Os Livros Ardem Mal

O «Poema Inaugural»: Why not?

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 22-01-2009

 

Apenas 3 presidentes americanos de entre os 44 eleitos reclamaram a presença de um poeta na sessão de inauguração da sua presidência. O que dá 4 poetas, uma vez que Clinton teve, à sua conta, metade deste número: um para cada inauguração de mandato. Desta vez, a tarefa coube a Elizabeth Alexander e o poema chamou-se Praise Song for the Day. Num bom artigo sobre a questão de como escrever um poema para esta cerimónia, Jim Fisher aborda o tópico da «poesia de circunstância», evocando o paradigma de Goethe e sugerindo, em caso de desespero, uma adaptação pragmática um tanto abrupta de um poema pré-existente. Terá sido esse o caso de Robert Frost aquando da inauguração da presidência de Kennedy: o poeta, já idoso, compôs um texto para a cerimónia, «Dedication», mas à última hora, por não conseguir ler o texto devido ao brilho da luz do sol, recorreu à sua memória para dizer antes The Gift Outright. E esse, sim, era o poema absolutamente perfeito para a ocasião, sem a retórica demasiado «romana» (e que prometia «The glory of a next Augustan age») de versos como «A golden age of poetry and power / Of which this noonday’s the beginning hour».

A queestão não é fácil, assim como é especialmente difícil compor um poema para uma cerimónia deste tipo. Em Portugal, país onde a tradição do «Poet Laureate» suscita tipicamente desdém e chacota, a tradição não existe nem é concebível, desde logo porque a retórica do poder é tão pobre como o país. E não faltariam poetas, críticos e cidadãos a «denunciar» a conivência entre poesia e poder – ao mesmo tempo que lembrariam talvez o exemplo de independência e solidão de Camões, o tal que leu a epopeia ao Rei Sebastião propondo-se como bardo da nova gesta no Norte de África… No âmago desta incomodidade está, suponho, o sucesso do projecto moderno de silenciamento da Voz lírica, a partir de Mallarmé. É porque a questão da voz e do sujeito se tornou aporética na lírica moderna que a própria possibilidade de leitura em voz alta de um poema cujo lugar pleno é  a (muda) página em branco se foi tornando progressivamente estranha ao espaço público – embora a leitura do poema em voz alta continue a integrar a cena da educação infantil e juvenil como um princípio de fé. Esta incoincidência perdura já há demasiado tempo para que não possamos ver nela o nó cego que habita a poesia moderna na sua relação com a performance e a publicidade, no sentido etimológico do termo, nó cego em geral traduzido no imperativo da «leitura branca», espécie de unicórnio das Letras destinado aos adultos mas desaconselhado aos infantes nas salas de aula. Por outras palavras, a lírica moderna é para gente crescida, impessoal e neutra. Tudo o resto é poesia sentimental e patética – resumamos: é Manuel Alegre – e destina-se aos infantes de várias idades.

O «Inaugural Poem» de Elizabeth Alexander dá a ver de novo todas as contradições da poesia no mundo público contemporâneo: é notório o desinteresse do público ante a leitura do poema (que se segue imediatamente, convém esclarecer, ao discurso do presidente, ocupando pois uma posição tão distinta quanto ingrata na economia discursiva da cerimónia), como é notória a dificuldade da poeta para ler, naquela circunstância, um poema, ainda que se trate de um poema premeditado para a cerimónia (uma versão mais convincente pode ser ouvida aqui). Mas talvez Alex Koppelman tenha razão quando defende a leitura de Alexander, pois «After Obama’s ministerial eloquence, her reading, stressing the poem’s meter, may have seemed choppy to some. Not true. That’s how poetry works, distinguishes itself from prose, from preaching. In her rhythmic delivery, her images held.» O que pode a poesia ante o espectáculo da palavra do poder? O que pode a frase pausada do verso contra a torrente da pregação? A resposta que herdámos da modernidade, e que se tornou dogma, por boas e más razões, recomenda «Silêncio, exílio e manha». Talvez fosse bom, por uma vez, admitirmos a excessiva pressa dessa consigna, e colocarmos a hipótese não propriamente de uma «nova aliança» como a sonhada por Frost entre «poesia e poder», mas uma «não recusa» da poesia a fazer ouvir a sua voz morosa e retardatária entre a apressada exaltação da palavra política. As inesgotáveis reservas de boa consciência com que o poeta contemporâneo, ao representar-se nos antípodas do poder, porque é poeta, se representa no lugar simétrico da virtude, esquece que o poder é justamente, como Obama lembrou (mas o tópico é grego e romano), a questão e gestão da virtude. Uma grande nação, como os EUA, tem o condão e a força performativa para relançar, na cerimónia de inauguração do mandato do seu presidente, por meio do «Inaugural Poem», um debate cuja relevância uma pequena nação como a nossa – ou o ressentimento antiamericano de várias grandes – tende a empequenecer, representando-a como «folclórica» ou «anacrónica». O problema, porém, é que não parece haver nada de folclórico ou anacrónico na questão do poder da linguagem, ou melhor, do desequilíbrio de poder entre as várias linguagens que acedem, ou não, ao espaço público. A recusa radical de uma voz pública para a poesia é uma patologia moderna que tanto procede de uma fundada recusa da contaminação da palavra poética como de uma «histeria da virtude». Ou seja: pode ser ou não uma posição legítima. Que Kennedy tenha convidado Frost, e que este tenha aceitado o convite, é algo que acrescenta ao poder e à poesia. E o mesmo é válido, creio, para Obama e Alexander.

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