Os Livros Ardem Mal

Ou a palavra não corta o silêncio

Posted in Recensões by Sandra Guerreiro Dias on Segunda-feira, 01-12-2008

Catherine Cameron

«Também eu queria escrever um poema maior que o mundo, /escrevê-lo com o mais verbal e primeiro de mim mesmo, / o mais irrefutável» (p.182)

Se A Faca que não Corta o Fogo não é o «poema maior que o mundo», (di-lo o autor, e, dizemos nós: se então o fosse, o que se inventava depois?) é porque somente o mesmo o arroga enquanto «abrupto termo dito último pesado poema do mundo» (p.207). Tê-lo-á escrito Herberto, poeta ou pessoa ou os dois, assomado pelo dom vertiginoso da língua que diz possuir e que define como uma espécie de «linha sísmica atravessando a montagem das músicas» (p.169). Não se coíbe ainda assim de lhe instar, à língua, a portuguesa que é «tudo por começar (…) com mais respiração» (p.183), a imanada prece que diz assim:

«Toca-me lábil, /língua, /alerta, silvestre, tão como vais morrer, /com menos favor, menos condição, menos poder que todos os fenómenos da língua e do mundo» (p.182)

Não sendo tudo ou esse tudo a que se propõe o escritor enquanto «organismo internamente coerente e bastante», como dizia de si, em 1964, numa das raríssimas entrevistas por si concedidas, impulsão ele próprio dos quase proféticos diálogos entre o tempo, as palavras, o mundo, as palavras e a morte e as palavras outra vez por fim, é sobre tudo e a dizer tudo que Herberto se diz, de si próprio e do seu lugar de «homem [que] vive uma profunda eternidade que se fecha sobre ele» (p.11), extinguindo-se, quase. É portanto no cometimento de dizer tudo que o autor mete «a mão inteira pelo fogo dentro» (p.179) e se subtrai ao que diz porque então não sobra nada de si que se possa dizer mais. Assim como uma equação em que os contrários em excesso, não podendo mais estar um ante a presença do outro, para se salvarem, se anulam. E portanto outra vez restamos nós, que ainda aqui estamos e que sempre ficamos porque é perante «a matéria radiosa de que é feito o mundo» (p.100) que estamos. E só por estarmos sozinhos, a sós com o poema, e porque «o caos nunca impediu nada, foi sempre um alimento inebriante.» (p.106), nos atrevemos a estar e a falar. Mas então, o que diremos? Se é do quase tudo que aqui se trata, ou assumimos que Herberto diz quase tudo e dizemos que ele próprio diz quase tudo ou não dizemos nada porque ele já disse quase tudo, e é por isso que nada quase sobra por dizer. Isso e o estarmos perante aquilo que Eduardo Lourenço chama de «catedral irreal» onde se suspende o mundo, suspensão onde forçosamente nos incluímos:

«A crítica é, por sua vez, o discurso segundo, através do qual, sem jamais poder perder de vista nem alcançar esse tempo-obra, fonte dele, nós inventamos enquanto leitores atentos, os caminhos sem cessar bifurcantes que nos dão a ilusão de que a obra é nossa substância, e como tal, a ‘compreendemos’ no momento exacto em que através dela nós acedemos ao mais luminoso obscurecimento da nossa relação com o mundo. O verdadeiro crítico é aquele que não compreende a obra e antevê (um pouco) as razões por que não pode compreendê-la.»

Resignemo-nos, portanto. Tem razão o autor de O Canto do Signo quando alerta para o facto da verdade da obra permanecer em si mesma, pelo que, mais do que vã, é paradoxal a invectiva que cabe ao crítico que a procura desvendar. Porque sendo o seu desígnio o de a ansiar, como ânsia imperiosa, quase absoluta, saberá à partida que o lugar dessa «catedral irreal» onde nos suspendemos é precisamente «No meio, / Onde se morre do silêncio central / da terra.» (p.87), já aqui Herberto novamente. E nesse outro também onde estão as palavras «que requerem uma pausa e silêncio.» (p.37) que é onde estamos quando lemos A Faca que Não Corta o Fogo, portanto, ermos, quietos, parados, ante as palavras que nos decifram e que por nos decifrarem tanto e tão demasiado não deixam lugar para mais nenhuma.

Herberto Helder (2008). A Faca Não Corta o Fogo. Lisboa: Assírio e Alvim, 207 pp. [ISBN: 978 - 972 - 37 - 1371 - 8]

Sandra Guerreiro Dias

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