Os Livros Ardem Mal

A Sala Magenta

Posted in Autores, Crítica by Manuel Portela on Domingo, 20-07-2008

A advertência com que Mário de Carvalho abre o seu último romance sinaliza a condição paradoxal do próprio romance enquanto género. Constituindo-se como representação ficcionada de um mundo que é co-presente ao acto de escrita, o romance tem de reafirmar, a cada instanciação, e a um mesmo tempo, a sua verosimilhança e a sua ficcionalidade. Lê-se na advertência: «A acção e as figuras deste romance reportam-se a um mundo ficcional de entrada franca, sem chaves ou gazuas. Procurar moldes da vida real para acontecimentos e personagens é ter em má conta a imaginação do autor. Pode ser que ele o mereça, mas não os lesados por equívocos de leitura.» (7)

O que isto quer dizer é que o mundo representado deve ser reconhecível, mas toda a referencialidade não deve ser senão intratextual – própria da escrita enquanto acto de fala que cria um mundo imaginário no acto de o escrever. Procurar os seus referentes no mundo real seria desconhecer a pragmática da comunicação literária e aplicar um código de leitura duplamente inadequado: primeiro, porque a este romance não se aplicaria o modo de leitura dos romances-com-chave, e das suas cifras e alegorias; segundo, porque a possibilidade de fazer existir na linguagem o mundo que representa parece residir integralmente na ficcionalidade enquanto exercício de imaginação.

A advertência não deixa, no entanto, de contemplar a possibilidade de uma leitura factual, e de dar voz ao receio dessa leitura. Marcando a distância entre os dois mundos (o da vida real e o da imaginação do autor), reconhece-se, em simultâneo, a sua proximidade, a quasi-contiguidade. A existir, tal leitura da vida real no mundo ficcional resultaria de uma deficiência nos circuitos de produção e recepção do discurso do romance: ou um equívoco no lado da leitura, ou um défice de imaginação do autor, mas nunca produto da sua intencionalidade. Ler o real na ficção resultaria de um fracasso do acto de escrita ou do acto de leitura. Para que o mundo ficcional possa constituir-se, todo o real deve ter sido transfigurado para além dos défices de escrita e dos equívocos de leitura.

Procurar referentes extratextuais para acontecimentos e figuras seria ou sair fora do pacto de leitura da ficção, ou um efeito secundário de um mau exercício da função autoral, como se a escrita só fosse possível a partir de uma contiguidade indicial com acontecimentos e figuras da vida real. Esta indicialidade, que uma chave pudesse vir descodificar, seria ainda uma marca do défice de imaginação, de uma entrada estreita à mercê de uma gazua. Ao mesmo tempo, o desejo de proximidade entre real e ficção constitui o paradoxo do romance, já que este quer representar uma experiência do mundo que é contemporânea e co-extensiva com o acto de escrevê-la.

A condição ficcionada de uma ficção impede-a de moldar-se no real, mas a imaginação tem, ainda assim, de moldar como factual a ficcionalidade que inventa, através de um código narrativo e estilístico de verosimilhança. A verdade da verosimilhança romanesca traz consigo a factualização da ficção, isto é, a representação dos acontecimentos e das figuras de acordo com um código realista de representação. Este código implica uma coerência entre os mundos possíveis auto-referenciais da ficção e os mundos actuais, hetero-referenciais e exteriores à linguagem. A coerência que produz o efeito de real na linguagem faz com que um facto ficcionado partilhe, nos modos de representação e nas condições de verdade, de propriedades similares a um facto real.

A mestria na arte narrativa consiste, de certo modo, na capacidade de estruturar a realidade da ficção num mundo próprio, auto-suficiente na representação de si mesmo, mas suficientemente aberto para que a leitura nele experimente uma possibilidade de mundo. Este mundo próprio surge como efeito da escrita – quer dizer, como emanação de uma organização de signos particular que nos dá a personagem, o espaço, o tempo e a acção. Esse poder fundamental da linguagem – o poder de fazer coisas com palavras – é o que une o mundo interno e o mundo externo à ficção.

A possibilidade da proximidade entre vida real e mundo ficcional é, talvez, a essência do romance moderno como modo de representação do mundo. Uma proximidade que se experimenta, acima de tudo, através da experiência da consciência individual que os dispositivos narrativos e descritivos simulam. E essa é também a tecnologia fundamental do romance: a virtualização do pensamento e do ponto de vista, que permite a projecção da consciência do/a leitor/a, durante a experiência da leitura, na consciência da personagem como efeito de um uso particular da linguagem. Através da leitura, a consciência individual participa nesse fluxo linguístico do mundo.

Capítulo I
Dantes, tudo era um peso ancestral de quietação e vagar pelas matas de sobreiral e pinho em redor das águas represadas a que chamam Lagoa Moura, havendo perto umas ruínas que a memória popular não assinala além dos mouros. Então, carregavam-se de silêncio as formas, pasmavam lassos os ramos, pendiam restos de carumas, tombavam as pinhas de velhas, empastavam-se as folhas mortas, deixavam-se as portadas entreabertas. Em chegando a noite, com o rarear dos pássaros, alteavam-se as sombras, delineavam-se os contornos, adensava-se o espaço, vibrava subtilmente o ar e milhentos pequenos rumores emergiam do solo num restolhar de sobrevivência. Na dobra do século, as brisas, mais rijas de ano para ano, entraram a balancear as copas, a revolver os gravetos, a frisar as águas, a desinquietar o silêncio e a fazer a demonstração prática e local de que o clima desvairava. (11)

A Sala Magenta, quase inteiramente contada a partir do ponto de vista de Gustavo Miguel Dias, é uma obra em que a maravilhosa máquina da ficção trabalha quase sem se dar por ela, com máxima precisão e máxima capacidade de revelação do mundo. Quase sem recorrer à ironia ou à metaficção, características de outras obras de Mário de Carvalho, A Sala Magenta constrói-nos um mundo inteiramente filtrado pelos pensamentos e recordações de Gustavo, no qual as palavras parecem desvanecer-se no retrato social e psicológico que nos dão. Mas essa janela realista não deixa, no entanto, de assinalar o seu enquadramento particular através da omnipresença do ponto de vista de Gustavo, que nos surge, por dentro e por fora, como a encarnação da vida enquanto acto falhado.

É no não-dito desse falhanço humano, daquilo que não chega a tomar forma na consciência senão como uma ausência de si em si, na banalidade anódina de um quotidiano sem estória, onde o amor parece impedido de conhecer-se e a dor não se chega a articular, que as vidas dos irmãos Marta e Gustavo decorrem. Na obsessiva recordação da sala magenta de Maria Alfreda, agora morta, e na incapacidade de esquecimento que alimenta essa memória, Gustavo confronta em si aquele impedimento e aquela inarticulação, contrapondo-os à normalidade da dor muda da irmã:

Aí estava a mana, com uma normal e tranquila vida infeliz, a alma liberta, não de recordações amargas, pois basta ter idade para acumular sofrimento, já diria alguém, mas daquela adelgaçada dor que não cede, que talha perpetuamente uma inconclusão, que ressoa, ininterrupta, com uma dolência magoada, às vezes quase inaudível, outras atroadora e tirana.

Marta sofreu no tempo próprio, decorosamente, dentro dos limites, sem exageros nem quebras de compostura. Ninguém a poderia acusar de uma falha, de um excesso, e esta própria evidência, a testemunhar por oposição o que Gustavo não era, causava ao irmão alguma incomodidade e urdia, até, um fiozinho de despeito.

Quando o marido a abandonou de vez, o esforço que Marta fizera para que nada se notasse, o desespero refreado, as mãos a tremer em hesitações ausentes, o sorriso apertado, sinal de que estava a chorar para dentro, exprimiam certamente um choque, uma humilhação, mas de outra natureza. Não era esta lenta moinha, a pesar nos dias e nas noites, a inquinar o repouso e a distracção, a exigir sempre um espaço e a impor insistentemente uma comparência. (47-48)

E é pela linguagem sem pathos de um realismo social, preciso na descrição da quotidianidade dos gestos e das palavras, que o esplendor do falhanço humano toma forma no ritmo sincopado das frases escandidas por vírgulas. Esta justaposição, sem sobressaltos, de descritores e qualificativos, como que colados à superfície do mundo, são uma imagem sintáctica da banalidade comum de tudo. A descrição do voo de um saco de plástico, observado por Gustavo, materializa a aleatoriedade dos destinos e dos encontros humanos, numa narrativa sem clímaxes e quase sem acontecimentos:

Capítulo XII
Arrebatado, um saco de plástico saltou nos céus, a boa altura, muito acima das copas dos pinhais. Oscilou, valsou, pairou, lento, como se fosse para ir ficando, suspenso de nada. E espreguiçava-se, e encolhia-se e expandia-se, revirava-se, gozava a vista e o Sol. Agora drapejava – era bandeira, agora planava – era milhano, agora enfunava-se – era balão.

Estava nisto e estava a convencer-se de que as letras verdes e o símbolo amarelo – Pingo Doce – pertenciam por direito próprio àquelas zonas alcandoradas, de aragens mais quentes. Veio uma guinada, deitou-lhe a garra, amarfanhou-o e rebaixou-o uns metros. Outra o resgatava, amparava e desdobrava, impante e triunfal, com sonoridades secas. À traição, atirou com ele para longe, uma, outra e outra vez, apesar de resistir com os bufos sacudidos de um polvo. Vai abaixo! Vai acima!

Gustavo, muito terreal, numa espreguiçadeira, a olhar para aquilo, quais leituras, qual guião? Dois livros estavam para ali, tombados, a fraternizar com as bichezas da erva, enquanto ele seguia com miúda atenção os arranques do plástico. Aguenta-se? Não se aguenta? Sobe? Desce? Cai?

Quem sabe se a deambulação dum saco de plástico pelos ares não poderia ocasionar um incêndio em Ulam-Bator? (157-158)

Na transparência da superfície opaca da existência, nem o seu não-sentido chega a ser sentido, tão incausado e inconsequente um como o outro. A Sala Magenta dá-nos o mundo como desacontecimento e desintensificação, na sucessão aleatória de momentos de vidas – desejo sexual, ambição artística, vida familiar – sem nenhum destino particular, de actos inconclusos e arbitrários, de que o suicídio falhado de Gustavo, num final sem final, é apenas mais um momento narrativo ao sabor do vento. E dos moldes próprios da ficção, que cria com a escrita o mundo que nos revela.

Manuel Portela

Mário de Carvalho (2008), A Sala Magenta, Lisboa: Editorial Caminho [ISBN 978-972-21-1965-8]

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