Os Livros Ardem Mal

Inquérito OLAM: Carlos Mendes de Sousa

Publicado em Inquérito por OLAMblogue, em Sábado, 31-01-2009

carlos

Carlos Mendes de Sousa é professor de literatura brasileira na Universidade do Minho. É autor de um livro de referência sobre Eugénio de Andrade (1992), organizou, com Eunice Ribeiro, uma Antologia da Poesia Experimental Portuguesa (2005)  e publicou ensaios fundamentais sobre Cesário Verde, Jorge de Sousa Braga, Fiama Hasse Pais Brandão, Luís Miguel Nava ou Eduardo Lourenço, muitos deles publicados na revista Relâmpago, de que é um dos directores. Na literatura brasileira dedicou-se por longo tempo a Clarice Lispector, daí tendo resultado uma obra maior na bibliografia sobre a autora, Clarice Lispector. Figuras da Escrita (2000), obra com a qual conquistou o Grande Prémio de Ensaio da APE. Para o Curso Breve de Literatura Brasileira, colecção dirigida por Abel Barros Baptista nos Livros Cotovia, posfaciou os volumes Laços de Família, de Clarice Lispector, e A Educação pela Pedra, de João Cabral de Melo Neto. Agradecemos a Carlos Mendes de Sousa a disponibilidade para colaborar no nosso inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

Conversações com Dmitri e outras Fantasias, Agustina Bessa-Luís

O que superlativa as escolhas (“o melhor”, “o mais importante”), remeto-o para um qualquer impacto revisitado (exercício da memória para livros que, em mais do que um momento, me moveram). O que amanhã pode não ser.

Um dos grandes fascínios que Agustina suscita prende-se com a possibilidade que a todo o momento nos é oferecida de operarmos cortes na teia ficcional da sua vasta obra e, com esses cortes, recompormos quadros (microficções). Imagino diversos exercícios antológicos.

Conversações com Dmitri, no seu prodigioso recorte parabólico, poderia ser perfeitamente um exemplo maior dessa possibilidade, exemplo oferecido pela própria escritora, como quem se ri. Este breve livro de ficções é enganadoramente apresentado nas listas das obras da autora sob a categoria “crónicas”. E se em Agustina não encontro um livro absolutamente fechado, como esse extraordinário A Casa Grande de Romarigães, de Aquilino, é porque, em certo sentido, a sua admirável obra ficcional vive numa insubordinação face às constrições delimitativas dos géneros (leia-se como romance o belíssimo Longos Dias Têm Cem Anos).

Outras razões para escolher Conversações com Dmitri: como no resto da obra, a expressão fabular contém no seu interior a sua questionação; como no resto da obra, a genial narradora (autora, personagem) espreita (insinua-se, intromete-se) sábia, inquietante e irrequieta. A capacidade de deslocar e de surpreender ocorre continuamente nos retratos e situações convocados para o seu texto – uma convivência fantástica e transfiguradora. Porque nela tudo é reinvenção, imaginação, fulguração, pensamento vivo, brincadeira desconcertantemente séria. “Desordem e travessura”, como lemos nessa espécie de legenda, num dos títulos deste livro.

(mais…)

Comentários Desligados

O Prazer e a Dor – Diónisos na Escola de Apolo

Publicado em Livros, Recensões por Catarina Maia, em Sábado, 31-01-2009

 o-prazer-e-a-dor


José Reis, professor de Filosofia na Universidade de Coimbra, lançou recentemente, nas Edições Afrontamento, O Prazer e a Dor – Diónisos na Escola de Apolo. Este é um livro muito interessante mas que me deixou algumas dúvidas. O autor sugere que, como diz na contra capa: “o prazer e a dor são, em todas as suas relações e modalidades, físicas e psicológicas, a única coisa que move o homem”. Uma afirmação forte, e para a provar José Reis pega em duas éticas aparentemente díspares, a de Aristóteles e a de Kant, e tenta mostrar como na verdade ambas funcionam sob a mesma base, a mesma essência: o prazer e a dor. Assim como também a religião. Segundo o autor tudo, e digo bem, “Tudo está aí, doravante, ao alcance da mão. E ainda por cima, como se vê, tudo isto não é uma teoria mas a simples descrição dos factos que nos constituem”. É logo este tom excessivamente assertivo que me faz desconfiar.  Continuo ainda a preferir a tríplice de Feuerbach “Amor, Razão e Vontade”. E o Amor pode ser, justamente, o elemento que desconstrói a teoria de que o homem é movido exclusivamente pela repulsa à dor e a atracção pelo prazer. Um dia Roland Barthes disse que a dor de um amante abandonado era semelhante ao martírio de um homem num campo de concentração. Foi muito criticado por isto. Mas admitindo que a dor na relação amorosa pode, de facto, ser avassaladora, não deixa de ser curioso observar como o ser humano, quando abandonado, em vez de fugir da dor, procurando esquecer aquele que lhe faz doer, pelo contrário, o procura e deseja talvez com mais força, tantas vezes se deixando sucumbir. No entanto, este continua a ser um livro que suscita debate, nos faz pensar em nós, nas nossas acções, no seu porquê. E por isso é um livro que recomendo.

José Reis (2008), O Prazer e a Dor – Diónisos na Escola de Apolo. Santa Maria da Feira: Edições Afrontamento. 99 pp. [ISBN: 978-972-36-0974-5]

Comentários Desligados

A Invenção do Cinema Português

Publicado em Livros, Recensões por Catarina Maia, em Sábado, 31-01-2009

 

a-invencao-do-cinema-portugues

Também das edições Tinta da China chega-nos A Invenção do Cinema Português. Este livro, apesar de o poder parecer, num primeiro olhar rápido, não é um mero catálogo de fotografias e sinopses de filmes, de escolhas avulsas de algum modo espectáveis.  O autor, Tiago Batista, consegue estabelecer uma excelente ligação histórica e de afinidade que ajuda a entender os diferentes momentos a que os filmes se referem e, através deles, a evolução operada no cinema em Portugal.

O livro começa com uma ideia que joga com a famosa e irónica afirmação de Bénard da Costa “O cinema português nunca existiu”, ao afirmar justamente o oposto: “O cinema português sempre existiu”. Não tanto o cinema feito em Portugal, mas refere-se o autor a uma cinematografia nacional. Uma procura de “portugalidade” que todos os cineastas portugueses, até meados da década de 90, de algum modo impuseram a si mesmos, e que acabou por se colar a eles. A crítica, especialmente a estrangeira, terá contribuído para a construção de um estereótipo a que se chamou “escola portuguesa” e que tanto serviu para unir como para separar filmes e realizadores.

Mesmo tendo consciência de que não era esse o objectivo de Tiago Batista com este livro, ao acabar de ler A Invenção do Cinema Português é impossível não sentir que continuamos a precisar de uma obra que seja, de facto, uma história do cinema português (ou do cinema em Portugal, uma vez que a expressão pode ser ambígua). Uma obra mais sistemática. E isso nota-se, desde logo, na própria bibliografia indicada neste livro, composta maioritariamente por artigos dispersos em livros ou em revistas, uma edição de 1986 da História do Cinema Português, de Luís de Pina – que precisa, naturalmente, de ser revista e aumentada.

Tiago Batista (2008), A Invenção do Cinema Português. Lisboa: Tinta da China. 231 pp. [ISBN: 978-972-8955-84-7]

Comentários Desligados

Foi Você Que Pediu Uma História da Publicidade?

Publicado em Livros, Recensões por Catarina Maia, em Sábado, 31-01-2009

foi-voce-que-pediu-uma-historia-da-publicidade1

Foi Você Que Pediu Uma História da Publicidade?, das edições Tinta da China, é um trabalho de grande qualidade e profissionalismo. Como diz na apresentação do livro o seu autor, Luís Trindade, é impossível ter uma ideia de quantos anúncios foram feitos na história da publicidade. Neste livro restringe-se o campo de observação a um espaço, Portugal, a um tempo, o século XX, e a um suporte, as publicações periódicas. Ainda assim o material permanece imenso. Os anúncios estão de tal modo presentes, para não dizer omnipresentes, na nossa vida, na nossa sociedade, que se torna impossível escapar à sua influência. E, ao mesmo tempo, a sua natureza é intrinsecamente volátil, passageira. As escolhas que compõem o livro são por isso muito importantes e muito difíceis.

Luís Trindade, professor de Estudos Portugueses na Universidade de Londres e investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, conhece muito bem o campo das publicações periódicas em Portugal. Tem vários títulos publicados nesta área, entre os quais destaco o recente Primeiras Páginas. O Século XX nos Jornais Portugueses (2006, Edições Tinta da China). Ao contrário deste último, em Foi Você Que Pediu Uma História da Publicidade? Luís Trindade opta  por seguir uma organização não cronológica, juntando anúncios de 1905 ao lado de anúncios dos anos 80 ou 90. A mulher e a máquina são os temas mais representados nos anúncios e servem de leitmotiv nesta narrativa que o autor tenta construir sobre a história da publicidade em Portugal, que é também uma história de Portugal.

(mais…)

Comentários Desligados

Pelo milésimo Jóta-Éle

Publicado em Balanço, Efemérides por Rui Bebiano, em Quinta-feira, 29-01-2009

JL

A partir de 1981 e ao longo dos primeiros sete ou oito anos de publicação, à época semanal, fui comprando sempre o Jornal de Letras. Mas não foram apenas problemas de espaço que num repente me levaram a deixar de o fazer, aí pelo final da década. Vinha-me já distanciando, havia algum tempo, de um dialecto que me parecia demasiado fixo, datado, de temas e rostos repisados até ao esgotamento, de alguma reclusão em relação a um conceito de cultura que cada vez mais me parecia elitista e redutor, de um grafismo sonolento, que nem era clássico nem moderno. Foram duas as gotas de água que me levaram a deixar de comprar o jornal: a chegada de um número crescente de colaboradores incapazes de transcenderem um discurso académico autocentrado (e eu, pobre académico, queria tanto ouvir outra língua, outros timbres), e aquela incomodativa mania, que durou anos, para titularem todos, absolutamente todos os artigos, servindo-se das suas primeiras palavras.

(mais…)

Comentários Desligados

As máscaras da fome no teatro da contemplação (III)

Publicado em Artes por Osvaldo Manuel Silvestre, em Quinta-feira, 29-01-2009

700_mascaras_06

Ao entrar, conduzido pelo «revisor», no hall do andar inferior do edifício do Teatro da Cerca, o «espectador» ouve, imóvel e em silêncio, o início do conto de Kafka, Um artista da fome. E quando desemboca enfim na sala, todo o seu trabalho de «contemplação insone» do espectáculo é acompanhado pela escuta do texto de Kafka, lido por António Jorge, na jaula com que se mima o dispositivo «cénico» central do texto.

Escuta ou audição? Barthes notava que a segunda é um fenómeno físico, enquanto a primeira exige uma disponibilidade do foro psicológico. Ao entrar no edifício, as primeiras palavras do conto ressoam naquele regime auditivo de quem ouve uma informação em altifalante num qualquer não-lugar: um aeroporto, uma estação ferroviária, um hall de entrada de uma instituição pública. As palavras «O interesse por artistas da fome diminuiu muito nas últimas décadas» chegam aos ouvidos dos espectadores na modalidade pragmática de uma saudação: «Bem-vindos ao teatro!» Mas quando o espectador, já na sala, se depara com o espectáculo beckettiano do meio corpo do actor que lê, na jaula, o texto de Kafka, é demasiado claro que o alcance dramática daquela cena exige escuta: esvaziamento e disponibilização do sujeito para a re-saturação do seu espaço interior pela ressonância da palavra. É nesse ponto que o conflito mais produtivo do espectáculo se desencadeia, entre a necessidade de escuta de um texto que propõe a irrepresentável figura de um «artista da fome» e a imposição, sem fuga possível, de um espectáculo saturado de objectos significantes que não pode deixar de ser visto e percorrido até aos limites de toda a possibilidade de descrição. Os problemas, sintácticos e semânticos, da «instalação teatral» de António Jorge moram justamente aqui: (i) no facto de a opsis dispor nesta obra de uma força impositiva tal que tende a relegar a relação com a palavra para o estatuto da mera audição, quando de facto necessitaria (ii) que a palavra reordenasse, a partir de uma hierarquia centrada em si, o visível e a tirania fenomenológica da imagem sobre essa entidade reveladoramente (mas sempre erroneamente) denominada «espectador».

(mais…)

Comentários Desligados

«Um Lugar Imenso, talvez» *

Publicado em Livros, Notícias por Sandra Guerreiro Dias, em Quarta-feira, 28-01-2009

Julian Duran

«Cinquenta por cento dos jovens deste país que estão dentro do sistema de ensino, com 15 anos não compreendem uma frase familiar. É dramático.» (António Prole)

«Correctamente, devemos ler pelo poder. Um homem que lê é um homem intensamente vivo. O livro deve ser uma bola de luz nas nossas mãos.» (Ezra Pound)

Porque ler é existir, conhecer e participar, promover a reflexão e o debate acerca do lugar da leitura nas sociedades e no mundo foi o mote lançado pelo Congresso Internacional de Promoção da Leitura que teve lugar nos passados dias 22 e 23 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Organizado pela Casa da Leitura, organismo afecto àquela fundação criado há três anos com o objectivo de difundir a literatura infantil e promover a leitura, o encontro Formar Leitores para Ler o Mundo contou com a participação de especialistas de diversas áreas da leitura, da literatura, e da literatura para a infância, vindos do Reino Unido, Estados Unidos, Canadá, Espanha, França, Brasil e Portugal. Entre eles, Teresa Colomer, Michel Fayol, Peter Hunt e Lawrence Sipe. Estruturado a partir de três grandes painéis temáticos – a saber, Literatura para a Infância e a Formação de Leitores, Estratégias de Leitura e Compreensão Leitora e Projectos de Promoção da Leitura -, a discussão entre os diversos especialistas assumiu uma perspectiva que pretendeu ser simultaneamente analítica e crítica, prognóstica e indicativa das múltiplas e complexas questões levantadas a partir de cada uma das áreas em relevo. Entre elas, o papel e a formação dos mediadores de leitura, o analfabetismo funcional, o novo conceito de alfabetização e a compreensão leitora, as competências de leitura e a leitura enquanto acto de cidadania.

(mais…)

Comentários Desligados

Inquérito OLAM: Fernando Cabral Martins

Publicado em Inquérito por OLAMblogue, em Sábado, 24-01-2009

lis24

Fernando Cabral Martins é professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Um dos mais reputados especialistas portugueses do Modernismo, e da sua anunciação em Cesário Verde e no simbolismo, tem obra vasta sobre o período, tendo estudado as obras de Mário de Sá-Carneiro, que também editou, de Fernando Pessoa, sendo responsável directo por vários volumes da edição em curso na Assírio & Alvim, e de Almada Negreiros, cuja edição recente na mesma casa editorial vem coordenando. Coordenou um recente, e monumental, Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português. Preparou ainda, a sós ou em colaboração, edições da obra de Luiza Neto Jorge e Alexandre O’Neill. Deu rosto e voz a Pessoa em Conversa Acabada, filme de João Botelho, de 1981. É também autor de uma singular obra ficcional, cujos últimos títulos são O Deceptista, 2003, e Viagem ao Interior, 2004. Agradecemos a Fernando Cabral Martins a sua disponibilidade para colaborar no nosso inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?
 
2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

Creio que os dois livros mais importantes do século XX são o Livro do Desassossego de Pessoa, o grande livro de poesia, e Mau Tempo no Canal de Nemésio, o grande livro de ficção narrativa.

No caso de Pessoa, segundo o modo da explosão radical e de uma fragmentação absoluta (e apta, portanto, a tremendas oscilações editoriais) mas que, ainda assim e em permanente surpresa, guarda muitos momentos de contemplação e de intensidade. É o caso mais devastador que existe de uma poesia que se mostra, no fulgor das palavras enquanto tais, inteiramente um monólogo exterior.

No caso de Nemésio, segundo o modo da descrição que revela e inclui num caleidoscópio todas as sensações contadas, como se todos os aspectos do que chamamos realidade, física, cultural ou emocional, se tornassem transparentes e entrassem num estado de íntima correspondência.

(mais…)

Comentários Desligados

O «Poema Inaugural»: Why not?

Publicado em Comentários por Osvaldo Manuel Silvestre, em Quinta-feira, 22-01-2009

 

Apenas 3 presidentes americanos de entre os 44 eleitos reclamaram a presença de um poeta na sessão de inauguração da sua presidência. O que dá 4 poetas, uma vez que Clinton teve, à sua conta, metade deste número: um para cada inauguração de mandato. Desta vez, a tarefa coube a Elizabeth Alexander e o poema chamou-se Praise Song for the Day. Num bom artigo sobre a questão de como escrever um poema para esta cerimónia, Jim Fisher aborda o tópico da «poesia de circunstância», evocando o paradigma de Goethe e sugerindo, em caso de desespero, uma adaptação pragmática um tanto abrupta de um poema pré-existente. Terá sido esse o caso de Robert Frost aquando da inauguração da presidência de Kennedy: o poeta, já idoso, compôs um texto para a cerimónia, «Dedication», mas à última hora, por não conseguir ler o texto devido ao brilho da luz do sol, recorreu à sua memória para dizer antes The Gift Outright. E esse, sim, era o poema absolutamente perfeito para a ocasião, sem a retórica demasiado «romana» (e que prometia «The glory of a next Augustan age») de versos como «A golden age of poetry and power / Of which this noonday’s the beginning hour».

(mais…)

Comentários Desligados

2008 Vintage: Osvaldo Manuel Silvestre (II)

Publicado em Balanço por Osvaldo Manuel Silvestre, em Quarta-feira, 21-01-2009

Melhores livros (literatura)

Herberto Helder, A Faca não Corta o Fogo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2008. ISBN 978-972-37-1371-8
Robert Musil, O Homem sem Qualidades, Lisboa, D. Quixote, 2008. ISBN 
Julio Cortázar, O Jogo do Mundo, Lisboa, Cavalo de Ferro, 2008. ISBN 978-989-623-079-1

Para dizer a verdade, o meu livro do ano é um com data de 2006: o monumental Borges, de Adolfo Bioy Casares (Destino, Barcelona), 1664 pp. de selecções dos excertos do Diário de Bioy dedicados à amizade de décadas com Borges. Não pode haver Borges nesta lista mas há o maior Cortázar, apesar da tradução muito errónea do título, na sua opção pela metáfora em detrimento do sentido literal (o pecado venial dos tradutores), e os dois primeiros volumes do opus magnum de Musil, em tradução impressionante de João Barrento. Livros com a grande (des)vantagem de nos deixarem indispostos para a literatura que se vai fazendo. Por cá, creio não haver grandes dúvidas de que o livro do ano é o de HH. Devo confessar que a minha edição da Poesia Toda é a de 1981, no inexcedível «embrulho» de Manuel Rosa para a publicação 102 da Assírio. E, como na descrição canónica do processo, também eu não fiquei incólume à exposição ao livro. Há, quanto a isto, quem diga, e com alguma pertinência, que HH nos incendeia na juventude e que, depois, isso passa. Por mim, fui-me de facto afastando no quarto de século seguinte, embora permanecendo fiel ao todo de 1981, mais os dois grandes livros que aí não cabem: Os Passos em Volta e Photomaton & Vox. Se tivesse de produzir uma representação desse período entre 1981 e este último livro, seria qualquer coisa deste tipo: «Um quarto de século que um afinal não tão grande poeta gastou a bater com a cabeça na parede». A Faca não Corta o Fogo não a veio afectar inteiramente – desse demasiado longo período ficam-me poemas, do próprio ou em tradução, e problemas (uns mais estimulantes do que outros), não livros – mas veio-me fazer recuperar a intensidade da leitura de HH, desta vez pela via, obsessiva e mesmo devoradora nos inéditos, do corpo-a-corpo com a língua materna: «eu fodo, se me dão licença, / numa língua que vem com a sua fúria combústivel / dos fundos da / língua portuguesa, só fodo nela». Um reencontro que, pelo que me toca, agradeço.

(mais…)

Comentários Desligados

2008 Vintage: Miguel Cardina

Publicado em Balanço por Miguel Cardina, em Domingo, 18-01-2009

Melhor livro
Cingindo-me apenas ao domínio da história, três obras editadas em 2008 merecem destaque. Desde logo, Comunismo e Nacionalismo em Portugal. Política, Cultura e História no século XX, de José Neves (ed. Tinta-da-China), na qual o autor percorre com mestria os fios que enovelaram «comunismo» e «nacionalismo» na história do PCP (ao mesmo tempo que nos mostra que a história pode não ser um mero relato dos factos). Em segundo lugar, cabe destacar a volumosa narrativa sobre Humberto Delgado, escrita pelo seu neto, Frederico Delgado Rosa: Humberto Delgado, Biografia do General Sem Medo (ed. Esfera dos Livros). Por fim, mencione-se o estudo comparativo de Manuel Loff sobre a ditadura portuguesa e espanhola: O nosso século é fascista! O mundo visto por Salazar e Franco (1936-1945) (ed. Campo das Letras).
(à margem, porque não é de um livro que se trata, anote-se  a importância didáctica e o cuidado gráfico dos fascículos Os Anos de Salazar, que durante algumas semanas foram distribuídos com o Correio da Manhã e a Revista Sábado. Estranhamente – ou talvez nem por isso, depois da manhosa publicidade – pouca gente lhe parece ter dado importância…).

Melhor blogue / Melhor blogger
No último ano, e como foi bem lembrado aqui, os blogues mais dedicados à análise e ao comentário político sofreram um processo de «concentração» (e também de fractura) que, apesar de tudo, não chegou para lhes injectar doses adicionais de interesse e novidade. Entre a linguagem sisuda e proto-institucional, de uns, e o rebaixamento do nível argumentativo até ao limite facilmente enjoativo do bitaite, de outros, sobraram algumas paisagens limpas. Uma corrente blogosférica particular manteve o vigor: aquela constituída pelos blogues que optam pelo nervo subjectivo e pelo diletantismo da escrita em vez da busca de um qualquer estatuto «de referência». Três exemplos distintos: o registo aforístico e «vagamente inútil» de João Gaspar, em Last Breath; a genialidade só aparentemente niilista do Luís Januário; Os olhares do Pedro Vieira, em mono ou em stereo.

Comentários Desligados

2008 Vintage: Pedro Serra

Publicado em Balanço por Pedro Serra, em Domingo, 18-01-2009

A minha selecção obedece apenas aos materiais em trânsito pelas esquadrias de uma mesa de trabalho. Mais além da contingência de linhas e ângulos desta fugaz e pessoal geometria, opto por referências que interessam certamente a outros leitores e outros espectadores. Sei que assim é porque, aliás, algumas das leituras e filmes que consigno na lista foram já motivo de conversa e troca de impressões com amigas e amigos fundamentalmente do âmbito universitário de Salamanca. Conversas dentro e fora da Universidade, sendo que o ‘dentro’ e o ‘fora’ da Universidade numa sociedade como a espanhola – 1 em cada 150 cidadãos tem um vínculo material com a instituição -, supõe obviamente fronteira difícil de objectivar. É este o cerne da magna allegoria do ‘mandarinato’ figurado pela obra de Miguel Espinosa. Independentemente do que significou em termos de obsessão pessoal, a metáfora expandida devolve-nos uma sociedade pré e pós-transicional galvanizada pelo ‘claustro universitário’. Daí que o fil rouge da minha escolha seja uma obra colectiva, fulcral para compreender a cidade onde vivo, dirigida por Ricardo Robledo: Esta salvaje pesadilla. Salamanca en la Guerra Civil Española, volume de 2007 cuja leitura me acompanhou no ano de 2008. Podia ter sido, é verdade, El atroz desmoche, de Jaume Claret, a condizer com os actuais avatares da universidade, contudo trata-se de livro editado em 2006. Enfim, aquém da contingência de linhas e ângulos daquela fugaz e pessoal geometria, os objectos referenciados destilaram “momentos de intensidade” variada, todos eles muito acima da média. Perceber porquê fica para o quinto milénio. Como nessa altura este texto será ilegível – pelos elevados custos de conversão da actual tecnologia à tecnologia do futuro, como anotou recentemente Benedict Anderson -, conformo-me com as conversas que motivaram, e que foram transcendentalmente como brindar com o imperdível Rioja La Vicalanda Reserva.

(mais…)

Comentários Desligados

2008 Vintage: Osvaldo Manuel Silvestre (I)

Publicado em Balanço por Osvaldo Manuel Silvestre, em Sábado, 17-01-2009

No mundo dos blogues, 2008 foi um típico ano «normal». O que significa que o medium estabilizou (e o meio nitidamente estagnou), pelo que a sensação que se tem é de que está na altura de a tecnologia produzir outra coisa que recupere o feitiço inicial dos blogues (e o Twitter não é essa coisa). Para mim, foi o ano em que deixei de ler blogues políticos, precisamente por ser nessa área que a estagnação mais visível é, apesar da fuga para a frente dos «blogues de blogues», numa espécie de contenda de boxe entre agremiações de bairro exactamente simétricas. Mas também porque é nos blogues políticos que percebemos como o meio é, ou pode ser, um jornal meramente remediado e como, ao contrário de todas as declarações (sobretudo as de nojo), é a política estritamente mediática o que mais entusiasma toda a gente – quase sempre à custa de uma vitimização do político, na sua acepção mais densa e perturbadora. É aliás na área dos blogues políticos que melhor percebemos a lógica autorreferencial do sistema mediático, na forma como esses blogues suplementam a informação chegada dos média tradicionais, desde logo por meio da vertigem temporal do comentário que a instantaneidade do meio permite. Faz assim inteiro sentido que nas suas edições em linha os jornais linkem as reacções dos blogues às suas notícias; como faz também sentido, mas agora dentro de uma anexação da lógica dos blogues à lógica identitária dos jornais, que estes publiquem selecções do que «de melhor» se publicou nos blogues no dia anterior, quase sempre provindo da zona mais «política» da blogosfera. Mais grave, porém, para mim: foi o ano em que o formato blogue de Pedro Mexia me cansou. Saudei por isso com alívio a notícia da extinção do Estado Civil (e aguardo com curiosidade o que lhe sucederá, pois o percurso de Mexia neste universo tem um valor não despiciendo de sintoma). Finalmente, e isso parece-me também um sinal de crise, ou de estagnação, foi um ano em que o fetichismo do «estilo» na escrita nos blogues foi objecto de todas as hipérboles e de todos os elogios. Não consigo deixar de ver aí um análogo, retórico e político, do narcisismo da Body Art na sua época heróica, mas numa versão francamente conservadora: a escrita como exibição de dotes (tal como antigamente se dizia das meninas que «tocavam piano e falavam francês»), uma reificação da retórica como valioso capital simbólico num mercado (o dos média) em que a massificação da escola – e dos cursos de jornalismo… – teve o impacto que se sabe sobre a qualidade média do que se publica e diz. Nesse domínio, a cena dos blogues é hoje a transposição mais convincente da cena agonística do literário tal como Balzac a fixou em Ilusões Perdidas: uma via de acesso a mais altos galardões, quase sempre na imprensa tradicional ou no «meio literário» em sentido lato. Ou então, num Balzac mais de «lírios do vale», um viveiro de escritores alimentados por uma concepção muito oitocentista do literário, destinada a desembocar em livro e em preciosismos (máximas, reflexões, aforismos, morceaux de bravure). Há excepções, claro, algumas delas registadas abaixo, sobretudo naquela zona em que algumas pessoas usam o blogue como quem «escreve» numa língua que ainda não existe.

(mais…)

Comentários Desligados

O melhor livro que eu não li em 2008

Publicado em Balanço por Ana Bela Almeida, em Sexta-feira, 16-01-2009

Imaginem que havia um escritor que publicava um livro para… não ser lido. Eu sei que parece tratar-se de uma impossibilidade – ou de um conto do Rui Manuel Amaral - mas aconteceu mesmo. Há dias procurava o recentíssimo A Faca não corta o Fogo de Herberto Helder e a livreira sorriu-me com incredulidade, eu diria mesmo que com alguma pena: ” Não sabe que essa obra esgotou em dois dias? Os livros já estavam quase todos encomendados antes de chegarem à livraria. E o autor não quer reedição. Está esgotado, para sempre. Coisas dos escritores… “. Fiquei aborrecida. Bolas, chega o melhor livro de 2008, e parte, e eu nem lhe ponho a vista em cima. Os 3 ou 4 eleitos que o conseguiram devem estar agora mesmo a embriagar-se na sua leitura, ou a negociá-lo no mercado negro. Até deve existir uma espécie de maçonaria de pessoas que conseguiram o melhor livro de 2008. O livro único, irrepetível, imaterial. O melhor livro é sempre aquele que eu não li.

Comentários Desligados

2008 Vintage: Catarina Maia

Publicado em Balanço por Catarina Maia, em Quinta-feira, 15-01-2009

Melhores filmes

1) Wall-E, de Andrew Stanton

wall-e5

Wall-E não é apenas o melhor filme de animação do ano, é o filme mais extraordinário que nos foi dado ver numa sala de cinema nos últimos anos. E isso foi reconhecido pela Associação de Críticos de Los Angeles que, pela primeira vez, em 33 anos de existência, votou num filme de animação como o melhor filme do ano. Wall-E é uma viagem terna, divertida e inteligente pela história do cinema. Uma prova de confiança na capacidade de amar.

2) Este País Não é Para Velhos, de Joel e Ethan Cohen

Não encontro nos filmes dos irmãos Cohen uma qualidade homogénea. Têm filmes fabulosos e outros que acho francamente medíocres, como O Grande Lebowski (1998), ou mesmo o muito aclamado Fargo (1996). Este País Não é Para Velhos parece-me, contudo, indiscutivelmente, um desses fabulosos acontecimentos cinematográficos de 2008. Um excelente argumento (adaptado do romance de Cormac McCarthy) que desafia a nossa crença na capacidade de contornar as contingências, de escapar à realidade caótica a que estamos sujeitos, de que fazemos parte.

3) Fome, de Steve McQueen

Fome é a primeira longa metragem de Steve McQueen, um reconhecido artista visual inglês, que conta com Michael Fassbender no seu primeiro grande papel (até aqui Fassbender tinha trabalhado essencialmente em séries de TV, representando papéis menores). A estreia, digamos assim, de um e de outro merece a nossa atenção. Fome conta a história real dos últimos meses de vida de Bobby Sands, membro do IRA, que morreu em 1981, depois de sessenta e seis dias de greve de fome na prisão de Maze, na Irlanda do Norte. O facto de o filme tratar do abuso perpetrado sobre presos políticos pode criar expectativas de fácil empatia, mas a verdade é que a estética do filme, de uma clareza formal impressionante, e a quase ausência de diálogos afastam o espectador para uma posição desconfortável de observador. Uma experiência de onde está afastada a compaixão. Mas qual é a posição «correcta» para assistir à violência?

(mais…)

Comentários Desligados

2008 Vintage

Publicado em Balanço por OLAMblogue, em Quinta-feira, 15-01-2009

figo

Nos próximos dias, alguns membros deste blogue procederão à selecção do melhor da colheita de 2008, em várias áreas: 1) Blogues; 2) Bloggers; 3) Livros (literatura e ensaio); 4) Editoras; 5) Filmes; 6) Dvd. Decidiu-se restringir as escolhas aos melhores 3 em cada item, com a devida justificação de cada escolha. Os colaboradores deste blogue elegerão os melhores nas áreas da sua predilecção, não sendo obrigatório percorrê-las todas. Como não houve consenso sobre a matéria, o futebol ficou de fora.

Comentários Desligados

Marx & Engels: 750 exemplares

Publicado em Livros, Notas por Osvaldo Manuel Silvestre, em Quarta-feira, 14-01-2009

marxengels

As Edições Avante! (não esquecer o ponto de exclamação) republicaram há meses o tomo I das Obras Escolhidas de Marx e Engels, uma edição com data inicial de 1982-83, em três tomos. Da responsabilidade de José Barata-Moura, Eduardo Chitas, Francisco Melo e Álvaro Pina, o volume surge editado com o cuidado filológico que se esperaria dos organizadores e inclui, entre outras coisas, alguns dos grandes textos do Marx «jornalista»: «As Lutas de Classes em França de 1848 a 1850», «O 18 de Brumário de Louis Bonaparte» ou os textos sobre «A Dominação Britânica na Índia», em boa medida responsáveis pelo afastamento de Edward Said em relação ao marxismo. Isto para lá dos textos sobre «a questão judaica», o «Manifesto do Partido Comunista», ou o «Para a Crítica da Ecomonia Política».

É inútil chamar a atenção para a importância deste volume e destes textos. Mas como a insistência periódica em proclamar «retornos a Marx» parece sugerir que a amnésia – ou o primarismo de declarar Marx «ultrapassado» – vai também vitimando estas obras, permito-me citar as extraordinárias palavras iniciais do «18 de Brumário…»:

Hegel observa algures que todos os grandes factos e personagens da história universal aparecem como que duas vezes. Mas esqueceu-se de acrescentar: uma vez como tragédia e a outra como farsa. (…)

Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade, em circunstâncias escolhidas por eles próprios, mas nas circunstâncias imediatamente encontradas, dadas e transmitidas. A tradição de todas as gerações mortas pesa sobre o cérebro dos vivos como um pesadelo. E mesmo quando estes parecem ocupados a revolucionar-se, a si e às coisas, mesmo a criar algo de ainda não existente, é precisamente nestas épocas de crise revolucionária que esconjuram temerosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomam emprestados os seus nomes, as suas palavras de ordem de combate, a sua roupagem, para, com este disfarce de velhice venerável e esta linguagem emprestada, representar a nova cena da história universal. Assim, Lutero disfarçou-se de apóstolo Paulo, a revolução de 1789-1814 vestiu-se alternadamente com a  roupagem da República Romana e do Império Romano, e a revolução de 1848 nada soube fazer de melhor que parodiar aqui 1789 e ali a tradição revolucionária de 1793 a 1795. Assim o principiante que aprendeu uma nova língua: tradu-la sempre para a sua língua materna, mas só se apropria do espírito da nova língua e só é capaz de se exprimir livremente nela quando se move nela sem reminiscências e esquece nela a sua língua original. (pp. 434-5)

(mais…)

Comentários Desligados

Dicionários & funcionários (uma adenda, por Nuno Júdice)

Publicado em Poesia por Osvaldo Manuel Silvestre, em Terça-feira, 13-01-2009

PALAVRA A PALAVRA

Percorro o dicionário como se fosse
um mapa. Um abegão despeja-me sílabas
no abecedário para que abeberem no abdómen
dos abexins. E as abitas que apodrecem num abismo
abiótico abolem adrede os abrolhos numa
adubação de adriças. Colo-as com o betume
das bigornas, e levo até ao fim dos bútios
o bustrofédon de uma asa de blatídeo brocada
no bordado de uma borrasca boreal. E corro
nas florestas de cariocaráceas,
de cariofiláceas, de cariopses, calcorreadas
por caripunas sem carisma, tirando cera dos carnaubais
carnavelescos para untar os caroás, ouvindo um carrilhão
de cartilagens dobrar uma caterva de catilinárias
sobre um catre de cautelosos catingueiros, cativos
do cavalete carpindo a caxumba das cega-regas. Uma dança
de danaides dardeja um débito de debuxos nos dedos
da deidade, enquanto dédalos delidos pelo delíquio
das demoras derriçam num diedro didáctilo, desencabrestando
uma diérese de duendes. Deito-as numa emulsão
de cachoeiras, e emurchecem na emulsão encastelada
das enciclopédias, encristando a ênfase do enigma,
enredadas no entardecer entaramelado
de um entojo de entropias. Flébeis, fluem filicíneas
(mais…)

Comentários Desligados

Carlos Reis: Queirosiana Mínima

Publicado em Autores por Osvaldo Manuel Silvestre, em Terça-feira, 13-01-2009

eca

Carlos Reis dispensa apresentações: como professor da área dos estudos literários, como universitário – é actualmente Reitor da Universidade Aberta -, mas sobretudo como queirosiano, autor de obra vasta sobre Eça, coordenador da edição crítica, orientador de inúmeros estudos académicos sobre o autor de Os Maias.

Era talvez menos conhecida até ao momento a forma como Eça de Queirós – a obra, o homem, o mito – se foi implicando na pessoa de Carlos Reis até se tornar, em toda a extensão do termo, uma questão pessoal para este. É essa dimensão pessoal, e por isso também memorial, que agora podemos reconstituir lendo a rubrica Queirosiana Mínima que o reputado queirosiano começou hoje a publicar no blogue O português não tá cansado, da licenciatura em Estudos Portugueses e Lusófonos da Faculdade de Letras de Coimbra. A rubrica iniciou-se com uma série intitulada Os meus Eças. Que, como se pode ver, são indissociáveis dos grandes queirosianos, aqui também objecto de uma selecção por «afinidade electiva». Neste caso, Ernesto Guerra da Cal, homenageado no primeiro texto da série.

Parafraseando o que se dizia do Tintim: «Para todos os queirosianos dos 7 aos 77 anos».

Comentários Desligados

Este blogue segue dentro de momentos…

Publicado em Efemérides por OLAMblogue, em Segunda-feira, 12-01-2009

ronaldo

Comentários Desligados

Variações para além do Sexo e Género

Publicado em Recensões por _, em Segunda-feira, 12-01-2009

Variações sobre sexo e género

Publicada em Setembro de 2008, Variações sobre Sexo e Género é a mais recente antologia de textos que reflectem e incitam à reflexão sobre a contemporaneidade, mais concretamente as questões relativas à «diferença», nomeadamente, entre homens e mulheres. Com textos de Jane Flax, Joan Scott, Françoise Collin, Gisela Bock, Donna Haraway ou Judith Butler, este livro constitui um pensamento sobre o pensamento e discursos epistemológicos dos estudos feministas, de género, sobre as mulheres, etc. – um «meta-discursi-metodológico», para utilizar a expressão de outra autora presente nesta antologia, Rosi Braidotti. À semelhança de outras (raras) antologias críticas do feminismo contemporâneo (por exemplo, Género, Identidade e Desejo. Antologia Crítica do Feminismo Contemporâneo, organizada por Ana Gabriela Macedo), Variações sobre Sexo e Género constitui uma ferramenta teórica de inegável valor, por tornar acessível, em português, textos seminais dos estudos feministas e, sobretudo, pelo jogo de tradução da tradução que implica e impulsiona.  E é precisamente perante o que podíamos chamar de dupla tradução que assenta a relevância desta compilação. Por um lado, torna acessíveis textos que não são facilmente disponibilizados. Por outro lado, possibilita e convida à reflexão sobre as influências que as traduções podem ter no pensamento feminista português, visto que os conceitos são traduzidos pelas e nas especificidades nacionais. Porque urge «um trabalho de tradução e confrontação das (…) múltiplas diferenças» dos feminismos (Braidotti, 26), na senda da definição dos «valores que desejamos [intelectuais feministas] promover e transmitir» (idem, 20), esta compilação de textos teóricos, pela reflexão que promove, revela-se uma plataforma de diálogo de crucial importância.

Num jogo de fronteiras esbatidas – mas sempre presentes – , percorremos os textos desta antologia num vaivém teórico: do exterior para interior e daqui para o um novo exterior ou mesmo «entre o dentro e o fora dos estudos feministas», como sugere Collin (p.9). E é deste jogo oscilante, variado e de variações, que se faz a leitura destes textos, essa «teia de questões e dúvidas» em que cada autora se refere às outras autoras, numa «possibilidade de percursos cruzados» (p.13). 

«Nómadas» (Braidotti) do pensamento e no pensamento, o livro convida à viagem (variação?) pelo próprio «fazer do pensamento», reflectindo, com Jane Flax, «acerca da forma como pensamos as relações de género» ou, mais ainda, como «não as pensamos» (p.103). Os textos são peremptórios quanto a esta urgência de pensar os feminismos e a forma como estes podem «estar imbuídos de relações de poder/conhecimento existentes» (Flax, 119). Como adiantado por Bock, é necessário reflectir sobre a forma como os feminismos, combatendo divisões binárias, recriam a «sua própria versão» das dicotomias: desde o binário sexo-género (bem presente nesta antologia), passando pela igualdade-diferença, até à polarização integração-autonomia (p.118).   (mais…)

Comentários Desligados

Inquérito OLAM: Arnaldo Saraiva

Publicado em Inquérito por OLAMblogue, em Domingo, 11-01-2009

arnaldo_saraiva

Arnaldo Saraiva é Professor Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Foi um dos fundadores do Centro de Estudos Pessoanos, que entre o final dos anos 70 e o início dos anos 80 viria a editar Persona, até hoje a mais importante revista dedicada a Fernando Pessoa, e a organizar os primeiros congressos de Estudos Pessoanos, lançando a maré alta da recepção do autor. Tem produção vasta sobre diversos aspectos da obra pessoana, tendo visto o seu volume sobre o Pessoa tradutor de poesia editado no Brasil. Dedicou-se à noção de Literatura Marginal/izada, tendo editado dois volumes de ensaios sobre a matéria. Professor, por muitos anos, de literatura brasileira, estudou vários autores brasileiros, com especial atenção ao século XX e às relações entre o modernismo português e o brasileiro, a que dedicou uma obra de referência entretanto publicada no Brasil, e organizou vários congressos de literatura brasileira na sua Faculdade de Letras. Preside à Fundação Eugénio de Andrade, tendo sido director da revista da Fundação, Cadernos de Serrúbia. O seu último livro publicado é a tradução da poesia de Guilherme de Aquitânia. Agradecemos a Arnaldo Saraiva a gentil colaboração com o nosso inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

Perguntas deste tipo lembram-me sempre uma frase do Hospital das Letras que D.Francisco Manuel de Melo colocou na boca de Bocalino:”Não há matéria no mundo mais perigosa que medir sangues e pesar talentos”. E neste caso o perigo não vem mais de nomear (uma, ou duas, entre várias obras de grande qualidade, mas de diversa modalidade ou extensão) do que de justificar. Porque só no acto de leitura ou dos seus efeitos se pode ter a única justificação satisfatória. Esquecido o risco, permito-me entender “ficção portuguesa” por “ficção em português”, pois há muito acho aberrante a divisão nacional ou nacionalista da literatura escrita na mesma língua (e às vezes até em línguas diferentes). Assim, anteponho o Grande Sertão:Veredas ao Livro do Desassossego, não porque um tenha sido fixado pelo autor (há exactamente 50 anos) e o outro se a abra a distintas montagens, não porque um seja uma corrida narrativa de cruzadas memórias e o outro seja estruturalmente fragmentário, não porque um prefira o espaço sertanejo e o outro o espaço urbano, não porque um promova a figura do herói e outro a do anti-herói, não porque um seja “contado”por um velho ex-jagunço e o outro “escrito” por um guarda-livros; é para mim claro que se trata dos dois mais sólidos “monumentos” da ficção portuguesa do século XX, mas parece-me impossível dizer qual deles é estilisticamente o mais envolvente e de conteúdo mais substancial, ou o mais relevante na referência às “profundas profundezas” do homem e da vida, e nas projecções simbólicas e míticas. Se a referência, a metáfora ou a alegoria do  “sertão” (e das suas “veredas”), pode ser tão rica e complexa como a da “cidade” (e das suas ruas), ela permitiu a Guimarães Rosa fazer uma mais extensa travessia (palavra bem ao gosto rosiano) do tempo e do espaço. Neste, que por sinal é o dos “gerais” (“campos gerais” de “Minas Gerais”), entra por exemplo uma exuberante natureza física, vegetal e animal que Bernardo  Soares de todo desconheceu; quanto ao tempo, no romance do mineiro não encontramos só alguma atmosfera típica dos inícios do sec. XX pois facilmente encontramos sugestões arcaicas, quer no comportamento dos homens e na sua ideologia maniqueísta (Deus e o Diabo, o Bem e o Mal), quer na linguagem e nos modelos intertextuais (lendas medievais, contos populares, novelas de cavalaria, romances do romanceiro, a começar pelo que amplia da “donzela que foi à guerra”, a que é fiel até na revelação de Diadorim/Diadorina; Machado de Assis, de que supostamente Rosa não gostava, teria mantido a ambiguidade…). Diferentemente de Pessoa/Soares, que só por excepção se afastou dos cânones da língua, Rosa/Riobaldo  valeu-se sistematicamente de arcaísmos, populismos e  neologismos, lexicais e sintácticos, recorrendo a numerosas e já inventariadas técnicas; para tornar mais autêntica ou verosímil a narrativa que pôs na boca do ex-jagunço, o escritor mineiro achou por bem simular uma oralidade que afinal pode parecer inverosímil, por fazer do sertanejo um mestre de língua e literatura, como os pastores de Virgílio, mas que implica  uma  revolução linguística e literária como há séculos não se via numa obra em português. O Grande Serão:Veredas é bem a obra de quem achava que é preciso renovar a língua para “renovar o mundo”, e que é preciso “escrever para setecentos anos.Para o Juízo Final.”

(mais…)

Comentários Desligados

As máscaras da fome no teatro da contemplação (II)

Publicado em Artes, Crítica por Osvaldo Manuel Silvestre, em Quinta-feira, 08-01-2009

700_mascaras_041

Boa parte das questões levantadas pelo espectáculo criado por António Jorge a partir da sua colecção de máscaras pode colocar-se sob a égide daquela proposição wittgensteiniana que prescreve a impossibilidade da teoria e a sua necessária substituição pela «mera» descrição. A estranheza do objecto parece de facto pedir a restrição cognitiva de quem se predispõe a tão-só descrever o que vê e ouve, uma vez que as teorias com que chega ao espectáculo – sobre «teatro», «espectáculo», «público», etc. – chocam com a coisa ali defronte (que aliás, e aí começam os problemas, não está «ali defronte»). Porque, desde logo, não é claro que a coisa integre as «artes performativas»; e porque uma das questões decisivas do espectáculo reside justamente na forma como põe em cheque a delimitação territorial mais pregnante na área, nas últimas décadas, entre «teatro» e «performance», delimitação na qual, a priori, o primeiro termo faz o papel conveniente de segmento estável de uma relação na qual o segundo termo funciona como elemento mais vasto, omnipresente, omniformativo e omnipotente. Digamos, por agora, que na actual economia desta relação a performance necessita de que o teatro seja uma coisa – um objecto, a que corresponde, na topografia de Philip Auslander, uma disciplina «objectual»: os estudos teatrais - para que a performance seja uma não-coisa a que corresponderia, ainda para Auslander, uma disciplina «paradigmática»: os estudos da performance.

(mais…)

Comentários Desligados

Dicionários & funcionários (II)

Publicado em Média, Notas por Osvaldo Manuel Silvestre, em Terça-feira, 06-01-2009

link

Volto à minha inexistente antologia, uma vez que todo este arrazoado serve de facto para apresentar aquele que é o meu «poema de dicionário» preferido em português de Portugal (que na altura incluía as colónias): «Amor das Palavras», de Rui Knopfli, incluído no seu primeiro livro, O País dos Outros, de 1959. Escrevi em tempos sobre o potencial didáctico deste poema, mas queria concentrar-me agora na questão do dicionário, ou melhor, na da historicidade da nossa relação com o dicionário «na era da acessibilidade técnica». Passo, pois, a reproduzir o poema, ligando as ocorrências lexicais mais problemáticas às soluções propostas pela recente ferramenta linguística em linha Português Exacto. Registo no mesmo plano os casos em que a ferramenta se revela impotente, impotência que opto por não suplementar com o recurso a outras ferramentas: 

AMOR DAS PALAVRAS

Amo todas as palavras, mesmo as mais difíceis
que só vêm no dicionário.
O dicionário ensinou-me mais um atributo
para o sabor dos teus lábios.
São doces como sericaia.
Faz-me pensar ainda se a tua beleza não será
comparável à das huris prometidas.
No dicionário aprendi que o meu verso é
por vezes fabordão e sesquipedal.
Nele existe o meu retrato moral (que
não confesso) e o de meus inimigos,
rasteiros como seramelas sepícolas
e intragáveis como hidragogos destinados à comua.
O dicionário, as palavras, irritam muita gente.
Eu gosto das palavras com ternura
e sinto carinho pelo dicionário,
maciço e baixo, e pelo seu casaco, azul
desbotado, de modesto erudito.

(mais…)

Comentários Desligados

Sessão com Rui Tavares

Publicado em Notícias por OLAMblogue, em Segunda-feira, 05-01-2009

Rui Tavares

Mais uma sessão de Os Livros Ardem Mal, nesta 2ª feira, dia 5, pelas 18 horas. No Café-Teatro do TAGV, em Coimbra. A alguns dos agora seis membros habituais do painel juntar-se-á desta vez, numa conversa a pretexto de livros, de leituras e de leitores, o historiador, comentador político e cronista Rui Tavares.

Comentários Desligados

Malhas do comunismo nacionalizado

Publicado em Recensões por Miguel Cardina, em Segunda-feira, 05-01-2009

znComunismo e Nacionalismo em Portugal abre com uma história curiosa contada por André Malraux: durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), nas proximidades de Toledo, abate-se sob as tropas republicanas mais um punhado de bombas do céu que, ao contrário de tantas outras, desta vez não explodem. Surpreendidos, os republicanos descobrem-lhes no dorso uma mensagem em português – «camarada, esta bomba não explodirá» – indiciando a sabotagem dos engenhos algures na passagem de Portugal para Espanha. Como nota José Neves, este exemplo permite dar conta da «tendência internacionalista que trespassou fronteiras estatais e identidades nacionais sem revelar grande consideração por qualquer tipo de ideologia nacionalista». O livro em causa, no entanto, analisa precisamente o reverso dessa disposição: o modo como o Partido Comunista Português, sobretudo a partir da «reorganização» empreendida nos anos 40, forjou um «nacionalismo comunista» oposto e em competição com o nacionalismo do Estado Novo.

Se é verdade que o internacionalismo proletário, por um lado, e o nacionalismo fascista, por outro, não deixaram de se confrontar – como aparece evidenciado no episódio contado por Malraux – não é menos verdade que a mundivisão comunista – nomeadamente, aquela oriunda dos partidos da Terceira Internacional – foi também animada por uma forte pulsão soberanista. Assim sendo, o nacionalismo comunista construiu-se como um nacionalismo alternativo ao do Estado Novo, mas nem por isso menos convicto na invenção de uma identidade nacional, a qual se deveria acomodar com a figura revolucionária do proletariado, numa dinâmica tensional em regra desequilibrada. Como assevera o autor: «Pretendendo-se um nacionalismo instrumental, um meio para um outro fim, o nacionalismo comunista acabou por assumir uma importância tal na história do PCP reorganizado que em nenhum momento este terá programaticamente proposto uma terra sem estados nacionais. Uma terra sem amos, sem dúvida que sim, mas não a Internacional».

(mais…)

Comentários Desligados

Inquérito OLAM: Gonçalo M. Tavares

Publicado em Inquérito por OLAMblogue, em Sábado, 03-01-2009

goncalomtavares

Gonçalo M. Tavares é autor de mais de duas dezenas de livros, publicados desde Dezembro de 2001. Publicou poesia, textos de classificação difícil, do ponto de vista de uma teoria dos géneros, e ficção. Com Água, Cão, Cavalo, Cabeça, 2006, venceu o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco (Câmara Municipal de Famalicão/APE). Com O Senhor Valéry (2002), vencedor do Prémio Branquinho da Fonseca (Fundação Calouste Gulbenkian/Expresso), iniciou a série «O Bairro», que conta já com quase uma dezena de títulos, o último dos quais O Senhor Breton e a Entrevista. Com o romance Jerusalém, 2004, da série Livros Pretos (iniciada com Um Homem: Klaus Klump, 2003, a que se seguiram o referido Jerusalém, A Máquina de Joseph Walser, 2004, e Aprender a Rezar na Era da Técnica, 2007), venceu o Prémio José Saramago, o Prémio LER/Millenium-BCP e o Prémio Portugal Telecom de Literatura 2007 (Brasil). Várias das suas obras têm sido adaptadas ao teatro. Estão em curso traduções e edições dos seus livros em cerca de dezena e meia de países. Agradecemos a Gonçalo M. Tavares a sua colaboração no nosso inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

 3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

Várias perguntas com direcções distintas podem ter como resposta um único nome se o objecto da resposta for uma coisa inclassificável e forte e se nos nossos instrumentos de análise usarmos o método da implosão intencionalmente dirigido.

Numa implosão tudo cai sobre um ponto, um centro não visível, mas que existe. Claro que depois há destroços por arrumar, despejar, tapar, fazer desaparecer. E, claro: há muito mais mundo do que aquele mundo circunscrito.

Há ainda e sempre ressaltos, contágios, partículas que deveriam ter ficado no centro ou no espaço que o rodeia e que, afinal, se comportaram de modo inadequado. De qualquer forma, uma implosão impõe respeito (uma destruição para dentro, uma destruição bem-educada, uma destruição que não pisa a linha definida).

O Livro do Desassossego de Fernando Pessoa-Bernardo Soares é esse ponto central do século XX (tempo) e do país (espaço). Um século e uma superfície caem num ponto.

Logo no início de um livro em que hoje pego (Corpo e Imagem, de José Bragança de Miranda) cita-se o Livro do Desassossego: “se o coração pudesse pensar pararia”. Não me lembro desta frase, mas ela estará lá. Tal como muitas outras.

A implosão de que falamos refere-se também aos diferentes géneros. “Se o coração pudesse pensar pararia”; esta frase pode ser vista como um verso, ou como a pequena parte de um romance, ou como coisa que vai a caminho do ensaio ou, simplesmente (voltando ao início), como uma frase.

No livro que referi cita-se o Desassossego enquanto se reflecte sobre a imagem. Nos livros em que se estuda tudo o resto que não a imagem, também se poderia citar o Desassossego de Pessoa. Para qualquer assunto, enfim, encontraremos uma citação vinda do livro. Uma frase (a anterior) que também pode ser ouvida quando se fala de livros religiosos.

Eis, pois, os efeitos evidentes de uma implosão: tudo o que antes parecia ocupar muito espaço e tudo o que antes parecia tão diferenciado é agora coisa uniforme concentrada no mínimo.

Comentários Desligados

Estes tempos vagarosos (III)

Publicado em Crítica, Notas por Osvaldo Manuel Silvestre, em Quinta-feira, 01-01-2009

A estrofe intermédia do poema de Cláudia Santos Silva parece introduzir a questão maior da lírica: a representação da voz pessoal, patente em algumas instâncias decisivas: (i) na passagem da Natureza à História, e na versão desta como sendo feita «por nós», i.e., por sujeitos «dotados historicamente de voz»; (ii) na substituição do desejo de um devir-mudo por uma declaração categórica (e vocalmente poderosa) sobre o mundo; (iii) enfim, e numa ocorrência discursiva de superfície gerada por tudo isto, no recurso a formas verbais como «falo», digo» ou «não me calo».

Não significa isto, obviamente, que a «voz» não seja também instanciada pela lírica nas estrofes inicial e final. O modo dessa instanciação é porém repressivo (auto-repressivo) e a sua fundamentação é, em rigor, ético-moral: «erguer-me como uma árvore assimétrica na torrente» (eu sublinho) é uma forma de protesto e não anda longe daquela ambígua radicalidade do protesto do místico, em que recusa e abdicação caminham lado a lado. A auto-repressão da voz na forma naturalizada da árvore assolada pela Natureza, mas também desafiadora desta, surge aqui matizada e mediada pela figura do exemplum: alguém se ergue como uma árvore, e resiste; e esse exemplo dispensa palavras, como todos os verdadeiros exemplos ético-morais pedem antes o nosso assentimento mudo. Noutros termos, o casamento de poesia e auto-repressão dá a ver a estrutura ideológica da repressão, que em rigor é uma estrutura retórica: um movimento substitutivo entre Sujeito e Natureza, ou melhor, o cancelamento e congelamento de todos os deslocamentos figurais entre essas duas entidades. Quando o sujeito devém Natureza, torna-se evidente a natureza da repressão: estátua agrilhoada ao mundo natural, «comida» (heras, líquenes) por ele.

Ainda assim, esta estrutura não é perfeitamente simétrica, exactamente como só na Natureza, com maiúscula, podemos representar árvores perfeitamente simétricas (embora, nesse ponto, haja decerto em cada um de nós um Mondrian desejoso de desenhar árvores por esquadria). As árvores não existem porém na Natureza mas no mundo fenomenal e, apesar das aparências, ou da nossa tentação para representar aparências como perfeitas projecções esquemáticas, são criaturas de uma história silvestre. Eis porque esta árvore tropológica na torrente não abdica, não pode abdicar, inteiramente do fenomenal, não conseguindo deixar de ser uma figura da contingência ou da historicidade desta encenação da voz reprimida. Pois não é difícil reconhecer nesta «torrente» na qual e contra a qual se ergue a árvore o rumor figural de uma História entretecida do murmúrio de um milhão de vozes reprimidas e, como diria Benjamin, recuperáveis apenas por uma leitura «a contrapêlo», que neste caso nos desse também a ler a dimensão estratégica desta auto-repressão da Voz: uma naturalização que é uma moral que é uma política que é um tropo duma «ordem natural» por vir. Um dia, esse dia prometido pela torrente da Natureza (uma torrente na qual não consigo deixar de ouvir um eco do «Da violência», de Brecht), toda a eloquência será dispensável (posição politicamente muito questionável, aliás).

(mais…)

Comentários Desligados

Julio Cortázar: Poema de Ano Novo

Publicado em Efemérides por OLAMblogue, em Quinta-feira, 01-01-2009

fireworks

HAPPY NEW YEAR

Mira, no pido mucho,
solamente tu mano, tenerla
como un sapito que duerme así contento.
Necesito esa puerta que me dabas
para entrar a tu mundo, ese trocito
de azúcar verde, de redondo alegre.
¿No me prestás tu mano en esta noche
de fìn de año de lechuzas roncas?
No puedes, por razones técnicas.
Entonces la tramo en el aire, urdiendo cada dedo,
el durazno sedoso de la palma
y el dorso, ese país de azules árboles.
Así la tomo y la sostengo,
como si de ello dependiera
muchísimo del mundo,
la sucesión de las cuatro estaciones,
el canto de los gallos, el amor de los hombres.

Comentários Desligados

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.