O Maio de 68 de A. J. Saraiva, 38 anos depois (I)

Quando, há 10 anos, escrevi, para uma evocação colectiva dos 30 anos de Maio de 68 no Ciberkiosk, um ensaio sobre Maio e a Crise da Civilização Burguesa, de António José Saraiva – o ensaio intitulou-se «Um Mar sem Margens. Paris, em Maio de 1968, no Olhar de João Cândido e nas Palavras de António José Saraiva», e foi depois recolhido no nº 2 de Zentralpark -, comecei o texto notando a estranheza de o livro de Saraiva ser, de entre todos os do seu vasto corpus, aquele que nunca conhecera reedição, após as duas primeiras de 1970, sucessivas e sem dúvida justificadas pelo escândalo provocado pela edição do volume. Significativamente, o livro viria a ser apenas reeditado em 2005, ou seja, 35 anos depois.
Há 10 anos, as referências ao livro de Saraiva na imprensa portuguesa e nos textos evocativos do evento foram ainda residuais e remetidas quase sempre para o domínio do arqueológico: teria havido uma polémica, sobretudo nas páginas de O Tempo e o Modo, entre os maoístas que então por lá abundavam e o autor, que aqueles apodaram de tudo e mais alguma coisa. 10 anos depois, a diferença da actual evocação do Maio entre nós passou muito nitidamente pelo livro de Saraiva. E porquê? Basicamente, por duas razões: 1) Pelo volume de remissões para o livro, como sendo o livro português sobre o evento (de súbito, toda a gente reconhece o valor de referência da obra e toda a gente sugere a sua leitura); 2) Porque Pacheco Pereira (PP) contribuiu para esse fenómeno, o que, no seu caso, como se pode ler por exemplo aqui, suscitou o clássico debate sobre o valor a atribuir a incandescentes afirmações do passado juvenil. De facto, no caso de PP a revalorização do livro implica uma palinódia pessoal, já que na sua contribuição para o volume colectivo editado então por Zeferino Coelho sobre o livro de Saraiva, PP rematava dizendo que se tratava de «mais um livro para ler atentamente e queimar». Não é que Sottomayor Cardia ou Sebastião Lima Rego dissessem coisas muito diferentes – mas não usavam o fatídico verbo «queimar» aplicado a livros, o que no Ocidente pós-nazi se tornou imediatamente suspeito, tão suspeito que nos bloqueia a hipótese de haver de facto muitos e muitos livros queimáveis. O problema, contudo, é que não nos cabe decidir disso, pelo que a única forma decente de «queimar» um livro é esperar que os vindouros o não leiam; mas para que isso possa ocorrer, é necessário que eles possam vir a decidir, razão pela qual necessitamos de respeitar o princípio ético de preservar todos os livros publicados. Pacheco, tipicamente, decidia – e decide agora que decidiu mal. Do meu ponto de vista, a questão acaba aqui, em sede ético-moral.
Mas não, contudo, em sede política, que é onde o livro de Saraiva nos continua a desafiar. Porque este consenso sobre o livro de Saraiva é não apenas frágil mas falso, pois o que se tem recuperado é, em menor grau, a reportagem daquele mês, e, sobretudo, a crítica, pela esquerda – mas não pela extrema-esquerda, que não era a de Saraiva, e sim pela tradição libertária que marcará o autor na sua fase tardia –, da perspectiva com que os Partidos Comunistas enfrentaram e, em boa medida, atraiçoaram, a dinâmica do movimento estudantil. Tem-se referido bem menos a crítica radical de Saraiva ao capitalismo e, mais do que isso, à Razão instrumental, que para Saraiva definia capitalismo e comunismo juntamente (posição que à época justificava reacções como a de Pacheco Pereira, nisso emblemáticas de toda uma geração) e, antes disso, todo o projecto da modernidade, que Saraiva preferia qualificar como «burguesa»: dissociação entre trabalho e capital, triunfo do espírito de «mensuração» e «contabilização», perda da relação não-instrumental com a Natureza e com o Outro. O marxismo, para Saraiva, seria ainda parte deste devir e, em rigor, a ele só se oporiam duas alternativas: (i) a do cristianismo, que «nas entranhas do seu espírito, tal como o definiram Cristo e S. Paulo, é incompatível com a mentalidade burguesa, porque contém uma semente de desmesura mística inconciliável com a contabilização da vida: uma máxima evangélica diz que quem quer poupar a vida perde-a» (cito da 1ª edição, p. 19); (ii) a da «antiquíssima cultura camponesa»: «A civilização camponesa é actualmente o único foco de resistência ao aburguesamento geral do mundo» (p. 35).
Osvaldo Manuel Silvestre



