Os Livros Ardem Mal

Os 100 anos de C. Lévi-Strauss: Francisco Vaz da Silva

Posted in Efemérides, Inquérito by OLAMblogue on Quinta-feira, 27-11-2008

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Francisco Vaz da Silva ensina antropologia e folclore no departamento de antropologia do ISCTE, em Lisboa. Trabalha sobre representações simbólicas numa perspectiva comparativa. Se lhe perguntassem, diria que o mais recente estado das suas ideias está impresso num livro chamado Archeology of Intangible Heritage (New York: Peter Lang, 2008). Agradecemos a Francisco Vaz da Silva a disponibilidade que revelou para colaborar connosco nesta comemoração do centenário de CLS.

OLAM: O que representa para si Claude Lévi-Strauss, hoje? 

A ÚLTIMA PALAVRA

Há Lévi-Strausses para todas as ocasiões, agendas e gostos. Hoje Lévi-Strauss é para mim, num sentido muito real, Lévi-Strauss em mim. A sua obra suscitou-me uma tal efervescência mental, na voragem e plasticidade intelectual dos vinte e picos anos, que caldeou e renovou os meus processos intelectivos. Pondo as coisas simplesmente, devo-lhe em grande medida o modo como desde então entendo o mundo.

Em boa verdade, este entendimento resulta largamente de um processo de erosão. Gradualmente dispensei discursos com efeitos especiais lógico-matemáticos, virei costas a cogitações abstrusas sobre conjunções e disjunções  e (com um ligeiro sentimento de culpa) larguei até o dogma venerando dos processos mentais de base binária.

Mas, no mesmo processo, a essência da herança intelectual de Lévi-Strauss naturalizava-se como parte do meu fluxo de consciência. Assim, dou hoje como adquirida a noção de que o pensamento simbólico opera a partir dos dados da sensibilidade, ao mesmo tempo que assumo  que compreender é sempre ir além das aparências. Tornou-se-me natural assumir que o sentido se constitui nas e pelas relações entre elementos (cada um dos quais seria opaco em si mesmo). E assumo que o pensamento simbólico é  dinâmico, pelo que a noção de transformação é fundamental para entender processos mentais que usam a metáfora para abarcar o mundo in toto.

Ocasionalmente suspeito até que a necessidade de totalização que Lévi-Strauss atribui ao pensamento mítico — e que a sua própria obra manifesta grandiloquentemente — infecta o meu próprio pensar, que é portanto menos «meu» do que admito. Em todo o caso, é certo que compreendi a pouco e pouco que certas mentes têm uma especial facilidade para se aplicarem às dinâmicas do pensamento simbólico. Tenho como certo que tal é o caso de Lévi-Strauss, assim como o de Freud — o qual Lévi-Strauss define desde cedo como um precursor e que afronta, num acto de freudiano parricídio intelectual (e portanto de homenagem derradeira), quase no termo da sua obra.

Seja como for, da frequência assídua destes dois autores aprendi a extraordinária complexidade de processos mentais a que chamarei totais (com um vago aceno a M. Mauss) dado que unem os recursos dos pensamentos «selvagem» e «domesticado». Tentei em tempos delinear aspectos e consequências desta complexidade da obra de Lévi-Strauss. Enviei-lhe o resultado deste esforço para comentário e recebi,  em carta datada de 21/3/2003, a seguinte resposta:

Quant à votre interprétation, je suis d’accord pour reconnaître qu’en matière de parenté aussi bien que de mythes, j’ai tenté de mettre en évidence un état de déséquilibre foncier. Je vous avoue toutefois qu’à la fin de ma vie, j’éprouve vis-à-vis de ce que, pour simplifier, j’appellerai mon œuvre, un certain détachement, et qu’à supposer qu’elle le mérite, je laisse à d’autres le soin de décider quel sens il convient de lui donner.

No que me diz respeito, esta é a sua última palavra quanto à obra que deixa. Entendo-a como sinal da rara grandeza de alma — síntese de humildade intelectual e de olhar distanciado — que revela Lévi-Strauss enquanto ideal longínquo a alcançar numa época em que «grandeza» e «alma» são noções de pouca monta.

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