Os Livros Ardem Mal

2008 Vintage: Osvaldo Manuel Silvestre (II)

Posted in Balanço by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 21-01-2009

Melhores livros (literatura)

Herberto Helder, A Faca não Corta o Fogo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2008. ISBN 978-972-37-1371-8
Robert Musil, O Homem sem Qualidades, Lisboa, D. Quixote, 2008. ISBN 
Julio Cortázar, O Jogo do Mundo, Lisboa, Cavalo de Ferro, 2008. ISBN 978-989-623-079-1

Para dizer a verdade, o meu livro do ano é um com data de 2006: o monumental Borges, de Adolfo Bioy Casares (Destino, Barcelona), 1664 pp. de selecções dos excertos do Diário de Bioy dedicados à amizade de décadas com Borges. Não pode haver Borges nesta lista mas há o maior Cortázar, apesar da tradução muito errónea do título, na sua opção pela metáfora em detrimento do sentido literal (o pecado venial dos tradutores), e os dois primeiros volumes do opus magnum de Musil, em tradução impressionante de João Barrento. Livros com a grande (des)vantagem de nos deixarem indispostos para a literatura que se vai fazendo. Por cá, creio não haver grandes dúvidas de que o livro do ano é o de HH. Devo confessar que a minha edição da Poesia Toda é a de 1981, no inexcedível «embrulho» de Manuel Rosa para a publicação 102 da Assírio. E, como na descrição canónica do processo, também eu não fiquei incólume à exposição ao livro. Há, quanto a isto, quem diga, e com alguma pertinência, que HH nos incendeia na juventude e que, depois, isso passa. Por mim, fui-me de facto afastando no quarto de século seguinte, embora permanecendo fiel ao todo de 1981, mais os dois grandes livros que aí não cabem: Os Passos em Volta e Photomaton & Vox. Se tivesse de produzir uma representação desse período entre 1981 e este último livro, seria qualquer coisa deste tipo: «Um quarto de século que um afinal não tão grande poeta gastou a bater com a cabeça na parede». A Faca não Corta o Fogo não a veio afectar inteiramente – desse demasiado longo período ficam-me poemas, do próprio ou em tradução, e problemas (uns mais estimulantes do que outros), não livros – mas veio-me fazer recuperar a intensidade da leitura de HH, desta vez pela via, obsessiva e mesmo devoradora nos inéditos, do corpo-a-corpo com a língua materna: «eu fodo, se me dão licença, / numa língua que vem com a sua fúria combústivel / dos fundos da / língua portuguesa, só fodo nela». Um reencontro que, pelo que me toca, agradeço.

Melhores livros (ensaio)

Vítor Aguiar e Silva, A Lira Dourada e a Tuba Canora, Lisboa, Livros Cotovia, 2008. ISBN 978-972-795-234-2
Jacques Derrida, Séminaire. La bête et le souverain. Vol. I (2001-2002), Paris, Galilée, 2008. ISBN 978-2-7186-0775-7
Boris Groys, Art Power, Cambridge, Massachusetts, The MIT Press, 2008. ISBN 978-0-262-07292-2

O estado actual do mercado do livro é visível na dificuldade em colocar em livraria uma obra sobre Camões e logo pelo nosso actual maior camonista. Entre as minudências literais e mais ou menos policiárias da «razão filológica», aliás sempre estimulantes, e uma hermenêutica cujo arrojo pressupõe sempre o esclarecimento prévio dos referidos problemas filológicos, uma obra que nos devolve o prazer e o fascínio implicados em ler Camões (e, para o sentir em modo refractado, pode-se também ler o último Herberto Helder).

Como é sabido, o último Derrida contribuiu com um ensaio maior – «L’animal que donc je suis» – para o debate actual sobre a questão do «animal». Sabemos agora que esse ensaio era parte de um projecto maior, que o ocupou em vários seminários na École des Hautes Études en Sciences Sociales, e que tudo isso foi escrito por Derrida. O volume que acaba de ser editado reproduz o título de um desses seminários, a que será ainda dedicado um outro volume. Este abre aliás com o texto que Derrida leu em Coimbra, no Colóquio Derrida integrado na Coimbra Capital da Cultura em 2003 e já traduzido por Fernanda Bernardo (O Soberano Bem, Palimage, 2004). Entre a desconstrução d’ «o animal» na proposta decisiva de pensar «os animais» em toda a sua diferença, entre o pensamento da «bête» e da «bestialité» e, necessariamente, o «próprio do homem», e a questão da soberania, este é um volume que seguramente ficará connosco por muito tempo.

Boris Groys é um dos grandes pensadores da arte que se faz hoje. Neste livro, e em meia dúzia de páginas iniciais, Groys consegue pôr em causa o «dogma» do pluralismo como elemento definidor do campo da arte contemporânea, mostrando que o campo é antes estruturado por uma lógica da contradição e do equilíbrio de poderes que (i) faz do paradoxo um imperativo hermenêutico e (ii) implica, por isso, a exclusão do campo de toda a arte não-paradoxal. Um desses excluídos, o mais relevante em termos qualitativos e quantitativos, é a arte política que o século XX colocou ao serviço da propaganda e que Groys poderosamente relê neste volume, e já noutros anteriores. Excluída esta, resta a identificação da arte com o mercado, a depreciação, em termos morais, da arte política (vista como «perversão») e a circularidade de uma arte que só pode ser crítica, ou metacrítica, se e quando o é da sua própria condição mercantil, o que reafirma o poder total do mercado e exclui a arte de qualquer consideração real do seu poder. Um livro fundamental.

Editoras do ano

Tinta da China
Livros Cotovia

Planeta Tangerina

Não sei se 2008 foi o melhor ano da Tinta da China (para o meu gosto, começa a haver demasiados Coffee table books no catálogo), mas foi seguramente o ano em que o «efeito Tinta da China» foi mais visível. No impacto dos seus títulos e na defesa dos seus autores, no cuidado colocado na selecção dos volumes, mas sobretudo na produção gráfica dos livros, da capa às fontes e à paginação, aos papéis e cartolinas e aos toques fetichistas disseminados pelos livros. Há livros da Tinta da China que integram a minha colecção, aliás pouco cuidada, de «objectos raros», aqueles que gosto de acariciar periodicamente: este, por exemplo. Um notável upgrade no panorama nacional, que seria bom que tivesse efeitos na paisagem editorial.

Foi também o ano em que os Livros Cotovia celebraram duas décadas de existência, o que, só por si, faz da editora um dos destaques do ano. E celebraram essas duas décadas com um programa editorial vasto e de grande qualidade, em mais uma demonstração de fidelidade intransigente a um catálogo muito exigente.

É certo que trabalha numa área na qual o risco é à partida menor, dada a sua expansão no mercado nas últimas décadas. Mas a história da Planeta Tangerina é uma história exemplar de consistência de um projecto pensado ao pormenor e servido por oficiantes que se vão tornando figuras maiores do panorama nacional da ilustração. Não será a nossa Media Vaca, pois o seu perfil é diferente, mas o «efeito coleccionista» sobre os clientes é aproximado. Aguardemos pois o próximo título.

Melhores filmes

O Segredo de um Cuscus, de Abdellatif Kechiche
Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes
Wall-E, de Andrew Stanton

Fui muito pouco ao cinema, por razões que todas elas me transcendem. Uma delas, e decisiva: o facto de hoje só haver cinema em centros comerciais e de os filmes aí exibidos estarem quase sempre ao nível estético das pipocas. Acontece-me cada vez mais ir até um desses centros comerciais para tentar ver um filme e voltar para casa sem o fazer (e contudo há sempre uma dúzia em exibição). Acresce que na «província» o panorama da exibição é ainda mais desolador do que em Lisboa e Porto. Em Coimbra, o Teatro Académico Gil Vicente desempenhou nos últimos dois anos uma função supletiva neste panorama, exibindo os filmes que não chegavam a estrear na cidade, mas agora já nem isso. Vi o filme de Kechiche num avião, o que não sei se equivale à experiência perdida de «ir ao cinema», e achei-o simplesmente admirável, inscrito numa longa linhagem do cinema europeu, aquela que privilegia as pessoas «de carne e osso», o que faz com que a questão da representação ganhe uma estranha transparência na pessoa (e não apenas no corpo) dos actores. Sobre o filme de Miguel Gomes, e o impacto que teve sobre mim, escrevi neste blogue. A minha maior curiosidade é saber se Gomes fez mesmo este filme ou se ele lhe aconteceu (eventualidade de que o filme extrai a sua necessidade e lei), coisa que só se perceberá nos filmes seguintes. Quanto a Wall-E, é um daqueles filmes que confirmam o que já penso há tempos: a animação em 3D que nos chega do lado de lá do Atlântico tem produzido não apenas alguns dos grandes filmes do nosso tempo, para lá de toda a questão dos géneros, mas sobretudo alguns dos filmes decisivos para conhecermos e pensarmos o nosso tempo. Wall-E é mais um desses filmes.

Melhores DVD’s

Varda. Tous courts, CT Vidéo, 2008.
Edvard Munch, Un film de Peter Watkins, Doriane Films, 2005.
Jean-Luc Godard, Histórias(s) do Cinema, Midas, 2007.

A lógica do visionamento de dvd’s não segue a do espectáculo do cinema em sala, necessariamente «contemporâneo» da produção, a não ser em contextos mais ou menos museológicos (cinematecas, etc.). Os dvd’s funcionam antes na lógica daquilo a que no tempo do cinema se chamava a reprise, e isso permite-me incluir aqui obras não editadas em rigor em 2008 mas que, por uma razão ou outra, só vi, ou só acabei de ver (o que implica rever, desejavelmente várias vezes), em 2008.

A reunião das «curtas» de Agnès Varda é um dos acontecimentos de 2008. 16 filmes que constroem o perfil de um dos grandes cineastas do nosso tempo, cuja subalternização no contexto da Nouvelle Vague é difícil não atribuir a coisas tão pregnantes como, tranchons le mot, «machismo» (vejam-se as extraordinárias longas-metragens que são Cléo de 5 à 7 ou Le bonheur, para confirmar este juízo). Os 2 dvd’s são um caleidoscópio de possibilidades de um «fazer cinema» em que «fazer» parece significar apenas «respirar» ou seguir a natureza: desta arte e de uma mais difícil ainda arte de viver como se entre essa arte e a dos filmes não houvesse realmente corte, mas sim e sempre acção, quer dizer, pensamento por imagens animadas. Por todos esses filmes antológicos, sugiro o recente «Ydessa, les ours et etc…», de 2004: 43 minutos de um extraordinário documentário, em registo inicialmente «leve» – mas há uma arte muito enganadora da leveza que atravessa todo o cinema de Varda -, sobre uma exposição (de ursos de peluche) e a sua autora-curadora, que são ao mesmo tempo uma poderosa reflexão sobre a arte contemporânea (para a qual Varda tem contribuído com uma série de instalações) e sobre o nazismo e as aporias da sua representação. Muito importante ainda para se perceber como a demasiado louvada geração actual de documentaristas portugueses está muito longe de ter esta capacidade de fazer e pensar o cinema e o mundo.

O filme de Peter Watkins é de 1974, a edição é apenas de 2005 e quando se vê o filme percebe-se o escândalo deste longo intervalo. Um filme esmagador sobre a criação artística e o seu tormento, uma gestão fabulosa do tempo, da cronologia e do próprio avanço difícil da narrativa, a transformação de personagens da história das artes em testemunhas depondo para a câmara, Munch violando o interdito da «quarta parede» no cinema, olhando directamente para a câmara uma vez por outra, a leitura marxista do histórico-político a contaminar a biografia de Munch, e sempre sempre o sangue da tísica e a morte na família, indo e vindo sem cessar desde a infância remota até ao último minuto. 211 minutos de puro génio por parte de um auto-maginalizado do cinema actual.

Godard terá gasto mais de uma década para produzir esta(s) História(s) do Cinema, o que é muito pouco para quem aspira a fazer a história do cinema, a história do século XX, a história da impossibilidade de contar a história do cinema e a do século XX, tudo isto em imagens remontadas, som dessincronizado, texto lido e/ou sobreposto às imagens, e, omnipresente e omnipotente, Godard, corpo & voz – dando a ver, em toda a sua extensão, o carácter manipulatório da sua releitura de tudo isto «na mesa de montagem», releitura por isso infinitamente contestável. É tentador, e se calhar inevitável, traduzir esta versão do cinema todo (que seria o mundo todo) em figuras hegelianas como aquela a que Lev Manovich chamou «o cinema da base de dados», aplicando-a a Godard e Greenaway, inventando-lhe um pai em Vertov, e destinando-a a um futuro glorioso e tecnologicamente irreversível. Não me parece. Creio antes que se trata de uma idiossincrasia não generalizável, produto de uma longa familiaridade com práticas muito anacrónicas de citação, muitas vezes reinventada, e fabricação por corte e costura – práticas tipicamente inorgânicas – que a técnica enfim conseguiu acompanhar e apanhar, mas que em Godard é ainda a técnica matricial da mesa de montagem (não confundir o que o cineasta aqui faz com um videoclip acelerado). Quando vejo este Godard artesão a fazer de Deus do arquivo, ocorre-me antes a arte daqueles poetas visuais de 60 e 70 que com stencil e mais tarde as primeiras fotocópias conseguiam trabalhar essas técnicas no limite das suas possibilidades, fazendo-as derrapar para algo então não-reprodutível, e nem sequer pensável. António Aragão, por exemplo, produzindo dégradés por fotocópias de fotocópias de fotocópias, até não sabermos mesmo como era possível fazer aquilo e o que era em rigor aquilo. Coisas que hoje, porém, qualquer Photoshop manhoso permite, embora em rigor faça já outra coisa. Este Godard pós é o mais primitivo de todos os que preenchem a vasta galeria das suas personificações: encostado como uma lapa à sua biblioteca (ou melhor: aos títulos e excertos dos seus volumes), envolto na nuvem de fumo da sua fábrica estritamente pessoal, buscando na biblioteca as palavras que joga contra as imagens do século, materiais contra materiais, materiais sobre materiais, em mútua detonação e iluminação ou obscurecimento. Uma obra ímpar, que elege para nós a posição impossível do espectador ideal: aquele que teria visto tudo (toda a beleza e todo o horror), aquele a quem nada surpreenderia. Uma vez que não podemos nunca ser esse espectador pós-histórico, resta-nos a benção da surpresa: o mesmo é dizer, resta-nos o espectáculo da beleza e do horror extremos. O século XX, o século do cinema.

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