anglo-saxónico) para este tipo de trabalhos em que as histórias clínicas servem de mote para explicitar um drama existencial e, ao mesmo tempo, para nos elucidar acerca de um problema científico. Em grande medida, uma parte considerável da popularidade do notável neurocientista português António Damásio prende-se com isto também. Pena é que ainda se não tenha descoberto o manancial de histórias que, por exemplo, a antropologia contém, visto tratar-se porventura de uma das ciências que mais desenvolveu metodologicamente a prática dos estudos de caso.

Bem, mas regressemos a Sacks, ao justamente famoso Sacks. Neste seu livro, Musicofilia, o neurologista inglês sediado nos Estados Unidos, traz-nos um conjunto de históricas clínicas que nos permitem compreender a extraordinária relação entre a música e o cérebro. Os estudos clínicos aqui apresentados são de dimensão e alcance desigual. Vão de histórias que nos contam como pode uma canção ficar colada à mente numa espécie de loop contínuo, a outras que nos parecerão verdadeiramente insólitas: pacientes com doenças degenerativas cujos sintomas recuam através do seu contacto com a música, homens adultos que apanhados por um relâmpago desenvolvem um gosto obsessivo por música para piano, chegando a conseguir atingir um significativo domínio do instrumento, maestros que são atacados por estranhas formas de amnésia que os fazem tudo esquecer, menos a sua capacidade para dirigir e cantar, etc.

Gosto particularmente da parte acerca das sinestesias. Escreve Sacks:

De todas as formas diferentes de sinestesia, a sinestesia musical – principalmente efeitos de cor experimentados enquanto ouvimos ou pensamos em música – é uma das mais comuns, e provavelmente a mais dramática. Desconhecemos se é mais comum em músicos ou pessoas musicais, mas claro que é mais provável que os músicos tenham maior consciência dela, e muitas das pessoas que ultimamente me descreveram as suas sinestesias musicais são músicos. // O famoso compositor contemporâneo Michael Torke tem sido profundamente influenciado por experiências com música colorida. Torke revelou talentos musicais notáveis numa idade precoce e com cinco anos deram-lhe um piano, e uma professora de piano. «Já era compositor aos cinco anos», diz – a professora dividia as peças em secções e Michael rearranjava as secções em ordens diferentes enquanto tocava. // Um dia comentou com a professora, «Adoro aquela peça azul.» // A sua professora não tinha a certeza de ter ouvido bem: «Azul?» // «Sim», disse Michael, «a peça em Ré maior [...] Ré maior é azul.» // «Para mim não», respondeu a professora. Estava intrigada e o Michael também, pois ele assumia que toda a gente via cores associadas a claves musicais. Quando começou a perceber que nem todos partilhavam desta sinestesia, teve dificuldade em imaginar como isso seria, pensando que era equivalente a «uma espécie de cegueira» (pp. 171-172).

As «vogais» de Rimbaud têm afinal um correlato neurológico.

Sacks, Oliver, Musicofilia: Histórias Sobre a Música e o Cérebro, Lisboa, Relógio d’ Água, 371 pp., 2008 [ISBN 978-972-708-997-0]

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OLAM: sessão com Nuno Júdice

Publicado em Notícias, OLAM por OLAMblogue, em Segunda-feira, 02-02-2009

judice

Hoje, pelas 18 h, no foyer do Teatro Académico Gil Vicente, terá lugar a 5ª sessão de Os Livros Ardem Mal na temporada de 2008/09. O convidado é Nuno Júdice, poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, recém-nomeado director da Colóquio/Letras. O painel será constituído por António Apolinário Lourenço, Luís Quintais e Osvaldo Manuel Silvestre, que moderará.

Na primera parte da sessão serão apresentados os seguintes livros:

  • Rui Lage, Corvo, Famalicão, Quasi Edições, 2008. [ISBN 978-989-552-397-9]
  • António Pinho Vargas, Cinco Conferências. Especulações Críticas sobre a História da Música no Século XX, Lisboa, Culturgest, 2008. [ISBN 978-972-769-064]
  • Oliver Sacks, Musicofilia. Histórias sobre a Música e o Cérebro, Lisboa, Relógio d’Água, 2008. [ISBN 978-972-708-997-0]
  • David Lodge, A Consciência e o Romance, Porto, Asa, 2008. [ISBN 978-989-23-0368-0]
  • Manuel Loff, O nosso Século é Fascista. O Mundo Visto por Salazar e Franco (1936-1945), Porto, Campo das Letras, 2008. [ISBN: 978-989-625-256-4]
  • Richard Zenith, Fernando Pessoa (Fotobiografias Século XX), Lisboa, Círculo de Leitores, 2008. [ISBN: 978-972-42-4349-8]
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